Opinião:A mulher de dois mundos, por José Brissos-Lino

A mulher de dois mundos

Bartosz Hadyniak

As mulheres movem-se hoje em dois mundos muito diferentes. Se num deles estão a conquistar as posições a que têm naturalmente direito, no outro permanecem acantonadas por condicionamentos culturais, políticos, sociais e religiosos

Decerto que no dia 30 de Novembro de 1872, quando se realizou o primeiro jogo da história entre selecções nacionais (Escócia-Inglaterra), em plena época vitoriana, não passava pela cabeça de ninguém que, passado pouco mais de um século, o mundo inteiro veria uma das mais importantes partidas globais a ser apitada por uma equipa feminina de arbitragem.

E se dissessem que essas mulheres concitariam elogios generalizados pelo seu desempenho e o máximo respeito por parte dos jogadores e treinadores intervenientes, isso seria considerado loucura. De facto, a árbitra Stephanie Frappart, auxiliada por Manuela Nicolosi e Michelle O’Neill, fez história ao tornar-se a primeira mulher a apitar uma prova masculina da UEFA, a final da Supertaça Europeia, recentemente disputada em Istambul. Se ainda acrescentassem que o jogo se realizaria em país muçulmano, a incredulidade seria então insuportável.

Este é o mesmo mundo onde muitas mulheres ainda não podem estudar, votar ou participar na vida das suas comunidades em igualdade de condições com os homens. Onde não podem contactar com um homem a menos que estejam acompanhadas por um elemento masculino da família, onde não podem assistir a um jogo de futebol ou onde são mutiladas na genitália em crianças.

Em El Salvador há dezenas de mulheres a cumprir longas penas de prisão (até 40 anos) resultantes de condenações à luz da lei do aborto, depois de terem experienciado abortos espontâneos e problemas na gravidez.

Recentemente foi notícia que uma ex-ministra da Justiça de Israel, que está à frente de um partido fundamentalista religioso, propõe que as mulheres sejam proibidas de se sentar nos bancos da frente dos autocarros, satisfazendo assim uma reivindicação dos partidos judeus ortodoxos. A líder extremista de direita, Ayelet Shaked, vai mesmo mais longe e defende a aplicação na Palestina de uma versão local do apartheid sul-africano, justificando que essa política de “desenvolvimento separado”, apesar de segregar populações, não constitui uma prática de exclusão. Chega a considerar arrogante a recusa de tal medida pelos judeus seculares, mas já acha natural e apropriado que a comunidade ultra-ortodoxa tente impor um estilo de vida medieval a toda a sociedade israelita. Para os fundamentalistas religiosos, “não há nenhum problema em enviar as mulheres para a parte de trás dos autocarros, em [obrigá-las a] ver um espectáculo através de uma cortina, em [fazê-las] desaparecer da sala de aulas, em impor-lhes o silêncio quando um homem está a falar”. A jornalista Zehava Galon em artigo de opinião publicado no Haaretz, lembra que “em tempos lutámos pelo direito de uma mulher ser piloto de combate, e agora lutamos para que os soldados não voltem as costas a uma oficial do sexo feminino quando ela lhes dirige a palavra”.

Infelizmente todas as religiões abraâmicas se revelam influenciadas pelo sistema patriarcal e por isso têm relegado a mulher para uma posição de menoridade ao longo da história. A hermenêutica dos textos sagrados tem sido constantemente enviesada por práticas religiosas formatadas para o masculino, que receiam olhar ainda hoje para ambos os sexos como iguais em dignidade e direitos.

A modernidade, através do primado da pessoa humana, do secularismo e do racionalismo veio colocar em causa muita desta mentalidade. Mas os movimentos sociais não fizeram menos, através da pílula anticoncepcional, ou das duas guerras mundiais do século XX. Nesses momentos as mulheres foram forçadas a sair de casa para trabalhar como operárias nas fábricas de armamento, munições, fardamento e rações de combate, substituindo-se assim aos homens, mobilizados para os teatros de guerra e já não quiseram voltar ao papel de fadas do lar.

A inteligência e o valor intrínseco das mulheres levou muitas delas a assinar obras de arte e literatura com nomes masculinos, fictícios, a fim de não serem lançadas para o caixote do lixo da história das artes e da cultura. E em meados do século IX em Roma até terá pontificado uma mulher, a papisa Joana, disfarçada de homem (Papa João).

Apesar de alguns escritos claramente misóginos atribuídos ao apóstolo Paulo, e hoje considerados pseudo-paulinos por alguns, a verdade é que o cristianismo é bastante claro em considerar homens e mulheres como iguais em dignidade intrínseca e perante Deus. Em carta-circular enviada às igrejas da Galácia, Paulo escreve claramente: “Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fémea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:26-28).

E se formos analisar o exemplo do próprio Cristo, entendemos que não há qualquer margem exegética legítima para colocar a mulher abaixo do homem, tanto aos olhos de Deus como na Igreja.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-08-28-A-mulher-de-dois-mundos

Agência Ecclesia noticia a Pós Graduação Ciências da Paz

Curso vai ter lugar entre 16 e 22 de setembro e já recebeu o incentivo do Papa Francisco

Lisboa, 21 ago 2019 (Ecclesia) – A Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração, da Universidade Lusófona em Lisboa, vai promover entre 16 e 22 de setembro uma pós-graduação em Ciências da Paz.

Num comunicado enviado à Agência ECCLESIA, a instituição educativa explica a aposta nesta formação como uma “resposta ao apelo do Papa Francisco, e ao posicionamento recente de vários líderes religiosos e políticos” no sentido da necessidade de uma nova conjuntura social, que vá ao encontro de uma sociedade mais pacífica e fraterna.

A mesma nota destaca “uma carta” do Papa, “recebida da Secretaria de Estado do Vaticano”, onde Francisco deixa uma saudação a esta iniciativa da Universidade Lusófona.

“As mais copiosas bênçãos do Céu sobre docentes e discentes do curso de pós-graduação em Ciências da Paz e sobre toda a comunidade académica da Universidade Lusófona”, pode ler-se.

Inspirado em iniciativas como “a Declaração de Abu Dhabi, assinada pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb”, a “Carta pela Compaixão de Karen Armstrong” ou o “Manifesto para uma ética planetária de Hans Kung”, este curso de pós-graduação vai funcionar “em regime de ensino intensivo e implicará a apresentação de um projeto”.

“A marca fundamental deste Curso”, para lá “de uma forte natureza interdisciplinar”, e de um programa que alia “a cultura humanista” ao saber “científico”, vai ser “a do diálogo entre as Religiões”.

Ao longo de uma semana, os formandos vão ser desafiados também a refletir sobre “as dimensões culturais, políticas, económicas, jurídicas, educacionais e mediática” e a sua importância para a paz e para a resolução de conflitos, desde o plano nacional e internacional até a um nível mais específico, dos grupos, associações e movimentos.

