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As Religiões na Tavira do séc. XVI – Catálogo de Exposição hospeda artigo de Fabrizio Boscaglia

Decorre entre 18 de maio e 31 de dezembro de 2020, no Museu Municipal de Tavira – Palácio da Galeria, a exposição A Principal do Reino do Algarve – Tavira no séculos XV e XVI, que comemora os 500 anos da elevação de Tavira a cidade, por D. Manuel I (1520-2020). O catálogo da exposição hospeda o ensaio «Tavira e as religiões no século XVI: notas sobre cristãos, cristãos-novos e mouriscos», de Fabrizio Boscaglia, coordenador da Linha de Investigação Herança e Espiritualidade Islâmica da Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

O comissário da exposição é Jorge Queiroz. A inauguração da própria exposição pode ser vista em vídeo disponível online.

A exposição dá continuidade ao seminário Um Mundo Novo – Portugal e o Algarve nos séculos XV e XVI, decorrido em 2019.

A investigação que levou ao referido artigo decorreu no contexto do projeto sobre Património Islâmico em Portugal, da Área de Ciência das Religiões, com apoios e/ou colaboração de entidades como a Biblioteca Nacional de Portugal e a FIP / International School of Palmela.

Al-Mu’tamid e Adalberto Alves: mostras na BNP prolongadas e reportagem na RTP2

As mostras «Al-Mu’tamid: poeta do Gharb al-Andalus» e «Adalberto Alves: 40 anos de vida literária», a decorrerem na Biblioteca Nacional de Portugal, vão continuar abertas ao público até ao dia 30 de julho de 2020.

As duas mostras integram as atividades da Linha de Investigação Herança e Espiritualidade Islâmica, coordenada pelo professor Fabrizio Boscaglia, que é um dos comissários das mostras, juntamente com Maria João Cantinho e Hugo Maia.

Algumas das atividades anteriormente previstas, ligadas às mostras e que tiveram de ser adiadas por causa da pandemia de COVID-19, serão realizadas via plataforma online (Zoom), em datas a serem ainda decididas.

A RTP2, em colaboração com a Comunidade Islâmica de Lisboa, realizou uma reportagem sobre as duas mostras, livremente acessível na net, clicando neste link: https://www.rtp.pt/play/p50/e462688/a-fe-dos-homens?fbclid=IwAR3tzVyyA3EtxXFreCXDwZOda_99rhKdpCmkAq0boh5jP5firQHl2pXrRgo

Comunidado OLR sobre a prática religiosa no “desconfinamento” progressivo

Comunicado do Observatório para a Liberdade Religiosa 

sobre a prática religiosa no “desconfinamento” progressivo 

 

Aparentemente ultrapassada a fase pandémica mais aguda e já na perspetiva de uma retoma gradual e progressiva da sociabilização, o Observatório para a Liberdade Religiosa (OLR) regista a forma madura e discernida como, genericamente, os grupos religiosos se adaptaram em Portugal. Apesar de episódicas situações que revelaram comportamentos inadequados face às recomendações das autoridades de saúde, houve um elevado sentido de cidadania e responsabilidade, das lideranças às comunidades.

 

Foram semanas de provação para todas as comunidades religiosas. Recorde-se o caso das comunidades cristã e judaica, que atravessaram o calendário muito sensível da Quaresma e da Páscoa. A comunidade islâmica entrará dentro de dias no Ramadão, que convoca a oração comunitária.

Prevaleceu nestas semanas a atitude socialmente racional, apesar do tempo comunicacional ter ampliado ansiedades apocalíticas, de incerteza, e assistimos a momentos religiosos simbolicamente inéditos, em que a ausência de crentes, o silêncio e o espaço vazio, o distanciamento familiar e comunitário, reavivaram e valorizaram o sentimento de pertença e de identidade religiosa.

 

Sem se imiscuir no debate técnico-constitucional, avaliando o estado de emergência em Portugal sob os vários pontos de vista que a reflexão exige, o OLR entende que foi respeitado o exercício da liberdade religiosa, com necessárias, mas justificadas, limitações ao culto.

 

Lembramos que as lideranças dos grupos religiosos em Portugal, como a Igreja Católica (Conferência Episcopal Portuguesa), as igrejas evangélicas (Aliança Evangélica Portuguesa), as igrejas protestantes (COPIC), a Mesquita Central de Lisboa, os salões das Testemunhas de Jeová, a União das Igrejas Adventistas do Sétimo Dia, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, templos hindus (Comunidade Hindu de Portugal) e budistas, para dar apenas alguns exemplos, anteciparam-se ao próprio estado de emergência ou aplicaram, desde a primeira hora, as medidas adequadas para atenuar os efeitos da pandemia, com o encerrando ao público dos respetivos espaços, tendo dado conta destas medidas publica e expressamente.

Houve, inclusive, prévias consultas informais, através do denominado Grupo de Trabalho Inter-religioso (uma plataforma que junta representantes das várias confissões religiosas), que, na prática, resultaram na opção praticamente simultânea, embora não conjunta, de encerrar os espaços de culto.

 

Este mês e meio revelou o caráter insubstituível e inegável da dimensão religiosa na sociedade e na vida dos cidadãos que se dizem crentes, quer pela reinvenção e/ou adaptação do encontro comunitário, por via das plataformas digitais, ampliando, com novos contornos, o sentido de pertença religiosa, quer pela cidadania exercida em ações concretas de solidariedade.

 

O governo português iniciou contactos para preparar o levantamento das restrições às confissões religiosas. É evidente que esta retoma será ainda muito limitada e não se prevê para breve o regresso às formas de sociabilização que tínhamos antes da pandemia.

O constrangimento continuará a ser sentido na vivência comunitária, com impacto nas comunidades religiosas, onde dimensões como o afeto, a partilha ou a proximidade física são características, nalguns casos até carismaticamente determinantes.

