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“O yoga em Portugal”: Laboratório de Investigação do Mestrado em Ciência das Religiões

O yoga em Portugal”: Laboratório de Investigação do Mestrado em Ciência das Religiões

 

A próxima sessão do Laboratório de Investigação do Mestrado em Ciência das Religiões (“Religiões & Espiritualidades”) decorrerá no dia 11 de Dezembro (terça-feira), das 12H30 às 13H15, no CIPES, Sala C.1.38.

aonde o Dr. Paulo Hayes apresentará parte da sua investigação de mestrado através da palestra “O yoga em Portugal”, seguida de debate.

 

Trata-se dum espaço de informalidade, composto por um primeiro tempo em que um orador fará a exposição de temática ligada a uma investigação em curso, durante cerca de 20 minutos e um segundo período, de tempo idêntico composto por diálogo e intercâmbio de experiências com uma audiência interessada, através de achegas, comentários e perguntas.

Pretende-se que este espaço seja dinâmico e cumpra funções de formação, debate, reflexão crítica e partilha de saberes e experiências para investigadores. Convida-se à participação dos alunos de Ciência das Religiões (actuais e antigos).

 

Lisboa, 7 de Dezembro de 2018

 

O Director do Mestrado,

José Brissos-Lino

Artigo de Opinião: Diz a História que os cristãos odeiam os judeus. Será?

Artigo de Opinião:Diz a História que os cristãos odeiam os judeus. Será?

D.R.

A sina dos judeus é serem expulsos de todo o lado. Povo escolhido ou não, o certo é que, sem culpa, acabam quase sempre por se tornar vítimas do próprio sucesso. Veja-se quantos vencedores do Prémio Nobel são de origem judaica

Há oitenta anos ocorreu a chamada “noite de cristal”, o início do horror nazi para as famílias judaicas de Berlim. Mas a verdade é que na base ideológica de tal ignomínia está o pensamento deformado de alguns teólogos cristãos a quem Hitler terá ido beber a inspiração para o seu maior crime contra a humanidade, de Justino a Agostinho, passando por Hipólito, Orígenes e Crisóstomo. Na sua “Cidade de Deus” Agostinho afirma que “os judeus carregam eternamente a culpa pela morte de Jesus.” Assim mesmo, sem perdão.

Durante a Primeira Cruzada (1095), na Idade Média, estima-se que cerca de um quarto a um terço da totalidade da população judaica da Alemanha e Norte de França foi assassinada. Os 969 judeus que se trancaram na principal sinagoga de Jerusalém para fugir dos cavaleiros cruzados foram consumidos pelo fogo. Bodes expiatórios de desastres naturais como furacões, terramotos e pestes, era frequente condená-los à morte. Em três cidades da Alemanha (Erfurt, Mainz e Breslau), mais de 10 mil foram executados por essa razão. Em 1389, três mil judeus foram massacrados porque um sacerdote que carregava a hóstia foi acidentalmente salpicado de areia por algumas crianças judias que brincavam. A Inquisição matou largos milhares de judeus. Só em Espanha foram queimados 30 mil marranos (judeus que eram obrigados a encobrir sua identidade religiosa). Bem diz uma velha máxima rabínica: “Todos os dias, a nossa vida recomeça de novo.”

Também o pai do protestantismo, o frade agostinho Martinho Lutero, dava largas ao seu profundo anti-semitismo na obra “Sobre os Judeus e Suas Mentiras” (1542), reconhecendo ao poder secular o direito de os perseguir e até matar, queimar-lhes as sinagogas e as casas, roubar-lhes o Talmude e os livros de orações, proibi-los de ensinar, sob ameaça de morte em caso de desobediência, tirar-lhes os passaportes e proibi-los de viajar ou de fazer negócios obrigando-os a trabalhos forçados. E acrescenta: “Deveríamos expulsar os preguiçosos velhacos para fora do nosso sistema. (…) Caros príncipes e nobres que têm judeus nos seus domínios (…), sejamos libertos desta insuportável carga diabólica – os judeus.”

A leste a situação não foi diferente. Em apenas dez anos (1648-1658) a Polónia assassinou entre 100 mil e 500 mil judeus, e no tempo dos czares Alexandre III e Nicolau II, houve vários pogroms (massacres organizados de judeus) na Rússia. Portanto, a postura era idêntica a ocidente como a oriente, entre católicos, protestantes e ortodoxos. Pode-se dizer então que as raízes desta barbaridade estão numa péssima teologia, e na inveja social.

