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Opinião: Um poeta na Capela Sistina, por José Brissos-Lino

Um poeta na Capela Sistina

Marcos Borga (MB)

O papa Francisco acaba de colocar o colégio cardinalício em risco, ao incluir nele um poeta. Devia saber que os poetas são gente perigosa em qualquer parte, mesmo entre cardeais… O tempo o dirá

José Tolentino de Mendonça, o filho do pescador do Machico, chegou longe na estrutura romana. Ele é um homem europeu mas periférico, ilhéu do Atlântico com passagem pelas Áfricas mas poeta do mundo, filho de gente pobre mas intelectualmente rico, pensador e filósofo, sem deixar de ser um homem do povo, amigo dos livros – sendo arquivista e bibliotecário da Santa Sé – é ele mesmo um livro onde Deus escreve palavras arrebatadoras, humilde como poucos mas espiritualmente notável.

Tolentino faz a ponte entre a Fé e a Cultura, entre a vida quotidiana e a espiritualidade, entre a razão e a emoção, sempre em busca do homem completo iluminado por Deus. E fá-lo com uma humildade tocante que não deixa ninguém indiferente. Mostrou em Lisboa que se pode ser um grande pastor tendo apenas uma pequena paróquia a cargo.

Ao respeitar o ser humano que não tem fé religiosa, fazendo uso da sua capacidade de escuta, e com ele dialogando, Tolentino demonstra que um cristão pode ser ainda hoje alguém parecido com o Nazareno, e que a verdadeira fé não coloca à distância os que não pensam nem sentem como ele. Comprova assim que mais vale construir pontes do que muros, e que a luta espiritual não é “contra a carne e o sangue” (Efésios 6:12), no dizer de S. Paulo, pelo que a genuína fé cristã não precisa de cavar trincheiras contra os “inimigos”, nem de promover cruzadas contra os novos “infiéis”.

De resto, a Grande Comissão não passa pela defesa da Fé ou por atacar quem não a tem ou a preserva de forma diferente: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém” (Mateus 28:19,20). Como se vê o mandato limita-se a discipular, baptizar e ensinar, mas nunca à força.

O novo purpurado compreende que o Evangelho não é uma imposição mas uma proposição, segundo a missão entregue por Jesus Cristo aos discípulos: “E se em qualquer cidade vos não receberem, saindo vós dali, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles” (Lucas 9:5). Confia firmemente no livre arbítrio e no princípio do binómio liberdade/responsabilidade inscrito na natureza humana.

Tenhamos presente, enquanto realidade histórica, que são os poetas que mudam o mundo, pois como Gedeão escreveu e Manuel Freire cantou: “o sonho comanda a vida” e “sempre que o homem sonha o mundo pula e avança”.

Homero deu corpo a uma narrativa fundacional dos antigos Gregos enquanto povo, Vergílio fez o mesmo com os latinos, Shakespeare marcou o seu tempo e as artes para sempre, Salomão ficou na história hebraica e universal com o seu poema de amor à Sulamita, Goethe esculpiu magistralmente o grande drama da existência humana no seu Fausto (1808). Rimbaud ainda hoje impressiona na simbolização da sua busca espiritual, antes de morrer muito jovem, Camões ousou organizar a alma portuguesa desde os tempos do Império, e Federico García Lorca, cuja obra e memória sobreviveu ao seu assassinato pelos franquistas, inspirou gerações na resistência à ditadura espanhola.

Segundo Maurice Blanchot, o acto poético faz com que a linguagem deixe de ser instrumento e revele a sua essência, que é a de “fundar um mundo” Isto é, a mesma essência do pensamento, que funda as coisas e a realidade humana.

Em qualquer caso, Tolentino fará a diferença no colégio cardinalício. “És a Poesia!”, ter-lhe-á dito o papa momentos antes da imposição do barrete cardinalício. Qual menino entre os doutores será um poeta entre cardeais mais velhos, sem deixar de ser também um doutor das palavras e da Palavra, pois foi nestas que encontrou o sentido da sua vida.

A acreditar no que disse Ludwig Wittgenstein: “Os limites da minha linguagem significam os limites do meu próprio mundo” (Tratado Lógico-Filosófico, 1921), então Tolentino é uma figura universal. E se “a primeira invenção da palavra não veio das necessidades, mas sim das paixões”, como defendeu Jean-Jacques Rousseau (Sobre a Origem das Línguas, 1781), pode dizer-se que o novo cardeal português é um homem de grandes paixões.

Talvez de paixões aparentemente contidas, mas paixões.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-10-16-Um-poeta-na-Capela-Sistina

Opinião: A desvairada parvoíce do politicamente correcto, por José Brissos-Lino

A desvairada parvoíce do politicamente correcto

Tom Flathers

Já não há pachorra para isto. A ideologia do politicamente correcto tornou-se uma autêntica ditadura que não permite espaço para o humor, nem contextualização histórica, nem sequer uma pitadinha de bom senso. Estamos perante uma espécie de fascismo social e relacional

Fiquei completamente estupefacto com o recente episódio protagonizado por Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá. Alguém desenterrou uma imagem de há dezoito anos, quando participou numa festa temática sobre “As Mil e Uma Noites”, em que os estudantes se caracterizaram e ele foi de Aladino, com o rosto escurecido. Ai, Jesus!, que o homem é um perigoso racista… Mas o mais desconcertante é que Justin, em vez de repudiar tal parvoíce, ainda veio pedir desculpa, justificando-se com as suas origens privilegiadas que não o terão feito entender quão prejudiciais poderiam ser atitudes deste tipo. Ao que obriga a desvairada parvoíce do “politicamente correcto”…

Mas aconteceu caso semelhante em solo europeu, na velha Albion. O futebolista profissional Bernardo Silva, que joga no Manchester City, publicou um tweet bem-disposto, na brincadeira com o seu grande amigo e colega de equipa desde os tempos em que ambos jogavam no Mónaco, o negro Benjamin Mendy, onde o comparava ao boneco dos chocolates “Conguito”. Foi imediatamente acusado de racismo pelos Torquemada de serviço, isto é, a Associação de Combate ao Racismo “Kick Out”, que veio exigir medidas à federação inglesa, a qual escreveu ao clube a pedir informações. O treinador Pep Guardiola defendeu o jogador referindo que era apenas uma piada entre grandes amigos e que não tinha qualquer conotação racista, adiantando que o Bernardo “é uma das melhores pessoas que conheci na vida”.

Bernardo Silva apagou a publicação de imediato, lamentando já não ser possível “brincar com um amigo” e escreveu à federação enviando um depoimento de Mendy, a testemunhar não ter ficado ofendido, mas, segundo a BBC “é acusado de ter cometido uma violação agravada das regras da FA porque incluía referência à raça e / ou cor e / ou origem étnica”.

Esta moda do politicamente correcto está a inventar problemas onde eles não existem e a revelar um extremismo perturbador que ninguém sabe onde vai parar. A ideia que dá é que estas pessoas que acusam alguém de racista por tudo e por nada, especialmente por nada, como nestes casos, escondem uma tentativa de assumir um poder que não conseguiriam de outro modo. Bem sabemos que as acusações contra famosos rendem na opinião pública e garantem publicidade global, já que as redes sociais e mesmo os jornalistas agarram em todos estes casos e “casinhos”. Mas a esperança que nos resta é que os Torquemadas modernos acabem por descobrir que o ridículo mata.

Ao que parece, acusar de racismo sem provas nem indícios um primeiro-ministro de um país desenvolvido e um futebolista internacional que joga num dos maiores clubes do mundo e no mais importante campeonato a nível global, merece bem o risco do ridículo e chama a atenção para as organizações que inventam estes casos. Na sociedade mediática em que hoje vivemos tudo é permitido em nome de uma causa e o crime compensa.

Só que enquanto estes Torquemadas da treta se vão entretendo com os casos fabricados, esquecem-se de lutar contra o verdadeiro racismo que continua entranhado no tecido social. E esquecem-se que o racismo tem mais do que um sentido. Também há racismo contra o homem branco e racismo entre negros, a que alguns chamam tribalismo, assim como racismo de negros contra mulatos e vice-versa ou contra asiáticos.

O cristianismo primitivo, inspirado por Jesus, levantou uma bandeira contra toda a espécie de racismos ao apresentar-se desde o início como uma proposta de fé universalista: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28:19); “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15). Já durante o ministério público de Jesus se haviam gerado tensões recorrentes entre o judaísmo da época e a perspectiva universal da mensagem e praxis do Nazareno, que nunca discriminou pessoas tendo em conta a sua origem, sexo, religião ou condição social.

Quer a elite do Tempo de Jerusalém (classe sacerdotal, saduceus, sinédrio), quer o povo (incluindo os fariseus), nunca compreenderam bem a lógica de abertura a todos em que se movia, propondo assim um novo paradigma, caracterizado pela substituição da velha aliança (com o povo de Israel) por uma nova (com toda a humanidade). Quando escreveu às comunidades cristãs da Galácia, S. Paulo retomou a ideia de que a fé cristã é indiferente às barreiras religiosas, sociais e de género: “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).

Por tudo isto parece-me urgente descobrir o antídoto para o veneno social do politicamente correcto, essa nova forma de intolerância, para que um dia não sejamos obrigados vir a gritar: “Abaixo a ditadura!”.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-10-09-A-desvairada-parvoice-do-politicamente-correcto

Meditação em Transformação | 10 OUT | Universidade Lusófona pelas 18:00, na Sala S.0.11

Meditação em Transformação
(última chamada)
1- Neurofisiologia da Meditação.
2- Meditação e Religião.

A linha de investigação em Cosmovisões da Ásia, do Departamento de Ciência das Religiões, tem o prazer de convidar V.Exa. para a palestra de hoje, pelas 18:00, na Sala S.0.11 da Universidade Lusófona de Lisboa,  com o investigador Prof. Dr. Roberto Simões Serafim.

Esta é uma excelente oportunidade para aprender sobre meditação, nos seus aspetos científico e religioso. Na parte final do evento haverá oportunidade para colocar perguntas ao preletor.

Existem poucos lugares disponíveis. O evento é gratuito, mas a pré-inscrição obrigatória.

Poderá consultar os detalhes deste evento e reservar lugar em

https://www.yogaemportugal.org/event/meditacao/

Comunidades Islâmicas visitam exposição de Arte Islâmica no Museu Gulbenkian

O professor Fabrizio Boscaglia, responsável pela linha de investigação Herança e Espiritualidade Islâmica na Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, colaborou no Museu Calouste Gulbenkian para a concepção, organização e realização de visitas guiadas à exposição «O Gosto pela Arte Islâmica», cuja curadora é a doutora Jessica Hallet.

Entre julho e outubro, o seu trabalho contribuiu inclusivamente para que viessem a ser realizadas visitas guiadas à exposição com representantes, docentes e alunos das principais Comunidades Islâmicas e Mesquitas da zona de Lisboa, nomeadamente com a Comunidade Islâmica de Lisboa, com a Fundação Islâmica de Palmela e com o Centro Cultural Colinas do Cruzeiro de Odivelas.

Foram momentos marcantes, de cultura e diálogo cultural, para Lisboa, para as Comunidades Islâmicas e para a cidadania.

Visita guiada à exposição «O Gosto pela Arte Islâmica» (Museu Gulbenkian) com Fundação Islâmica de Palmela

Visita guiada à exposição «O Gosto pela Arte Islâmica» (Museu Gulbenkian) com Comunidade Islâmica de Lisboa

Visita guiada à exposição «O Gosto pela Arte Islâmica» (Museu Gulbenkian) com Centro Cultural Colinas do Cruzeiro

Opinião: Crentes sem religião, à procura de Deus, por José Brissos-Lino

Crentes sem religião, à procura de Deus

krisanapong detraphiphat

Na abordagem ao fenómeno religioso há que respeitar toda a gente, os crentes de qualquer religião ou sistema filosófico, os agnósticos e os ateus. Mas a complexificação da vida contemporânea está a levantar novas categorias até hoje desconhecidas. É o caso dos crentes sem religião

Mário Soares dizia que não era crente porque não tinha sido tocado pelo dom da fé. De facto a fé é uma dádiva (dom) de Deus. Segundo o apóstolo Paulo: “Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:9). Ou seja, a fé, sendo algo sobrenatural, não é mérito humano. O factor humano só intervém no processo de gestão desse dom. Se eu tenho fé, se a aprecio e quero continuar a tê-la, procuro estimulá-la em mim (S. Judas Tadeu chama-lhe “santíssima fé” – Judas 1:20), mas se não a considero, então não faço nada nesse sentido e acabo por perdê-la. É simples. Paulo exorta Timóteo a conservá-la: “Conservando a fé, e a boa consciência, a qual alguns, rejeitando, fizeram naufrágio na fé” (1 Timóteo 1:19); “Guardando o mistério da fé numa consciência pura” (3:9).

O que o antigo presidente da república e primeiro presidente da Comissão de Liberdade Religiosa parecia não entender é que, a fé em Deus é uma escolha, pois é dada liberalmente a qualquer pessoa que a procura e não o resultado duma selecção divina, de forma aleatória ou discriminatória: “Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas” (Romanos 2:11). O cristianismo é uma religião de revelação, sendo a maior fonte de revelação as Escrituras sagradas: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir a palavra de Deus” (Romanos 10:17).

Tomás Halík diz que a religião mais difundida dos nossos dias é o “algoísmo”, com esta base de crença: “eu posso não acreditar em Deus, mas tem de haver alguma coisa acima de nós”. Portanto grande parte das pessoas estão disponíveis para crer no sobrenatural mas não num Deus pessoal. Será uma divindade presente na energia, no cosmos ou na natureza, mas não um ser divino com personalidade, com uma dimensão moral, com vontade própria e que se dá à relação connosco.

Se é evidente que as religiões sequestraram Deus tantas vezes dentro duma caixa epistemológica, ritual e conceptual, passando a falar em seu nome e a criar leis e regulamentos abusivos para os fiéis, travestindo uma comunidade de fé numa estrutura organizacional com vista ao exercício do poder, também é verdade que muitos indivíduos não conseguem conceber a existência humana sem uma dimensão metafísica.

Nem o progresso, nem o avanço da educação e da ciência resolveram esta questão. Por isso temos hoje alguns dos maiores cientistas do mundo que se declaram crentes em Deus, enquanto outros colegas seus de calibre intelectual semelhante se nomeiam ateus ou agnósticos. Assim, a fé não é uma questão de dimensão intelectual, de cabedal científico, formação, educação ou falta delas, antes se movendo numa outra dimensão, já que ninguém pode provar cientificamente a existência de Deus nem a sua inexistência.

De facto a educação ajuda muito mas não é sinónimo de respeito e humanidade. Consta que no fim da II Guerra Mundial alguém encontrou uma carta num dos campos de concentração, dirigida aos professores: “Como sobrevivente de um campo de concentração vi o que ninguém devia ter visto. Câmaras de gás construídas por engenheiros, crianças envenenadas por médicos, recém-nascidos mortos por enfermeiras, e mulheres e bebés fuzilados e queimados por licenciados em universidades. Assim, tenho dúvidas sobre a eficácia da Educação. Por favor, ajude os seus alunos a tornarem-se humanos. Que do seu trabalho nunca resultem monstros treinados ou psicopatas hábeis. Ler, escrever e saber aritmética, só serão importantes se fizerem as nossas crianças mais humanas.”

Muita gente não consegue superar o facto de, em nome das religiões, se terem promovido guerras e destruição, muito embora também os não religiosos tenham provocado morte e devastação ainda maiores, como Mao, Estaline ou Pol Pot. Talvez por isso muitos tenham alergia às estruturas religiosas mas preservem a sua crença em Deus, a acreditar nos estudos sociológicos mais recentes. Em última análise, Deus não terá culpa das asneiras dos homens, mesmo quando realizadas (abusivamente) em seu nome.

Os crentes sem religião gostam de visitar locais que remetem supostamente para uma conexão com uma entidade difusa, algo que criou o universo e que deu o primeiro clique para que a vida nascesse do nada. Tais sítios podem ser o topo duma montanha, uma falésia junto ao mar ou um templo. Afinal, talvez seja necessário muito mais fé para crer em algo indefinível e inalcançável do que no Deus de amor, misericórdia e relação representado em Jesus Cristo, o qual “sendo o resplendor da sua glória” é ainda caracterizado como “expressa imagem da sua pessoa” (Hebreus 1:3).

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-10-02-Crentes-sem-religiao-a-procura-de-Deus

Call for papers Revista Lusófona de Ciência das Religiões | Até 31 de Outubro 2019

Call for papers Revista Lusófona de Ciência das Religiões | Até 31 de Outubro 2019

A revista científica da Área de Ciência das Religiões encontra-se aberta à submissão de estudos originais para publicação. É uma revista internacional que promove a divulgação de investigação sobre a religião e religiosidade de modo inter e transdisciplinar, com periodicidade semestral. Aceita-se propostas em português, inglês, espanhol ou francês. Os textos serão analisados pela comissão editorial com base num sistema de arbitragem por pares em regime de anonimato.

Religiões, Ecologia e Sustentabilidade Cultural, v.22 n. 01 (2019)

Até 31 de outubro de 2019 está aberto o prazo para o envio de:

  • 1- “Artigos”: textos inéditos resultados de investigações científicas relacionadas com o tema;
  • 2- “Recensões”: serão admitidos trabalhos sobre livros dentro das linhas de estudos da presente call for papers.

Todas as submissões devem ter lugar no Site da Revista: http://revistas.ulusofona.pt/index.php/cienciareligioes/issue/archive

Revista Lusófona de Ciência das Religiões é a publicação científica da área de Ciência das Religiões do Grupo Lusófona, espelho da dinâmica de investigação, das parcerias e das prioridades científicas dos estudos pós-graduados e especializados sediados na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

Correio eletrónico: lususrcr@gmail.com

Nunes da Silva, Sheila (org.)
Área de Ciência das Religiões
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

Meditação em Transformação na Universidade Lusófona, 10 OUT

Evento gratuito na Universidade Lusófona.

No âmbito da linha de investigação em Cosmovisões da Ásia,
Meditação em Transformação na Universidade Lusófona, com o professor doutor Roberto Simões.

10 de Outubro 2019, das 18h às 21:30,
Sala S.0.11

Temas:

  • Parte 1 – Neurofisiologia da Meditação.
  • Parte 2 – Meditação e Religião.

Detalhes e Inscrições

https://www.yogaemportugal.org/event/meditacao/

Opinião: O homem Jesus Cristo, por José Brissos-Lino

O homem Jesus Cristo

Simona Pilolla / EyeEm

Está na hora de sublinhar a humanidade de Jesus Cristo. A identidade do Cristo Filho de Deus esconde muitas vezes a sua condição humana, que é talvez aquela que mais deveria influenciar e inspirar homens e mulheres que assumem a fé cristã

André Silva, o líder do PAN, um partido animalista recauchutado de ambientalista, declarou em tempos: “Há características mais humanas num chimpanzé ou num cão do que numa pessoa em coma.” Os defensores dos animais vão mais longe e afirmam que há características mais humanas em animais do que nalgumas pessoas, ou que há pessoas que não estão em coma e que têm atitudes e pensamentos que os alinham com os comportamentos mais primários. Penso que tais declarações tocam em questões diferentes.

Compreendemos que há seres humanos que revelam comportamentos irracionais, e que há animais que estabelecem uma espécie de empatia na interacção com os humanos, como os caninos, por exemplo. Assim como há seres humanos a demonstrar por vezes os comportamentos mais primários. Mas nada disso é suficiente para nivelar a natureza humana com a animal.

O especismo é uma moda dos novos tempos. Não se limita a condenar a crueldade para com os animais mas pretende reconhece-lhes direitos semelhantes aos das pessoas. Esta variante filosófica só é assumida por partidos fora do sistema democrático a que estamos habituados. Jerónimo de Sousa, por exemplo, declarou recentemente que não conhece “ninguém que não goste de proteger e defender os animais, mas não se adulterem nem subvertam princípios fundamentais do relacionamento do Homem com o próprio animal”. Não será tanto assim. De facto sempre houve quem exercesse crueldade sobre animais. Provavelmente, mais cedo ou mais tarde tais indivíduos também irão tratar mal as pessoas. Mas a ideia de rebaixar o ser humano ao nível do animal irracional é repulsiva.

Os animalistas caracterizam-se por só defenderem certos tipos de animais, deixando de fora dos seus cuidados todos os outros. Porque defender apenas ou animais domésticos? Ou os touros? Ou os animais do circo? E porque não os répteis, os ratos, as baratas ou os piolhos? Não pertencem também ao reino animal? Os animalistas são perigosos, dada a tendência autoritária e proibicionista que revelam. No caso português o seu programa eleitoral não apresenta um projecto político consistente para a governação do país, sendo omisso, superficial e inconsequente.

Peter Singer, conhecido académico de filosofia em Princeton tem escrito obras sobre ética aplicada, onde defende que se considerem alguns animais não humanos como pessoas, atribuindo à sua vida valor idêntico à dos humanos. Vai mesmo mais longe ao defender que alguns membros da espécie humana não são pessoas, enquanto alguns das outras espécies são pessoas. Mas colocar os seres humanos ao nível dos animais é patético, insultuoso e completamente contra-natura, quanto mais inverter a lógica…

Este fulano foi o mesmo que defendeu a ideia adiantada pelo PAN de que uma pessoa sem consciência de si já não deve ser considerada humana e propôs que os hospitais deveriam desligar as máquinas, por razoabilidade económica. Mas quando a sua própria mãe entrou nessa situação gastou tudo o que tinha para a manter viva… Confrontado pelos seus alunos face a tal incoerência, justificou-se dizendo que, quando se trata da nossa mãe é diferente. Estamos conversados sobre a sua honestidade intelectual.

Para um cristão, os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus. Entenda-se imagem e semelhança moral e espiritual: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” (Génesis 1:26). A restante natureza como os mundos animal, vegetal e mineral, serão parte da Criação e por isso devem ser respeitados e protegidos, mas não receberam o espírito divino. A Torah explicita que o ser humano recebeu mandato de os proteger, assim como de preservar o ambiente, mas não de os exterminar ou degradar.

Não é subvertendo as regras do jogo que o faremos. Tratar animais como pessoas e seres humanos como animais irracionais é subverter o processo. Deixar morrer de fome uma criança pobre e criar animais de companhia como nababos é crime de lesa-humanidade. Alguns chegam a deixar fortunas em herança ao seu animal de estimação, que algum advogado irá depois gerir, sabe-se lá como… Tais aberrações só se explicam pela desumanização desenfreada a que assistimos, essa loucura que atacou há muito as pessoas e as suas relações umas com as outras.

Talvez valesse a pena – pelo menos aos que se assumem cristãos – conhecer o que os textos bíblicos que falam sobre os animais e a natureza, em especial o que disse Jesus Cristo sobre a matéria. Mais importante, ainda, será olhar para o Jesus Cristo homem, nascido de mulher, e entender como dignificou a condição humana como nunca ninguém antes dele tinha feito. Sempre se referiu ao mundo animal: “Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta” (Mateus 6:26) e vegetal: “Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam” (Mateus 6:28”) com atenção, respeito e carinho, mas nunca os considerou iguais ou superiores ao seu humano: “Não tendes vós muito mais valor?” (Mateus 6:26).

Mas agora é in chamar Alfredo a um cão e Bo a um menino.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-09-25-O-homem-Jesus-Cristo

Opinião: O Brexit dos pobres por José Brissos-Lino

O Brexit dos pobres

Dan Kitwood

Um Brexit puro e duro deixará um rasto de destruição nas vidas e famílias por todo o Reino Unido. Foi isso que a Igreja de Inglaterra disse, procurando ser fiel à sua responsabilidade profética

O processo político do Brexit tem-se revelado uma trapalhada do princípio ao fim. Desde logo, na campanha para o referendo valeu toda a sorte de informações falsas a fim de levar ao engano os eleitores. A União Europeia foi sempre apontada pelos brexiters como a fonte de todos os males, mensagem que colheu nos meios rurais e nas faixas populacionais mais idosas, onde o saudosismo do antigo Império Britânico é mais forte e onde a canção patriótica do século XVIII Rule, Britannia! ainda emociona. Já as gerações mais jovens estão muito mais adaptados à globalização e abertas ao mundo, despojadas de tiques de superioridade, por isso votaram maioritariamente no Remain.

O ex-primeiro-ministro David Cameron quis reforçar a sua legitimidade no partido e lançou o referendo em 2016, crente de que o ganharia. Perdeu, para surpresa geral e abriu-se uma caixa de Pandora. Ou seja, os ingleses disseram que queriam sair da UE mas não se entendem sobre como nem quando. O espectáculo dado ao mundo por Teresa May foi degradante e agora, com Boris Johnson ainda desceu mais de nível.

O populista Donald Trump foi dos poucos a aplaudir a triste figura de Boris porque lhe interessa uma Europa o menos forte possível, na ilusão de afirmar os Estados Unidos num mundo em mudança, onde cada vez exerce menos influência.

Em boa hora a igreja anglicana advertiu o país para o duro impacto que teria sobre as camadas mais pobres do Reino Unido uma saída da EU sem acordo, como Boris defende e no momento em que o primeiro-ministro solicitou à Rainha Isabel II a suspensão do Parlamento, numa manobra política antidemocrática sem precedentes. Mais de vinte bispos anglicanos alertaram em carta aberta para o “custo potencial” de um Brexit duro para “os menos resistentes às crises económicas”.

O populismo está à flor da pele, com um primeiro-ministro não-eleito a mandar encerrar um parlamento eleito, apenas para levar por diante uma saída da UE sem acordo, contra a opinião geral dos representantes democráticos do povo britânico e, eventualmente, contra a opinião actual dos próprios eleitores. E tudo isto sem se preocupar com a possível implosão do Reino Unido, tendo em vista a eventual independência da Escócia (que não se quer desligar da Europa) e a previsivelmente perigosa crise política na Irlanda, que não admite a reposição duma fronteira.

Segundo o documento episcopal: “A soberania do Parlamento não é apenas um termo vazio, baseia-se em instituições que devem ser honradas e respeitadas: a nossa democracia está em perigo devido ao respeito displicente em relação a elas”.

Segundo o Religión Digital o arcebisto de Cantuária, Justin Welby, mostrou-se disponível para presidir a um fórum de cidadãos que aborde o Brexit sem prejuízo de ninguém em particular, de forma a dar eco a todas as vozes no debate actual: “Os pobres, os cidadãos da UE no Reino Unido e os cidadãos britânicos na Europa devem ser respeitados. A fronteira irlandesa não é um simples totem político e a paz na Irlanda não é uma bola que os ingleses possam pontapear: o respeito às preocupações de ambos os lados da fronteira é essencial”.

Regressei agora de Inglaterra e verifiquei que o ambiente neste momento é de grande inquietação, especialmente entre os mais vulneráveis da sociedade. Já vão faltando produtos alimentares nalguns supermercados. Há grande movimentação política. Na segunda-feira os democratas-liberais realizaram uma conferência e defendem abertamente novo referendo. Boris Johnson foi a Bruxelas empatar, foi vaiado e nem se dignou falar aos jornalistas na conferência de imprensa conjunta, como é hábito. E no momento em que escrevo espera-se o veredito do Supremo Tribunal sobre a saída sem acordo, já condenada por um tribunal da Escócia.

Mas a verdade é que os portugueses que vivem no Reino Unido estão igualmente aflitos e em estado de alerta, altamente preocupados com o seu futuro. É sabido que as crises económicas e sociais castigam sempre os mais pobres e socialmente mais frágeis.

O teólogo checo Tomás Halík diz que “o grande desafio com que o Cristianismo se vê hoje confrontado não é o da sua sobrevivência, mas o da sua relevância.” Se a igreja de Cristo se alhear dos problemas das populações e calar a sua voz profética para pouco servirá. Por isso a Igreja Anglicana acabou de dar um bom exemplo ao país e ao mundo.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-09-18-O-Brexit-dos-pobres

Opinião: O velho equívoco político da Igreja, por José Brissos-Lino

O velho equívoco político da Igreja

Zelma Brezinska / EyeEm/ Getty Images

Os ecos da promiscuidade político-religiosa de países do continente americano soam estranhamente na Europa, a quem a modernidade ensinou a separar as águas, para benefício mútuo dos Estado e das religiões

No Islão, mesmo os países considerados democráticos revelam uma grande dificuldade em respeitar o princípio laico da liberdade religiosa. Tal circunstância decorre duma certa interpretação corânica inspirada na sharia, que resulta em não conseguir separar a vida pública da religião nem da vida privada dos cidadãos. No Ocidente vemos hoje emergir fenómenos sociais de recorte populista também através da via religiosa, como nos Estados Unidos com figuras como Donald Trump, ou no Brasil, com Bolsonaro, enquanto versão tropical do primeiro.

Do ponto de vista do cristianismo consideremos a vertente católica-romana como ocupando um lugar à parte, tanto pelo facto de se organizar em sistema de pirâmide, como por ter a sua sede mundial num território independente – o Vaticano – e por isso o seu chefe máximo se apresentar como chefe de Estado, sendo também um líder político, embora sui generis. Isto permite exercer uma influência inigualável por comparação com as demais confissões cristãs. Embora o arcebispo de Cantuária ocupe o lugar de líder espiritual da Igreja de Inglaterra e referência da Comunhão Anglicana – sendo a rainha a sua chefe formal –, a verdade é que os anglicanos não possuem a mesma visibilidade ou poder político.

