OPINIÃO: “Dos perigos dum copo de água” por José Brissos-Lino

OPINIÃO: “Dos perigos dum copo de água” por José Brissos-Lino

Não, este texto não trata da importância da água para a sobrevivência humana, nem dos seus perigos quando salobra ou envenenada ou sequer dum repasto de casamento. É mesmo sobre o fenómeno religioso. Ou de como um simples copo de água pode matar

A estória é simples e passou-se no Punjab, Paquistão. Uma mulher cristã foi condenada à morte por blasfémia. O governador regional Salman Taseer, que apelou ao seu perdão, foi assassinado pelo próprio guarda-costas, o qual, apesar de ter sido executado mais tarde, é considerado herói popular.

O primeiro “crime” de Asia Bibi, de 47 anos, casada e mãe de cinco filhos, foi estar na apanha de fruta com mulheres muçulmanas, e ter usado um copo para beber água de um poço, copo que elas já não puderam utilizar por ter ficado impuro, segundo os preceitos religiosos islâmicos. O segundo “crime” foi ter rejeitado o “conselho” para se converter ao Islão. O terceiro “crime” deve ter sido alguma resposta mais firme perante a insistência. Apesar de ter negado sempre ter blasfemado contra Maomé – o que é crime no país – foi espancada em sua casa, presa e condenada à morte. Embora o juiz lhe tenha oferecido a liberdade em troca da conversão ao Islão, Asia respondeu que preferiria morrer como cristã. Passou oito anos numa cela solitária, onde cozinhava a própria comida para não ser envenenada. Finalmente foi absolvida depois de ter ganho o recurso que apresentou ao Supremo Tribunal, que a declarou “absolvida de todas as acusações”.

Provavelmente foi a pressão internacional – incluindo pronunciamentos dos papas Bento XVI e Francisco – que conduziu a tal desfecho, ainda que tenha provocado a fúria de círculos religiosos que há muito pediam a sua execução e os juízes tenham agora a cabeça a prémio, assim como o advogado, que fugiu do país. Asia Bibi, que ainda há poucas semanas sofreu uma tentativa de assassínio na prisão, foi finalmente libertada mas o governo escondeu-a algures, em espaço militar, para a proteger da sociedade que a pretende linchar. Há notícia de ruas bloqueadas, carros incendiados e pessoas feridas em várias cidades do Paquistão, em especialcristãos arrastados e espancados por extremistas islâmicos que não aceitam uma libertação de Asia Bibi.

As leis rígidas sobre blasfémia no Paquistão têm sido frequentemente usadas como vingança em disputas pessoais, as acusações são baseadas em provas frágeis, e mesmo quando não provadas resultam muitas vezes em violência popular. É uma revisitação do velho tribunal europeu do Santo Ofício.

Não parece mas o mundo já chegou ao século XXI. Quando se fala em relativismo cultural nunca nos podemos esquecer do que é realmente nuclear: a liberdade das pessoas e dos grupos e os direitos humanos. Mas parece que os radicais de qualquer religião não entendem duas ou três coisas básicas. Desde logo que o indivíduo deve ter o direito de professar a religião que entender ou de não professar nenhuma, sem que por isso possa vir a ser perseguido, condenado, incomodado ou sequer marginalizado pela sua opção. Que deve ter o direito de expressar a sua fé e de cultuar em comunidade. Que esses direitos se estendem aos grupos. Que é inadmissível qualquer condicionamento ou coacção de carácter religioso. Que o Estado não deve assumir-se confessional em caso algum, sob pena de fazer trair a justiça e a liberdade. Que a liberdade individual e os direitos humanos estão acima de quaisquer direitos religiosos, culturais, filosóficos ou ideológicos.

Os casamentos forçados, os casamentos de adultos com crianças, o sati indiano (imolação da viúva na pira funerária do marido falecido), a mutilação genital feminina, a prática da violação, a proibição de transfusões de sangue em menores em risco de vida, o sequestro de menores por seitas americanas no mundo rural, o abuso sexual de crianças por sacerdotes, tudo isto e muito mais surgem como aberrações e atentados contra as liberdades individuais e os direitos da pessoa em geral. Não há tradição, religião ou cultura que o justifique nos tempos em que vivemos. Tais práticas, face à lei de qualquer estado de direito, terão que ser consideradas crimes a exigir punição.

