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Opinião: “Moçambique: a religião como cortina de fumo” por José Brissos-Lino

John Wessels

Afinal o que se passa no norte de Moçambique? Desde Outubro de 2017 mais de duzentas pessoas foram mortas por um grupo terrorista islâmico conhecido como “Al Shabaab moçambicano”, possivelmente ligado à organização terrorista original. Quem está por detrás deles e o que os motiva realmente?

Diga-se desde já que boa parte dos muçulmanos daquele país da África Austral não apoia as acções terroristas perpetradas em nome de Alá, que instalaram uma cultura de medo e terror na região, dado o impacto da violência extremista islamita sobre as populações cristãs e muçulmanas.

Apesar da pressão do Estado para suprimir o tribalismo e o regionalismo, o percurso histórico revela que no norte de Moçambique a etnia Maconde ainda exerce grande controlo social, sendo uma das mais prósperas e influentes da região, que conta com vários generais e o presidente Nyusi. Embora os Maconde tendam a seguir mais a fé católica, alguns dos que são muçulmanos vivem entre o norte de Moçambique e sul da Tanzânia, e outros tendem a abraçar a feitiçaria, envolvida com poderes sobrenaturais, ao contrário doutros países tribais que se dedicam ao culto ancestral. Segundo Pabst: “Proporcionalmente, enquanto mais da metade da população de Cabo Delgado é muçulmana, o restante é católico romano e de outras denominações cristãs. Entre a população muçulmana, há uma crescente preferência pela lei da sharia, ‘algo que provavelmente não será popular numa província religiosamente diversificada como Cabo Delgado”.

Foi este povo que iniciou a luta pela independência de Moçambique em 1961, tendo resistido ferozmente à presença portuguesa. De acordo com Funada-Classen, desde esse tempo que os anciãos macondes moçambicanos “tinham uma extensa rede e ligações com os Maconde em Tanganica, Tanzânia, e tais laços eram suficientemente fortes para partilhar informação política”. A província de Cabo Delgado tem-se revelado uma região sensível no sentido de desencadear violência política, não só porque as suas populações têm um espírito independente, como pelo facto de interagirem facilmente com os seus irmãos tribais na Tanzânia. A campanha de ataques a esquadras de polícia e edifícios civis e governamentais passou rapidamente a visar aldeias e igrejas. Daí resultaram centenas de prisões.

A região apresenta a maior taxa de iliteracia de Moçambique (em Palma chega aos 90%), uma elevada taxa de desemprego, principalmente jovem, uma forte presença do crime organizado e corrupção, tráfico de droga, armas, rubis, madeira e marfim, além de conflitos étnicos, nomeadamente entre os mwani, os maconde e os makua.

Moçambique descobriu que pode vir a tornar-se em breve um grande exportador de gás natural liquefeito, mas se não conseguir resolver a questão da segurança no norte poderá transformar-se em foco de grande instabilidade. Talvez isso explique alguns apoios inusitados, como o do empresário sul-africano André Hanekom, acusado de financiar ataques na região, e que morreu há poucos dias. Hanekom estava em Moçambique desde 2012, trabalhava na área do transporte marítimo na província de Cabo Delgado, e tinha sido detido em Setembro.

Muitos dos mortos e deslocados devido ao terrorismo islâmico são cristãos, como por exemplo os dez jovens que foram decapitados em Junho passado. Naquela manhã de domingo, fiéis e pastores fugiram para salvar a vida e famílias inteiras esconderam-se nas florestas. As aldeias foram queimadas assim como os meios de subsistência. Até animais domésticos como cães e gatos foram abatidos. Tudo isto está documentado. O meu amigo Rev. Fernando Caldeira da Silva, profundo conhecedor do país, adianta: “Num seminário que realizei com minha esposa em 5 de Agosto de 2018, conversámos com vários pastores de comunidades cristãs cujos membros foram afectados por violência e assassinatos. Surpreendentemente, todos eles mostraram coragem para continuar o seu trabalho evangelístico e plantar novas igrejas. Eles disseram: ‘Se morrermos, morremos por Cristo.’ Numa entrevista foi-nos dito que muitos cristãos estavam com medo no início, todavia muitos deles voltaram a reconstruir as suas casas. Os cristãos em geral estão a orar fervorosamente, dispostos a testemunhar a fé em Jesus e a estabelecer novas igrejas sob as árvores.”

A motivação que está por detrás dos assassinatos e violência no norte do país é uma ambição em obter lucro fácil com o tráfico e as riquezas naturais. Para isso tentam estabelecer um controlo crescente sobre toda aquela área, com elementos que foram radicalizados em duas mesquitas de Mocímboa da Praia – entretanto encerradas pelo governo – de modo a, no futuro, tentar impor a lei da sharia.

Como muitas vezes acontece, atrás deste jihadismo estão afinal interesses económicos inconfessáveis, escondidos na cortina de fumo da religião, como gato com o rabo de fora. O extremismo religioso é só um instrumento.

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