Esta pós-graduação em ‘Ciências da Paz’, cuja coordenação está a cargo dos professores Luís Archer e Paulo Mendes Pinto, é aberta a todos os interessados, incluindo “licenciados de qualquer área científica”, pessoas “sem formação superior”, membros de “qualquer denominação religiosa” e agentes de organizações não governamentais.

“Criar, educar e formar profissionais capazes de assimilar e concretizar uma cultura específica da paz, a partir da tradição teológica e filosófica dos Peace studies, próprios da dimensão jurídica e social para enfrentar os desafios urgentes de uma sociedade complexa, multicultural e pós-global”, são alguns dos objetivos estabelecidos para este curso.

Ao mesmo tempo os formandos serão chamados a “adquirir competências para operar em cenários de conflitos, cooperar na promoção do bem comum e da paz, serem mediadores culturais nos diferentes contextos nacionais e internacionais”.

Num plano de estudos composto por 81 horas, destacam-se módulos como ‘Ecologia, Responsabilidade e Governo’, ‘O Modo Português de Diálogo’; Paz, Religião e Diálogo’, ‘Perceções e Representações da Conflitualidade e da Paz’, e ‘Sociedade e Desenvolvimento’.

Educação: Universidade Lusófona aposta numa pós-graduação em «Ciências da Paz»

Inscrições Abertas: Curso Livre em Esoterismo Ocidental | 30 OUT

Apresentação do Curso

O programa da disciplina de Esoterismo Ocidental centra-se no estudo histórico e analítico crítico de movimentos esotéricos na cultura ocidental. Tendo como pano de fundo os movimentos cristãos gnósticos e herméticos da Antiguidade Tardia e a história das chamadas “ciências ocultas ‘(nomeadamente a astrologia, a alquimia, e a magia), o foco deste curso incidirá em particular sobre o renascimento da filosofia hermética durante o início do Renascimento, a assim Occulta Philosophia e os desenvolvimentos posteriores, como a alquimia, o paracelsismo e a Rosacruz. O curso incluirá também noções da Cabala Judaica e cristã.  Além disso, o programa procurará conhecer as correntes teosóficas e iluministas, e as várias formas de ocultismo e movimentos relacionados durante os séculos XIX e XX, incluindo o “New Age”.

 

Objetivos

Conhecer e aplicar a metodologia dos estudos em Esoterismo Ocidental e conhecer o campo de estudos e o “Estado da Arte”. Conhecer, compreender e aplicar o conceito de Esoterismo Ocidental na História das Ideias e da Filosofia e suas implicações. Conhecer, neste contexto, os movimentos do pensamento espiritual e as suas implicações nos impulsos sociais e o modo como potenciaram os desenvolvimentos históricos, artísticos e literários. Conhecer as fontes compulsadas e algumas das concretizações originais e dos pensadores associados ao Esoterismo Ocidental.  Estudar os conteúdos do programa (mencionados na Apresentação), e relacionar com os contextos históricos e filosóficos necessários.

Destinatários

Investigadores nas áreas da Filosofia, da História das Ideias, da História, da Literatura e da Ciência das Religiões, Política, Sociologia e Antropologia. Destina-se também a todos os pesquisadores interessados no Esoterismo Ocidental.

Conhecimentos, capacidades e competências a adquirir

Esta formação permite dotar os alunos de ferramentas conceptuais que os tornarão capazes de conhecer as fontes, compreender os conteúdos filosóficos no período histórico em foco, compreendendo-o como um desenvolvimento do Renascimento nas suas dimensões humanística, neoplatónica, hermética e hermética-cristã, especialmente nas conceções religiosas, filosóficas e alquímicas e a sua génese na Antiguidade Tardia. Por outro lado, o curso permitirá o enquadramento necessário a uma análise crítica de aspetos determinantes da História do Pensamento e das suas repercussões na idade contemporânea, especialmente dos séculos XIX e XX.

Estudos Futuros

Permite o desenvolvimento em campos de investigação relacionados com as áreas da Filosofia, da História das Ideias, da História, da Literatura e da Ciência das Religiões. É útil para a formação em Política, em Sociologia e Antropologia.

Observações

Data prevista de início: 30 de outubro de 2019
Horário: 5ª feira, 19h às 21h
Duração do curso: 3 meses

Veja mais: https://www.ulusofona.pt/formacao-livre/esoterismo-ocidental

Opinião: O Monstro, por José Brissos-Lino

O monstro

Toby Melville/ Getty Images

A solidão é uma espécie de monstro que persegue tenazmente milhares de idosos em Portugal. O problema principal deles nem sequer é os cuidados de saúde, mas a solidão a que os entregamos cada vez mais

Segundo a agência LUSA mais de 90% dos idosos seguidos nos cuidados de saúde primários em Portugal revelam algum grau de solidão, e um terço destes evidencia mesmo níveis graves, o que tem implicações nos referidos cuidados. A conclusão pode ler-se em estudo de investigadores do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, em parceria com a Administração Regional de Saúde do Norte (ARS-Norte).

Se nove em cada dez idosos em tratamento médico sofrem de solidão o país tem um problema sério em mãos e a sociedade está a falhar. A solidão provoca nos idosos um conjunto de problemas de saúde física, mental e emocional. Os estudos apontam para um excesso de medicação nesta faixa populacional, que se agrava nos níveis de solidão mais elevados. Segundo um estudo publicado na revista científica Family Medicine & Primary Care Review: “A solidão leva a um aumento do recurso aos serviços de saúde, como comprovamos através da relação desta com o consumo crónico de medicamentos, especialmente entre os idosos com mais de 80 anos de idade”. Por isso se torna tão importante compreender que a solidão nos idosos provoca maior somatização do seu sofrimento, potenciando assim o risco de sobremedicação.

A responsabilidade para com os idosos, em particular os mais vulneráveis, pertence a toda uma sociedade. A solidão, só por si, é uma vulnerabilidade nas idades avançadas como é bom de ver. Quando a pobreza e a baixa literacia se juntam a essa condição, então as coisas pioram de vez. Daí a necessidade de se desenvolverem estratégias de combate à situação, com vista a elevar os indicadores individuais de saúde. O estudo concluiu que “ter mais de 80 anos de idade, viver sozinho, possuir um baixo nível educacional (menos de nove anos), estar insatisfeito com os rendimentos e ter uma estrutura familiar disfuncional são os principais factores que se associam à solidão”.

Sempre que as sociedades se revelam pouco dinâmicas e a cidadania é tímida, a tentação é sempre remeter para o Estado todas as responsabilidades

sociais. Mas o problema da solidão dos idosos começa nas famílias, que tantas vezes abandonam os idosos ou os ignoram na prática, mesmo quando não cortam formalmente os laços. Se não se faz um esforço em levá-los quando a família vai de férias, se não há interesse em dar-lhes apoio nos momentos e datas que lhes são mais sensíveis, se não há um telefonema, um visita ou outro sinal de preocupação para com o seu bem-estar e as suas necessidades, eles irão sentir-se descartáveis e sem valor.