 

No momento em que se discute o “desconfinamento” social, o OLR sugere às comunidades religiosas que, por um lado, revejam e, se possível, adaptem celebrações e convívios, evitando proximidades de risco, e, por outro,   procurem sintonizar-se, salvaguardando as características próprias, mas partilhando conhecimento, estratégias e modelos de abertura que mantenham a responsabilidade e criatividade já manifestadas.

 

Este “desconfinamento” progressivo exigirá também apoios em rede, das autarquias e do estado central, facilitando, se tal for solicitado e necessário, a sustentabilidade e as logísticas de segurança na frequência dos espaços religiosos, por exemplo, na aquisição ou fornecimento de máscaras comunitárias e na adequada higienização.

 

Sediado na área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, o OLR é composto por um grupo de investigadores, empenhados em analisar proativamente o fenómeno e a vivência religiosa, e que, ao longo deste período de confinamento, vêm também intervindo no espaço público da opinião e da reflexão.

 

20.04.2020

Carta de Princípios OLR

Presença na web

Página Facebook

Muçulmanos em Portugal na Idade Média (palestra à distância com Filomena Barros)

Muçulmanos em Portugal na Idade Média

Palestra à distância com Filomena Barros

2 de abril de 2020 – 18h

(via plataforma Zoom)

A conquista cristã da Península Ibérica integra minorias muçulmanas, assim como judaicas. Portugal não é exceção. As comunidades que se formam, na zona sul do reino, são legitimadas por cartas de foral, doadas pelo rei ou pelas Ordens Militares (Avis e Santiago) – as comunas. Com autoridades e um direito próprios, a vivência destes grupos prolonga, do Al-Andalus, uma presença islâmica, interligada à da maioria cristã, mas também em constante contacto com a própria ummah islâmica.

Inscrição prévia (40 lugares disponíveis) via e-mail

A palestra «Muçulmanos em Portugal na Idade Média» decorre no contexto do Seminário Permanente de Estudos Islâmicos, da Linha de Investigação Herança e Espiritualidade Islâmica, na Área de Ciência das Religiões da ULHT. A palestra realiza-se em modalidade e-learning/à distância, através da plataforma Zoom fornecida pelo serviço Colibri da Universidade Lusófona. As informações sobre modalidade de ligação à plataforma Zoom e à própria sessão serão dadas no ato da inscrição.

Inscrições

A inscrição tem de ser feita via e-mail: fabrizio.boscaglia@ulusofona.pt

Prazo para inscrição: 2 de abril às 13h (hora de Lisboa)

Lugares disponíveis: 40

Após termos recebido mensagem de inscrição, responderemos com indicações para ter acesso à palestra via plataforma Zoom

Não será necessário instalar nenhum software – Mais informações sobre Zoom aqui.

A oradora

Maria Filomena Lopes de Barros é professora do Departamento de História da Universidade de Évora. As suas investigações, centradas na minoria islâmica medieval em Portugal e na sua comparação com a dos demais reinos ibéricos, têm-se alargado para a minoria judaica, também no período medieval, e para os mouriscos, já no período moderno (séc. XVI).  Para uma visão parcial das suas publicações ver: https://uevora.academia.edu/FilomenaBarros

Organização

Seminário Permanente de Estudos Islâmicos

Linha de Investigação Herança e Espiritualidade Islâmica

(coord. Fabrizio Boscaglia)

Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona

Evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/259269055235593/

 

Opinião: O Sétimo Selo 2.0 por José Brissos-Lino

O Sétimo Selo 2.0

A pandemia Convid-19 parece ser a nova peste negra da Idade Média. Se antes a Igreja aterrorizava os fiéis com o inferno, agora correm o risco de despersonalização através do isolamento social

Faleceu recentemente o actor franco-sueco Max von Sydow, aos noventa anos, que interpretou em “O Sétimo Selo” um cavaleiro da Idade Média regressado das Cruzadas e confrontado com a peste negra na sua terra. O filme, a preto e branco, é de 1956 e foi dirigido pelo consagrado Ingmar Bergman.

O filme desenrola-se em quadro apocalíptico num dos períodos medievais mais negros. Claramente inspirado no livro bíblico Apocalipse (ou Revelação de S. João), move-se sobre a ideia de que Deus tem na mão um livro selado com sete selos e que a abertura de cada um desses selos redunda num mal para os homens, sendo que o último deles dará lugar ao fim dos tempos, mergulhado no terror apocalíptico do fim do mundo, ou da morte e devastação provocadas pela peste

Parece que Bergman utiliza o pano de fundo da Idade Média com a intenção de partilhar a angústia do tempo em que o mundo vivia quando escreveu a peça de teatro que veio a dar origem ao filme. Na altura em que esta obra cinematográfica viu a luz do dia ainda se lambiam as feridas da II Guerra Mundial e o medo duma hecatombe nuclear ensombrava seriamente a vida das populações da Europa.

Depois ainda havia que digerir os traumas da guerra com o seu cortejo impressionante de mortos, feridos, destruição e desorganização social, assim como o escândalo do holocausto nazi, bem como a postura comprometedora de boa parte das igrejas em toda essa loucura. Persistia uma sensação geral de que tudo isso fora uma espécie de aviso para a verdade embaraçosa, de que o ser humano seria o responsável pelo apocalipse final que estava para chegar.

O enredo da estória centra-se no medo da morte. Regressado das cruzadas o cavaleiro tem que lidar com a simbolização da morte através duma personagem cujos encontros não consegue evitar e a quem desafia para uma partida de xadrez, no intuito de conseguir ganhar tempo, de modo a tentar descortinar o sentido da vida e preparar-se para o desenlace final.

