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“Martin Luther King: do sonho ao pesadelo” por José Brissos-Lino

Há poucos dias cumpriram-se 55 anos sobre a data de um dos melhores discursos históricos de sempre, de Martin Luther King Jr.

O icónico discurso “I have a dream”, que foi proferido na presença de mais de 250.000 pessoas de todas as etnias, na Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade, em prol dos direitos civis numa sociedade americana profundamente segregacionista, ainda hoje impressiona pelo desassombro do orador e a sua coragem pessoal e cívica.

O jovem pastor protestante de Memphis, Tennessee, que encabeçou o movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos com uma campanha de não-violência e de amor ao próximo, viria a ser assassinado cinco anos depois, pelas forças racistas que vinha a confrontar através do seu activismo político. Mas o Nobel da Paz de 1964 não ficou por aí. Tempos antes de morrer incluiu nas suas preocupações cívicas o combate à pobreza e a oposição pública à Guerra do Vietname.

John Edgar Hoover considerou-o um perigoso radical e os agentes do FBI investigaram-no por possíveis ligações comunistas, puseram-no sob escuta e usaram de terrorismo psicológico enviando-lhe uma carta anónima com ameaças e a sugerir que se suicidasse.

Entretanto, Luther King foi integrado na história americana, como se depreende do estabelecimento de um feriado federal com o seu nome, em 1986, e das centenas de ruas renomeadas em sua homenagem. Mas é de crer que, se ele tivesse surgido na linha do tempo apenas agora, duas gerações depois, a sua luta não seria menos dura nem significativa, apesar de a nação já ter conseguido eleger um presidente negro nos inícios do milénio.

A causa de Luther King nos anos sessenta terá então sido perdida e a sua luta em vão? Não necessariamente. Acabou o segregacionismo e os negros podem agora frequentar os mesmos restaurantes, cafés, casas de banho, escolas e universidades que os brancos, usar os mesmos transportes públicos e construir famílias interraciais sem problemas. Mas o racismo não acabou. Os indivíduos mais pobres do país continuam a ser os negros, por isso constituem também a maior percentagem da população prisional e no sul persiste ainda um racismo cultural misturado com um ressentimento histórico devido à guerra civil americana e ao fim da escravatura.

O discurso

O célebre discurso de 28 de Agosto de 1963, proferido nos degraus do Lincoln Memorial, Washington DC, é considerado um dos melhores discursos de todos os tempos. Recheado de abundantes citações bíblicas preconizava um ideal político de recorte claramente cristão mas, curiosamente, também revisitava os princípios da revolução francesa – liberdade, igualdade e fraternidade – que abriram caminho à Modernidade, em substituição da mentalidade medieval.

King faz então um pungente apelo à liberdade, retomando o poema patriótico “América”:

“Quando permitirmos que a liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar de cada vila e cada aldeia, de cada estado e de cada cidade, seremos capazes de apressar o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar as palavras da antiga canção negra: ‘Liberdade finalmente! Liberdade finalmente! Louvado seja Deus, Todo-Poderoso, estamos livres, finalmente!”

Clama igualmente pela igualdade:

“Tenho um sonho que um dia esta nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença: ‘Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais’. Tenho um sonho que os meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu carácter.”

E propõe uma sociedade fraterna:

“Tenho um sonho que um dia nas montanhas rubras da Geórgia os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos poderão sentar-se à mesa da fraternidade.”

Alguns meses depois deste discurso a Lei dos Direitos Civis entrou em vigor e em 1965 foi a vez da lei sobre o direito de voto.

Do sonho ao pesadelo

O sonho do pastor King não era apenas acabar com a discriminação racial nas escolas e no mundo do trabalho, obter o direito de voto e cidadania plena para os negros, acabar com a brutalidade policial contra militantes dos direitos civis e a criação de um salário mínimo para todos os trabalhadores, que beneficiaria sobretudo os negros, mas lutar também pela igualdade de oportunidades entre todos os cidadãos, independentemente da sua etnia, sexo ou condição social. E preconizou tal luta com urgência mas sempre em registo de paz, dignidade, disciplina e em aliança com os brancos.

Luther King foi assassinado pelo seu ideal. Mas se voltasse cá agora, em pleno trumpismo, provavelmente morreria de novo, mas desta vez de desgosto, face à forma como o actual presidente norte-americano trata as mulheres, os deficientes, os estrangeiros, os negros, os jornalistas, os heróis de guerra, os adversários políticos, os antigos colaboradores e todos quantos ousam enfrentá-lo ou discordar dele.