Mas as igrejas e demais comunidades religiosas, as associações, colectividades e a vizinhança podem ser activos deste combate. Podem criar espaços e ocasiões de companhia e interacção social, promovendo o estímulo à participação na vida familiar, social e comunitária, assim como na ajuda a manter as rotinas diárias de actividade, que muitas vezes se perdem, gerando assim o isolamento que tende a potenciar a degradação pessoal expressa no relaxamento na alimentação, higiene ou vestuário.

É certo que compete ao Estado adoptar políticas que respondam às necessidades duma faixa populacional crescente no país, que promovam um estilo de vida activo depois da reforma e que estimulem o princípio da utilidade social dos idosos, o que terá reflexo directo na promoção da sua saúde. Há que promover o envolvimento no voluntariado social, nas universidades seniores, ou a manutenção da actividade profissional, mesmo em regime de tempo parcial ou até o empreendedorismo sénior.

O cristianismo desde sempre cuidou dos mais velhos, em especial das viúvas pobres. A prática da diaconia iniciou-se na comunidade cristã de Jerusalém nos primórdios da Igreja, através da provisão de alimento para as viúvas pobres (Actos 6:1-6), mas já a Torah recomendava o cuidado com os mais frágeis, incluindo o órfão, o estrangeiro e a viúva, nas prescrições da lei de Moisés, a começar pelos pais: “Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá” (Êxodo 20:12), e que S. Paulo diz aos Efésios ser o primeiro mandamento com promessa (6:2). Mas já o judaísmo do Antigo Testamento recomendava o respeito pelos anciãos, reforçado depois por S. Paulo: “Não repreendas asperamente o ancião, mas admoesta-o como a um pai” (1 Timóteo 5:1).

Aliás, todas as religiões em geral revelam um profundo respeito pelos idosos, do Islão às filosofias do Oriente. A falácia dos nossos tempos é que julgamos que o repositório de conhecimento que eles encarnam pode ser agora plenamente substituído pelos suportes de informação contemporâneos. Mas então, e a sabedoria de vida?

Há que regressar às origens da cultura cristã, bíblica e humanista.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-08-21-O-monstro

“as mais copiosas bênçãos do Céu sobre docentes e discentes do curso de pós-graduação em Ciências da Paz e sobre toda a comunidade académica da Universidade Lusófona” (Papa Francisco)

“as mais copiosas bênçãos do Céu sobre docentes e discentes do curso de pós-graduação em Ciências da Paz e sobre toda a comunidade académica da Universidade Lusófona” 

(Papa Francisco, carta recebida da Secretaria de Estado do Vaticano no dia 9 de Abril de 2019.)

Pós-Graduação em Ciências da Paz

 

Como resposta ao apelo do Papa Francisco, e ao posicionamento recente de vários líderes religiosos e políticos, nomeadamente à Carta pela Compaixão de Karen Armstrong, ao Manifesto para uma ética planetária de Hans Kung e à Declaração de Abu Dhabi (assinada pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb), a Universidade Lusófona avança com o Curso de Pós-Graduação em Ciências da Paz.

Este curso, a funcionar em Lisboa entre 16 e 22 de Setembro, recebeu já o incentivo direto de Sua Santidade.

O Curso terá a duração de uma semana, em regime de ensino intensivo, e implicará a elaboração de um projecto. Para além de uma forte natureza interdisciplinar, o curso apresenta uma interação específica entre a cultura humanista e a cultura científica.

A marca fundamental deste Curso será a do diálogo entre Religiões, mas também entre as dimensões culturais, políticas, económicas, jurídicas, educacionais e mediática, através do método da paz, como categoria resolutiva de dinâmicas de conflito que caracterizam a contemporaneidade, das grandes referências institucionais (nações, organizações internacionais…) ou das instâncias de proximidade (grupos, associações, movimentos …).

Candidaturas: https://www.ulusofona.pt/pos-graduacoes/ciencias-da-paz

Para mais informações: creligioes@ulusofona.pt

Opinião: A teologia das pedras, por José Brissos-Lino

A teologia das pedras

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A tentação de lançar pedras sobre os outros é sempre maior do que a de nos colocarmos em frente a um espelho. Mas, cada vez que lançamos uma pedra contra alguém, no fundo estamos a magoar-nos a nós mesmos

Um dos episódios mais impressionantes do Evangelho de João (capítulo 8) é a cena do Templo de Jerusalém onde um grupo de homens surge de rompante arrastando à força uma pobre mulher.

Desde logo a tradição chama à criatura “mulher adúltera” de forma abusiva. O texto de S. João não permite tal classificação. Apenas conhecemos o testemunho dos seus acusadores. A mulher nem sequer foi ouvida enquanto arguida, talvez porque Jesus não tinha vocação de magistrado, nem a casa de Deus deve ser um local de condenação, mas de amor, aceitação e inclusão: “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (João 3:17).

Mas é estranho que o homem que terá sido encontrado com ela não surja na estória. A lei de Moisés – que escribas e fariseus tanto prezavam – determinava que “Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera” (Levítico 20:10). A verdade é que o homem nunca aparece, talvez porque a sociedade patriarcal é o que é.

Ninguém conhece a biografia da personagem feminina. Seria uma sedutora ou teria sido seduzida? Era adúltera convicta ou terá apenas caído por uma vez em momento de fraqueza? Terá sido seduzida por alguém a quem os acusadores pagaram? Seria vítima de falso testemunho, numa sociedade em que uma mulher sozinha nem sequer podia requerer justiça junto dum juiz?

O primeiro erro destes religiosos foi pretender perturbar o ensino que Jesus de Nazaré ministrava ao povo que o procurou, sobretudo em pleno templo de Jerusalém, o centro de adoração do Judaísmo, território sagrado demais para este dito profeta, indigno e blasfemo, como eles pensavam. O seu segundo erro foi utilizar uma mulher indefesa apenas como pretexto para tentar encurralar o homem que propunha uma mensagem de amor, em clara contra-corrente cultural e religiosa, confrontando-o com a dureza da lei mosaica. O seu terceiro erro foi a insistência (“E, como insistissem…”).

A teologia do amor confunde sempre os “teólogos” das pedras. Só que aquelas pedras de facto não eram destinadas à mulher mas ao próprio Jesus. Se a quisessem lapidar teriam feito isso antes de entrar no templo ou depois de a levarem perante a autoridade religiosa que determinaria a pena. A sua decepção não foi poupar a pobre mulher, foi antes não conseguir que os seus argumentos triunfassem de modo a apedrejar aquele homem que desafiava o sistema religioso estabelecido claramente corrupto e hipócrita. O que eles queriam mesmo era apedrejar aquele nazareno que ousava desafiar o sistema estabelecido: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (1:46).

