Ai, solidão, solidão…

Parece que a solidão mata. Não se sabe bem como, mas os indícios existentes sugerem exactamente isso.

Um estudo realizado em Inglaterra, com a chancela da Universidade de Cambridge, compara os dados de mais de uma centena de investigações que abordam a relação entre a mortalidade e a vida social do indivíduo.

Daí se conclui que pessoas solitárias são 50% mais propensas a terem uma morte precoce do que outras. Uma outra investigação, que cruza dados de mais de três milhões de pessoas, sugere que o impacto da solidão na saúde é semelhante ao da obesidade.

O governo britânico tentou combater a situação, no início deste ano, transformando a subsecretária de Estado para o desporto e a sociedade civil numa espécie de “Ministra da Solidão”.

Esta iniciativa vem na sequência das conclusões do trabalho levado a cabo pela Comissão Jo Cox, com a colaboração da Cruz Vermelha (nome da deputada assassinada há dois anos por um militante da extrema-direita) e que em vida se debruçou sobre os problemas da solidão.

A investigação conduzida em seu nome redundou num relatório que defende que cerca de oito milhões de britânicos dizem estar regularmente ou “sempre” em solidão, e cerca de metade dos britânicos reconhece sentir-se ocasionalmente solitários.

Mas os contornos do problema são surpreendentes. Grande parte da estratégia de combate à solidão é direcionada aos mais velhos, todavia os estudos mostram que são as gerações mais novas, de idades compreendidas entre os 16 e os 24 anos, assim como a população economicamente mais desfavorecida, quem mais frequentemente confessa sentir-se só.

Sabemos que este é parte do preço a pagar pela pós-modernidade, que se caracteriza por um superindividualismo, mas também pela transformação das relações sólidas em líquidas, isto é, efémeras e com baixa resistência à frustração e contrariedades, como dizia o sociólogo polaco Zigmunt Bauman. Vivemos tempos líquidos, nada é feito para durar e as relações escorrem por entre os dedos como água.

Verifica-se uma imensa dificuldade na comunicação afectiva (daí a surpresa do nosso “efeito Marcelo”), apesar do desejo profundo de toda a gente se querer relacionar, mas sem o conseguir, devido ao medo e insegurança. Assim, as relações terminam tão velozmente como começam.

A solidão tornou-se assim a triste realidade da vida contemporânea. Segundo Bauman, o ser humano necessita de dois valores indispensáveis: segurança e liberdade. “Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é o caos completo.” Se eu quero mais segurança prescindo de um pouco da minha liberdade pessoal, e cada vez que quero mais liberdade entrego parte da minha segurança.

Para ganhar parte de um perde-se parte do outro. A vida comunitária é a resposta para tal dificuldade. Daí a importância do associativismo, das igrejas, das instituições sociais, culturais, desportivas e recreativas, assim como das universidades.

Não há volta a dar. Fomos feitos para a comunhão e a partilha.

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Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 27/7/18.