Mas porque razão as igrejas alimentaram o anti-semitismo ao longo dos séculos, cometendo atrocidades inomináveis contra os judeus, em nome de Cristo? A ideia de condenar toda uma etnia pelo crime da crucificação de Jesus de Nazaré fez escola mas choca de frente contra o que o próprio fundador do cristianismo preconizou, quer quando colocou a responsabilidade pelo futuro individual nas escolhas pessoais do próprio indivíduo, no Antigo Israel, mas também pelos inúmeros exemplos que deu ao lidar com gentios, concedendo-lhes a graça da cura e da salvação, apesar de não pertencerem ao povo da Promessa. Qualquer pessoa que conheça minimamente o Novo Testamento sabe isso. Talvez o problema seja o da velha necessidade cultural de definir um inimigo, alguém a quem culpar pelos males do mundo e pelos nossos próprios fracassos.

Na prática creio que se trata duma má catequese, no sentido de vender uma ilusão em vez de contar a verdade. É que a intervenção dos romanos, de Pilatos ou dos judeus no processo de execução de Jesus Cristo é apenas circunstancial. O evangelista Mateus explica-o de modo claro quando diz que ele veio (encarnou) “para dar a sua vida em resgate de muitos” (20:28). Como Redentor, Jesus não morreu por azar, pela conjugação de circunstâncias ou por outra fatalidade, mas com o propósito de se tornar Agnus Dei (Cordeiro de Deus).

De acordo com um estudo internacional recentemente realizado pela CNN, os estereótipos anti-semitas continuam vivos na Europa, existindo um grande sentimento de antipatia pela comunidade judaica, e uma em cada vinte pessoas nunca ouviu falar do Holocausto. Simplesmente assustador. Como reza uma frase judaica: “O preconceito é uma doença do cérebro.”

Veja mais: http://visao.sapo.pt/opiniao/2018-12-04-Diz-a-Historia-que-os-cristaos-odeiam-os-judeus.-Sera-

Artigo Opinião: “Casar à maluca” por José Brissos-Lino

Artigo Opinião: “Casar à maluca” por José Brissos-Lino

Só quem anda muito distraído na vida é que estranha os programas de televisão que promovem casamentos cegos entre desconhecidos, a ver o que a coisa dá. E entretanto vão-se conquistando audiências

É sabido que os casamentos por amor são coisa de ontem, apenas, em termos históricos. Ao longo dos séculos os matrimónios sempre foram celebrados em nome de interesses sociais, políticos, diplomáticos e afins. O teatro e a ópera trouxeram à luz verdadeiras obras-primas de recorte dramático que espelhavam tal realidade. Que o diga Shakespeare com Romeu e Julieta, Verdi com a Aída, ou a mais arrebatadora história de amor lusitana, D. Pedro e Inês de Castro. O casamento romântico, o direito de escolher parceiro por amor é uma prática normalizada apenas nas últimas gerações.

De qualquer modo, a economia do acto matrimonial – que não se esgota no serviço religioso ou civil em si, e se estende desde o noivado à lua-de-mel, passando pela despedida de solteiro – foi sempre considerado no mundo ocidental como um rito de passagem socialmente estruturante e que deve envolver ambas as famílias e ser alargada aos amigos e colegas de trabalho. Nas sociedades mais tradicionais as bodas prolongam-se durante vários dias, por vezes uma semana inteira, e constituem um acontecimento social da maior relevância. A solenidade do serviço religioso implica um compromisso de vida (“até que a morte nos separe”) perante a comunidade e perante Deus. Pagavam-se dotes, isto é, valorizava-se a “perda” de um membro de uma família, que passava assim a enriquecer uma outra, pela pertença por via do casamento.

Mas no mundo ocidental os padrões de comportamento mudaram muito, em especial ao longo da segunda metade do século XX, porque a sociedade mudou, os papéis sociais masculino e feminino sofreram uma alteração radical, e até o serviço religioso faz-se quase só para a fotografia porque Deus se tornou descartável, face ao secularismo crescente. Como dizia Bauman as relações tornaram-se líquidas e por isso corremos o risco de estar a criar uma geração de idosos solitários, cada um a viver no seu canto. Alguém bastante idoso disse que, no seu tempo, quando um utensílio se estragava consertava-se, mas agora toda a gente o deita fora e compra um novo. O mesmo acontece com as relações, que não resistem a um capricho ou egoísmo pessoal sem pronta desistência. Qualquer dia os casais com quarenta ou cinquenta anos de casamento e vida em comum vão ter direito a estátua ou museu. Para eles a troca das alianças dava corpo e sentido ao seu símbolo intrínseco, a eternidade, representada pelo facto do anel não ter princípio nem fim.