A resposta do mestre Jesus foi eloquente. Limitou-se a colocar um espelho à sua frente, virado para os acusadores que o interpelavam, onde eles não gostaram nada de ver a sua imagem moral e ética reflectida: “Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela” (7). Conta o episódio que eles, confrontados com a sua consciência: “saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos”. Ou seja, os mais vividos e experientes foram os primeiros a desistir do seu intento.

O que vemos ainda hoje é a mesma inflexibilidade, a mesma pulsão condenatória, a mesma procura de bodes expiatórios por parte dos sistemas religiosos. Normalmente os fariseus dos nossos dias tendem a bajular o poder e a discriminar as minorias e os mais fracos, que não se podem defender, tal como aquela mulher. De uma forma ou de outra alguns líderes políticos procuram hoje o apoio das religiões para imporem a sua agenda populista, que exclui mais do que inclui. Não é novidade. Hitler começou por fazê-lo. Putin fá-lo ainda hoje, tal como Trump, Bolsonaro, Salvini ou Maduro, cada um à sua maneira.

Os “teólogos” das pedras fazem por ignorar que a pedra que têm na mão, pronta a atirar aos outros, é igual à pedra que têm no lugar do coração: “E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne” (Ezequiel 11:19).

E um coração de pedra não bate, por si nem pelos outros. Limita-se a existir.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-08-14-A-teologia-das-pedras

Opinião: Conversa à volta da fogueira, por José Brissos-Lino

Conversa à volta da fogueira

Horacio Villalobos/ Getty Images

Todos concordam que os incêndios florestais são uma calamidade em qualquer parte do mundo. Mas o que poucos ousam dizer em voz alta é que são uma calamidade inevitável e que, por essa razão, há que aprender a viver com eles

Sempre que se verifica a regra dos três trintas é certo e sabido que os fogos florestais estão a caminho: mais de 30 graus de temperatura, ventos a mais de 30 quilómetros por hora e humidade abaixo dos 30 por cento. A conjugação é fatal.

Antes de mais importa que nos consciencializemos para o facto de que os fogos florestais são uma inevitabilidade do nosso tempo. Resultam essencialmente das alterações climáticas acentuadas que o planeta tem vindo a sofrer nas últimas décadas. Não é só o sul da Europa, a Califórnia ou a Austrália que ardem. De acordo com os cientistas e as imagens de satélite recolhidas até o Ártico está a ser pasto das chamas, coisa que já não sucedia há 10 mil anos, com mais de 100 frentes activas entre as regiões do Alasca, Sibéria e Gronelândia, com libertação excepcional de níveis de CO2.

Esta nova e dura realidade exige mudanças radicais de comportamento das populações no sentido da adopção de boas práticas. Por exemplo, a lei portuguesa proíbe que se façam queimadas no campo durante os meses de maior calor, mas sabemos como as pessoas gostam de contornar a lei. Ao contrário do que muitos pensam e dizem, o fogo posto não estará na origem da maior parte dos fogos florestais no país, mas sim os comportamentos negligentes. É o que pensa Patrícia Gaspar, 2º Comandante Operacional Nacional da ANPC, quando diz que a mão criminosa é apenas residual face aos comportamentos negligentes, “que representam mais de 90 por cento de todos os fogos”.

Não há hipótese, temos mesmo que nos adaptar a um planeta diferente através da mudança radical de comportamentos, como acabar com o excesso de matéria plástica que está a entupir os oceanos ou a premente necessidade de reciclar os lixos e as águas, reduzindo os resíduos.

Escrevia a directora da VISÃO há dias: “É tentador encontrar um culpado, e o culpado imediato nunca é o pobre vizinho que não limpou os terrenos nem a câmara municipal que não acondicionou as matas. Na cabeça das pessoas, o culpado é o Estado, essa entidade indistinta que, para muitos, falha em todas as frentes: na limpeza, no planeamento e no combate. E, na cabeça das pessoas, o Estado tem um rosto, o do Governo e o primeiro-ministro em funções.” De facto, as conversas de café do costume – incluindo as redes sociais, que funcionam como conversas de café contemporâneas – giram à volta da procura de um bode expiatório, seja o incendiário, o madeireiro, ou o promotor imobiliário, mas, em última análise será sempre a ANPC, o ministro da Administração Interna, o governo e o primeiro-ministro.

Recentemente a jornalista Daniela Santiago, correspondente da RTP em Espanha, teve a coragem de propor “um estudo académico, aprofundado, sobre os efeitos da cobertura mediática (TV) dos incêndios em Portugal. Especialmente chamas atrás de chamas.” Argumentava que no país vizinho todos os acessos são vedados, pelo que os jornalistas não passam do posto de comando. Porém, salvaguardava que não tinha opinião acabada sobre o assunto (antes que os colegas a trucidassem…), propondo apenas uma reflexão. Os incêndios florestais são uma mina para as televisões na silly season – juntamente com as notícias de transferências futebolísticas – e todos nos lembramos de como uma certa jornalista se fez filmar ao lado dum cadáver nos fogos de 2017…

 

Face aos incêndios florestais a atitude de boa parte dos cidadãos oscila entre a necessidade de encontrar um bode expiatório – na linha da velha estória da culpa que enforma parte da teologia cristã – e o desejo de voyeurismo. Sim, porque se o público não alimentasse as horas infinitas de transmissão dos teatros de operações a coisa acabava num instante.

Paulo de Carvalho popularizou a canção “Meninos do Huambo” (com música de Rui Mingas e letra de Manuel Rui Monteiro), que fala das crianças angolanas à volta da fogueira a sonhar com a construção do seu país. Mas neste caso as conversas à volta dos incêndios são fatalmente destrutivas.

Só que há fogos piores do que os florestais. Pelo menos é o que diz o apóstolo Tiago: “Assim também a língua é um pequeno membro, e gloria-se de grandes coisas. Vede quão grande bosque um pequeno fogo incendeia. A língua também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno” (3:5-6).

E em tempo de pré-campanha eleitoral, se os fogos dão sempre jeito, as línguas em brasa ainda dão mais.

 

Fonte: http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-08-07-Conversa-a-volta-da-fogueira

“Há realidades onde o esquema europeu de ser Igreja já não funciona”

26 jul, 2019 – 07:04 • Ângela Roque
Responsável mundial pelo Departamento Justiça e Paz dos missionários espiritanos, o padre Tony Neves defende, em entrevista à Renascença, que o Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia, convocado pelo Papa para outubro, é decisivo para o futuro da humanidade e da Igreja.
Foto: RR
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A completar 30 anos de sacerdócio (foi ordenado a 30 de julho de 1989) e de jornalismo, o padre Tony Neves está em Portugal para lançar o seu mais recente livro, “A missão de Servir”.

O livro, que será apresentado no próximo sábado, dia 27 de julho, em Gondomar, a sua terra natal, reúne artigos, conferências e textos que escreveu durante os seis anos em que foi Provincial dos Espiritanos em Portugal.

