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Opinião: Um poeta na Capela Sistina, por José Brissos-Lino

12 dezembro 2019

O papa Francisco acaba de colocar o colégio cardinalício em risco, ao incluir nele um poeta. Devia saber que os poetas são gente perigosa em qualquer parte, mesmo entre cardeais... O tempo o dirá.

José Tolentino de Mendonça, o filho do pescador do Machico, chegou longe na estrutura romana. Ele é um homem europeu mas periférico, ilhéu do Atlântico com passagem pelas Áfricas mas poeta do mundo, filho de gente pobre mas intelectualmente rico, pensador e filósofo, sem deixar de ser um homem do povo, amigo dos livros – sendo arquivista e bibliotecário da Santa Sé – é ele mesmo um livro onde Deus escreve palavras arrebatadoras, humilde como poucos mas espiritualmente notável.

Tolentino faz a ponte entre a Fé e a Cultura, entre a vida quotidiana e a espiritualidade, entre a razão e a emoção, sempre em busca do homem completo iluminado por Deus. E fá-lo com uma humildade tocante que não deixa ninguém indiferente. Mostrou em Lisboa que se pode ser um grande pastor tendo apenas uma pequena paróquia a cargo.

Ao respeitar o ser humano que não tem fé religiosa, fazendo uso da sua capacidade de escuta, e com ele dialogando, Tolentino demonstra que um cristão pode ser ainda hoje alguém parecido com o Nazareno, e que a verdadeira fé não coloca à distância os que não pensam nem sentem como ele. Comprova assim que mais vale construir pontes do que muros, e que a luta espiritual não é “contra a carne e o sangue” (Efésios 6:12), no dizer de S. Paulo, pelo que a genuína fé cristã não precisa de cavar trincheiras contra os “inimigos”, nem de promover cruzadas contra os novos “infiéis”.

De resto, a Grande Comissão não passa pela defesa da Fé ou por atacar quem não a tem ou a preserva de forma diferente: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém” (Mateus 28:19,20). Como se vê o mandato limita-se a discipular, baptizar e ensinar, mas nunca à força.

O novo purpurado compreende que o Evangelho não é uma imposição mas uma proposição, segundo a missão entregue por Jesus Cristo aos discípulos: “E se em qualquer cidade vos não receberem, saindo vós dali, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles” (Lucas 9:5). Confia firmemente no livre arbítrio e no princípio do binómio liberdade/responsabilidade inscrito na natureza humana.

Tenhamos presente, enquanto realidade histórica, que são os poetas que mudam o mundo, pois como Gedeão escreveu e Manuel Freire cantou: “o sonho comanda a vida” e “sempre que o homem sonha o mundo pula e avança”.

Homero deu corpo a uma narrativa fundacional dos antigos Gregos enquanto povo, Vergílio fez o mesmo com os latinos, Shakespeare marcou o seu tempo e as artes para sempre, Salomão ficou na história hebraica e universal com o seu poema de amor à Sulamita, Goethe esculpiu magistralmente o grande drama da existência humana no seu Fausto (1808). Rimbaud ainda hoje impressiona na simbolização da sua busca espiritual, antes de morrer muito jovem, Camões ousou organizar a alma portuguesa desde os tempos do Império, e Federico García Lorca, cuja obra e memória sobreviveu ao seu assassinato pelos franquistas, inspirou gerações na resistência à ditadura espanhola.

Segundo Maurice Blanchot, o acto poético faz com que a linguagem deixe de ser instrumento e revele a sua essência, que é a de “fundar um mundo” Isto é, a mesma essência do pensamento, que funda as coisas e a realidade humana.

Em qualquer caso, Tolentino fará a diferença no colégio cardinalício. “És a Poesia!”, ter-lhe-á dito o papa momentos antes da imposição do barrete cardinalício. Qual menino entre os doutores será um poeta entre cardeais mais velhos, sem deixar de ser também um doutor das palavras e da Palavra, pois foi nestas que encontrou o sentido da sua vida.

A acreditar no que disse Ludwig Wittgenstein: “Os limites da minha linguagem significam os limites do meu próprio mundo” (Tratado Lógico-Filosófico, 1921), então Tolentino é uma figura universal. E se “a primeira invenção da palavra não veio das necessidades, mas sim das paixões”, como defendeu Jean-Jacques Rousseau (Sobre a Origem das Línguas, 1781), pode dizer-se que o novo cardeal português é um homem de grandes paixões.

Talvez de paixões aparentemente contidas, mas paixões.

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