Hoje a conjugalidade está transformada numa espécie de jogo de casino (“vamos casar para ver o que isto dá!”). Há casos de pais que se empenharam para pagar uma boda principesca – por pura vaidade ou afirmação social – e semanas ou meses depois, ainda antes de a acabarem de pagar, os noivos já estão separados. Este experimentalismo matrimonial revela-se nos casamentos pela internet, através de agências de casamentos que tentam conjugar supostas compatibilidades, como se as pessoas fossem peças de lego, e agora também por meio de programas de televisão do tipo casados à maluca, em que os noivos cometem a loucura de só se conhecerem no momento do acto civil de matrimónio.

Duma forma ou de outra as religiões procuraram estabelecer rituais de união com dois objectivos. Por um lado, que toda a comunidade soubesse que aquele homem e aquela mulher passavam a pertencer um ao outro, e comprometiam-se com uma vida em comum de respeito, mútua fidelidade e empenhados na propagação da espécie. Por outro lado, ambos firmavam tal compromisso perante a divindade, na presença dos seus representantes e de testemunhas, requerendo a bênção para o novo lar. Mas esta dupla responsabilidade foi-se perdendo ao longo dos tempos.

A verdade é que as mulheres ganharam autonomia durante a guerra. Foram para as fábricas produzir fardamento, armamento, munições e rações de combate, e no pós-guerra não quiseram voltar a ficar acantonadas na cozinha e a mudar fraldas. Fizeram elas muito bem. Ganharam autonomia, auto-estima, independência financeira e a pílula permitiu-lhes controlar as gravidezes e evitar encher-se de filhos sem querer, como até aí. Invadiram as universidades, as coutadas masculinas das profissões, da vida pública e foram conquistando igualdade de direitos. O marido perdeu a posição quase divina na família, de todo-poderoso e afirmou-se o diálogo, a partilha e a reformulação dos papéis sociais de cada um.

Escolher parceiro ou parceira para a vida por computador dificilmente funciona. Ao contrário do que pensava Sócrates (“o ideal no casamento é que a mulher seja cega e o homem surdo”) é preciso amor, paixão e uma constante atitude de concertação, centrando-se cada um não em si mesmo mas no outro, em nome dos dois. É o preço a pagar pelo sucesso na relação. Digo eu, que sou casado vai para 45 anos. Com a mesma mulher.

Veja mais: http://visao.sapo.pt/opiniao/2018-11-27-Casar-a-maluca

“PORTUGAL EM RELATÓRIO DA IHEU” Alexandre Honrado

PORTUGAL EM RELATÓRIO DA IHEU

 

A IHEU, é a sigla da International Humanist and Ethical Union, e representa o esforço conjunto de mais de 120 organizações — de mais de 40 países — humanistas, ateístas, racionalistas, laicas e de apoio ao livre pensamento. As suas missões são “representar e apoiar o movimento humanista global, e auxiliar na construção de um mundo no qual os direitos humanos sejam respeitados e todas as pessoas vivam dignamente”.

A IHEU disponibilizou há dias um Relatório sobre Liberdade de Pensamento que foca o caso português. Neste relatório podemos encontrar a descrição sumária e objetiva do nosso País, uma república constitucional com traços de liberdade bem definidos. O relatório inventaria o papel da Constituição e do Governo português, pormenores sobre educação e direitos das crianças, da família, comunidade, sociedade, religiões e tribunais. Destaca a liberdade de expressão e a defesa dos valores humanistas do País.

No campo religioso, enfatiza a Lei da Liberdade Religiosa, bem como a relação específica estabelecida pós-2004 com a Santa Sé e a Igreja Católica Romana.

O relatório refere que a Comissão de Liberdade Religiosa, em Portugal, tem representantes de várias pequenas comunidades religiosas, embora não tenha representantes de organizações humanistas ou seculares.