Os clássicos sabiam do que falavam. Tales de Mileto dizia que a água é o princípio de todas as coisas e Horácio era de opinião que a água é a coisa mais barata que existe. Já Erasmo de Roterdão afirmou que a água lava todos os males dos mortais. De facto, um simples copo de água pode representar vida e bênção. Diz o Evangelho: “Porquanto, qualquer que vos der a beber um copo de água em meu nome, porque sois discípulos de Cristo, em verdade vos digo que não perderá o seu galardão” (Marcos 9:41). E há também as chamadas tempestades num copo de água, ou o dito cujo em cima da telefonia para a oração de inspiração latino-americana neopentecostal.

Jesus de Nazaré prometeu à samaritana, junto ao poço de Sicar, que rios de água viva brotariam do seu interior. O nosso problema é que andamos a copos de água, em vez de ter a vida renovada por fontes de águas vivas. Até porque há dias em que um simples copo de água pode matar.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2018-11-20-Dos-perigos-dum-copo-de-agua

Lançamento do Livro “Aquele falar estranho: um estudo transdisciplinar de Glossolalia e Pentecostalismo” de José Brissos-Lino

LANÇAMENTO DE LIVRO

Está convidado/a para o lançamento do livro “Aquele falar estranho: um
estudo transdisciplinar de Glossolalia e Pentecostalismo”, de José
Brissos-Lino (Edições Universitárias Lusófonas), que terá lugar na próxima
quinta-feira, dia 22 de Novembro, às 18H00, na Universidade Lusófona
(Campo Grande, nº376) Sala S 0.11.
Apresentará a obra Paulo Mendes Pinto.
Esta apresentação está integrada nas IV Jornadas de Cristianismo
Contemporâneo, dedicadas ao tema “Fundamentalismo Protestante:
processo e transformações”, promovidas pelo Instituto de Cristianismo
Contemporâneo (FCSEA-Área de Ciência das Religiões), e que assinalam
os 140 anos do Credo de Niagara (1878) e os 40 anos da Declaração de
Chicago (1978).
À conferência: “O Fundamentalismo Protestante: 140 anos depois”, por
José Brissos-Lino, seguir-se-á uma mesa redonda com João Pedro Robalo,
José Brissos-Lino, Luís de Matos, Orlando Martins, Paulo Medeiros Silva,
Paulo Mendes Pinto (moderador), Timóteo Cavaco e Vítor Rafael.
A entrada é livre.

“Quando a tolerância não é tolerável” por José Brissos-Lino

No fundo, a tolerância é um conceito enganador, uma vez que não significa aceitação da diferença, muitas vezes em razão da ignorância e dos medos gerados por ela

Embora o termo “tolerância” esteja nos manuais do politicamente correcto, a verdade é que o seu significado não é o melhor para aplicar ao fenómeno religioso, no sentido da sã convivência entre pessoas de credo diferente.

Com efeito, a palavra vai buscar ao Latim o significado de suportar ou aguentar. Assim, é muito diferente dizer que se tem tolerância à dor ou que se tolera uma religião diferente da nossa. Está presente, na pessoa que tolera algo, um juízo negativo da coisa tolerada, ou porque se considera tratar-se duma ideia falsa, um erro, ou duma atitude incorreta, mesmo algo inconveniente ou perigoso, todavia o tolerante não se opõe abertamente nem age contra a coisa tolerada, não impedindo a sua expressão ou concretização, mesmo que pense que os outros estão errados.

A tolerância é, portanto, diferente de concordância ou aprovação. Tolerar não é o mesmo que concordar e também não é indiferença mas complacência. Eu tolero o diferente por respeito pela autonomia da pessoa ou devido à necessidade de manter com ela uma coexistência pacífica, entre outras razões.

