“Marx, aprendiz de teólogo?”por José Brissos-Lino

Dois séculos depois do nascimento do autor do “Manifesto Comunista” e de “O Capital”, ainda não se sabe porque terá o jovem Marx abandonado a sua fé religiosa

Karl Heinrich Marx – o mesmo que inspirou revoluções que fizeram correr sangue em todo o mundo – começou por ser cristão, na sua juventude, tendo-se submetido ao rito do baptismo protestante e casado numa igreja luterana. O primeiro escrito que se lhe conhece chama-se: “Unidade dos crentes em Cristo segundo Evangelho de S. João 15:1-14: unidade no sentido de necessidade incondicional, influência”.

Nesta sua obra inicial, em jeito de ensaio teológico, Marx escreveu: “A união com Cristo define-se num companheirismo íntimo e vivo com Ele e no facto de o termos sempre diante dos nossos olhos e corações. E, ao mesmo tempo que somos possuídos pelo Seu infinito amor, dirigimos os nossos corações aos nossos irmãos, com quem Ele nos une intimamente e por quem se sacrificou”. O jovem alemão demonstrava assim compreender o conceito de amor fraterno proposto no evangelho: “Portanto, a unidade com Cristo eleva-nos interiormente, conforta-nos nas provações e torna o coração aberto para amar as pessoas, não por causa do nosso orgulho ou sede da fama, mas por causa de Cristo”.

Por essa altura escreveu também um texto intitulado: “Pensamentos de um jovem face à escolha duma profissão” onde afirmava: “A religião ensina-nos o Ideal a Quem todos aspiramos. Ele Se sacrificou por toda a humanidade. Quem ousará negar tal afirmação? Se escolhemos uma profissão à qual podemos dar o nosso melhor pela humanidade, então não devemos hesitar sob o seu peso, porque é um sacrifício por todos”. Dava assim a entender que a teologia lhe interessava na altura. Acresce que o seu diploma do ensino secundário rezava assim, no item “Conhecimento religioso”: “O seu conhecimento de ensinamentos e princípios cristãos é claro e adequadamente fundamentado. Conhece também em profundidade a história da igreja cristã”.

Marx era judeu e descendente de rabis, mas nasceu numa cidade alemã de maioria católica (Trier, na Renânia) onde cresceu em família convertida ao luteranismo. Contudo aconteceu algo que terá escapado aos biógrafos, ainda antes de Moses Gess ter conquistado Marx para a causa socialista, em 1841, pois já então se tinha tornado um ateu radical.

De facto, e ao contrário do que muitos pensam, o ideal socialista em Marx era secundário, perante a ideia dominante de querer destruir as religiões. A ideia de que Marx tenha combatido a religião de forma instrumental, enquanto obstáculo para atingir a implantação do socialismo, parece não corresponder à verdade, já que o objectivo primeiro seria mesmo erradicar a dimensão religiosa da sociedade.

Alguns historiadores acreditam mesmo que a ideologia marxista, antes do carimbo da igualdade tem a marca da liberdade. A célebre frase “a religião é o ópio do povo” não deixa de ter o seu lado de verdade. Muitos regimes no passado utilizaram os sistemas religiosos para adormecerem as populações e as distraírem da sua penosa situação de oprimidos, condicionando possíveis movimentos de revolta. Tal como Nietzsche, que postulou a “morte de Deus”. De facto um certo conceito do Deus medieval morreu aos olhos da sociedade, em particular depois da revolução francesa e com o advento da Modernidade. Entender tais frases como ataques descabelados à religião no geral é não entender que significam, sobretudo, ataques a uma certa ideia de religião e a um determinado conceito do divino.

