Opinião: Deus pode ir de férias… por José Brissos-Lino

A denominada Teologia da Prosperidade começa a dar lugar à Teologia do Coaching em determinados círculos cristãos. Substituiu-se a fome pela vontade de comer. Sendo assim, Deus pode ir de férias…

A chamada teologia da prosperidade – um fenómeno religioso de origem norte-americana – tem causado inúmeras divisões e confusões no mundo evangélico à escala global. Nos últimos anos muitos dos seus profetas foram desacreditados e outros admitiram erros doutrinários significativos. A partir dos anos setenta o neopentecostalismo agarrou com unhas e dentes esta doutrina, com resultados nefastos para as populações das periferias, os mais pobres, menos esclarecidos e os desesperados. A ideia do sucesso aqui e agora, para todos, com base na contribuição financeira e numa espécie de fezada só vai acrescentando ilusão ao desespero. Esta teologia ajudou a redefinir o campo religioso protestante, a sua relação com a lógica do mercado neoliberal e a aspiração de ascensão social de muitas pessoas, afastando-se da ética protestante da modernidade analisada por Weber.

Mas agora a nova moda é a Teologia do Coaching, que se vem a instalar nestes meios religiosos como substituta da prosperidade. A pregação do Evangelho, que anteriormente já tinha cedido lugar ao discurso da prosperidade fácil, transformou-se agora numa arenga de auto-ajuda. O coaching é um conjunto de recursos, técnicas e ferramentas de administração, psicologia, neurociência, gestão de recursos humanos e planeamento estratégico, entre outros, com vista a atingir os resultados desejados tanto a nível profissional, social e familiar, como espiritual e financeiro. A ideia é que um profissional ajude a despertar o potencial da pessoa com vista a obter tudo o que deseja. Só que evangelho e fé cristã não combinam com coaching.

E aí temos o mercado das palestras motivacionais. Parece que a nova religião do homem moderno é o empreendedorismo. De matriz materialista, ela substituiu os santos do altar por fotografias de homens de sucesso, e os seus livros sagrados são os de auto-ajuda. O objectivo desta cultura é o sucesso, seja lá o que isso for! O problema é que o coaching tem uma vocação civil e não religiosa. As palestras motivacionais em contexto religioso são centradas no indivíduo, confundem fé com força de vontade, e evangelho com motivação. O foco está no que a pessoa pode conseguir através da sua fé. Por outro lado o coaching dá corpo à ambição de conquistar bens materiais ou espirituais num processo de autoafirmação, ao contrário da proposta do evangelho, que é auto-exame e negação de si mesmo. O pastor torna-se uma espécie de coach, procurando ir ao encontro do que as pessoas querem ouvir, afagando-lhes o ego, estimulando nos membros da comunidade de fé o seu potencial para que eles alcancem tudo o que desejam.

Ou seja, vende-se a ideia de que o potencial dos indivíduos é ilimitado e podem conquistar tudo o que querem, se fizerem muita força… Este existencialismo humanista-materialista procura responder à busca pessoal pelo significado da vida, tornando-se o âmago do pensamento filosófico. Enquanto a teoria da prosperidade regateia com Deus para que faça milagres de cariz físico, material e espiritual (Perelman e Olbrechts-Tyteca estudaram há muito os seus recursos retórico-argumentativos), a teologia do coaching afasta Deus da cena para se concentrar no potencial humano, mitificando-o.

Comparando esta filosofia com as Escrituras, vemos como o profeta Jeremias falou a um povo orgulho e que confiava em suas próprias forças e “tradição espiritual”: “Não se glorie o sábio em sua sabedoria nem o forte em sua força nem o rico em sua riqueza, mas quem se gloriar, glorie-se nisto: em compreender-me e conhecer-me, pois eu sou o Senhor, e ajo com lealdade, com justiça e com rectidão sobre a terra, pois é dessas coisas que me agrado” (9:23,24). E acrescenta mais à frente: “Maldito é o homem que confia nos homens, que faz da humanidade mortal a sua força, mas cujo coração se afasta do Senhor” (17:5-7).

No Novo Testamento não é diferente, se lermos Tiago: “Ouçam agora, vocês que dizem: ‘Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro’. Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. Ao invés disso, deveriam dizer: ‘Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo’. Agora, porém, vocês se vangloriam das suas pretensões. Toda vanglória como essa é maligna” (4:13-16)

É bom que um cristão tenha sucesso profissional e financeiro, desde que isso não seja o centro da sua espiritualidade. Mas por que razão será agora necessário um “treinador” para ensinar os cristãos a viver? Já não chegam os recursos da oração, do estudo e meditação nas Escrituras, o apoio e orientação dos líderes espirituais e os benefícios da comunidade de fé? Se a teologia da prosperidade faz de Deus nosso criado, a do coaching faz do homem o centro do universo. E aí, Deus já pode ir de férias.

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