Segundo Harry Gensler, o relativismo cultural torna-nos mais receptivos a aceitar outras culturas, aquilo que é diferente e, portanto, mais tolerantes, tentando compreender o ponto de vista dos outros. Mas vai uma grande distância entre tolerar uma expressão de fé diferente – ou a ausência de fé religiosa – e aceitar essa mesma expressão considerando-a desde logo tão legítima como a nossa. Durante muitos anos Portugal tolerava o culto protestante dentro das suas fronteiras mas limitado aos cidadãos estrangeiros, porque se considerava a religião católica como integrante da identidade nacional. Não ser católico era o mesmo que ser anti-patriota e mau português. Depois, com a lei de liberdade religiosa de Marcelo Caetano, em 1971 (Lei nº. 3/71), veio a tolerância institucional mas não a aceitação, a qual pressupõe uma igualdade de oportunidades que em boa verdade nunca existiu, nem mesmo depois da lei gizada em regime democrático num governo de António Guterres, em 2001 (Lei nº. 16/2001).

Desidério Murcho entende que ser tolerante é defender as pessoas que têm ideias falsas, idiotas ou inaceitáveis e atacar essas ideias: “não é atacar as pessoas para evitar o incómodo de provar que as suas ideias são falsas. E, se tais ideias nos ofendem, paciência. Não é possível garantir a liberdade de expressão e ao mesmo tempo garantir que não seremos ofendidos.”

Porém, a tolerância pode ser, porventura, a maior inimiga da aceitação.

Segundo um estudo do Pew Institut Center, um instituto independente, com sede em Washington, que procurou conhecer a disposição dos cidadãos europeus em relação a questões religiosas, os europeus de Leste e da Europa Central estarão menos dispostos do que os ocidentais a aceitar muçulmanos ou judeus como membros potenciais da sua família ou como vizinhos. Esta pesquisa inquiriu 56 mil pessoas entre 2015 e 2017.

Talvez estes dados não nos devam causar estranheza, pois é hoje amplamente reconhecido que a expulsão dos judeus em Portugal (1496) e em Espanha (1492), assim como a conquista de Granada pelos reis católicos, no mesmo ano, constituíram um retrocesso civilizacional na Península Ibérica e uma perda cultural assinalável no desenvolvimento de Portugal e Espanha. Talvez por isso o estudo aponte que mais de 70% de portugueses e espanhóis aceitem que muçulmanos e judeus façam parte da sua família, com tendência para aumentar entre os mais jovens, sendo ultrapassados apenas por países do norte da Europa. Já nos países da Europa Central e Oriental, menos da metade dos adultos dizem que estariam dispostos a aceitar muçulmanos nas suas famílias, o que talvez explique o emergir da extrema-direita. São também esses povos que, tendo consciência de que não são perfeitos, consideram a sua cultura superior à dos outros.

No fundo, a tolerância é um conceito enganador, uma vez que não significa aceitação da diferença, muitas vezes em razão da ignorância e dos medos gerados por ela. Umberto Eco dizia que o inimigo é sempre feio, porco e mau, mas nós precisamos dele para, no confronto com o estrangeiro, testarmos a nossa identidade e afirmarmos uma pretensa superioridade. Segundo os manuais escolares lusitanos, só a padeira de Aljubarrota despachou uma mão cheia de castelhanos, e há uns séculos nós aviávamos sempre grandes tareias a nuestros hermanos.

A melhor barreira social e política contra os populismos não é a tolerância mas a capacidade de aceitação mútua, no respeito pela diferença, também em matéria de fenómeno religioso, mas salvaguardando sempre os valores da liberdade e dos direitos humanos.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2018-11-13-Quando-a-tolerancia-nao-e-toleravel

Debate “Porque se dá tanto tempo ao Papa?” e apresentação do livro “O Papa no tempo e o tempo do Papa” | 14 de novembro, Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos

PRESS RELEASE

O Papa no tempo e o tempo do Papa

O Papa no tempo e o tempo do Papa é um livro que reúne interpretações, opiniões e crónicas publicadas recentemente na comunicação social em Portugal, sobre o Papa e a Igreja católica, tendo como foco o drama dos abusos sexuais, as oposições internas, as reformas, o clericalismo e a desclericalização.