Desde 2018 que coordena, a nível mundial, o Departamento Justiça e Paz da congregação, que tem quase três mil missionários, espalhados por 64 países dos cinco continentes.

Em entrevista à Renascença, o sacerdote fala do novo livro, dos desafios da nova missão e do Sínodo dos Bispos ‘Amazónia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral’.

O Papa convocou para outubro um Sínodo sobre a Amazónia. Como é que vê esta iniciativa do Papa?

Acho que vai ser muito interessante, e há expetativa sobre os resultados. Quando falamos de Amazónia pensa-se na Amazónia brasileira, mas é muito mais do que isso, apanha o Peru, o Paraguai, a Bolívia, a Colômbia, a Guiana francesa, uma série de outros países ali à volta.

“Há muita gente que continua a brincar com isto, mas a verdade é que as alterações climáticas estão aí para ficar e temos de fazer alguma coisa”

Os desafios que se jogam na Amazónia hoje em dia são enormes. Há muita gente que continua a brincar com isto, mas a verdade é que as alterações climáticas estão aí para ficar e temos que fazer alguma coisa.

Essa foi uma das razões que levaram o Papa a convocar este Sínodo.

Foi a principal razão, embora a essa razão o Papa sobreponha outra, e na ‘Laudato Si’ isso é muito evidente – é que nós podemos gostar muito dos peixinhos, das árvores e de tudo, mas o melhor do mundo são as pessoas, e é para elas que temos de olhar sempre em primeiro lugar. E os povos que vivem nas áreas amazónicas provaram, ao longo de milénios, que são dos raros povos do planeta que conseguem estabelecer uma relação sadia com a terra. Quando digo com a terra, digo com a floresta, os rios. Não poluem, não derrubam árvores, pelo contrário.

Quase metade da área florestal do mundo e quase metade dos recursos hídricos estão na grande Amazónia, o que quer dizer que para o mundo a Amazónia não é um pormenor, é um ‘pormaior’. Quando a gente brinca com Amazónia está a brincar com o planeta todo.

O que a Igreja propõe é que se olhe para a Amazónia como exemplo, para o mundo e para a própria Igreja?

Exatamente. Porque os povos amazónicos conseguem ter uma vivência ecológica muito perfeita, com um estilo de vida muito simples, muito comunitário, e isso é certamente um exemplo para a Igreja toda. O que está a acontecer é que quem já nem tem estilo de vida simples, nem vida comunitária, quem só vê interesses, está a entrar por ali dentro, só a pensar na mineralogia, em barragens, nas sojas industriais, no gado bovino, que vai obrigar a deitar abaixo florestas.

Enquanto os interesses se sobrepuserem às pessoas, vão continuar a afastar os povos indígenas dessas áreas para poderem trabalhar à vontade e ganhar muito dinheiro com isso, mas vão condenar o resto do mundo, sem que o resto do mundo tome medidas. Porque dá-me a impressão que estamos todos muito de acordo de que são precisas grandes barragens, que é preciso muita soja, muita carne de boi, e esquecemo-nos que se não respeitamos este equilíbrio que os povos da Amazónia têm conseguido, vamo-nos autodestruir.

“Ordenar homens casados é uma novidade pastoral que se desenha, mas é bom que não haja uma focagem de tal maneira nessa questão que depois tudo o resto seja diluído”

O Papa chamou a atenção para isso na ‘Laudato Si’, e esse é um dos objetivos maiores do Sínodo. Claro que depois há sempre algumas desfocagens que se fazem, e a desfocagem maior tem a ver com a questão sacramental.

Está a referir-se à discussão da ordenação de homens casados?

Sim. De facto é uma novidade pastoral que se desenha, mas é bom que não haja uma focagem de tal maneira nessa questão, que depois tudo o resto seja diluído.

Isso não será o mais importante, do seu ponto de vista?

Não. O mais importante é a evangelização dos povos da Amazónia e o respeito por eles. Antes de mais que não os tirem de lá, que não andem a enquinar tudo e a assustá-los. Neste momento mais de 80% já estão encostados a grandes cidades, a viver em condições absolutamente infrahumanas, porque foram assediados com promessas de que lá era tudo muito melhor, ou foram mesmo obrigados a sair, porque outros interesses maiores se levantaram. Portanto, o que se quer é que os que ainda permanecem em áreas florestais e ribeirinhas possam continuar a viver aí com dignidade e condições, e que a relação entre eles e com a natureza seja exemplo para a humanidade. E, claro, que o Evangelho também lhes chegue, daí a questão da Evangelização.

E como é que a Igreja pode continuar a chegar a estas regiões mais remotas?

Há duas propostas que aparecem no instrumento de trabalho do Sínodo e que são complementares. A primeira é que se abre uma exceção que permite que leigos da comunidade, que sejam pessoas irrepreensíveis e tenham dado provas de muita fé e de muita integridade, possam ser ordenados para presidir à eucaristia e torná-la acessível ao povo de Deus. Essa é uma das hipóteses que está lá, vamos lá ver o que é que depois se conclui.

A segunda hipótese é que, por exemplo, quando um Instituto religioso vê que é muito difícil trabalhar numa determinada área, que aí haja uma coligação de institutos de vida consagrada, masculinos e femininos, e se criem frentes intercongregacionais. Eu quando estive numa das favelas mais duras do Rio São Paulo, a famosa ‘Vila Prudente’, encontrei lá dentro uma comunidade de três irmãs, uma de cada congregação, num projeto que é intercongregacional.

E a proposta para que as mulheres possam ter mais liderança, localmente?

Esse é outro dos aspetos. Acho que a Igreja universal tem muito a ganhar com um eventual assumir de mais responsabilidades de liderança nas comunidades. Que se faça um teste, e que esse teste possa depois extravasar para o resto da Igreja, acho isso perfeitamente normal e bom.

De qualquer modo, do seu ponto de vista, não é correto querer interpretar isto como um abrir de portas quer à ordenação de homens casados, quer ao diaconado feminino?

Não, neste momento creio que não é isso que está em cima da mesa, embora essa possa ser uma consequência a tirar daqui por uma dúzia de anos, se a experiência da Amazónia fôr bem sucedida, e se fôr por aí que as coisas avancem.

Mas, é uma novidade a Igreja olhar e procurar respostas para as necessidades de uma realidade local?

Acho que essa é a grande novidade, que pode ser inspiração para a Igreja no seu todo. É que corremos o risco de estar sempre a querer impôr chapéus em cima de cabeças que não existem, e depois deixamos muitas cabeças ao sol, porque não temos chapéus para elas.

