O lugar da espiritualidade

O mundo viveu com intensidade o drama das crianças tailandesas presas numa gruta na montanha durante semanas.

Mesmo em Portugal, deste outro lado do globo, as notícias fornecidas pelos meios de comunicação tiveram quase tanto impacto como se o problema estivesse a acontecer numa qualquer zona montanhosa do nosso país, graças às tecnologias de informação e comunicação e ao fenómeno da globalização.

A imprensa e as televisões internacionais enviaram repórteres para o local, de modo a acompanhar o desenrolar dos acontecimentos, que se previam redundar em catástrofe. A situação tinha tudo para correr mal.

A certa altura ficou a saber-se que o treinador que acompanhava a equipa de futebol dos “Javalis” tinha sido monge budista e que terá sido mestre em liderar aquele grupo de doze crianças em situação tão crítica, levando-os à prática da meditação, conseguindo baixar assim os picos de ansiedade próprios daquele contexto.

Aliás, a televisão portuguesa procurou especialistas que pudessem ajudar o público a compreender a importância daquela prática. Nessa linha, docentes e investigadores da Universidade Lusófona (área de Ciência das Religiões, da Linha de Investigação em Cosmovisões da Ásia) tiveram importantes presenças na SIC e na SIC-Notícias, ajudando a compreender como o budismo e a meditação podem ter tido um papel importante no desenrolar feliz deste acidente.

Como se sabe as operações de socorro contaram com inúmeros contributos e recursos técnicos e humanos de muitos países. No final, o responsável tailandês pelas operações veio fazer um balanço e centrou o seu discurso no que denominou “o poder do amor”, um factor de certo modo surpreendente – senão chocante – para a Europa secularizada. No fundo, a sua tese é que o grupo foi salvo pelo amor que terá sido despoletado na comunidade humana global.

Se nos lembrarmos que o tema do sermão proferido na cerimónia anglicana de casamento do príncipe Harry foi justamente o mesmo (tendo provocado visível desconforto nos mais idosos da família real britânica, tanto pela forma como pelo conteúdo) se calhar era bom pensarmos que a religião e a espiritualidade afinal servem para alguma coisa, e que o ser humano está destinado a confrontar-se com a questão da Transcendência.

Nesta altura convém perguntar por que motivo o poder do amor provoca tanto desconforto e até medo nos poderes deste mundo.

Entretanto, quando o mundo trabalhava para devolver vivas aos pais doze crianças tailandesas e o seu jovem treinador, nos Estados Unidos Trump procurava manter cinquenta delas presas, afastadas dos pais, a maior parte com menos de cinco anos de idade, mesmo contra uma decisão judicial…


Fonte: José Brissos-Lino, O Setubalense, 20/7/18.