 

Primeiro volume da nova colecção Grandes Debates da Actualidade (Edições Universitárias Lusófonas), O Papa no tempo e o tempo do Papa é coordenado por José Brissos-Lino e Joaquim Franco, e propõe uma leitura plural através de 11 diferentes pensadores e sensibilidades, dentro e fora da Igreja, que ao longo da recente crise contribuíram para o debate público. São eles João Miguel Tavares (jornalista e escritor), José Manuel Pereira de Almeida (padre, médico e professor de Teologia Moral e Social), José Brissos-Lino (diretor do Mestrado em Ciência das Religiões das Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo), Gonçalo Portocarrero de Almada (padre do Opus Dei e cronista do Observador), Natália Faria (jornalista do Público), Bruno Nobre (padre jesuíta e professor de Filosofia na UCP), Joaquim Franco (jornalista da SIC, investigador em Ciência das Religiões e coordenador do Observatório para a Liberdade Religiosa), Samuel Beirão (padre jesuíta e especialista em estudos de pedagogia), Paulo Mendes Pinto (coordenador da Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, embaixador do Parlamento Mundial das Religiões e fundador da European Academy of Religions), Luís Larcher (ex-padre e director da Christus Magazine) e Fernando Calado Rodrigues (padre, cronista do Jornal de Notícias e pároco na diocese de Bragança).

 

Citando os autores, a Igreja não é monolítica, nunca foi. “Como pode um homem – mesmo sendo Papa – no meio duma cúria que lhe é tantas vezes hostil, combater o clericalismo numa organização religiosa com dois milénios de existência?”.

É um “momento difícil”. Se a Igreja percebeu que “exige uma resposta firme e decidida”, Francisco tem o desafio de “rever o paradigma de actuação”. Afinal “ninguém é capaz de responder melhor a estas questões do que a própria Igreja – tivesse ela a coragem de enfrentar a dura realidade e, em última análise, revolucionar a sua organização interna”.

Este assunto “diz respeito a todo o Povo a Deus”. Mas, tendo em conta a relevância social, cultural e política da religião, é a sociedade em geral que não pode ficar indiferente ao debate.

“A história da Igreja é também uma história de rupturas e reformas, umas inclusivas outras fracturantes” e o “tempo mediático amplia as idiossincrasias”.

Mais do que descentralizar processos administrativos, “Francisco procura uma Igreja desclericalizada, co-responsável e aberta”. Um desconforto para clero e leigos “mais habituados ao sofá das leis e à rotina das normas”.

 

O Papa no tempo e o tempo do Papa é apresentado no dia 14 de Novembro, quarta-feira, pelas 18h00, no Auditório da Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos, na Amadora.

 

Logo após a apresentação, realiza-se no mesmo local o debate Porque se dá tanto tempo ao Papa?, incluído no ciclo de conferências Religiões e Culturas em Debate, a decorrer ao longo deste ano na Amadora. Porque tem o Papa um alcance simbólico para lá das fronteiras do catolicismo e da religião em geral? A que expectativa corresponde um Papa quando é eleito? Quem o ouve e que real valor é dado às suas palavras? O que explica e significa a importância dada a esta liderança religiosa quando se revela a tendência para a redução do número de pessoas que se dizem religiosas?

 

A sessão com apresentação do livro e posterior debate terá como oradores: Henrique Monteiro (jornalista, ex-director do Expresso); José Maria Brito (padre jesuíta, director do PontoSJ); Eugénia Quaresma (Obra Católica das Migrações); Jorge Pinheiro  (historiador, cristão protestante); Eugénia Magalhães  (teóloga católica, presidente do IEAC-GO/Instituto de Estudos Avançados em Catolicismo e Globalização); Joaquim Franco; Paulo Mendes Pinto; José Brissos-Lino.

Debate: Porque se dá tanto tempo ao Papa?

Debate

Porque se dá tanto tempo ao Papa?

 

Apresentação do livro

O Papa no tempo e o tempo do Papa

 

14 de novembro de 2018, 18h00

Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos

Amadora

Realiza-se no dia 14 de Novembro, quarta-feira, pelas 18h00, no Auditório da Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos, o debate Porque se dá tanto tempo ao Papa?, incluído no ciclo de conferências Religiões e Culturas em Debate, a decorrer ao longo deste ano na Amadora.

Depois de debater a Religião com as abordagens da Ecologia, Igualdade de Género, Política, Demografia, Cidadania e Escola, propõe-se uma conversa sobre o papel do Papa. Como pano de fundo está o atual pontífice da Igreja católica, entre a crise e um dinamismo de reforma.