Sendo a religião a chave para o entendimento do mundo e da vida na época, a verdade é que ela vai sendo fortemente questionada através das figuras que a representam, como aqueles que através do teatro falam em nome de Deus e recorrem ao terror do inferno para submeter o povo aos ditames de uma Igreja decadente e oportunista que associa a epidemia à ira divina. Aliás, quem mais fala em nome de Deus é uma personagem cujo passatempo favorito é furtar joias dos mortos, e que dez anos antes tinha convencido o cavaleiro a partir para as cruzadas.

O isolamento social a que temos estado obrigados, primeiro moralmente e depois por força de lei, a prolongar-se demasiado vai provocar uma série de perturbações emocionais e familiares que não são de desprezar, pois a natureza dos humanos é gregária. Por outro lado já há notícia de um aumento vertiginoso de divórcios na região chinesa mais castigada pelo Covid-19. Mas os efeitos futuros do ponto de vista das relações sociais pós-quarentena permanecem uma incógnita, tanto quanto a evolução concreta desta nova doença.

O facto é que a experiência da pandemia tanto pode potenciar uma maior coesão relacional e solidariedade, na esteira de alguns sinais que se vão já percebendo, como o seu contrário, na sequência do egoísmo que se tem verificado aqui e ali, e que levou ao açambarcamento inexplicável de produtos alimentares e de higiene, ou às notícias falsas difundidas nas redes sociais no sentido de provocar o pânico generalizado, como, por exemplo, inventar um número alucinante de mortos que estariam a ser propositadamente escondidos da comunicação social e das populações.

Relativamente à presente pandemia diz Joaquim Franco: “Solta-se a ameaça do mitológico caos, que remete para a matéria primordial, como se a ordem das coisas implicasse a coexistência com uma desordem originária e simultaneamente restauradora.”

Assim, o Sétimo Selo na sua actual versão pandémica seria, na cabeça dos mais aflitos, uma espécie de instauração do caos, na linha apocalíptica do fim do mundo, e presta-se à necessidade de encontrar um sentido e uma leitura hermenêutica. Mas é apenas mais um evento dos muitos em que a História tem sido fértil, desde o bug do milénio às previsões do fim do mundo por Nostradamus (1999) ou do calendário Maya (2012), passando por toda a espécie de epidemias.

Porém, os cristãos deveriam ter em conta que Jesus Cristo apenas se referiu aos últimos tempos em privado, e em resposta a uma pergunta dos discípulos. Não o fez por sua iniciativa: “E, estando assentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a ele os seus discípulos em particular, dizendo: Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?” (Mateus 24:3). É curioso, até porque revela que ele tinha mais que fazer e o foco da sua mensagem nunca foi esse.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-03-25-o-setimo-selo-0-2/

Opinião: A vez do teletrabalho? por José Brissos-Lino

A vez do teletrabalho?

Há males que vêm por bem. Talvez esta seja uma grande oportunidade para encarar a sério a questão do teletrabalho, nas profissões e funções que o permitam. E depois há imensas vantagens para todos, mas, entre outras medidas, isso passa por baixar significativamente os custos do acesso à internet para todos os cidadãos

Diríamos que estão criadas as condições para se repensar de vez a opção do teletrabalho, em determinadas profissões ou ocupações que não exijam presença física permanente e permitam produzir trabalho via internet, como sejam por exemplo, jornalismo, tradução, paginação e revisão de provas, design gráfico, programação, investigação, serviços jurídicos, ensino à distância, escrita de conteúdos, branding, copywriting, gestão de redes sociais e uma parafernália de trabalho administrativo.

Segundo estudos desenvolvidos por universidades dos EUA e Austrália, dentre as vantagens do trabalho remoto estão a redução dos custos das instalações, menos dias descontados por licença e doença, redução das taxas de rotatividade de funcionários, redução dos custos com os trabalhadores e sobretudo o aumento significativo da produtividade dos funcionários.

Vejamos. Inventou-se o sistema homebanking para aliviar a pressão sobre os balcões bancários, onde os clientes só se dirigem agora para fazer depósitos, negociar créditos e pouco mais. As relações comerciais das grandes empresas de serviços com os clientes, como fornecimento de telecomunicações, energia eléctrica, água, gás canalizado, refeições confeccionadas, marcação de viagens e até de trabalhos gráficos podem fazer-se agora exclusivamente online ou por telefone, assim como a promoção comercial.

O correio tradicional já foi substituído em grande parte pelo formato electrónico (e-mail). O comércio online prospera e o cliente recebe a sua encomenda à porta. Os sucessivos programas governamentais implementados pelo Simplex também desmaterializaram grande parte da papelada, permitindo ao cidadão tratar de inúmeras necessidades oficiais por via electrónica, desde obter diversas certidões a tratar da renovação de documentos pessoais. Os advogados e demais agentes judiciários utilizam cada vez mais o e-mail para troca de documentos e o sistema online do Ministério da Justiça (Citius) para consulta de processos e outros actos processuais. Os jornais e as revistas estão a transitar cada vez mais para o formato online, assim como as publicações científicas.

Os benefícios desta organização do trabalho são imensos. Desde logo facilitam a vida a toda a gente. Passa a haver menos trânsito, logo, baixa a poluição atmosférica nas cidades. Economiza-se em combustível, desgaste de veículos, portagens, refeições fora de casa e outras despesas de deslocação. Evita-se a perda de tempo inerente às viagens diárias para o local de trabalho em transportes públicos, que podem durar várias horas devido aos sucessivos transportes utilizados na ida e regresso a casa. Permite uma melhor gestão do tempo pessoal e familiar, além da redução do stresse que é fonte de muitos distúrbios emocionais e gastos com medicação ou outros cuidados de saúde.

A revista Fortune faz eco dum artigo publicado na American Sociological Review em 2016, onde se conclui que políticas de trabalho mais flexíveis que dão aos funcionários mais controle sobre quando, onde e como eles funcionam, não prejudicam o desempenho dos negócios. Pelo contrário, tais políticas podem produzir menos stresse e mais satisfação (“Does a Flexibility/Support Organizational Initiative Improve High-Tech Employees’ Well-Being? Evidence from the Work, Family, and Health Network”).