Em determinados sítios do mundo temos padres que nunca mais acabam, que nem sabem o que fazer do seu ministério sacerdotal e nem sequer podem celebrar missa todos os dias para o povo, porque não têm povo para celebrar missa todos os dias, mas têm o dom de presidir à eucaristia e de consagrar o pão eucarístico para distribuir. E depois há povos inteiros que ficam completamente privados da Eucaristia, porque não têm padre com eles para poder estar lá e poder consagrar e celebrar a Eucaristia. Por isso, a preocupação de quem foi trabalhando estas questões da Amazónia, os que lá estão a trabalhar, foi a de fazer um equilíbrio entre estas duas coisas, entre a oferta e a procura no que diz respeito à Eucaristia.

“O Papa Francisco vem das periferias, percebe muito bem que há realidades onde o nosso sistema europeu de ser Igreja já não funciona”

A verdade é que boa parte destes povos não tem qualquer hipótese de participar na Eucaristia, enquanto a Eucaristia exigir a presença de alguém que teve 10 anos no seminário, fez um curso de filosofia e outro de teologia, foi ordenado padre e aceitou ir para um sítio onde não vai ter grandes condições para viver. Muitos vão-se esquivar e dificilmente a Igreja vai encontrar padres que consigam viver nestes ambientes difíceis, que exigem muita força física e muita resistência psicológica.

O Papa Francisco tem uma particular sensibilidade para ver as diferenças da Igreja a nível mundial. É por não ser da Europa?

Um dos problemas da Igreja é ter sido sempre muito ‘europocêntrica’. Os grandes líderes da Igreja, os Papas e muitos dos bispos com influência no Vaticano, é gente que nasceu na Europa, cresceu na Europa e vai morrer na Europa, olha para a Igreja com este rosto europeu e acha que aquilo que aqui na Europa funciona tem de funcionar em todo lado. Mas, isso não é verdade. Há coisas que funcionam aqui, mas outras culturas implicam outras formas de ser Igreja, e mesmo outras formas de exercer os ministérios em Igreja.

O Papa Francisco vem das periferias, é um homem muito preocupado com todos os dramas das grandes favelas latino-americanas, passou boa parte do seu tempo, enquanto padre e depois como o bispo, a visitar os bairros periféricos de Buenos Aires. Portanto, ele percebe muito bem que há realidades onde o nosso esquema europeu de ser Igreja já não funciona, já não responde. Se não responde vamos invocar o Espírito Santo, que não dorme, para que se encontrem respostas para os problemas de hoje. Porque a nossa tentação é sempre responder aos poblemas de hoje com respostas de ontem, e dizemos ‘ah, mas isso ontem funcionava’. O problema é que o ‘ontem’ já passou.

O que é que seria mesmo importante sair deste Sínodo?

Antes de mais uma palavra de muito respeito pelos povos amazónicos e pela realidade amazónica, porque isso é vital para o presente e para o futuro da humanidade. Depois que a dimensão comunitária e a dimensão ecológica integral sejam muito tomadas a sério. E finalmente que algumas respostas pastorais, que vão ajudar a resolver o problema da evangelização na Amazónia, possam ser analisadas e que outros, noutras realidades, procurem inspirar-se e encontrar soluções de evangelização e soluções sociais para as suas próprias realidades. Acho isso absolutamente decisivo.

Foto: Joana Gonçalves/RR
Foto: Joana Gonçalves/RR

Está em Portugal para lançar “A missão de Servir”, o seu mais recente livro. A palavra ‘missão’ tem estado sempre presente tanto na sua vida como nos seus livros?

Sempre, e faço questão disso. Os únicos livros que não têm a palavra ‘missão’ foram aqueles em que não fui eu a escolher o título. Para mim é uma imagem de marca. Este reúne conferências que fiz durante os seis anos em que fui Provincial dos espiritanos, reportagens e artigos que escrevi. Havia mais, mas não couberam. Mesmo assim ficou com 400 páginas.

É há quase um ano coordenador mundial do Departamento de Justiça e Paz dos Missionários Espiritanos, com sede em Roma. Que balanço faz destes primeiros meses nas novas funções?

É um balanço positivo, porque foi uma abertura de horizontes muito grande. Primeiro tinha duas línguas para aprofundar, o italiano, porque estou em Itália, e o inglês, porque é uma língua mundial e de trabalho, e que não domino. Estive a fazer isso. À missão, que no início tocava as questões de justiça, paz e ecologia integral, vi entretanto somarem outra dimensão muito importante, que é a do diálogo inter-religioso, e ultimamente também tenho trabalhado muito as questões de comunicação.

O que faz sentido, tendo em conta que é jornalista, e esta área da justiça e paz está ligada aos grandes temas da atualidade.

Todos, estão aí todos. Tudo o que tem a ver com a guerra, com a violência, com a pobreza, com os direitos humanos, tudo o que tem a ver com estas questões ecológicas, que são muitas e transversais a muita coisa, tudo isso está debaixo deste chapéu da ‘justiça e paz’.

Tem sido compensador, como padre e como jornalista?

Tem, porque me tem permitido fazer muitas interações com muita gente e muitas instituições. Por exemplo, em Roma, a União dos Superiores e Superioras Maiores dos Institutos Religiosos têm a justiça e paz como uma grande área de intervenção, com muitas equipas de trabalho, e estou integrado em algumas. Mas, uma das coisas que me tem dado uma alegria muito grande é o poder ir às linhas da frente e estar com os colegas que no dia-a-dia sentem na pele as consequências de muitos atentados a estas questões de justiça e paz…

Onde é que já esteve?

Estive em favelas do Rio de Janeiro e de São Paulo, estive em Zanzibar e em Dakar, onde as questões essenciais se prendem com o diálogo inter-religioso, mas não só. Passei um mês inteiro em Angola, onde ainda há muito para fazer no combate à corrupção, no erradicar a violência – porque 40 anos de guerra deixaram raízes muito fortes –, no respeito pelos direitos humanos e no trabalhar por uma justiça que seja efetiva, que não seja só uma justiça legal. Conseguir estar nessas linhas da frente e interagir diretamente com os muitos colegas, missionários, missionárias e leigos, que se empenham fortemente nestas áreas de intervenção, tem sido muito enriquecedor.

E tem sido inspirador para, como jornalista, continuar a analisar e a escrever sobre a atualidade?

Agora mais do que nunca. O meu drama é escolher os temas, porque a cada semana podia escrever sobre quatro, cinco ou seis coisas diferentes. Falo sobre alguns no programa ‘Lusofonias’ (rádio Sim, do grupo RR), sobre outros na minha página do Facebook, e no jornal ‘Ação Missionária’, dos espiritanos. O dossier deste mês de julho é sobre a visita que fiz a Angola, e o de agosto, que está na gráfica, é sobre a visita que fiz ao Senegal e o encontro que tive em Dakar com os representantes espiritanos de todos os seminários maiores do mundo.