Porque o mundo protestante não se organiza em estrutura de pirâmide, é raro surgirem líderes que os representem a nível global. O evangelista americano Billy Graham (falecido em 2018) foi uma excepção, dada a sua notoriedade, que lhe advinha do facto de ter pregado em grandes campanhas evangelísticas por todo o mundo. Foi o primeiro a conseguir juntar lado a lado, num mesmo estádio, negros e brancos na África do Sul ainda sob o regime do aparthaid, e o único a ter acesso a regimes comunistas antes da queda do Muro de Berlim. Mas também se tornou conhecido por ter desempenhado o papel de conselheiro de presidentes dos Estados Unidos, como Eisenhower, Nixon, Johnson, Bill Clinton e a família Bush.

O facto é que as igrejas cristãs sempre procuraram mover-se próximo do poder secular. E as que não tinham acesso aos corredores do poder ansiavam por isso, numa evidente contradição com o princípio bíblico e os ensinamentos de Cristo, que sempre afirmou: “O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (João 18:36). E quando foi confrontado com uma questão política, a partir duma pergunta sobre o pagamento de impostos a Roma, fez questão de separar as águas: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Lucas 20:25). Podemos então dizer que foi o próprio Jesus Cristo o primeiro a invocar o princípio do estado laico.

Então por que motivo a Igreja nalguns países revela ânsia de estar perto do poder, para o influenciar ou mesmo exercer? Talvez porque a Igreja se deixou seduzir pela glória dos homens, que Jesus sempre rejeitou: “Eu não recebo glória dos homens” (João 5:41). Ou porque deixou de acreditar que a Igreja pertence a Cristo e que é Ele mesmo quem a defende e não a classe política: “(…) edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16:18). Alguns dos líderes judaicos punham a sua fé no Nazareno mas não o assumiam em público por causa dos radicais (fariseus) que os poderiam expulsar do meio religioso: “Porque amavam mais a glória dos homens do que a glória de Deus” (João 12:43).

Grupos neopentecostais e igrejas evangélicas tomam Bolsonaro como ungido de Deus, atirando assim para o lixo os seus próprios princípios éticos, além da boa educação e do senso comum. O mesmo fazem os evangélicos americanos à volta de Trump. A sede do poder é tão grande que cega o entendimento. No caso brasileiro trata-se duma reacção epidérmica a décadas de corrupção, à persistente insegurança e à agenda fracturante dos governos anteriores.

Mas este sector religioso tem vindo a investir fortemente e há décadas na política, fazendo eleger os seus pastores – que deviam dedicar-se antes ao ministério – como prefeitos, vereadores e parlamentares, através do sistema do “curral eleitoral” (fazendo campanha nos púlpitos e dando aí indicação pública de voto!) a fim de beneficiar as igrejas. Uma dupla perversão, quer do múnus pastoral, quer do verdadeiro propósito da política. Um desastre, que levou até a chamada “bancada (parlamentar) da Bíblia” a revelar-se como a mais corrupta do país…

A cereja em cima do bolo foi agora a unção com óleo e oração – com pompa e circunstância – por um líder neopentecostal corrupto em favor do católico Bolsonaro, que já tinha prestado apoio anteriormente, pelo menos a Lula, Dilma e Temer. Ou seja, o que interessa mesmo é estar colado ao poder. E tanto melhor quando se retribuem os favores.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-09-11-O-velho-equivoco-politico-da-Igreja

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Religiões, Ecologia Sustentabilidade Cultural

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A revista científica da Área de Ciência das Religiões encontra-se aberta à
submissão de estudos originais para publicação. É uma revista internacional que promove a divulgação de investigação sobre a religião e religiosidade de modo inter e transdisciplinar, com periodicidade semestral. Aceita-se propostas em português, inglês, espanhol ou francês. Os textos serão analisados pela comissão editorial com base num sistema de arbitragem por pares em regime de anonimato. Religiões, Ecologia Sustentabilidade Cultural, v.22 n. 01 (2019)- Até 31 de outubro de 2019 está aberto o prazo para o envio de:

  • 1.“Artigos”: textos inéditos resultados de investigações científicas relacionadas com o tema;
  • 2. “Recensões”: serão admitidos trabalhos sobre livros dentro das linhas de
    estudos da presente call for papers.

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Revista Lusófona de Ciência das Religiões é a publicação científica da área de Ciência das Religiões do Grupo Lusófona, espelho da dinâmica de investigação, das parcerias e das prioridades científicas dos estudos pós-graduados e especializados sediados na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

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