Se é assim tão vantajoso por que razão as empresas e instituições não optam a sério pelo teletrabalho? Porque não o inseriram na sua estratégia de gestão? Talvez porque os nossos empresários não entenderam as suas vantagens. A verdade é que as empresas colocaram há muito grande parte dos seus serviços de atendimento ao público no sistema de callcenter, libertando assim recursos humanos e físicos, mas custam a compreender que nem todo o trabalho é físico e por isso não tem que ser prestado presencialmente.

Por exemplo, um país como o Brasil prevê um sistema legal em que um funcionário judicial, que trabalhe directamente com um magistrado, pode pedir para cumprir funções no estrangeiro (desde que esteja a estudar, o que pressupõe a sua valorização pessoal e profissional) cumprindo as suas funções à distância, através da internet e mantendo o seu salário.

Em termos de fé cristã, é curioso pensar que Jesus Cristo por vezes curou pessoas à distância e que os apóstolos quando não podiam ir pessoalmente às comunidades cristãs escreviam-lhes cartas com ensino e orientações. Os chineses (sim, também têm coisas boas!) dizem, e com inteira razão, que uma crise é sempre uma oportunidade. Então aprendamos com a crise e aproveitemos a oportunidade.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-03-18-a-vez-do-teletrabalho/?fbclid=IwAR1j-8bSSt2WAZ9kpver5Q3tQqu7l8fw8jpdZLK8Y6cXwAoMuv5rUMa6Pj8

Opinião: Coronavírus? E os gafanhotos, pá? por José Brissos-Lino

Coronavírus? E os gafanhotos, pá?

Anda tudo concentrado nesta quase pandemia do coronavírus que pouca atenção se presta à praga de gafanhotos que começou na África Oriental e se propagou à China, ameaçando com uma crise alimentar sem precedentes

A região do Corno de África está a ser devastada por uma praga de gafanhotos fazendo com que mais de dez milhões de pessoas passem fome. A agência das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) já classificou esta como a pior crise dos últimos 25 anos, e por isso solicitou um financiamento urgente na ordem dos 76 milhões de dólares a fim de exterminar os insectos, visto que se reproduzem de forma alucinante em ambientes húmidos e quentes.

As explicações científicas que existem para esta praga terão nas alterações climáticas a sua origem. Segundo o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres: “O aumento da temperatura dos oceanos favorece a criação de furacões, que atraíram os insectos a África desde o Médio Oriente”. A região enfrentou chuvas intensas em Dezembro passado o que atraiu as nuvens de gafanhotos, que já antes tinham provocado estragos consideráveis no Paquistão (que declarou emergência nacional), Iémen e Omã, antes de chegarem a África através do Mar Vermelho.

O vice-diretor do gabinete de emergências da FAO, Daniele Donati, explica: “Essencialmente, os gafanhotos precisam de areia húmida para deitarem os ovos e estas condições foram criadas por três ciclos consecutivos na península arábica, o que é algo excepcional. Estará relacionado com as mudanças climáticas? Não posso dizer ao certo. As condições meteorológicas fazem parte das variáveis”.

O efeito visual tem ressonâncias bíblicas. De repente o céu fica escuro repleto de nuvens imensas de gafanhotos esfomeados. Uma nuvem de apenas um quilómetro quadrado de extensão pode albergar 40 a 80 milhões de insectos, que necessitam de uma quantidade de alimento correspondente às necessidades de alimentação de 35 mil pessoas por dia.

A maior nuvem registada até agora pode comparar-se em extensão a um país inteiro – o Luxemburgo – que tem 2400 quilómetros quadrados. Foi vista no Quénia, e os seus cerca de 200 mil milhões de insectos podem deixar sem alimento 84 milhões de pessoas, mais do que a população inteira da Alemanha.

Estas nuvens compostas por milhões de gafanhotos, que podem ter até oito centímetros, conseguem percorrer até 150 quilómetros por dia e estão a afectar vastas regiões do continente africano que incluem países como Quénia, Somália, Etiópia, Djibouti, Sudão, Sudão do Sul, Uganda e Tanzânia, ameaçando toda a África. O combate à praga começou na Somália, país que declarou emergência nacional tendo alertado as regiões vizinhas. Estas tempestades de gafanhotos, que são considerados os insectos mais vorazes do planeta, dificilmente se combatem eficazmente a não ser com pesticidas. Avionetas e helicópteros estão a pulverizar o território com pesticida, mas este recurso torna-se impraticável onde não chegam redes de telemóvel e as equipas de terra não conseguem comunicar as coordenadas ao pessoal de voo, como em várias regiões do Quénia, onde já não se via uma praga como esta há 70 anos. O que resta aos camponeses africanos pobres fazer é apenas baterem panelas para tentar afugentar os insectos para longe com o ruído agudo.

Segundo o Daily Star, a devastação seria uma das maiores já provocadas por biliões de gafanhotos nas últimas décadas em África, pois atacam todo o tipo de plantações não deixando nada pelo caminho. Além do mais trata-se duma corrida contra o tempo pois as chuvas previstas para este mês de Março terão como consequência o crescimento da vegetação, o que, segundo especialistas, poderá potenciar a praga aumentando-a 500 vezes até Junho, quando se prevê que chegue o tempo mais seco que ajudará a controlar o fenómeno, caso contrário os gafanhotos podem permanecer nas áreas afectadas durante vários anos. A China puxou pela criatividade e preparou um exército de 100 mil patos para atacar a praga na província de Xinjiang. Cada pato pode comer 400 gafanhotos por dia.