Alguém realizou o seguinte teste: publicou no seu mural do Facebook diversas frases de Marx, atribuindo-as a João Calvino, Martinho Lutero, Charles Spurgeon, John Stott e Santo Agostinho. A reacção foi muito positiva, com imensos likes e partilhas. Depois publicou também frases destes mesmos autores, mas desta vez atribuindo-as a Marx. Aí começaram a chover críticas, algumas delas muito duras, taxando o filósofo de imbecil para baixo. Alguns dos mesmos que criticaram as frases falsamente atribuídas a Marx, aplaudiram depois frases de sua autoria, falsamente atribuídas a alguns dos grandes vultos cristãos, apenas por puro preconceito.

Mais. Há coisas em Marx que são intemporais. Por exemplo, quando ele diz que “Jesus faz milagres e dá. O homem não faz milagres, e vende.”

Consta que um discípulo de Marx, o capitão Reese, resolveu visitar a casa onde Marx morrera, em Londres, tempos depois do seu falecimento, tendo ainda conseguido chegar à fala com uma antiga criada da família, que lhe terá confidenciado que Marx já próximo da morte teria por hábito orar a Deus no seu quarto. Aliás, este percurso de retorno à fé religiosa perante a iminência da morte é comum a inúmeras figuras históricas.

Um dia Luther King afirmou que “só existe comunismo porque não somos suficientemente cristãos.” Isto é, porque boa parte dos cristãos não vive em consonância com o Evangelho. Talvez seja exagero, mas dá que pensar.

Veja Mais: http://visao.sapo.pt/opiniao/2018-09-20-Marx-aprendiz-de-teologo-

«Diálogos ComSentidos»

Figueira da Foz: «O humano e o divino» na reflexão do projeto «Diálogos ComSentidos»

Figueira da Foz, 14 set 2018 (Ecclesia) – A primeira sessão da iniciativa «Diálogos ComSentidos» realiza-se hoje, a partir das 21h30, no auditório municipal da Figueira da Foz.

Os primeiros oradores do ciclo de diálogos são o diretor do doutoramento de Química na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, João Paiva, e o grande conselheiro da antiga e mística Ordem de RosaCruz, Luís Natal Marques.

O programa enviado à Agência ECCLESIA informa que ‘O humano e o divino’ é o tema central da conversa desta noite que vai ser moderada pelo diretor da Biblioteca da Universidade de Coimbra, José Augusto Bernardes.

Até abril de 2019, o ciclo tem oito sessões e conta com oradores de várias sensibilidades religiosas que vão abordar temas como: “A igualdade de género”; “Morte”; “O mistério e a espiritualidade”; “Meditação”; “Os jovens e a comunicação”; “Sustentabilidade” e “Laicidade”.

O projeto ‘Diálogos ComSentidos’ começou com três jovens, “não vinculados a nenhuma religião”, que pretendiam criar um espaço de reflexão sobre a verdade, disse António Carraco dos Reis, um dos jovens fundadores, no programa ECCLESIA, na RTP 2.

O grupo fundador desta iniciativa convidou, posteriormente, o missionário da Consolata, padre Álvaro Pacheco, a tornar “o sonho uma realidade”.

Com uma experiência de 17 anos na Coreia do Sul, o sacerdote português tem sensibilidade para o diálogo inter-religioso devido a percurso naquele país asiático.

“Ir ao encontro do outro, do conhecer e aprofundar realidades que são comuns”, frisou o padre Álvaro Pacheco.

A próxima sessão dos «Diálogos ComSentidos» realiza-se a 26 de outubro, naquela localidade da Diocese de Coimbra e tem como tema «A igualdade de género».

Veja mais: http://www.agencia.ecclesia.pt/portal/figueira-da-foz-o-humano-e-o-divino-na-reflexao-do-projeto-dialogos-comsentidos/

Sessão de Abertura da Pós-Graduação Liderança Islâmica, no dia 19 de Outubro, 18h30

Estimados Professores e Alunos,
A Área de Ciência das Religiões convida-vos a estarem presentes na Sessão de Abertura da Pós-Graduação Liderança Islâmica, no dia 19 de Outubro pelas 18h30, no Auditório Armando Guebuza, no Edifício da Biblioteca da Universidade Lusófona.
As aulas iniciam dia 20 de Outubro. O Calendário das Aulas será brevemente divulgado e enviado.