A realidade do Senegal é muito interessante a nível de diálogo inter-religioso, porque tem 95% de muçulmanos e 4% de católicos, mas há ali um respeito mútuo enorme, que deveria ser inspirador para outros sítios do mundo, para deitar abaixo o preconceito de que os muçulmanos são todos integristas e fundamentalistas. Não são, e há realidades que desmentem.

Celebra dia 30 de julho 30 anos de padre e de jornalismo. Não se vê de outra maneira?

Não, nunca consegui dissociar uma coisa da outra, porque antes de ser padre já escrevia, e continuei a achar que a missão escreve-se, a missão diz-se, a missão lê-se, a missão mostra-se, a missão vive-se em contextos onde é preciso amplificar a voz de quem lá está, e sobretudo amplificar uma quantidade enorme de valores que se vivem e que ajudam o mundo a ser melhor. E também é preciso denunciar tudo aquilo que é a violação dos direitos humanos, que desumaniza e torna o mundo pior. Este tem sido o meu compromisso, e nisso o meu jornalismo e a minha missão sacerdotal têm andado sempre de braço dado.

A análise crítica dos “Manifestos Rosacruzes” foi tema de dissertação de Mestrado

A análise crítica dos “Manifestos Rosacruzes” foi tema de dissertação de Mestrado

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O candidato Rui Lomelino de Freitas prestou hoje provas públicas na Universidade Lusófona (ULHT), com vista à obtenção do título de Mestre em Ciência das Religiões, com a defesa da dissertação “Os Manifestos Rosacruzes”.

O trabalho pretendia enquadrar , apresentar e analisar criticamente os Manifestos Rosacruzes do séc. XVII, que podem ser consideradas herança cultural e espiritual da humanidade.

O júri foi constituído pelos Profs. Doutores José Brissos-Lino (presidente), Paulo Alexandre Esteves Borges (arguente) e João de Almeida Santos (orientador), sendo a classificação final de Excelente.

Fonte: https://iccontemporaneo.wordpress.com/2019/07/31/a-analise-critica-dos-manifestos-rosacruzes-foi-tema-de-dissertacao-de-mestrado/

Opinião: A obra de arte de Alan Turing, por José Brissos-Lino

A obra de arte de Alan Turing

Estátua de Alan Turing, em Manchester

Christopher Furlong/ Getty Images

Foram os resquícios da mentalidade vitoriana que levaram a Inglaterra a sacrificar cruelmente um dos seus maiores. E um certo rasto puritano que pontificou durante séculos em terras de Sua Majestade

Em 1952 a homossexualidade ainda era proibida no país, o que levou o cientista Alan Turing a ser processado, aos quarenta anos de idade, e condenado por “indecência grosseira”. Entre ficar preso ou submeter-se à castração química, à força de estrogénio, optou por esta, mas foi igualmente banido da vida académica, tendo sido ostracizado pela sociedade e pela academia. Impedido de viajar, leccionar ou fazer investigação, não aguentou e passados dois anos suicidou-se, comendo uma maçã na qual injectara previamente cianeto.

A perseguição e tortura que sofreu não foram diferentes das de qualquer outro cidadão britânico homossexual. Apesar disso, esta foi a mente brilhante que conseguiu decifrar o complicado código nazi Enigma, permitindo que as tropas aliadas pudessem interceptar as mensagens alemãs e localizar os respectivos submarinos durante a Batalha do Atlântico, nos anos da II Guerra Mundial. Estima-se que a sua acção tenha encurtado o conflito em dois anos e poupado 14 milhões de vidas humanas.

De resto, foi a equipa de Turing que conseguiu desmascarar um espião português ao serviço dos alemães – Gastão Crawford de Freitas Ferraz, natural do Funchal, e funcionário da Marconi – aliciado em Lisboa a troco de 1500 escudos mensais, quatro vezes mais do que o salário médio em Portugal na altura, e que se alistou no navio-hospital Gil Eanes como radiotelegrafista.

Segundo José António Barreiros, que tem obra publicada sobre a espionagem na II Guerra Mundial: “A sua localização foi concebida graças à radio-escuta das comunicações alemãs, que apesar de criptografadas pela máquina Enigma, foram descodificadas em Bletchley Park por uma equipa de que o mais proeminente elemento foi Alan Turing. Tratava-se de informação de tal modo secreta que a sua fonte era indicada nos documentos que se produzissem como ULTRA”. Alertados os serviços secretos britânicos, a Royal Navy deteve o espião português em alto mar e fê-lo desembarcar em Freetown (Canadá) a 1 de Novembro de 1942, desconhecendo-se o seu destino posterior.

Só em 1967 foram descriminalizadas as relações entre homens adultos em Inglaterra e no País de Gales, a que se seguiu a Escócia, em 1980, e a Irlanda do Norte em 1982.

Mark Carney, actual governador do Banco de Inglaterra, referiu o trabalho do cientista: “Alan Turing foi um excelente matemático cujo trabalho teve um enorme impacto na forma como hoje vivemos. Como pai da ciência da computação e inteligência artificial, bem como herói de guerra, as contribuições de Alan Turing foram muito variadas e inovadoras. É um gigante em cujos ombros estamos tantos”. De facto Turing desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento dos primeiros computadores, tanto no âmbito do Laboratório Nacional de Física como depois na Universidade de Manchester, sendo por isso considerado o grande pioneiro da computação moderna.

O puritanismo marcou a Inglaterra durante séculos, e a mentalidade vitoriana permaneceu presente na sociedade até ao século vinte. A supremacia europeia, a pulsão imperial e uma religião ao serviço do poder moldaram toda uma sociedade, que só a Modernidade veio questionar.

A mais do que justa reabilitação de Alan Turing chegou apenas em 2014 através dum “perdão real”, sendo agora o matemático um herói oficial da coroa britânica. A mesma Inglaterra que o amaldiçoou vai andar no bolso com ele, a partir de 2021 nas novas notas de 50 libras, que exibirão o seu rosto e uma frase que revela a sua genialidade: “Esta é apenas uma antecipação do que está por vir, e apenas a sombra do que será” (retirada da entrevista concedida ao The Times em 1949). A justificação do decisor desta escolha histórica é o desejo e a necessidade de representar “todos os aspectos da diversidade dentro do país, de raça, religião, credo, orientação sexual, deficiência e além.”

Até agora só o símbolo da tecnológica Apple, uma maçã com um pedaço a menos, homenageava Alan Turing como o pai da informática, numa referência clara à sua morte, e mais recentemente a obra de Andrew Hodges Alan Turing: The Enigma, entretanto adaptada ao cinema em 2014 e que ganhou o Óscar de Melhor Argumento Adaptado.

Zygmunt Bauman (A Arte da Vida, Lisboa: Relógio D´Água, 2017) diz com razão: “As nossas vidas, quer o saibamos ou não e quer o saudemos ou lamentemos, são obras de arte”. Foi o caso de Alan Turing, apesar de as pinceladas negras da perseguição e da tragédia fazerem parte do quadro.