Porque tem o Papa um alcance simbólico para lá das fronteiras do catolicismo e da religião em geral? A que expectativa corresponde um Papa quando é eleito? Quem o ouve e que real valor é dado às suas palavras? O que explica e significa a importância dada a esta liderança religiosa quando se revela a tendência para a redução do número de pessoas que se dizem religiosas?

Estas são algumas das pistas para o debate, antecedido da apresentação do livro O Papa no tempo e o tempo do Papa (Edições Universitárias Lusófonas), com coordenação de José Brissos-Lino e Joaquim Franco, que reúne interpretações, crónicas e opiniões publicadas na comunicação social portuguesa a propósito do Papa Francisco, entre o drama dos abusos sexuais, as oposições internas, as reformas, o clericalismo e a desclericalização.

Esta sessão, com apresentação do livro e posterior debate, terá como oradores:

Henrique Monteiro (jornalista, ex-diretor do Expresso);

José Maria Brito (padre jesuíta, diretor do PontoSJ);

Eugénia Quaresma (Obra Católica das Migrações);

Jorge Pinheiro (historiador, cristão protestante);

Eugénia Magalhães (teóloga católica, presidente IEAC-GO/Instituto Estudos Avançados em Catolicismo e Globalização);

Joaquim Franco (jornalista, investigador em Ciência das Religiões);

Paulo Mendes Pinto (professor universitário, coordenador da Área de Ciência das Religiões da Univ. Lusófona);

José Brissos-Lino (professor universitário, coordenador do Instituto do Cristianismo Contemporâneo).

Palestra: “O lugar do Xamanismo nas sociedades actuais: o caso do Brasil” com a Xamã Anna Xara.

Palestra: “O lugar do Xamanismo nas sociedades actuais: o caso do Brasil” com a Xamã Anna Xara.

16 de Novembro | às 18h30 | Auditório Armando Guebuza

Entrada Livre

 

A Área Ciência das Religiões vai acolher a palestra da índia, xamã, Anna Xara. É natural do Amazonas e fundou uma escola – Gaia – que já conta com mais que uma sede no Brasil. Esta palestra pretende apresentar o xamanismo, a pajé da amazônia, a medicina do tambor – que é o foco central da passagem dela aqui por Lisboa.

Mais informações: creligioes@ulusofona.pt

http://www.annaxara.com.br/

Inscrições: https://secure.grupolusofona.pt/rol/f?p=126:1:::::P1_GRAU,P1_INSTITUICAO,P1_CURSO:9,103,985

 

IV Jornadas de Cristianismo Contemporâneo | 22 de Novembro | 18H00

“Fundamentalismo Protestante: processo e transformações”

IV Jornadas de Cristianismo Contemporâneo

(ICC/CR/FCSEA/ULHT)

22 de Novembro de 2018 – Local: Sala S 0.11 – 18H00

Entrada Livre

Assinalando os 140 anos do Credo de Niagara (1878) e os 40 anos da Declaração de Chicago (1978).

 

 

18H30:

CONFERÊNCIA: “O Fundamentalismo Protestante: 140 anos depois”

José Brissos-Lino

 

19H00:

MESA-REDONDA

João Pedro Robalo

José Brissos-Lino

Luís de Matos

Orlando Martins

Paulo Medeiros Silva

Paulo Mendes Pinto (moderador)

Timóteo Cavaco

Vitor Rafael

Lançamento do livro “Aquele falar estranho: um estudo transdisciplinar sobre Pentecostalismo e Glossolalia”, de José Brissos-Lino

Artigo Visão: Deus já não cabe no espaço Público?, José Brissos-Lino

Deus já não cabe no espaço público?

Joaquinne Dela Cruz / EyeEm/ Getty Images

Uma das teorias mais defendidas por alguma filosofia política é que a religião deveria ser remetida para dentro dos templos, deixando o espaço público isento de qualquer presença ou simbólica religiosa. É caso para perguntar: Quem tem medo da religião?

Segundo o Papa Francisco: “A convivência pacífica entre as diferentes religiões vê-se beneficiada pela laicidade do Estado, que, sem assumir como própria nenhuma posição confessional, respeita e valoriza a presença do factor religioso na sociedade.”