Enquanto as televisões nos massacram todos os dias e a todas as horas com o Coronavírus, está a suceder noutras paragens um fenómeno que pode vir a ter consequências devastadoras para a agricultura e as reservas alimentares no mundo, provocando a morte a muitíssimo mais pessoas à fome do que por doença provocada por qualquer vírus.

Já está disponível o nº2 da YOGA DHARMA – Revista de Estudos Sobre o Yoga Antigo e Moderno

Já está disponível o nº2 da YOGA DHARMA

Revista de Estudos Sobre o Yoga Antigo e Moderno

ARTIGOS DO Nº2

Isto é água, isto é yoga: o princípio do cuidado de si entre Patañjali e David Foster Wallace
Leonardo Stockler.
A ioga de Paramahansa Yogananda no pensamento filosófico e espiritualista de Maria Helena Charula de Sousa
Paulo Hayes.
A relação entre o Yoga e o Ayurveda – uma síntese moderna?
Mariana Seabra.

Seminário Permanente de Estudos Islâmicos

O Seminário Permanente de Estudos Islâmicos, organizado pela Linha de Investigação Herança e Espiritualidade Islâmica, visa estudar, divulgar e debater temas religiosos, históricos e culturais do Islão através de palestras, conferências, colóquios e debates que contam com a participação de alguns entre os maiores especialistas em Portugal e a nível internacional, ao mesmo tempo dando espaço a jovens investigadores.

A programação decorre regularmente no ano letivo de 2019-2020, culminando com o encontro internacional «Islão e Europa» em outubro de 2020, para depois continuar no ano letivo seguinte.

A coordenação é do professor Fabrizio Boscaglia, coordenador da Linha de Investigação Herança e Espiritualidade Islâmica, na Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

Parcerias: Biblioteca Nacional de Portugal, Fundação Islâmica de Palmela.

Local: A.1.5 (* no Auditório José Araújo, ** na BNP)

Programa:

16 dez. ‘19 (18h)
Cristianismo e Islão: as possibilidades do diálogo – Pe. Cerqueira Gonçalves, Fabrizio Boscaglia

13 fev. ‘20 (18h)
O Livro da Escada de Muhammad: confluências e narrativa religiosas – Fernanda Mendes (IF-FLUP)

6 mar. ‘20 (18h)
Os Estudos Árabes e Islâmicos em Portugal – Mostafa Zekri (ISMAT)

2 abr. ‘20 (18h)
Muçulmanos em Portugal na Idade Média – Filomena Barros (CIDHEUS)

7 mai. ‘20 (15h – 19h)
Cultura luso-árabe e luso-islâmica** – Colóquio na Biblioteca Nacional de Portugal (com Adalberto Alves, Adel Sidarus, Fabrizio Boscaglia, Hugo Maia, Maria João Cantinho, Natália Nunes)

20 mai. ‘20 (18h)
Imaginários do al-Andalus: circulações, traduções, transposições – Rachel Scott, AbdoolKarim Vakil, Julian Weiss – (King’s College London, Language Acts & Worldmaking Project; algumas comunicações em inglês)

4 jun. ‘20 (18h)
Filosofia Islâmica: A Cidade Virtuosa de Al-Farabi – Catarina Belo (AUC)

2 jul. ‘20 (18h)
Moçárabes: uma identidade religiosa e cultural em al-Andalus – António Rei (IEM-UNL)

26 out. ‘20
Islão e Europa* – Encontro Internacional (participação confirmada: Viriato Soromenho-Marques, CFUL; algumas comunicações em inglês)

Eventos abertos ao público em geral. Entrada gratuita.

Cartaz e info no Facebook e na imagem abaixo.

Opinião: Terrapatetismo por José Brissos-Lino

Terrapatetismo

Os terraplanistas estão ao nível dos amantes dos extraterrestres. As pessoas têm direito às suas alucinações mas, por favor, sejam higiénicos, tirem a Bíblia e a religião do assunto

O Texas recebeu a 3ª. Flat Earth International Conference (FEIC) em Novembro do ano passado, na cidade de Dallas. Todas as palestras e tópicos abordados se relacionavam com a teoria de que a Terra é plana. Nelas se defendia a ideia de que o espaço sideral é falso ou inexistente e se esboçava uma interpretação do planeta através de textos bíblicos, à mistura com acusações de inconsistência à NASA, subscrevendo a teoria da conspiração, pois a agência espacial estaria apostada em ocultar que o planeta não é esférico mas plano. Como se isso não bastasse, as temáticas passavam ainda por tentar explicar o terraplanismo segundo métodos “científicos” com recurso a textos bíblicos.

A VISÃO adiantava dez “provas” da planicidade da Terra defendidas pelos terraplanistas:

1 – O horizonte parece sempre plano, menos nas fotografias da NASA;

2 – Para ver o horizonte, não precisamos de olhar para baixo – e se a Terra fosse redonda precisávamos;

3- Se a Terra rodasse a grande velocidade pelo espaço, a água não se manteria quieta;

4 – Se a Terra fosse um globo, os rios precisavam de correr para cima para desaguar;

5 – Se a Terra fosse redonda, os helicópteros poderiam manter-se quietos no ar e esperar que o destino viesse até eles;

6 – Se a Terra fosse redonda, os carris dos comboios não podiam ser a direito;

7 – Se a Terra fosse redonda, os pilotos teriam de ajustar as trajetórias dos aviões constantemente, para não entrarem no espaço;

8 – Se houvesse biliões de estrelas no céu, o céu estaria sempre cheio de luz;

9 – Se a Terra rodasse a altas velocidades, os aviões nunca chegariam aos seus destinos graças aos ventos de milhares de quilómetros por hora;

10 – Se a Terra rodasse, as balas disparadas para o ar deveriam cair centenas de quilómetros na direção oposta à que a terra roda – e não caem.