Opinião “Para um pós-constantinismo” por Paulo Mendes Pinto

Para um pós-constantinismo

Francisco recebeu uma ajuda tremenda por aqueles que o querem afastar. Esta tensão poderá levar a uma clarificação de opções, aumentando a sua base de apoio.

Previsivelmente, o pontificado de Francisco seria de mudanças ou, pelo menos, de tensões. Seria, obviamente, um período de acentuar das diferenças dentro da Igreja Católica. Mesmo que Francisco não fizesse reformas significativas (como, de facto, as ainda não fez), a sua postura desafiante e incómoda, robustecida pela forma como ele foi percepcionado, levaria a essa situação: a diversidade nesta instituição duplamente milenar seria levada aos limites da fractura.

A dúvida que todos os olhares atentos teriam era sobre o ponto em que se daria essa tensão limite: no universo da gestão do poder, do clericalismo e da simbólica associada à hierarquia? No campo da relação com os poderes políticos e sociais? No campo da reforma da instituição, especialmente nas questões “fracturantes”? Muito havia por onde criar disfunções internas e por onde lançar dinâmicas de mudança.

Habilmente, Francisco foi fazendo o seu trabalho no campo onde formalmente estava liberto, o da informalidade, que é exactamente onde as acções podem ganhar um cunho que, sem serem suportadas pela letra de uma alteração escrita dos códigos ou catecismos, ultrapassa o tempo presente pela natureza do gesto, pelo simbólico. De facto, Francisco, sem fazer alteração alguma teológica que amarre a Igreja Católica a uma nova postura, conseguiu impor a sua interpretação do que é a Igreja Católica através dos pequenos gestos, da adesão dos fiéis e do reconhecimento generalizado.

De um certo desdém e desvalorização que advinha do facto de acharem que o pontificado seria curto e tudo regressaria ao normal, as hostes mais conservadoras foram percepcionando a mudança à medida que o colégio de cardeais eleitores tem sido moldado, consistório após consistório. Com o último consistório, em que o bispo de Leiria-Fátima passou a cardeal, Francisco deu um passo muito grande para moldar o colégio de cardeais eleitores à sua medida.

A tensão em torno da pedofilia e da possibilidade de Francisco ter ocultado alguma coisa surge, possivelmente, como a última oportunidade para os sectores que lhe são contrários tentarem fazer algo antes do colégio de cardeais estar totalmente perdido e maioritariamente ao gosto deste Papa.

É um grito de sufoco o que ouvimos nos dias que correm por parte dos sectores ultraconservadores da Igreja Católica. E chamo-os de ultraconservadores porque esta tensão já obrigou a uma clarificação que é como que um dano colateral com que os detractores de Francisco não contavam. De facto, este ataque obrigou a uma tomada de posição e, seja por adesão clara e honesta, seja por não quererem ficar no lado errado da História, muitos elementos conservadores já se posicionaram do lado de Francisco – conservadores mas não ultraconservadores.

E este é, neste momento, o maior trunfo de Francisco. O extremar de posições leva a um natural “por mim ou contra mim”. E, nessa situação, Francisco recebeu uma ajuda tremenda por aqueles que o querem afastar: se Francisco é, para muitos católicos, invulgar, liberal e progressista, os seus rivais são muito menos desejáveis. Esta tensão poderá levar a uma clarificação de opções, aumentando a base de apoio de Francisco.

Francisco tem hoje a oportunidade de tomar decisões claras e efectivas. Seja na criação de um tribunal religioso que se dedique às questões de pedofilia, seja na continuidade das suas posturas mais abertas e progressistas.

Veja mais: https://www.publico.pt/2018/09/17/mundo/opiniao/para-um-posconstantinismo-1843433