Entendamo-nos. As democracias procuram construir um Estado de direito, o qual é necessariamente laico, mas a sociedade não. A laicidade do Estado significa a sua neutralidade em termos confessionais, condição fundamental para assegurar a liberdade religiosa a todos os cidadãos sem excepção, quer os que professam a religião maioritária (no caso de haver uma), outro credo qualquer, mas também os que não têm nenhuma religião ou desejam mudar de filiação religiosa. Como afirma Anselmo Borges: “a laicidade é exigida pela própria religião. Porque confundir religião e política significa ofender a transcendência de Deus, e também porque só homens e mulheres livres podem professar de modo verdadeiramente humano uma religião.” Todavia, em caso algum Estado laico significa Estado anti-religioso, já que o laicismo pode ser considerado uma forma violenta de laicidade que apenas pretende expulsar a religião da vida social, revelando-se como uma ideologia anti-clerical e anti-religosa.

Portanto, laicismo e laicidade são conceitos distintos. Se esta preserva a neutralidade confessional do Estado, respeitando todas as formas de crença, já o laicismo repudia qualquer presença ou influência religiosa no espaço público. Confundir ambas as coisas revela uma tendência autoritária que atenta contra a liberdade dos indivíduos.

De vez em quando ouvem-se vozes que vão neste sentido. A jornalista Fernanda Câncio parece que não gostou de ouvir a sua colega da RTP, Dina Aguiar, despedir-se do público, numa tarde de sexta-feira, com um “até segunda-feira, se Deus quiser”. Vai daí passou a criticá-la nas redes sociais e a apoucar a televisão pública chamando-lhe “a televisão da paróquia”.

Deixando de lado o preconceito que estas palavras exprimem, o que está aqui em questão é a legitimidade dum jornalista mencionar a palavra “Deus”, nem que seja para uma saudação enraizada na nossa cultura e nas relações humanas. Talvez para Câncio só se possa falar de Deus ou de religião quando for para apontar o dedo aos maus exemplos, que infelizmente abundam. Assim como não faltam escândalos com pessoal político, empresários, artistas e outros actores sociais, incluindo jornalistas. Toca a todos.

É bom não esquecer que não vai assim tão longe o tempo em que era proibido em Portugal construir qualquer espaço de culto não-católico com a fachada virada para a rua. A causa desta discriminação não era o laicismo mas o efeito era idêntico.

Admitamos por absurdo que, numa deriva totalitária, se baniam todos os símbolos religiosos do espaço público. Então e os símbolos desportivos (clubes, federações, desportos), ficavam? E os políticos (partidos, associações)? Já agora os humanitários (Cruz Vermelha, Médicos sem Fronteiras, Bombeiros). Porque não? E os comerciais (marcas) ou culturais (cinema, teatro)? A importância da Simbólica não é só a da utilidade directa, ela comporta um sentido, uma semiótica, constituindo-se como corpo de referências culturais e de enquadramento social. O mundo está saturado de simbologia, desde os sinais de trânsito aos reclames comerciais e institucionais, passando pela sinalética dos edifícios e a da comunicação humana. Não é possível viver em sociedade sem o uso dos símbolos. E onde eles foram suprimidos a sociedade tendeu a cair em entropia. Se Karen Armstrong diz que “os seres humanos são animais espirituais”, então são-no no privado e no público. E Gandhi ia mesmo mais longe, defendendo que “uma vida sem religião é como um barco sem leme”.

Depois ainda há aqueles que querem liberdade para eles mas não para os outros. Veja-se a atitude de certos líderes religiosos em países onde a sua religião é minoritária por contraste com outras latitudes onde é maioritária. Muda-se a geografia, mudam-se as vontades. A separação efectiva entre Estado e religião é uma das grandes conquistas da civilização, que deve ser cada vez mais valorizada, até porque muitos ainda sonham vir a viver num regime teocrático, o que é, invariavelmente, uma rotunda desgraça, seja em nome de que religião for.

Deus nos livre desse mal.

José Brissos-Lino

http://visao.sapo.pt/opiniao/2018-10-30-Deus-ja-nao-cabe-no-espaco-publico-

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