Este tipo de argumentação é tão boçal e risível que seria alvo de chacota universal, se não fosse triste e indicador da menoridade mental dos seus promotores. De científico não tem nada, mas de infantil tem muito. A paranoia chega ao ponto de acusar não apenas a NASA mas os governos de todo o mundo de esconderem a “verdade” e insistirem no mito da esfericidade terráquea, com a motivação de “esconder Deus”. Mas não me dirão porque razão peregrina Deus não poderá coexistir com um planeta redondo, mas apenas plano?…

A ignorância das boas práticas da hermenêutica dos textos antigos, e em particular da hermenêutica bíblica, leva esta gente a fazer uma leitura literal dos escritos sagrados, descontextualizando-os, daí resultando necessariamente uma subversão de sentido. Antes de dizerem asneira deviam começar por entender qual era a cosmografia dos hebreus, para não falar de outros povos antigos. O problema é que os literalistas nem sequer têm condições para proceder a leituras ao pé da letra, visto normalmente desconhecerem as línguas em que os textos foram escritos, nem as culturas da época.

Nunca o terraplanismo foi predominante na fé cristã. Tomás de Aquino fala da esfericidade da Terra na sua Suma Teológica. A teoria terraplanista floresce em pessoas que não possuem conhecimentos científicos nem teológicos. Porque os defensores da Terra plana não entendem nem a Ciência nem a Bíblia é que querem voltar atrás dois mil e seiscentos anos, regressando ao modelo de Tales de Mileto (625-546 a.C.) que a idealizou assim. Já agora podiam esquecer a electricidade, os confortos da vida moderna, voltar a lavar a roupa à mão e a andar de burro. É que a concepção da Terra esférica de Pitágoras já vem do séc. VI a. C. e tem permanecido. E já agora vamos esquecer também a cientista Hipátia de Alexandria (séc. IV), e a circum-navegação de Fernão de Magalhães (séc. XVI).

A esdrúxula teoria não vale sequer a recente morte do temerário “Mad” Mike Hughes que construiu um foguete lançado com ele no deserto da Califórnia, para provar a planicidade do planeta. Só que a coisa correu mal e ele despenhou-se, tendo falecido na tentativa.

Mas não sejamos ingénuos. A teoria do planeta plano é intencional e motivada pela ideia de que a humanidade seria um conjunto de povos dispersos e separados, facilitando as tendências racistas e xenófobas, e uma geografia que afasta (sendo a Terra plana) em vez de aproximar (sendo redonda), combatendo assim ao princípio da casa comum (daí o desprezo pelo ambiente, os ecossistemas e os equilíbrios ecológicos).

Já nos anos cinquenta aprendíamos na escola primária que o planeta é esférico através dum exercício simples de observação ao ver um navio a aproximar-se ao cais desde a linha do horizonte. Depois vieram os registos fotográficos e videográficos obtidos por sondas espaciais e foguetões tripulados. Só não vê quem não quer: o nosso planeta é redondo, azul e é lindo. As pessoas têm direito às suas alucinações mas, por favor, sejam higiénicos, tirem a Bíblia e a religião do assunto.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-03-04-terrapatetismo/

Religiões, ecologia e natureza por Fabrício Veliq

Religiões, ecologia e natureza

As religiões têm um papel fundamental no ensino de seus fiéis para o cuidado da natureza

No dia 9 de fevereiro, cientistas brasileiros registraram a temperatura de 20,75°C na Antártida

No dia 9 de fevereiro, cientistas brasileiros registraram a temperatura de 20,75°C na Antártida (Reuters)

Fabrício Veliq*

Falar sobre a questão ecológica é um imperativo de nossos dias. Por mais que haja quem afirme loucamente não haver aquecimento global, que isso seria só mais uma fase como as diversas pelas quais a Terra já passou – como a Era do Gelo – e tantas outras bobagens que lemos no dia a dia, é fácil saber que algo errado está acontecendo com o planeta. Basta se atentar às pesquisas científicas sobre o clima ou até mesmo a eventos notórios como as queimadas na Austrália no final do ano passado e os 20 graus que acometeram a Antártida recentemente.

O aquecimento global tem sido fruto da ação humana que, sob o lema de “progresso”, destrói a natureza. Por exemplo, continuamos a lançar inúmeros poluentes no ar, aumentando o efeito estufa que gera o degelo das calotas polares. Daqui a algum tempo, isso causará o aumento do nível do mar, matando diversas pessoas e acabando com diversos países.

Não é mais possível fechar os olhos para isso. Diversos setores da sociedade estão claros e cônscios de suas responsabilidades frente à crise ecológica que o século 21 enfrenta. A religião, como um aspecto importante da sociedade, não pode ficar de fora. Ela também precisa pensar e repensar o seu ensino sobre o meio ambiente. Principalmente o cristianismo, que ao longo dos séculos pregou e incentivou a exploração da natureza, interpretando erroneamente o versículo de Gênesis – que dizia para sujeitar a terra e dominar sobre os animais – sob o princípio do domínio predatório ao invés da “mordomia” sobre a qual o texto fala. Essa mancha na história, reconhecida já por muitos, deve também motivar novas teologias ecológicas, que assumam seu papel e motivem ações efetivas de combate à crise ecológica que vivemos.

As diversas religiões mundiais também devem, da mesma forma, tomar consciência do grande papel que desenvolvem na sociedade. Elas são chamadas a assumir a responsabilidade de transformação da mentalidade de seus fieis para que se importem com a natureza. A maioria delas, em seu cerne, consideram a natureza importante e necessária à humanidade, o que consta em seus textos sagrados. Essa importância também é dada nas religiões de matriz africana e indígena. Nelas, há diversos os rituais que necessitam da natureza e a têm como um dos elementos mais importantes nas oferendas e culto às divindades. Importa perceber que várias religiões têm despertado para a necessidade de se importar com a natureza, reconhecendo nela algo com valor em si mesmo e que, portanto, não deve ser explorado.

Nesse linha, aconteceu este ano, em Lisboa, o 3º Congresso Lusófono de Ciências da Religião, com o tema “Religião, ecologia e natureza”. Em uma mesma mesa, representantes de um amplo espectro religioso abordaram a temática ecológica, a visão que cada religião tem acerca da natureza e como seria possível fazer algo efetivo para a transformação da sociedade no que tange a esse assunto.

O foco foi procurar não somente uma reflexão teórica, mas também incluir ações de ordem prática. Isso se percebia em diversos relatos, como a construção de templos ecologicamente corretos por comunidades hindus e muçulmanas em Portugal, ou ainda a mudança nas oferendas dos rituais nos cultos a Iemanjá, feitos na Bahia, de maneira que não poluam os mares.

Esses pequenos exemplos revelaram algo muito importante: as religiões têm um papel fundamental na educação de seus fieis no cuidado da natureza e, por isso mesmo, precisam assumir tal responsabilidade. Em outras palavras, não devem se abster de falar sobre a crise ecológica e propor, por meio de ações concretas, uma nova forma de viver em sociedade, que respeite os ciclos naturais, de maneira que a Terra continue sendo nossa casa comum.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia e Licenciado em Matemática (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com

https://domtotal.com/noticia/1424266/2020/02/religioes-ecologia-e-natureza/?fbclid=IwAR035c5ZHhcFViMIDLaEsg-XeVtAop7TxrMsAgdccJ3ikHXPTtQYn42okWM

Opinião: Afinal, a mãe do rock’n’roll era mulher, negra e cristã por José Brissos-Lino

Afinal, a mãe do rock’n’roll era mulher, negra e cristã

Antes de Elvis, Little Richard, Johnny Cash, Carl Perkins, Chuck Berry ou Jerry Lee Lewis ela já era. A verdadeira mãe do rock’n’roll chamava-se Rosetta Tharpe e era negra, mulher e cristã

Rosetta Tharpe (1915-1973) surpreendeu o mundo artístico no ano de 1937, com o seu primeiro disco, “Rock Me”, onde evidenciava uma voz poderosa, a que juntou uma grande presença em palco e um estilo único na guitarra, reunindo o gospel e o popular. Mulher, negra e cristã comprometida, a cantora e instrumentista americana tornou-se um ícone nos EUA, influenciando fortemente músicos como Elvis Presley, mas só foi homenageada décadas depois ao integrar o Hall da Fama do Rock ‘n’ Roll.

Rosetta Tharpe nasceu em Cotton Plant, Arkansas, sul dos Estados Unidos, entre plantações de algodão, onde os pais trabalhavam e a igreja protestante onde a mãe congregava. Parece ter herdado do pai o gosto pelo canto e da mãe a espiritualidade. Com seis anos a família mudou-se para Chicago, onde se destacou na música religiosa a cantar e tocar piano e guitarra. Convidada pela indústria fonográfica gravou o primeiro disco fundindo o gospel e a música popular americana, apresentando-se sempre como “irmã” (sister), uma espécie de marca pessoal. Não tardou que esta “ousadia” provocasse controvérsia no campo religioso.

A artista alcançou grande popularidade nas décadas de 30 e 40, graças à sua autenticidade e à originalidade de associar as letras espirituais do gospel à guitarra elétrica e ao andamento rítmico do rock, que ainda era incipiente naquela altura, tornando-se assim precursora do rock’n’roll. Rosetta foi a primeira grande estrela da música gospel e entre os primeiros músicos cristãos a apelar ao rhythm and blues e rock’n’roll, sendo mais tarde considerada “a madrinha do rock’n’roll”.

Em 2011 Mick Csáky realizou o documentário “The Godmother of Rock & Roll: Sister Rosetta Tharpe”, mas já em 2007 Gayle Wald publicara a biografia da artista “Shout, Sister, Shout!” O tema “Strange Things Happening Every Day”, gravada em 1944, foi a primeira música gospel no top 10 da Billboard. Robert Plant, vocalista do Led Zeppelin, gravaria mais tarde e em sua homenagem o tema: “Sister Rosetta Goes Before Us”. A cantora enfrentou a política segregacionista na década de 1950, quando fez uma tourné com os The Jordanaires, grupo de brancos que viriam a formar a banda de Elvis Presley anos depois.

O Rock‘n’Roll Hall of Fame, Cleveland, considera que Rosetta foi “a primeira heroína da guitarra do rock’n’roll”. Terá sido essa mesma guitarra que chamou a atenção do jovem Elvis Presley, ícone do rock que tinha apenas dois anos quando Rosetta lançava o primeiro disco. O instituto tem por hábito homenagear músicos importantes da história deste género musical, depois de consulta ao público, que escolhe cinco nomes, a que o instituto acrescenta mais um, a distinguir com a atribuição de prémio especial de reconhecimento pelo pioneirismo e influência. Sister Rosetta Tharpe foi a homenageada em 2018, devido ao seu papel histórico e vanguardista, um prémio excepcional que já distinguiu nomes como Louis Armstrong, Nat King Cole e Billie Holiday, entre outros.

Em 1968 Rosetta entrou em depressão logo depois do falecimento da mãe, tendo mais tarde contraído diabetes, ocasião em que a sua saúde começou a piorar seriamente, pois sofreu um derrame e teve de amputar uma perna. Em 1973 sofreu novo derrame o que a levou à morte, em Filadélfia.

Duas coisas ressaltam essencialmente do exemplo de vida desta mulher dos anos trinta. A primeira é que ela não desistiu da sua criatividade e pulsão empreendedora pelo facto de ser mulher, numa sociedade machista, de ser negra, num país que segregava os negros, e de ser pobre numa estrutura económica capitalista. A sua capacidade de inovação e de correr riscos estéticos não se deteve sequer pelo facto de naquele tempo não ser normal uma mulher tocar guitarra, o que fazia de forma exímia. Não dispunha de telefone, nem de internet, computadores ou redes sociais, e a tecnologia de gravação era incipiente, mas nada disso a inibiu de se lançar na criação dum novo género musical, nem de influenciar e inspirar uma geração inteira.