De forma conclusiva, destaca como não há grandes restrições às liberdades sociais pessoais e sublinha como Portugal legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2010 e estendeu os direitos de adoção para o casamento entre pessoas do mesmo sexo em 2010. De igual modo, regista como, em 2007, Portugal realizou um referendo para remover o que havia sido uma das leis de aborto mais restritivas da Europa. A maioria dos eleitores foi a favor da legalização do aborto durante as primeiras 10 semanas de gravidez.

O relatório refere a Liberdade de expressão, defesa dos valores humanistas e aquilo que intitulo a Lei de Blasfémia.

A Constituição portuguesa garante a liberdade de expressão, liberdade de informação e liberdade de imprensa.

Diz o relatório: “Uma lei de quase ‘blasfêmia’ criminaliza ‘ofender uma pessoa em virtude de sua crença religiosa’. O artigo 251 do Código Penal define “Insulto motivado por crença religiosa”:

“Quem ofender publicamente outra pessoa ou escarnecer dessa pessoa por causa de suas crenças, de modo a perturbar a paz pública, será punido com pena de prisão de até um ano ou com multa de até 120 dias”. O artigo 252 criminaliza ainda mais “impedimento, perturbação ou insulto a um ato de adoração”: “Quem julgar publicamente um ato religioso de culto ou ridicularizar tal ato será punido com pena de prisão de até um ano ou multa de até 120 dias”.

O relatório da IHEU dá também o exemplo de alguns casos de justiça que envolveram jornalistas e figuras nacionais, no campo da difamação, sublinhando que embora os processos sejam incomuns, Portugal continua a ser um dos poucos países da Europa onde a difamação ainda é uma ofensa criminal.

 

Alexandre Honrado

NEPRE organiza conferência sobre Psicologia da Religião e Espiritualidade

NEPRE organiza conferência sobre Psicologia da Religião e Espiritualidade

NEPRE

NEPRE – Núcleo de Estudos em Psicologia da Religião e Espiritualidade procura investigar as diferentes vivências religiosas e seus impactos no indivíduo e na pessoa em relação, em especial face ao actual quadro de globalização. Os efeitos mentais e emocionais das crenças e vivências religiosas e espirituais no indivíduo, na família, nos grupos sociais e na sociedade, desafiam os investigadores a uma leitura atenta dos fenómenos religiosos e seus efeitos psíquicos e emocionais nos indivíduos.

Assim, em 18 e 19 de Janeiro de 2019 iremos promover na cidade de Lisboa a I Conferência de Psicologia da Religião e Espiritualidade, dedicada à temática “Religião, espiritualidade e qualidade de vida”, que se destina a incentivar a investigação científica e sua partilha de resultados nesta área. Deste modo, a conferência pretende provocar diálogos, confrontos e interculturalidades entre os campos científicos da teologia, da psicologia e da ciência das religiões.

Convidam-se os interessados a  assistir e a apresentar comunicações. Poderão inscrever-se no site da conferência.

“Desfazer Mundos” por Paulo Mendes Pinto

Desfazer Mundos

Novo relatório sobre a Liberdade Religiosa no mundo, publicado pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, apresentado hoje em várias capitais da Europa e EUA. Paulo Mendes Pinto, especialista em Ciências das Religiões, analisa-o no Ponto SJ.

Somos hoje uma sociedade mediatizada, dependente dos ritmos ditados pelas audiências. O saber o que se passa e o conhecer as notícias do mundo vem hoje de uma mediação que se rege por valores que pouco devem ao humanismo. Se, por exemplo, um atentado terrorista numa cidade do ocidente europeu pode ocupar várias aberturas de telejornais, uma barbárie cometida contra uma vila inteira num canto recôndito do mundo, pode nem merecer um rodapé depois das notícias desportivas.

E esta relativização do drama, da usurpação de direitos, de destruição de seres é tão mais dramática quanto mais alto afirmamos os nossos valores humanistas como universais, desejosamente comuns a todas as sociedades humanas. A banalização do mal, nas palavras de Hannah Arendt, é tão mais grave quanto um dos instrumentos dessa postura reside na indiferença tão realçada pelo Papa Francisco, seja a propósito da pobreza ou dos refugiados e das mortes no mediterrâneo.

Se, por exemplo, um atentado terrorista numa cidade do ocidente europeu pode ocupar várias aberturas de telejornais, uma barbárie cometida contra uma vila inteira num canto recôndito do mundo, pode nem merecer um rodapé depois das notícias desportivas.

