Press Release – Debate Amadora Religião Política

“A religião está sempre presente na sociedade, é como uma mochila que trazemos às costas”

Como duas faces inseparáveis da mesma realidade, religião e política foram o tema do debate Religião e Política: Entre a convivência, a tensão e a indiferença, realizado esta quarta-feira, 4 de abril, na Biblioteca Fernando Piteira Santos, na Amadora.

Tendo a situação portuguesa como referência, mas sem deixar de olhar para o mundo, duas deputadas, um deputado e dois autarcas, deram o testemunho e releram as relações nem sempre fáceis entre política e religião.

Para José Manuel Pureza, o desafio das religiões também é político, pois “é o desafio da desigualdade e da discriminação”. O professor universitário e deputado do Bloco de Esquerda, defendeu a criação de “pontes e diálogo entre estruturas políticas e estruturas religiosas”, para valorizar a “centralidade do empenhamento político” e olhar a política “como espaço virtuoso de intervenção”.

Assumindo-se como católico “desalinhado”, Pureza admitiu ter um “encontro e desencontro diário entre política e fé” e levou ao debate uma pergunta que ouvia do sociólogo Alfredo Bruto da Costa, antigo governante e presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, falecido em 2016: “como é possível um país católico chegar ao século XXI ainda com dois milhões e meio de pobres?”.

Também Ana Rita Bessa falou da “condição de política e crente”, reconhecendo ser uma relação “umas vezes com ânimo e outras vezes com dúvidas”. A deputada do CDS disse ser católica e “estar política”, mas “fiel a uma ética de construção do bem comum, mais do que a uma moral”. Até porque, entende, a “política é o sítio mais extraordinário para cumprir o bem comum”.

Não é possível separar o sentimento religioso da ação política, acrescentou Bernardino Soares. O problema, avisou o comunista e presidente da Câmara Municipal de Loures, é quando de forma lesiva “há contaminação” de uma dimensão sobre a outra, embora a sociedade tenha hoje “maturidade” para prevenir essas situações e separar as águas.

“A religião está sempre presente na sociedade, é como uma mochila que trazemos às costas”, e isso “pode dar para o bem ou pode dar para o mal”, disse Bernardino Soares, lembrando que “não é a religião que vai resolver os problemas da humanidade, mas a política”.

Confessando também ser católica, a deputada socialista Idália Serrão esclareceu não ter “uma boa relação com a Igreja, embora o balanço seja positivo”. E explicou: “Oiço representantes políticos e religiosos numa tentativa de mostrarem que são o que não são, porque depois os comportamentos não correspondem às ideias”.

As mediações políticas para a intervenção dos crentes são variadas e estão por todo o espectro partidário, defende Pureza, para quem “não há um entendimento cristão sobre a sexualidade, ou a forma de assegurar a saúde pública ou o ensino”, há sim uma via de pluralidade.

O deputado bloquista sublinhou os apelos do Papa à participação dos cristãos na política, mas advertiu que “a pior das coisas é o sindicato dos crentes, o partido dos crentes ou a política dos crentes”.

A laicidade foi referida por Ana Rita Bessa como um bem a defender se comparada a “uma tela branca” que pode ser o “ponto de encontro” de várias visões da política e da religião. “Vivo bem com esta laicidade, vivo mal com o extremo de uma religião que quer impor-se e com políticos que querem «apagar» o sentimento religioso”, enfatizou a deputada centrista, enquanto a socialista Idália Serrão acrescentou que religião e política não podem ser ”tolerantes com o ódio e o fundamentalismo”.

Fátima foi também tema de debate pela voz do presidente da Câmara Municipal de Ourém. Luís Albuquerque garantiu que as relações entre a autarquia e o santuário “estão bem, mas há uma história de tensões” ocasionais. Deu o exemplo de um recente diferendo entre a autarquia e o santuário por causa de um terreno. A autarquia perdeu o caso nos tribunais e tem de pagar agora os respetivos custos, “na ordem dos 200 mil euros”. O espaço de ação dos poderes públicos locais está preservado, assegurou, e o santuário tem atuado no âmbito da sua legitimidade.

Fátima, que em 2017 teve 9 milhões de visitantes, é um “espaço de diversidade e liberdade, nos antípodas do radicalismo e da intolerância”, representando assim uma oportunidade politicamente rica para promover “a paz e a tranquilidade com espírito aberto ao diálogo”, defendeu o autarca: “há lugar para todos”.

Albuquerque revelou que o turismo local está a desenvolver estratégias de promoção da «marca» Fátima também em países e mercados turísticos de cultura religiosa não-católica, sobretudo na Ásia e América do Sul.

Se em Ourém a diversidade religiosa se limita institucionalmente a uma reduzida presença evangélica, em Loures houve a necessidade de criar um gabinete autárquico para Assuntos Religiosos. O concelho tem mais de 120 nacionalidades e uma das maiores, senão a maior, diversidade étnica e religiosa em Portugal.

Bernardino Soares falou da religião como importante “instrumento da política”, sendo as organizações religiosas parceiras “preciosas” para auxiliar a ação, por exemplo, nas políticas sociais.

Alguns representantes de confissões religiosas presentes na assistência questionaram os políticos sobre a Liberdade Religiosa e a utilização de textos sagrados na narrativa política. Os oradores defenderam que os textos sagrados, por princípio, são também cultura e por isso “não são interditos” ao discurso político, desde que essa utilização não represente uma tentativa de influência no exercício do poder, podendo manipular a opinião dos crentes. Já quanto à Liberdade Religiosa, foram unânimes em considerar que não pode ser dada como adquirida e que a Assembleia da República – que recentemente recusou uma petição que pedia a ilegalização de um grupo religioso – devia porventura reforçar a atenção ao tema.

Num comentário conclusivo, Paulo Mendes Pinto reafirmou a “importância vital “ das religiões no espaço da cidadania. O coordenador da Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona lamentou que a Assembleia da República não seja o reflexo, na sua composição, “da diversidade religiosa e étnica da sociedade portuguesa”. Negar a relação entre religião e política “é uma impossibilidade”, concluiu Paulo Mendes Pinto.

Na opinião de Joaquim Franco, “a religião produz ideias e ética de convivência para o bem comum, ferramentas imprescindíveis da ação política”, como a política exercita “a reflexão pragmática sobre o bem comum, amparando racionalmente o pensamento religioso”. No final do debate, o moderador e coordenador do Observatório para a Liberdade Religiosa lembrou que é neste terreno comum que se jogam “sintonias e desentendimentos, mas não é possível a negação mútua”.

Este foi o terceiro de um ciclo de debates a realizar na Amadora, no âmbito do projeto O Mundo na Amadora – Religiões e Culturas em Diálogo, uma parceria entre a autarquia e a Área de Ciência das Religiões da Lusófona.

Depois do papel das religiões na sociedade, da reflexão religiosa sobre a igualdade de género, da relação entre religião e política, segue-se o binómio religião/educação, com um debate a 9 de Maio numa das escolas da cidade.

  • 06/04/2018
  • Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona