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Opinião: Beckett e o Advento por José Brissos-Lino

Beckett e o Advento

O que é que o dramaturgo Samuel Beckett tem que ver com o Advento? Talvez nada. Ou talvez tudo. Depende de quem ou do que estamos à espera.

Na sua famosa peça de teatro “À espera de Godot”, escrita no pós-guerra, o irlandês Samuel Beckett (1906-1989), que integrava a corrente conhecida como teatro do Absurdo, apresenta uma humanidade sem rumo e sem condições para compreender a sua própria existência, despojado de um sentido. O dramaturgo, de família burguesa e protestante, revisita a condição humana numa perspectiva filosófica e num ambiente onde o tempo não se faz presente face à decrepitude física dos corpos e à degeneração físico-fisiológica. Ninguém como ele caracterizou a desilusão e o fracasso da humanidade naqueles dias de uma Europa completamente destruída.

Lembrei-me desta peça a propósito do Advento. Estranho? Não, porque Advento significa vinda ou chegada. O termo é latino (adventum) e também pode significar fundação ou criação de alguma coisa. Na fé cristã aplica-se às quatro semanas que antecedem o Natal, um período litúrgico evocativo da vinda de Jesus Cristo ao mundo há dois mil anos, em Belém da Judeia. É, portanto, um tempo de alegria para os cristãos, caracterizado pela preparação para as comemorações do nascimento de Cristo.

O evangelho de Lucas relata que um anjo apareceu a Maria numa visão, anunciando-lhe que em breve daria à luz um menino, o filho de Deus, que traria uma mensagem ao mundo e que seria a luz dos homens: “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (João 1:4) e luz para as nações: “Luz para iluminar as nações” (Lucas 2:32), na linha do profeta Isaías: “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” (Isaías 9:2). Esse tempo de espera é caracterizado hoje como advento.

Nunca se chega a saber quem é o tal Godot de Beckett nem sequer se existe, pois nunca chega, o que leva as duas personagens que supostamente o aguardam, os velhos vagabundos Vladimir e Estragon, a compensar a sua expectativa através de conversa vazia e sem sentido, discussões intermináveis e perguntas recorrentes que resultam em frustração crescente, por não permitirem respostas objectivas, de modo a tentar combater o tédio e preencher o vazio da existência, em dias sempre vazios e iguais. O autor faz-nos entender que esta liturgia dos dois que esperam até à exaustão e que os faz preencher o tempo é, afinal, o único sentido das suas vidas.

Ao contrário do que é habitual em teatro, “À espera de Godot”, não conta uma estória, não tem enredo, limitando-se apenas a focar uma situação estática num lugar desértico, desprovido de cor, onde apenas subsiste uma árvore e tendo como pano de fundo a luz que antecede o crepúsculo. Toda a atmosfera é de vacuidade e monotonia. Segundo alguma crítica a intenção do dramaturgo não será mostrar o absurdo da existência do ponto de vista da interacção social, mas mais concretamente a perplexidade do encontro do ser humano consigo mesmo.

É aqui que o contraste é mais flagrante. O Advento representa o encontro do Homem com Deus através de Jesus Cristo: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1 Timóteo 2:5). É a partir desse encontro que o ser humano descobre um sentido existencial e se encontra consigo mesmo e com os outros.

A alegria desse encontro contrasta com a atmosfera de frustração da dupla dos “esperadores” patéticos de Beckett, que não sabem quem esperam, nem se o esperado Godot sempre chega ou não. Por isso o ambiente dos homens e mulheres de fé que celebram o Advento é tão contrastante com o das personagens desta peça.

Como escreveu J.T.Parreira: “A ausência de Godot, bem como numerosos outros aspectos da peça, deram origem a várias interpretações desde o dia da estreia teatral, ocorrida em Paris, em 1953.” Daí que, interrogado sobre o significado da peça, Beckett tenha afirmado: “Não posso explicar as minhas obras. Cada um deve averiguar por si próprio o que entende nelas.”

Alguns deduziram que Godot simbolizaria um Deus ausente em tempo de devastação e desesperança, mas, como diz Parreira: “Não temos forçosamente que ler Godot como sendo Deus, mas que esta peça não é ateísta, não é. Até porque um dia Beckett, entrevistado, disse, cito de cor: ‘Se quisesse falar de Deus na peça, ter-lhe-ia chamado “Waiting for God”, ou “En attenddan God”.

Diz o ditado que quem espera desespera. Mas quem espera em fé nunca desespera. E aproveita esse tempo para preparar a alma a fim de receber Aquele que está para vir. Por isso o tempo litúrgico do Advento é tempo de purificação e não de resmungar.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2019-12-18-beckett-e-o-advento/

Reportagem na RTP2 com Prof. Fabrizio Boscaglia

Reportagem da RTP2 integrado no programa A Fé dos Homens -ao nosso Prof. Fabrizio Boscaglia, sobre a nossa Base de Dados de Património Islâmico e mais em geral sobre a nossa Linha de Investigação Herança e Espiritualidade Islâmica.

Gravada na BNP, a reportagem inclui uma entrevista comigo e a mostra de manuscritos árabes, da Base de Dados e outros produtos da nossa investigação.

 

VEJA VÍDEO: https://www.rtp.pt/play/p50/e444535/a-fe-dos-homens

 

Opinião: Teocracia? Não, obrigado! por José Brissos-Lino

Teocracia? Não, obrigado!

O que idiotas e ignorantes fazem com a Bíblia D.R. Getty Images
Ainda estamos a tempo de aprender que nenhuma teocracia é melhor do que a outra. Não importa se é islâmica, judaica, cristã ou outra qualquer. Definitivamente, não.

A história da velha Europa devia servir pelo menos para perceber que quando a religião manda no Estado a coisa vai sempre correr mal, mais tarde ou mais cedo. As guerras religiosas que os povos europeus sofreram há séculos são o exemplo acabado disso mesmo. A revolução americana mostrou que a via do estado laico é melhor garantia da liberdade de crença e prática religiosa a todos os cidadãos. Todavia as religiões sempre pugnaram por deter nas suas mãos o poder político ou pelo menos viverem em concubinato com ele, influenciando-o no sentido da satisfação dos seus próprios interesses.

Por seu lado a revolução francesa seguiu um caminho contra a religião e deu lugar à desgraça jacobina que se viu. No seu afã de se mostrarem diferentes dos ingleses os franceses experimentaram um caminho perigoso que levou a altos e baixos, mas com imenso sofrimento de muita gente. De facto a melhor resposta não é a imposição social do laicismo a uma sociedade que em grande parte nunca deixou de ser religiosa.

Toda a gente se incomoda com o regime teocrático xiita que sufoca gerações no Irão desde 1979. O país está a viver a crise mais profunda dos últimos 40 anos. Pede-se nas ruas o fim do governo islâmico e, em consequência, a repressão provocou quase 450 mortos em apenas quatro dias, segundo o “The New York Times”. Há muito quem sonhe com uma teocracia cristã no seu país, embalados por uma escatologia controversa e de legitimidade hermenêutica muito discutível. A ideia de que mundo está no “maligno” (I João 5:19), associada a algumas tradições exegéticas de tipo triunfalista, acabam por potenciar a luta para assumir o poder político em nome da fé. Mas a experiência diz que quando uma religião assume o poder acabará por perseguir todas as outras, por se achar a única iluminada por Deus, e por tentar a proeminência quando não mesmo o monopólio do mercado religioso.

Veja-se o caso dos Estados Unidos. Os líderes evangélicos desde há muito que se têm vindo a movimentar, através da Moral Majority, e depois do Tea Party e dos neoconservadores de direita para imporem a sua agenda política. Chegou-se ao ponto de defender cegamente Trump em nome dos ganhos dessa agenda, como o apoio incondicional a todas as movimentações políticas e militares do moderno estado de Israel (como se esta fosse a mesma nação aliançada com Iavé nos tempos do Antigo Testamento), e os tópicos da moral sexual. As recentes declarações de Franklim Graham (filho do famoso evangelista Billy Graham) diabolizaram todos que se opõem à política errática do presidente americano. O próprio Trump chamou para a Casa Branca Paula White, uma tele-evangelista milionária e espalhafatosa que prega a teologia da prosperidade, tão ao jeito da religião yankee.

Um dia ouvi uma das expoentes do carismatismo americano afirmar publicamente em Lisboa, que as igrejas nos EUA estavam a pedir a Deus para que a oração antes de cada aula nas escolas públicas americanas voltasse a ser lei, o que é anticonstitucional e sobretudo uma atroz falta de bom senso. Então crentes e não crentes ou crianças de famílias de outras religiões teriam que se sujeitar a uma acção religiosa? Gostariam eles que, se vivessem num país muçulmano os filhos tivesses que rezar a Alá todos os dias na escola?

Mas veja-se o caso ainda mais problemático do Brasil de Bolsonaro. Um capitão extremista de direita, expulso do exército e que durante as décadas em que foi deputado federal nunca contribuiu para o país com qualquer projecto de lei que se visse, ganhou as eleições graças ao dualismo político actual em terras de Vera Cruz. Havia que combater o lulismo e os eleitores castigaram o PT devido à extrema corrupção e insegurança no país irmão. Os evangélicos foram especialmente motivados contra a agenda fracturante do governo Dilma, mas há muitos anos que sonham com um presidente evangélico que estabeleça uma espécie de teocracia cristã no Brasil.

Mas quando é que esta gente entenderá que Jesus Cristo nunca frequentou os corredores do poder, e nunca disputou eleições porque, como disse: “O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (João 18:36)? Quando irão compreender que foi ele o primeiro a definir uma separação clara entre estado e religião: “Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21).

Os líderes religiosos que lutam por alcançar poder político apenas revelam que não têm estatura moral e espiritual para o desempenho das suas funções pastorais. Além disso, como diz o académico Roberto Romano: “Se a democracia ostenta defeitos, suas mazelas confessadamente têm origem em seres humanos que erram e podem corrigir seus equívocos. Com a teocracia nenhum limite obriga o governante, pois seus decretos são divinos. No fundo de todo teocrata dormita um totalitário. É tempo de aprender tal lição da história religiosa e política.”

https://visao.sapo.pt/opiniao/2019-12-11-teocracia-nao-obrigado/

Cristianismo e Islão (16 dez.) – Com Pe. Cerqueira Gonçalves, nos 800 anos do encontro entre S. Francisco e o Sultão

Cristianismo e Islão:

as possibilidades do diálogo

Conversa com Pe. Joaquim Cerqueira Gonçalves

Nos 800 anos do encontro entre São Francisco de Assis e o Sultão Al-Kamil
(1219-2019)
Moderação: Fabrizio Boscaglia
Segunda-feira 16 dez. às 18h
Biblioteca Vítor de Sá, Universidade Lusófona,
Campo Grande 380 B
(Edifício da Biblioteca Vítor de Sá – Sala Bib.2.7)
Entrada livre (lotação limitada)
Seminário Permanente de Estudos Islâmicos
Área de Ciência das Religiões (ULHT)

Opinião: Aprender a dizer amor, por José Brissos-Lino

Aprender a dizer amor

O amor também congela!
Jorge Jesus, treinador do Flamengo, o mais falado clube nos últimos dias, afirmou: “no Brasil aprendi a dizer amor… Em Portugal é uma complicação para dizer amor. Quero desfrutar desse amor”. Sim, mas porque será tão difícil aos portugueses dizê-lo?

Na cultura anglo-saxónica, por exemplo, é corrente dizer “amo-te!” no final dum telefonema vulgar para um namorado, marido ou filho. Entre nós isso é considerado estranho ou uma lamechice. Mas o poeta não tem tais pruridos: “Diz o meu nome/pronuncia-o/como se as sílabas te queimassem/os lábios” (Mia Couto).

Porque é mais fácil dizer na cara de alguém que não se gosta dela do que dizer que gostamos da pessoa? Talvez porque no primeiro caso, logo que o dizemos ficamos preparados para uma reacção negativa, a fim de não nos deixarmos magoar. Se a pessoa disser “Pois eu também não gosto de ti!”, já estamos resguardados. Mas se eu disser à pessoa que a amo estou a expor-me. E se ela responder que o sentimento não é recíproco, que não quer saber de mim para nada, então vou ficar magoado pois estou com as defesas em baixo.

Muita gente confunde os afectos com a expressão dos mesmos. Muitos têm afectos para com familiares e amigos, mas não os sabem expressar. O facto é que os filhos tendem a reproduzir os modelos de comportamento dos pais. Se uma criança nunca viu o pai acariciar a mãe ou dizer-lhe palavras afectuosas, quando crescer dificilmente o fará à sua companheira ou companheiro, mesmo que lhe tenha muito amor. Muitos até confundem expressão de afectos aos filhos pequenos com o acto de lhes dar presentes, quando não com o suprimento das suas necessidades básicas, esquecendo que dar de comer, vestir e calçar não passa do dever intrínseco dos pais para com as crianças que trazem a este mundo.

O facto é que ainda se ouve falar de famílias que no Portugal de há muitas décadas cresceram em lares com défice de afecto e até de comunicação. No tempo dos nossos avós era vulgar que os filhos se sentassem em silêncio para jantar, só falavam quando lhes perguntavam alguma coisa e nem pensar em levantar da mesa sem pedir licença ao patriarca.

Mas creio que a situação se deve sobretudo a uma cultura marialva, em qualquer caso muito machista, que ainda não fomos capazes de ultrapassar e que considera a expressão dos afectos como coisa feminina ou pouco viril. Assim, torna-se mais fácil agredir física ou verbalmente do que acariciar.

Jorge Jesus disse que tinha “aprendido” a dizer amor. Exprimir verbalmente o amor que se tem é uma competência inata, aprende-se. Nas crianças é algo que funciona por modelagem, elas reproduzem o modelo parental. É por isso que as crianças que crescem em ambientes de violência doméstica acabam por tornar-se agressores quando adultos, desenvolvendo um interminável ciclo de maldição.

O discurso de Jesus Cristo e os escritos apostólicos neotestamentários estão repletos de uma mensagem de amor. Esse mote vai desde o Sermão do Monte às cartas de João Evangelista. Agora que se aproxima a época natalícia, talvez seja bom recordar o que escreveu o profeta Isaías setecentos anos antes de Cristo: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías 9:6).

Estas caracterizações do Messias esperado pelo Antigo Israel não compaginavam com o varão de guerra Iavé a que os hebreus estavam habituados, na linha dum Deus étnico, à semelhança das divindades dos povos seus contemporâneos, embora com a característica singular do monoteísmo. Não. Qualquer dos cinco títulos referenciados remete para um Deus de proximidade e de paz. E porquê “Deus forte”? Só pode ser pela mesma razão que o apóstolo João nos adianta a essência divina: “Deus é amor” (1 João 4:16b). Ou seja, Deus é amor porque o amor é a força mais poderosa do universo. Já o rei Salomão o sabia: “o amor é forte como a morte” (Cântico dos Cânticos 8:6c).

Mas talvez possamos aprender a dizer amo-te com Joaquim Pessoa: “Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conheço e porque me conheço. E porque te adivinho. Estas são todas as razões. Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu” (Ano Comum).

Afinal, talvez seja tão difícil dizer amor apenas porque não o conseguimos compreender.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2019-12-04-aprender-a-dizer-amor/

Opinião: Da irracionalidade bela do Natal, por Paulo Mendes Pinto

Da irracionalidade bela do Natal

Mesmo com crises, com a laicização da sociedade, com o afastamento das populações da prática religiosa católica, nada parece fazer perigar o Natal enquanto tradição profundamente enraizada na Cultura Ocidental.

 

Hoje, numa Era onde a informação nos chega à velocidade de um simples ‘clique’, onde com toda a facilidade acedemos a fontes que nos fornecem todos os elementos necessários para que tomemos consciência, parece cada vez mais claro que a relação entre informação e tomada de consciência foi rio que já secou há muito.

Por exemplo, todos nós podemos aceder a excelentes textos, a grandes investigações sobre as verdadeiras origens do Natal. E o resultado disso é que muitos de nós sabemos que a data exata do nascimento de Jesus é totalmente desconhecida (só em 350 o Papa Júlio I escolheu a data de 25 de Dezembro como o dia do nascimento de Jesus).

Também todos os anos somos objeto de um sem número de reflexões que nos alertam para os níveis de consumismo da quadra. Mais que bem-intencionadas retóricas em tempos de crises várias, económica ou ecológica, são mesmo bem fundados alertas para o desvirtuamento que um Natal-comércio cria num Natal-do-espírito.

E, contudo, não é o fácil acesso a essas fontes de informação que nos fazem abandonar a celebração do Natal. A festividade continua a marcar os nossos ritmos, mão só de calendário, mas de dádiva, de capacidade para festejar e estar com os outros.

Mesmo com crises, com a laicização da sociedade, com o afastamento das populações da prática religiosa católica, nada parece fazer perigar o Natal enquanto tradição profundamente enraizada na Cultura Ocidental.