A segunda é que não deixou que o seu enquadramento religioso a impedisse de se afirmar no mundo artístico e de ter contribuído de modo decisivo para as artes, compreendendo que a fé cristã está intimamente associada à música e à alegria, muito embora nem todos pensem assim.

Sister Rosetta Tharpe era uma força da natureza, um rio bravo que não foi possível conter nas próprias margens e veio a inundar de criatividade e arte largos campos por cultivar.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-02-26-afinal-a-mae-do-rocknroll-era-mulher-negra-e-crista/

Opinião:E não é que os comunistas lutaram pela liberdade religiosa? por José Brissos-Lino

E não é que os comunistas lutaram pela liberdade religiosa?

Preservar a memória histórica é um acto de sabedoria dos povos. Alguns sectores religiosos brasileiros que hoje odeiam os comunistas podem-lhes agradecer a sua decisiva contribuição para a Constituição de 1946, que garantiu a liberdade religiosa no país

As eleições para a Assembleia Constituinte que se seguiu ao Estado Novo do populista Getúlio Vargas, destinavam-se a prover uma constituição democrática para o país. O Partido Comunista do Brasil (PCB) fez eleger então o maior grupo parlamentar da sua história, composto por 15 deputados federais e 1 senador da República (Luís Carlos Prestes). Um dos eleitos pelo Estado de São Paulo era o baiano Jorge Amado, que se havia de vir a revelar um dos maiores ficcionistas da literatura em língua portuguesa de todos os tempos, e o brasileiro mais traduzido e adaptado ao cinema, teatro e televisão.

Embora o Estado tivesse sido definido como laico logo no início da república, a verdade é que qualquer manifestação religiosa fora do âmbito do catolicismo-romano era frequentemente reprimido e alvo de violência policial. O jovem Jorge Leal Amado de Faria terá assistido a esta afronta enquanto frequentador de cultos afro-brasileiros. Uma vez eleito deputado propôs a emenda nº 3218 de Liberdade de Culto Religioso, não sem antes ter conseguido apoio de colegas de outros partidos como Luiz Viana Filho, também baiano e escritor como ele, e o pernambucano Gilberto Freire. Essa emenda foi vertida para o artigo 141, parágrafo 7º da nova lei fundamental, garantindo assim protecção do Estado às minorias religiosas.

Nas suas memórias (“Navegação de Cabotagem”), Jorge Amado recorda as palavras emocionadas que proferiu após a aprovação da emenda: “Essa a minha contribuição para a Constituição Democrática de 1946. Transformada em artigo de lei a emenda funcionou, a perseguição aos protestantes, a violação de seus templos, das tendas espíritas, a violência contra o candomblé e a umbanda tornaram-se coisas do passado. Para algo serviu minha eleição, a pena de cadeia que cumpri no Palácio Tiradentes”.

Há algumas décadas que diversos líderes religiosos dos sectores evangélicos foram sendo paulatinamente atraídos pela vida política, primeiro num namoro com o poder e depois tornando-se eles mesmos candidatos a cargos electivos, sujeitando-se assim a campanhas eleitorais para vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal e governador de estado. Hoje largas faixas desse sector religioso anseiam mesmo vir a eleger um presidente da república evangélico, num futuro próximo. O pastor Marco Feliciano ofereceu-se mesmo para ocupar a vice-presidência de Bolsonaro, num exercício claro para tentar ganhar posição e vir a suceder-lhe. Para isso desenvolveu uma campanha contra o actual vice. A pretexto da defesa da sua fé – tarefa cuja necessidade é incompreensível em regime democrático – o que parece é que estes líderes procuram alcançar benesses a favor das suas igrejas.

Mas esta sedução pelo poder dá origem a piores consequências, como o actual clima de perseguição aos cultos de origem africana que se verifica no país, promovido por extremistas que se identificam como evangélicos, fazendo lembrar o Brasil dos anos trinta, quando predominavam as ideias integralistas, de cariz neofascista, representadas pela Ação Integralista Brasileira, do jornalista Plínio Salgado.

Como se sabe Getúlio Vargas era admirador de Hitler, que apelidava de “grande e bom amigo”. Apenas no ano de 1942 o Brasil se viria a juntar aos Aliados e declararia guerra à Alemanha nazi. A verdade é que os integralistas brasileiros parecem ser os reais inspiradores da programática do partido bolsonarista – Aliança pelo Brasil (B38) – que sectores evangélicos estão a ajudar a criar.

É claro que, no presente clima de guerrilha ideológica e de profundo sectarismo, a massa de apoio ao actual governo preferia nem sequer saber a verdade, e muito menos ouvir falar deste facto histórico. Mas o passado não se pode mudar e por mais que lhes possa custar, protestantes, evangélicos, espíritas, umbandistas e muitos outros bem podem agradecer não só a Deus ou à transcendência a sua liberdade religiosa e de culto, mas muito concretamente também aos parlamentares constituintes de 1946, os quais, impulsionados pelos comunistas, lhes abriram as portas para o exercício pleno da sua fé.

Os cristãos acreditam que Deus usa quem quer. Pois então agradeçam ao Jorge Amado e saibam que Deus usou o Partido Comunista do Brasil para garantir a sua liberdade de crença sob a protecção do Estado, contribuindo assim para que a grande nação sul-americana fosse construída de forma mais plural, laica e democrática, graças aos que lutaram e negociaram o texto daquela lei.

Mas imagino que muitos preferiam nem sequer saber disso…

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-02-19-e-nao-e-que-os-comunistas-lutaram-pela-liberdade-religiosa/

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