Veja mais: http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-07-31-A-obra-de-arte-de-Alan-Turing

Opinião: Bolsonaro cristão, Bolsonaro pagão, por José Brissos-Lino

Bolsonaro cristão, Bolsonaro pagão

MAURO PIMENTEL/ Getty Images

Há quem defenda que o governo de Bolsonaro, apesar de se afirmar cristão, em boa parte, inscreve-se todos os dias em campo oposto à respectiva ética. As comparações com a personagem Donald Trump são inevitáveis

A plataforma política que levou Bolsonaro ao Palácio do Planalto incluiu um vasto suporte entre evangélicos em geral e neopentecostais em particular, com promessas de proteger e apoiar a causa religiosa.

Joel Pinheiro da Fonseca diz na revista Exame: “Em toda oportunidade que tem, diz que embora o Estado seja laico, ele próprio é cristão. Seu lema de campanha incluía Deus. Ele já fez menção de que a religião evangélica será um critério para sua indicação de ministro no Supremo Tribunal Federal. Fez questão de participar da Marcha para Jesus no mês passado. Contudo, quando olhamos para suas propostas e valores, a impressão é bem diferente.

Sabemos que a sua vitória eleitoral ocorreu na sequência de um fenómeno de rejeição por parte do eleitorado dos actores políticos em geral e do Partido dos Trabalhadores (PT) em particular, devido à extrema corrupção, aos altos níveis de violência e à imposição duma agenda de temas fracturantes. Foi isso que levou ao poder um velho deputado como Bolsonaro, sem qualquer currículo parlamentar ou cívico, a não ser protagonizar as ideias da direita a roçar o extremo político.

De facto, bastam alguns indicadores para entender rapidamente que o seu discurso religioso não confere com a acção política. Se a fé cristã prega o perdão dos pecados e a redenção dos homens, Bolsonaro propõe e exalta a execução dos criminosos. Se o evangelho proclama a dignidade da pessoa humana, Bolsonaro defende publicamente a tortura e a execução sumária. Se o cristianismo prega uma mensagem universal e a missionação, Bolsonaro coloca-se como inimigo dos indígenas e procura submetê-los aos interesses da expansão agrária. Se Jesus frisou o cuidado pelos pobres, o governo de Bolsonaro não parece interessado nas políticas sociais. Se o cristianismo fala de paz, Bolsonaro propõe a difusão das armas.

Mas da parte das lideranças cristãs o panorama não é melhor. Recentemente uma vintena de deputados da Frente Parlamentar Evangélica votou favoravelmente a reforma da Previdência, que obriga os trabalhadores brasileiros a trabalhar mais para se aposentar, mas não foram capazes de prescindir das suas próprias mordomias nessa matéria. Ou seja, aprovaram uma lei punitiva para a população em geral mas puseram-se de fora, conservando os privilégios de que tinham em mãos. Já não bastava que parte dos deputados evangélicos tenham sido considerados dos mais corruptos nos tempos do famigerado Mensalão…

Outro exemplo. O pastor Marco Feliciano, chegou-se rapidamente à frente para afirmar publicamente que gostaria de concorrer à vice-presidência do Brasil ao lado de Bolsonaro, em 2022, manifestando assim a sua indisfarçável e desmedida ambição política. Agora se compreende melhor a campanha suja que vem fazendo contra o actual vice, o general Mourão. Aliás, os líderes neopentecostais têm vindo a manifestar ao longo das últimas décadas uma preocupante sede de poder. Apoiaram abertamente candidatos e presidentes de quadrantes políticos tão diferentes como Lula, Dilma, Temer e agora Bolsonaro. No fundo eles não apoiam pessoas, políticas, programas ou ideologias. São apenas atraídos pelo poder como as traças pela luz.

Mas a cereja em cima do bolo será talvez a decisão já anunciada publicamente por Jair Bolsonaro de designar o seu filho Eduardo para o cargo de embaixador do país nos EUA. E a justificação para este acto de puro nepotismo é hilariante: “(Eduardo) é amigo dos filhos do Donald Trump, fala inglês e espanhol, tem uma vivência muito grande do mundo”, pelo que “poderia ser uma pessoa adequada e daria conta do recado perfeitamente”.

A personagem tem procurado capitalizar o apoio dos evangélicos mas não revela qualquer identificação séria com a ética cristã, nem sequer na aparência. Calcula-se que produza em média uma afirmação falsa ou distorcida por dia. Alguém lembrou, a propósito, as palavras de Jesus de Nazaré: “Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mateus 7:21). Já S. Paulo advertia o jovem Timóteo sobre aqueles que, tendo aparência de piedade, todavia negavam a eficácia dela. E concluía: “Destes afasta-te” (2 Timóteo 3:5).

Ao contrário de qualquer político experiente, Bolsonaro, uma vez eleito, não se posicionou como presidente de todos os brasileiros. Pelo contrário, continuou a cavar o fosso entre direita e esquerda. Assiste-se assim ao extremar de posições e ao desaparecimento do centro político. Se alguém critica Bolsonaro é taxado de comunista ou, no mínimo, de lulista e recomenda-se que vá para Cuba ou Venezuela. Se apoia o presidente é apelidado de fascista.

Assim é difícil construir qualquer coisa.

“Para os judeus sefarditas, a terra prometida nunca foi Israel. É Portugal e Espanha” por Catarina Maldonado Vasconcelos

“Para os judeus sefarditas, a terra prometida nunca foi Israel. É Portugal e Espanha”

Da passagem medieval por Castelo de Vide à sinagoga do Porto criada no século XX. Do imaginário literário à materialidade da saudade. A TSF seguiu a rota da memória sefardita por Portugal e nela encontrou a terra prometida.

Michael Rothwell leva o livro sagrado até à linha dos olhos e abre-o com reverência, diante de uma sinagoga calada, a 25 Sivan do ano hebraico de 5779. O calendário civil marca 28 de junho de 2019, uma sexta-feira, e faltam poucas horas para o pôr-do-sol que inicia o sabat, e que apenas se extingue, de acordo com o Génesis, ao aparecimento das primeiras três estrelas da noite de sábado.

O templo está esvaziado da união de 10 homens de mais de 13 anos necessária ao serviço religioso, mas guarda a luz, sempre acesa, dirigida para Jerusalém. Para os judeus, a sinagoga tem de se orientar, como a própria ação o indica, para Oriente, onde o templo verdadeiro existiu em tempos.

“Escuta, Israel, o eterno é nosso Deus, o eterno é um. Bendito seja o nome daquele cujo glorioso reino é eterno. Amarás ao eterno, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas posses.” As palavras são lidas da Tora, onde o hebraico e o português convivem como secularmente se falaram, sem empecilhos. A sinagoga portuense, Kadoorie – Mekor Haim (“Fonte de Vida”), a maior da Península Ibérica, reverbera as palavras de culto contra as paredes de azulejos com inspirações marroquinas, a favor da estrela de David.

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