Um Papa contra o Clericalismo

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Na sequência do dramático agravar do escândalo do abuso sexual de crianças por parte de sacerdotes da igreja católica, em função da recente denúncia dos crimes cometidos por cerca de 300 padres na Pensilvânia, durante as últimas décadas, o papa Francisco enviou uma carta ao povo católico.

Este expediente, dado o seu ineditismo, fala-nos muito da gravidade com que a situação está a ser vivida pelo seu autor

Nela podemos verificar uma postura de “vergonha e arrependimento”, por parte daquela comunidade eclesial, assim como a assunção de que “nunca será suficiente o que se faça para pedir perdão e procurar reparar o dano causado”.

Francisco questiona o próprio testemunho da igreja católica, ao afirmar: “sentimos vergonha quando percebemos que o nosso estilo de vida contradisse e contradiz aquilo que proclamamos com a nossa voz”, um pouco na linha da sabedoria popular: “Bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz!”

Nesta sua epístola, o papa não só faz uma clara condenação do abuso sexual de menores como do seu vergonhoso encobrimento no seio da estrutura eclesial. Fala mesmo em “traição dos discípulos” e desabafa: “quanta soberba, quanta autossuficiência!…”

Mas faz mais. Apela à denúncia destes crimes: “Denunciemos tudo quanto possa comprometer a integridade de qualquer pessoa”. E propõe exercícios penitenciais, mas também o “compromisso com uma cultura de cuidado”, além de “compaixão, justiça, prevenção e reparação”.

Mas o cerne da missiva é o reiterado ataque ao clericalismo, apontando-o como causa profunda destes e doutro tipo de crimes: “dizer não ao abuso, é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo”. Porque os crimes de abuso sexual, sejam pedofilia ou violação, são essencialmente uma questão de poder. O agressor abusa e viola porque julga que sairá impune.

Embora o abuso sexual de crianças em instituições não seja exclusivo do sacerdócio católico, uma vez que sucede também em meio escolar e desportivo, e até noutras áreas religiosas, mas não há notícia de problemas com esta dimensão: A novidade aqui é a quantidade, o que torna este problema ainda mais chocante para qualquer pessoa, inclusivamente católicos praticantes.

Mas como pode um homem – mesmo sendo papa – no meio duma cúria que lhe é tantas vezes hostil, combater o clericalismo, numa organização religiosa com dois milénios de existência? Como pode um idoso com 81 anos vencer um sistema de tipo imperial mas recheado de contrapoderes nas cúpulas, a menos que seja a própria igreja a levantar-se e a exigi-lo?

Movimentos como o “Nós Somos Igreja”, alguns bispos e indivíduos isolados têm vindo a público sugerir mudanças, incluindo o fim do celibato obrigatório, mas a grande questão de fundo – o clericalismo – parece estar muito para lá disso, e passa certamente pelo empoderamento dos leigos (homens e mulheres) nas paróquias, pela prestação de contas dos bispos e sobretudo por uma mudança profunda de toda a igreja católica, no sentido da transparência e duma cultura não de poder mas de serviço.

Os belos exemplos sacrificiais dos missionários católicos em teatros de guerra e regiões perigosas do mundo, ou o trabalho social e caritativo junto dos mais pobres dos pobres e doentes não chegam, nem combatem o clericalismo, se nada mudar na praxis do clero secular e na cultura episcopal diocesana.

No fundo vamos sempre dar ao mesmo, a sedução pelo Poder tem sido o calcanhar de Aquiles da Igreja ao longo dos séculos.

José Brissos-Lino
Doutorado em Psicologia; Diretor do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona; Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo

Fonte: visao.sapo.pt

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