Paulo Mendes Pinto
Felizmente, no correr dos ditos ritmos mediáticos, há ilhas de tomadas de consciência, gestos e momentos que nos obrigam a sair da letargia, do imobilismo e da apatia. O Relatório Liberdade Religiosa no Mundo da Ajuda à Igreja que Sofre, na sua 14ª edição, e produzido de dois em dois anos, é um dos mais avassaladores instrumentos para uma tomada de consciência.

Publicado em português, inglês, holandês, francês, alemão, italiano, e espanhol, o documento deste ano é agora apresentado e, mais uma vez, é uma radiografia de rigor e exactidão que não nos permite relativizações na leitura das categorias, na leitura dos casos.

No Prefácio a esta edição, o Cardeal Dieudonné Nzapalainga, Arcebispo de Bangui (República Centro-Africana), aponta alguns linhas de reflexão. Num quadro político e social altamente complexo, onde a morte e a desagregação da sociedade parece poder irromper a qualquer momento, Dieudonné Nzapalainga alerta para a facilidade com que a religião pode ser usada, instrumentalizada por radicalismos, sejam eles de origem religiosa ou política: “Esta instrumentalização da religião é muito eficaz, porque os sentimentos religiosos apelam ao que há de mais profundo em nós e, sem dúvida, a religião tem a capacidade de despertar emoções apaixonadas.”

Estamos a arriscar, estamos a expor-nos a grandes críticas. Contudo, esta busca permanente do diálogo inter-religioso e da reconciliação é inquestionavelmente a última defesa contra a implosão do nosso país.

Cardeal Dieudonné Nzapalainga, Arcebispo de Bangui, no Prefácio do Relatório

A resposta, para este clérigo que está no terreno, é o diálogo: “Estamos a arriscar, estamos a expor-nos a grandes críticas. Contudo, esta busca permanente do diálogo inter-religioso e da reconciliação é inquestionavelmente a última defesa contra a implosão do nosso país.” A reconciliação é o alvo a atingir com o diálogo, sublinhamos.

E esta porta de esperança lançada pelo cardeal Dieudonné Nzapalainga é tão importante quanto, neste relatório, é dado destaque a situações de apaziguamento, de reconstrução. Não só na República Centro-Africana, mas também na Síria e no Iraque onde o Daesh quase perdeu a totalidade dos territórios, permitindo um regresso de cristãos e de yazidis, recriando alguma da diversidade religiosa do Médio Oriente.

A cor mais transversal a este relatório não é alegre ou sorridente. Para além dos números e dos índices, as linhas de força de violência sobre a Liberdade Religiosa são cada vez mais fortes, sólidas e sistemáticas.

Paulo Mendes Pinto

Mas a cor mais transversal a este relatório não é alegre ou sorridente. Para além dos números e dos índices, as linhas de força de violência sobre a Liberdade Religiosa são cada vez mais fortes, sólidas e sistemáticas. Como as conclusões do documento apontam, no período em análise, a situação dos grupos religiosos minoritários deteriorou-se em 18 dos 38 países monitorizados (países onde, à partida, há violações significativas da liberdade religiosa). Notou-se um declínio especialmente acentuado na China e na Índia. Em muitos dos outros países – incluindo Coreia do Norte, Arábia Saudita, Iémen e Eritreia – a situação já era tão má que dificilmente poderia piorar.

Se comparado com o relatório anterior, há mais quatro países com violações significativas da liberdade religiosa, comprovando-se, até, um aumento das violações da liberdade religiosa por parte de actores estatais. A Rússia e a já referida China são dois dos casos paradigmáticos, a que este ano se juntou, numa situação de drama incomensurável, o Myanmar e a situação dos rohingya.

Esta edição do relatório levanta uma nova dimensão de violência sobre a Liberdade Religiosa: o nacionalismo agressivo, quase sempre hostil às minorias religiosas, e não só.

Paulo Mendes Pinto

Por fim, esta edição do relatório levanta uma nova dimensão de violência sobre a Liberdade Religiosa: o nacionalismo agressivo, quase sempre hostil às minorias religiosas, e não só. Numa modalidade significativamente nova, esta realidade apresenta-se com tendência e campo para grande crescimento nos próximos anos, alimentada pelos regimes e governos nacionalistas que grassam um pouco por todo o globo. Talvez a dimensão mais perigosa desta modalidade seja, não a própria violência e si, mas a formatação que pode criar nos cidadãos, levando-os a criar um novo-normal, uma nova visão da diferença onde a discriminação seja vista como normal. Em sociedades onde a discriminação seja normal, a defesa das liberdades das minorias surge como extemporânea, desnecessária ou, mesmo, mecânica de defesa de criminosos.