Muito se poderia procurar como justificação para esta inusitada manutenção de tradição quando todos os quadros racionais nos levariam a ver um declínio efetivo. Da muito antiga tradição e das práticas, aos arquétipos dos ciclos da vida e da natureza onde o renascimento aparece ligado a uma alteração radical no ciclo solar a qua chamamos equinócio, muito se poderia colocar em cima de uma mesa de debate que seria, obviamente, inconclusiva.

Carpe Diem, diz-se, imitando o poeta latino Horácio. E isso mesmo se pode dizer numa quadra que parece contagiar. Deixamo-nos ir e… gozemos o dia! Gozemos a quadra!

Afinal, não é humana a mensagem de um Deus que se faz homem e nasce como qualquer um de nós? Acreditemos, ou não, que nesse nascimento se concretizaram profecias antigas, ou vejamos a história como mais um conto, um lindo conto, a humanidade aí contida é profunda e clama por nós, pelo nosso lado Humano.

Talvez por isso mesmo seja tão difícil ser racional nesta quadra e agir mecanicamente como a razão nos deveria indicar. É que, e parafraseando Nietzsche – que escreveu O Anticisto (1878) – o Natal desperta em nós um Humano, demasiado humano. Natal é isso mesmo: é uma tremenda carga de humano numa roupagem de divino. Um divino tão frágil quanto o humano. Por isso mesmo, acessível.

https://sol.sapo.pt/artigo/678551/da-irracionalidade-bela-do-natal

Opinião: Jornalixo por José Brissos-Lino

Jornalixo

D.R.

Chamemos-lhe jornalismo “criativo”, em vez de fake news ou jornalismo de fabricação, tablóide ou mesmo de sofreguidão. Independentemente da nomeação, é coisa que não nos interessa. De todo

Recentemente sucederam dois episódios dignos de antologia. O primeiro tem a ver com o trabalho que uma estação de televisão fez com o caso das crianças supostamente roubadas à mãe dum infantário da IURD, há uns bons anos.

Esse canal generalista cavalgou a temática até à exaustão com programas longos em hora nobre e em dias seguidos, qual telenovela. Incluiu debates com comentadores, juristas, magistrados, técnicas de serviço social e jornalistas entre pessoas de outras profissões e ocupações. Para criar maior dramaticidade apresentou, por detrás dum biombo translúcido, uma mulher a quem os filhos terão supostamente sido roubados, a fim de não poder ser identificada.

A ideia que se passou ao público foi de que teria havido um conluio entre diversos responsáveis públicos, ou pelo menos negligência grosseira, de modo a lesar aquela pobre mulher e a beneficiar a família do líder neopentecostal daquele grupo religioso de origem brasileira.

Levada à justiça, a mãe das duas crianças que foram adoptadas por elementos da IURD, admitiu agora perante a juíza de instrução criminal que mentiu quando falou em “roubo” dos filhos e na sua assinatura putativamente falsificada num documento, assumindo ser “falso que alguma vez a IURD ou qualquer pessoa com ela relacionada tenha roubado os seus filhos”. Pelo contrário, declarou em documento escrito estar grata pelos bons cuidados e carinho com que a instituição e os pais adoptivos trataram os seus filhos.

A mulher juntou ao documento entregue ao tribunal um pedido de desculpas, garantindo que nunca pretendeu ofender o bom nome e prestígio da instituição, acrescentando que foi manipulada pela responsável pelo programa “O Segredo dos deuses” para confirmar ao público uma história falsa e sensacionalista criada por aquela jornalista “em nome das audiências”.

O segundo episódio é mais recente e relaciona-se com o episódio do bebé encontrado no lixo em Lisboa. Se o primeiro caso terá sido fabricado de forma inescrupulosa pela comunicação social, aqui trata-se de um exemplo de “precipitação”, como lhe chama o “Público”.

O bebé deixado pela mãe no ecoponto em Santa Apolónia não foi resgatado apenas pelo sem-abrigo que ficou com esses louros em exclusivo, mas também por outros dois homens que vivem na rua como ele. Até Marcelo Rebelo de Sousa agiu sem dispor de informação exacta sobre o que tinha acontecido e correu a encontrar-se com o “herói”, com as televisões atrás, tendo daí surgido até a promessa de uma casa para ele. Ou seja, o presidente deu um passo em falso, no afã de ser mais rápido do que o vento a intervir em público. Confrontado com o facto, chutou para canto como era de esperar.

O imediatismo da informação comporta riscos elevados, mas a comunicação social assume-os cada vez mais em nome duma luta corpo a corpo com as redes sociais. O jornalismo cede assim o seu valor mais precioso – a confirmação dos factos e o espaço para o contraditório – de modo a não chegar tarde ao público. Abandona igualmente a sua vocação única, de fazer a mediação entre os acontecimentos e os consumidores da informação, tornando-se uma caixa-de-ressonância semelhante aos que debitam num teclado de computador tudo quanto sabem ou julgam saber, o que ouvem ou julgam ouvir e o que vêem ou julgam ver, sem preocupações de rigor.

Felisbela Lopes diz que o “jornalismo assenta cada vez mais no imediatismo e das fontes de informação que de uma forma apressada fazem julgamentos lineares sobre factos complexos”. Basta ler as caixas de comentários dos jornais online para perceber que há gente capaz de dizer tudo, quase sempre escondendo-se atrás do anonimato.

Ambos os casos são preocupantes enquanto sintomas. Se no primeiro parece ter havido toda uma fabricação (falsificação) dos factos com vista a produzir um determinado efeito nos telespectadores, o que é gravíssimo, no segundo trata-se essencialmente de precipitação e uma falta de verdadeira prática jornalística, que terá levado ao engano o país e até a presidência da república.

Numa das suas viagens missionárias o apóstolo Paulo e o companheiro Silas deslocaram-se a Bereia e anunciaram o evangelho na sinagoga dos judeus: “Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalónica, de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim. De sorte que creram muitos deles, e também mulheres gregas da classe nobre, e não poucos homens” (Actos 17:11-12).

Acontece que os tessalonicenses rejeitaram prontamente a “boa nova”, mas os bereanos confirmaram-na ao conferi-la com a lei e os profetas (textos do Antigo Testamento). Hoje é ao contrário, acredita-se logo em tudo e não se verifica nada. Por isso estamos como estamos.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-11-27-Jornalixo

O nosso investigador Lourival Filho é o novo presidente da Associação Brasileira de Alfabetização

O nosso investigador Lourival Filho é o novo presidente da Associação Brasileira de Alfabetização

lourival

O Professor Lourival José Martins Filho, que é Investigador Correspondente do Instituto de Cristianismo Contemporâneo (que integra a Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona – ULHT), e que é também docente do Departamento de Pedagogia do Centro de Ciências Humanas e da Educação (Faed), e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE), da Universidade do Estado de Santa Catarina, foi eleito presidente da Associação Brasileira de Alfabetização (ABAlf) para a Gestão 2020-2022.

Esta associação tem por fim congregar profissionais da Educação Superior e da Educação Básica através de acções de ensino, pesquisa e extensão relacionadas com a alfabetização, o que inclui a organização do V Congresso Brasileiro de Alfabetização a realizar em 2021 na cidade de Florianópolis.

Felicitamos o Prof. Lourival Filho desejando-lhe os maiores sucessos na sua nova missão.

Por Dentro do Sínodo da Amazónia | 25 NOV | 18H | Auditório José Araújo

Por Dentro do Sínodo da Amazónia | 25 NOV | 18H | Auditório José Araújo

Segunda-feira, dia 25 de Novembro, às 18h
Auditório José Araújo
Por dentro do
Sínodo da Amazónia.
Da génese às conclusões,
um ensaio prático
à conversa com
o Padre Sinodal Corrado Dalmonego
e o Missionário Carlos Zacquini
que trabalham com os povos indígenas Yanomami
Moderação de Luís Larcher

Opinião: O Carter que dá cartas, por José Brissos-Lino.

O Carter que dá cartas

The Washington Post

Jimmy Carter foi presidente dos Estados Unidos entre 1977 e 1981 mas é um caso à parte na política americana. Cristão convicto e comprometido, nunca utilizou a fé para fazer política, ao contrário do que é corrente nos Estados Unidos, onde a Modernidade chegou pela mão da religião, ao contrário da Europa que escolheu a via do secularismo

O homem tem quase cem anos mas ainda surpreende positivamente pela lucidez, coragem e coerência. Depois de mais de seis décadas de ligação à Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, tendo desempenhado cargos como diácono e professor de escola dominical, rompeu com a denominação religiosa devido à política discriminatória e misógina dos líderes religiosos.

Carter diz que foi uma decisão dolorosa e difícil mas inevitável “quando os líderes da Convenção, citando alguns versículos bíblicos cuidadosamente selecionados e reivindicando que Eva foi criada só depois de Adão e foi responsável pelo pecado original, determinaram que mulheres precisam ser ‘submissas’ a seus maridos e proibidas de servir como diaconisas, pastoras ou capelãs no serviço militar.” Carter recusa-se a aceitar a visão de que as mulheres são de algum modo inferiores aos homens e considera-a uma desculpa para negar às mulheres direitos iguais em todo o mundo, durante séculos a fio, seja qual for a cultura, crença ou religião.

Em carta aberta “Perdendo a minha religião em troca da igualdade”, Carter afirma que “a crença de que mulheres precisam de estar subjugadas aos desejos dos homens legitima escravatura, violência, prostituição forçada, mutilação genital e leis nacionais que não reconhecem a violação como crime.” Além disso também custa a milhões de meninas e mulheres o controlo sobre o seu corpo e a sua vida, e continua a negar-lhes acesso justo à educação, à saúde, ao emprego e à influência dentro das comunidades onde vivem. Essas crenças religiosas “ajudam a explicar por que em muitos países os rapazes têm precedência na educação sobre as meninas, ou porque as jovens não podem escolher com quem casar, e porque muitas enfrentam elevado risco na gravidez e no parto, o que é inaceitável, uma vez que as suas necessidades básicas de saúde não são atendidas.

A questão é que os textos bíblicos cuidadosamente selecionados para procurar justificar a superioridade masculina são datados, intrinsecamente ligados a culturas de matriz patriarcal, e revelam mais a determinação dos homens marcarem a sua influência e superioridade do que manifestam verdades eternas. Aliás, podemos encontrar igualmente textos bíblicos que suportam a escravatura e a aceitação tímida de governantes déspotas. Apesar de tudo as mesmas Escrituras reverenciam mulheres como líderes eminentes. Na Igreja antiga elas serviam como diaconisas, apóstolas, mestres e profetas. Só no séc. IV os líderes dominantes cristãos, todos homens, resolveram distorcer as Escrituras para perpetuar posições ascendentes na hierarquia religiosa e fechar o caminho às mulheres.

Mas Carter utiliza um argumento surpreendente para apoiar a sua posição nesta matéria. Ele diz que o machismo prejudica toda a sociedade, inclusivamente os homens. “Uma mulher instruída tem filhos mais saudáveis e é mais propensa a enviá-los à escola. Tem rendimentos mais elevados e investe o que ganha na sua família”, pelo que “é profundamente prejudicial a qualquer comunidade discriminar metade de sua população.”

Em seu entender a discriminação, perseguição e abuso de mulheres no mundo não constitui apenas uma clara violação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas também dos ensinamentos de Jesus Cristo, do Apóstolo Paulo, de Moisés e dos profetas, de Maomé, e dos fundadores de outras grandes religiões, as quais têm pugnado por um tratamento apropriado e equitativo a todos os filhos e filhas de Deus.

Carter, que já sobreviveu a um cancro no cérebro e a outro no fígado, ouviu os médicos informarem-no há quatro anos que as células tumorais se tinham espalhado para o cérebro. Percebeu então que se sentia “absoluta e completamente à vontade com a morte. Como é natural, assumi que morreria muito rapidamente e obviamente orei. Não pedi a Deus que me deixasse viver mas pedi-lhe que me desse uma atitude adequada em relação à morte”.

Aos 95 anos de idade e hospitalizado há dias, este homem tornou-se há muito um exemplo inspirador. Foi um cristão praticante toda a vida, diácono e professor de Bíblia durante muitos anos, recebeu o Nobel da Paz em 2002, pelos seus “esforços infatigáveis” a favor da resolução pacífica de conflitos no mundo, e dedicou anos da sua vida à construção de casas para pobres, no Canadá e Estados Unidos, como voluntário na iniciativa Habitat for Humanity.

Carter reafirma ainda hoje que a fé continua a ser para ele uma fonte de vigor e conforto, como o são as crenças religiosas para centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Mas o que é notável no mais idoso ex-Presidente dos EUA é o seu inconformismo, apesar da idade. Quando muitos se acomodam ao establishment, ele resolve levantar a voz em nome das suas convicções, pois diz que já não precisa de se preocupar em ganhar votos ou evitar controvérsias e está profundamente comprometido em desafiar a injustiça onde quer que a veja.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-11-20-O-Carter-que-da-cartas

1º Círculo da(s) Palavra(s) Cultura e Espiritualidade: Quando um Encontro revela um Invisível… 30 de novembro, 21h30, Salão da Igreja Matriz da Amadora

1º Círculo da(s) Palavra(s)

Cultura e Espiritualidade: Quando um Encontro revela um Invisível…

30 de novembro, 21h30, Salão da Igreja Matriz da Amadora

Fabrizio Boscaglia / Eugénia Magalhães / Carlos Arinto / Sofia Claro / Joaquim Franco

Participação musical dos UDJAT

 

Pela arte, pela ética e pela estética que se comunica, o que acontece quando há um encontro de pessoas que pensam a transcendência e o destino de maneira diferente?

No desafio de uma pergunta em jeito de retórica, realiza-se no dia 30 de Novembro, às 21h30, no salão da Igreja Matriz da Amadora, a primeira tertúlia Círculo da(s) Palavra(s), juntando quatro convidados com distintas sensibilidades religiosas ou espirituais – Fabrizio Boscaglia, Eugénia Magalhães, Carlos Arinto e Sofia Claro –, dando assim espaço e tempo às possibilidades de um Encontro entre diferenças.

A iniciativa está inserida no programa cultural da Exposição Ó do Mundo, Senhora da Terra – Grávida de Vida, patente nesta igreja até Janeiro, co-organizada pela Paróquia da Amadora e pelo Círculo Artístico e Cultural Artur Bual (CACAB).

Fabrizio Boscaglia, praticante do sufismo (misticismo islâmico), é doutorado em Filosofia e investigador em Ciência das Religiões. Eugénia Magalhães, católica, é doutorada em História e Cultura das Religiões e presidente do Instituto de Estudos Avançados em Catolicismo e Globalização. Carlos Arinto, agnóstico, é poeta e membro da direção do CACAB. Sofia Claro diz-se espiritual universalista, é cantora e investigadora em Ciência das Religiões. Joaquim Franco, jornalista, investigador e comissário da Exposição, modera a conversa.

A entrada é livre.

Mais informações: 968580221

 

COMUNICADO DO OBSERVATÓRIO PARA A LIBERDADE RELIGIOSA (OLR) 

COMUNICADO DO OBSERVATÓRIO PARA A LIBERDADE RELIGIOSA (OLR)

 

É com preocupação que o Observatório para a Liberdade Religiosa (OLR) reflete sobre recentes episódios verificados na sociedade portuguesa, que implicam uma atenção redobradamente pró-ativa.

Criado em 2014 por iniciativa cívica e académica, o OLR tem como principal missão a observação do Fenómeno Religioso, no respeito pelo princípio das liberdades associativa, individual e de consciência. Sediado na área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, atua na observando as vivências religiosas, promovendo o debate e analisando as vivências religiosas no contexto da Lei de Liberdade Religiosa e da Constituição da Republica Portuguesa.

 

  1. Neste pressuposto, o OLR entende que impedir uma atleta muçulmana de ter prática desportiva por causa da utilização do véu islâmico – hijab–, sem que este signifique um qualquer constrangimento técnico-desportivo, atenta contra os princípios da Liberdade Religiosa. Não competindo ao OLR analisar o enquadramento legal de tal impedimento e/ou a regulamentação desportiva da modalidade em causa, não pode deixar de se sublinhar que tal decisão teve como imediata consequência a discriminação e segregação de uma jovem atleta com plenos direitos constitucionais (Art.13.º sobre Princípio da Igualdade: “Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”).

Se, em determinadas circunstâncias, o uso do véu islâmico reflete, de facto, situações de intolerável subjugação da mulher, violando os direitos humanos, este, e parece-nos o caso, sinaliza também uma pertença cultural, com matriz religiosa, respeitando as liberdades e dignidade da mulher.

Entende o OLR que este episódio – recusar acesso de uma atleta muçulmana com o respetivo véu a uma competição oficial, sem que, repete-se, haja um constrangimento técnico-desportivo para tal – implica uma reflexão sobre a regulamentação das competições desportivas, adequando-a aos princípios da Liberdade Religiosa, ampliando assim o alcance da ética desportiva.

Recordamos, a título de exemplo, a prática olímpica e de federações internacionais, como a FIFA, que permite às jogadoras muçulmanas a utilização de véu e aos jogadores sikh o uso do turbante.

 

  1. Também de acordo com a imprensa portuguesa, com ecos nas redes sociais, e com a reação de estranheza do Ministério da Educação e da Diocese do Porto, e de algumas organizações cívicas onde se insere o Observatório para a Liberdade Religiosa uma escola situada em Felgueiras emitiu, na pessoa responsável do coordenador do Centro Escolar da mesma, o Centro Escolar dos Torrados, uma circular onde alegadamente pode ler-se:

[se)“no ato de matrícula foi feita a escolha para a frequência da disciplina [de Educação Moral Religiosa e Católica (EMRC)], a comunicação das faltas (à décima o aluno reprova) será feita mensalmente à base de dados da Igreja Católica Portuguesa”.

Acrescentava o mesmo comunicado que os alunos corriam “o risco de lhes ser barrado o acesso aos vários serviços da Igreja, como por exemplo a frequência da catequese, batizados, primeira comunhão e outras celebrações, bem como não poder entrar em qualquer igreja católica portuguesa”.

Em reação, a diocese do Porto sublinha que “o que é dito não espelha nenhuma orientação da Igreja. A informação é errada e a própria legislação não o permite”.

A Direção do Agrupamento de Escolas Dr. Machado de Matos – Felgueiras confirmou a existência do comunicado” e garantiu que o assunto seria esclarecido numa “reunião com os encarregados de educação”, tendo alegadamente sido afastado do cargo o coordenador autor do comunicado. Estamos diante da produção de um efeito limite de coação psicológica, que impõe escolhas e atitudes, contrários à formação livre do indivíduo.

O OLR sugere que o Ministério da Educação esclareça cabalmente este caso.

 

  1. Uma professora de outro estabelecimento público de ensino – Escola EB1 PE de Ponta Delgada e Boaventura, em S. Vicente, Madeira –, terá sido prejudicada na sua avaliação de desempenho por se ter recusado, em Junho, a participar num acontecimento fora da escola – encontro com o bispo do Funchal –, que considerou ser religioso e para o qual os alunos do pré-escolar foram mobilizados pelo conselho diretivo.

O OLR sublinha a veemente tomada de posição da Comissão da Liberdade Religiosa sobre este caso e, sem negar, pelo contrário, a importância da autonomia das escolas para um trabalho de enquadramento cultural com os encarregados da educação e demais estruturas locais, podendo este até ter também matriz religiosa, exorta os responsáveis diretivos e pedagógicos da escola pública a terem sempre em conta um dos princípios básicos da Liberdade Religiosa: a liberdade de não ter uma crença.

 

Se a convivência religiosa é um desafio para todos os que sustentam e se guiam pelos ideais da Liberdade baseados nos Direitos Humanos, é também, e sobretudo, um desafio individual e coletivo para quem se diz crente. Portugal é dos países com menos restrições à liberdade religiosa no mundo, lembrava o presidente da Assembleia da República na instituição de 22 de Junho como dia nacional da liberdade religiosa e do diálogo inter-religioso.

Comparando com outras realidades que nos são próximas, Portugal ainda não foi posto à prova e o silêncio face à inquietação de alguns fenómenos pode ser uma insensatez. Como todas as liberdades, a religiosa também se trabalha. Nenhuma liberdade é absolutamente adquirida.

É urgente a compreensão do fenómeno religioso, a formação para uma cidadania assente no respeito pelas diferenças, nomeadamente a diferença religiosa, que passa pelo conhecimento, para construir uma sociedade integradora, que, porque se questiona, valoriza ativamente os direitos humanos.

Crónica de Alexandre Honrado: Do abandonar ao acolher: Faz sentido ser humanos nos dias de hoje?

Crónica de Alexandre Honrado: Do abandonar ao acolher:
Faz sentido ser humano nos dias de hoje?

Vivemos o tempo de ambiguidade, a começar pela forma como nos
comunicamos e como erguemos muros à comunicação, escondendo-nos em
grutas do incomunicável: a possibilidade de não sermos escutados, de sermos,
produzirmos e partilharmos registos sem efeito, é imanente a cada momento
que, de forma degrada, vivemos como ato de proximidade.
Isolados somos, mas não somos no outro. Isso tira-nos a confiança, a
forma de sobreviver, o conceito completo do que é o humano: um exemplo de
partilhas, de aceitações, de diferenças.
Vivemos, provavelmente, uma nova etapa construída a partir da cultura
líquida: uma nova cultura sólida, difícil de moldar como um último veio de
minério de ferro na rocha dura, que nos corre por dentro como um desejo de
sangue.
A cultura da morte – do abandono em desespero do filho recém-nascido
ao jogo milionário que se oferece à criança no natal para que na sua consola
eletrónica desvalorize o que tem de mais elevado, a vida – é a essência de uma
desconstrução do humano.

Perdemos a memória e substituímo-la por um sinistro esquecimento.
Não conhecemos o passado e ao perdê-lo perdemos os nossos
antepassados. Ignoramos os momentos em que o mundo foi genocídio, o que
é o mesmo que dizer, um parricídio que nos tornou a todos órfãos e carentes
de um afeto capaz de alguma equidade. A riqueza – demanda pelo ouro, pelo
petróleo, pela água, pelo desnível da balança social – impõe regras. Mas a
pobreza – aceitação do que nos falta e da nossa ignorância mais tolhedora –
não tem força para se opor, coibindo-se à existência. Lancemos o debate: do
abandonar ao acolher, faz sentido ser humano nos dias de hoje? Mas que o
debate se sobreponha.
Fartos de atos, queremos palavras. Palavras encantatórias e operatórias,
que definam e estabeleçam a mudança urgente e necessária.

 

Crónica de Alexandre Honrado – Do abandonar ao acolher: Faz sentido ser humano nos dias de hoje?

Opinião: A morte não se pensa , por José Brissos-Lino

A morte não se pensa

Bruno Guerreiro

Em recente investigação desenvolvida por cientistas israelitas descobriu-se que o cérebro humano evita pensar na morte devido a um mecanismo de defesa que se desconhecia

Todos os seres humanos adultos e plenamente conscientes sabem que a morte é inevitável – é apenas uma questão de tempo e oportunidade – e têm memória dos antepassados que já partiram, assim como a notícia dos seus conhecidos que todos os dias morrem de velhice ou doença, e dos que se finam em acidentes de viação ou na guerra. Mas poucos são aqueles que não desenvolvem estratégias emocionais para evitar pensar nela. Talvez porque, como dizia Publilius Syrus no séc. I a.C., “o medo da morte é mais cruel do que a própria morte” (“Sentenças”). Pascal dizia mesmo que “é mais fácil suportar a morte sem pensar nela, do que suportar o pensamento da morte sem morrer” (“Pensamentos, 1670), razão pela qual a pena de morte é uma dupla pena, desumana, indigna e injusta.

O estudo, citado pelo The Guardian, e que foi realizado por investigadores da Universidade de Bar Ilan, em Israel, concluiu que o cérebro humano tem um mecanismo de defesa com a função de nos proteger do medo existencial da morte. Parece que esse mecanismo procura aliviar-nos deste tipo de pensamento, levando à sensação de que a morte é uma circunstância funesta mais associada a outras pessoas, como explicou o responsável pelo estudo, Yair Dor-Ziderman: “O nosso cérebro não aceita que pensemos na morte associada a nós. Temos esse mecanismo primordial que significa que, quando o cérebro obtém informações associadas à morte, algo nos diz que não devemos acreditar”.

A investigação foi realizada com um grupo de voluntários que autorizaram a monitorização da sua actividade cerebral face à audição de palavras relacionadas com a morte, como funeral ou enterro. Entende-se assim que a função do cérebro que nos protege de pensar sobre a nossa própria morte pretende permitir-nos viver livremente o presente.

Embora saibamos racionalmente que vamos morrer um dia, tendemos a projectar essa probabilidade nos outros, de modo indistinto, talvez porque a sociedade seja hoje mais fóbica em relação à morte e, como consequência, talvez as pessoas também saibam menos sobre o fim da vida e receiem mais esse episódio.

Quando começamos a pensar muito no futuro corremos o risco de perceber que a morte toca a todos, incluindo também a nós, e que, independentemente da nossa idade, podemos morrer a qualquer momento, mesmo de forma inesperada, sem capacidade de fazer qualquer coisa para o impedir. No entanto é da natureza do nosso organismo biológico lutar sempre pela sobrevivência.

Em comentário às conclusões deste estudo, pedido pelo jornal britânico, o psicólogo Arnaud Wisman, da Universidade de Kent, afirmou que os indivíduos levantam inúmeras defesas para evitar ou afastar os pensamentos ligados à probabilidade da sua morte. Trata-se duma cultura comportamental das sociedades modernas, uma espécie de fuga, que os leva a ocupações e distracções com compras e redes sociais, entre muitas outras, de modo a não pensarem nem se preocuparem com a morte.

Talvez a dificuldade em pensar na morte esteja associada à mesma razão porque se diz que a natureza tem horror ao vazio. Escrevendo sobre a iminência da sua morte, Thomas Hobbes dizia que estava para realizar a sua última viagem, “um grande salto no escuro” (“Cartas”, 1679). Um século depois Kant explicava que ninguém pode experimentar a morte em si mesmo, “pois experimentar é da alçada da Vida”, pelo que só é possível perceber a morte nos outros (“Antropologia de um ponto de vista pragmático”, 1798).

A esse supremo desconhecimento pode associar-se um outro grande incómodo humano que é a solidão, como descreveu Miguel de Unamuno: “Os homens vivem juntos, porém, cada um morre sozinho e a morte é a suprema solidão” (“Do sentimento trágico da vida”, 1913).

Mas talvez a maior dificuldade para racionalizar a morte seja a perspectiva da aniquilação do ser. Assim como não conseguimos racionalizar o período antes da concepção, antes da nossa chamada à existência, também não conseguimos fazê-lo com a fase pós-morte, até pela agravante de agora termos consciência e capacidade de raciocínio para pensar o futuro. A partilha de testemunhos das chamadas experiências de quase-morte (o famoso túnel de luz ou a pessoa a pairar sobre o próprio corpo) ajudam a densar o mistério do que está para lá do último suspiro.

As religiões procuram responder a esta angústia com propostas como o paraíso, a reencarnação, a ressurreição e a vida eterna. Mas ninguém foi tão longe como Jesus quando declarou a Marta em Betânia: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá” (João 11:25,26). Mas desconfio que o Mark Twain estava coberto de razão quando disse que “o homem não morre quando deixa de viver, mas sim quando deixa de amar.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-11-13-A-morte-nao-se-pensa?fbclid=IwAR3DTMWqXUMasEKOngD_sDup9I2WiOGUgjxThxDndkESabhnz372jhOIIic

Conferência “Sínodo da Amazónia”: Vídeo completo da Conferência e Foto Reportagem

No passado dia 29 de Outubro a área de Ciência das Religiões acolheu a Conferência “Perspectivas Sinodais do diálogo  com os povos amazónicos” com a moderação do Professor Luís Larcher  e o orador Padre Júlio Caldeira.

Veja aqui a Conferência: https://youtu.be/al_lxS4f4ug

 

Foto Reportagem:

Fotografia e Vídeo de Alexandre Honrado.

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