Merecem ainda destaque, como grandes linhas de violência, algumas situações que deveriam merecer muito mais atenção: no mundo islâmico, o quase esquecimento do crescimento do Daesh fora da Síria e do Iraque (África, Médio Oriente e Ásia), assim como a cada vez mais sangrentas lutas entre sunitas e xiitas. De igual modo, o olhar deveria ser lançado com mais acuidade para o sub-continente indiano, onde a violência sobre as minorias muçulmanas por parte de radicais hindus faz cada vez mais mortes.

Merecem ainda destaque, como grandes linhas de violência, algumas situações que deveriam merecer muito mais atenção: no mundo islâmico, o quase esquecimento do crescimento do Daesh fora da Síria e do Iraque (África, Médio Oriente e Ásia), assim como a cada vez mais sangrentas lutas entre sunitas e xiitas.

Paulo Mendes Pinto

Por fim, na Europa, a nossa atenção tem de ser redirecionada, já não apenas para uma quase omnipresença da possibilidade terrorista, mas também para a reacção islamofóbica, com um agravamento das situações de xenofobia na Europa, assim como para um fenómeno complexo, que bebe, quer nos ultranacionalismos em crescimento, quer no radicalismo islâmico: o latente e crescente antissemitismo. De facto, hoje em dia estamos perante uma enorme vaga de migração de judeus europeus para Israel, entre outros destinos, devido ao clima de insegurança provocado pela regularidade das ameaças e dos ataques, seja a pessoas, seja a lugares religiosos (sinagogas ou cemitérios).

Veja mais: https://pontosj.pt/especial/desfazer-mundos/?fbclid=IwAR2bTRab3MhISac7g8spDdqI_vqxyYqDVYtBfjCDS1D1LqtYRY9LRFgMopw

 

OPINIÃO: “Dos perigos dum copo de água” por José Brissos-Lino

OPINIÃO: “Dos perigos dum copo de água” por José Brissos-Lino

Não, este texto não trata da importância da água para a sobrevivência humana, nem dos seus perigos quando salobra ou envenenada ou sequer dum repasto de casamento. É mesmo sobre o fenómeno religioso. Ou de como um simples copo de água pode matar

A estória é simples e passou-se no Punjab, Paquistão. Uma mulher cristã foi condenada à morte por blasfémia. O governador regional Salman Taseer, que apelou ao seu perdão, foi assassinado pelo próprio guarda-costas, o qual, apesar de ter sido executado mais tarde, é considerado herói popular.

O primeiro “crime” de Asia Bibi, de 47 anos, casada e mãe de cinco filhos, foi estar na apanha de fruta com mulheres muçulmanas, e ter usado um copo para beber água de um poço, copo que elas já não puderam utilizar por ter ficado impuro, segundo os preceitos religiosos islâmicos. O segundo “crime” foi ter rejeitado o “conselho” para se converter ao Islão. O terceiro “crime” deve ter sido alguma resposta mais firme perante a insistência. Apesar de ter negado sempre ter blasfemado contra Maomé – o que é crime no país – foi espancada em sua casa, presa e condenada à morte. Embora o juiz lhe tenha oferecido a liberdade em troca da conversão ao Islão, Asia respondeu que preferiria morrer como cristã. Passou oito anos numa cela solitária, onde cozinhava a própria comida para não ser envenenada. Finalmente foi absolvida depois de ter ganho o recurso que apresentou ao Supremo Tribunal, que a declarou “absolvida de todas as acusações”.

Provavelmente foi a pressão internacional – incluindo pronunciamentos dos papas Bento XVI e Francisco – que conduziu a tal desfecho, ainda que tenha provocado a fúria de círculos religiosos que há muito pediam a sua execução e os juízes tenham agora a cabeça a prémio, assim como o advogado, que fugiu do país. Asia Bibi, que ainda há poucas semanas sofreu uma tentativa de assassínio na prisão, foi finalmente libertada mas o governo escondeu-a algures, em espaço militar, para a proteger da sociedade que a pretende linchar. Há notícia de ruas bloqueadas, carros incendiados e pessoas feridas em várias cidades do Paquistão, em especialcristãos arrastados e espancados por extremistas islâmicos que não aceitam uma libertação de Asia Bibi.

As leis rígidas sobre blasfémia no Paquistão têm sido frequentemente usadas como vingança em disputas pessoais, as acusações são baseadas em provas frágeis, e mesmo quando não provadas resultam muitas vezes em violência popular. É uma revisitação do velho tribunal europeu do Santo Ofício.

Não parece mas o mundo já chegou ao século XXI. Quando se fala em relativismo cultural nunca nos podemos esquecer do que é realmente nuclear: a liberdade das pessoas e dos grupos e os direitos humanos. Mas parece que os radicais de qualquer religião não entendem duas ou três coisas básicas. Desde logo que o indivíduo deve ter o direito de professar a religião que entender ou de não professar nenhuma, sem que por isso possa vir a ser perseguido, condenado, incomodado ou sequer marginalizado pela sua opção. Que deve ter o direito de expressar a sua fé e de cultuar em comunidade. Que esses direitos se estendem aos grupos. Que é inadmissível qualquer condicionamento ou coacção de carácter religioso. Que o Estado não deve assumir-se confessional em caso algum, sob pena de fazer trair a justiça e a liberdade. Que a liberdade individual e os direitos humanos estão acima de quaisquer direitos religiosos, culturais, filosóficos ou ideológicos.

Os casamentos forçados, os casamentos de adultos com crianças, o sati indiano (imolação da viúva na pira funerária do marido falecido), a mutilação genital feminina, a prática da violação, a proibição de transfusões de sangue em menores em risco de vida, o sequestro de menores por seitas americanas no mundo rural, o abuso sexual de crianças por sacerdotes, tudo isto e muito mais surgem como aberrações e atentados contra as liberdades individuais e os direitos da pessoa em geral. Não há tradição, religião ou cultura que o justifique nos tempos em que vivemos. Tais práticas, face à lei de qualquer estado de direito, terão que ser consideradas crimes a exigir punição.

Os clássicos sabiam do que falavam. Tales de Mileto dizia que a água é o princípio de todas as coisas e Horácio era de opinião que a água é a coisa mais barata que existe. Já Erasmo de Roterdão afirmou que a água lava todos os males dos mortais. De facto, um simples copo de água pode representar vida e bênção. Diz o Evangelho: “Porquanto, qualquer que vos der a beber um copo de água em meu nome, porque sois discípulos de Cristo, em verdade vos digo que não perderá o seu galardão” (Marcos 9:41). E há também as chamadas tempestades num copo de água, ou o dito cujo em cima da telefonia para a oração de inspiração latino-americana neopentecostal.

Jesus de Nazaré prometeu à samaritana, junto ao poço de Sicar, que rios de água viva brotariam do seu interior. O nosso problema é que andamos a copos de água, em vez de ter a vida renovada por fontes de águas vivas. Até porque há dias em que um simples copo de água pode matar.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2018-11-20-Dos-perigos-dum-copo-de-agua

Lançamento do Livro “Aquele falar estranho: um estudo transdisciplinar de Glossolalia e Pentecostalismo” de José Brissos-Lino

LANÇAMENTO DE LIVRO

Está convidado/a para o lançamento do livro “Aquele falar estranho: um
estudo transdisciplinar de Glossolalia e Pentecostalismo”, de José
Brissos-Lino (Edições Universitárias Lusófonas), que terá lugar na próxima
quinta-feira, dia 22 de Novembro, às 18H00, na Universidade Lusófona
(Campo Grande, nº376) Sala S 0.11.
Apresentará a obra Paulo Mendes Pinto.
Esta apresentação está integrada nas IV Jornadas de Cristianismo
Contemporâneo, dedicadas ao tema “Fundamentalismo Protestante:
processo e transformações”, promovidas pelo Instituto de Cristianismo
Contemporâneo (FCSEA-Área de Ciência das Religiões), e que assinalam
os 140 anos do Credo de Niagara (1878) e os 40 anos da Declaração de
Chicago (1978).
À conferência: “O Fundamentalismo Protestante: 140 anos depois”, por
José Brissos-Lino, seguir-se-á uma mesa redonda com João Pedro Robalo,
José Brissos-Lino, Luís de Matos, Orlando Martins, Paulo Medeiros Silva,
Paulo Mendes Pinto (moderador), Timóteo Cavaco e Vítor Rafael.
A entrada é livre.

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