Religiões, ecologia e natureza por Fabrício Veliq

Religiões, ecologia e natureza

As religiões têm um papel fundamental no ensino de seus fiéis para o cuidado da natureza

No dia 9 de fevereiro, cientistas brasileiros registraram a temperatura de 20,75°C na Antártida

No dia 9 de fevereiro, cientistas brasileiros registraram a temperatura de 20,75°C na Antártida (Reuters)

Fabrício Veliq*

Falar sobre a questão ecológica é um imperativo de nossos dias. Por mais que haja quem afirme loucamente não haver aquecimento global, que isso seria só mais uma fase como as diversas pelas quais a Terra já passou – como a Era do Gelo – e tantas outras bobagens que lemos no dia a dia, é fácil saber que algo errado está acontecendo com o planeta. Basta se atentar às pesquisas científicas sobre o clima ou até mesmo a eventos notórios como as queimadas na Austrália no final do ano passado e os 20 graus que acometeram a Antártida recentemente.

O aquecimento global tem sido fruto da ação humana que, sob o lema de “progresso”, destrói a natureza. Por exemplo, continuamos a lançar inúmeros poluentes no ar, aumentando o efeito estufa que gera o degelo das calotas polares. Daqui a algum tempo, isso causará o aumento do nível do mar, matando diversas pessoas e acabando com diversos países.

Não é mais possível fechar os olhos para isso. Diversos setores da sociedade estão claros e cônscios de suas responsabilidades frente à crise ecológica que o século 21 enfrenta. A religião, como um aspecto importante da sociedade, não pode ficar de fora. Ela também precisa pensar e repensar o seu ensino sobre o meio ambiente. Principalmente o cristianismo, que ao longo dos séculos pregou e incentivou a exploração da natureza, interpretando erroneamente o versículo de Gênesis – que dizia para sujeitar a terra e dominar sobre os animais – sob o princípio do domínio predatório ao invés da “mordomia” sobre a qual o texto fala. Essa mancha na história, reconhecida já por muitos, deve também motivar novas teologias ecológicas, que assumam seu papel e motivem ações efetivas de combate à crise ecológica que vivemos.

As diversas religiões mundiais também devem, da mesma forma, tomar consciência do grande papel que desenvolvem na sociedade. Elas são chamadas a assumir a responsabilidade de transformação da mentalidade de seus fieis para que se importem com a natureza. A maioria delas, em seu cerne, consideram a natureza importante e necessária à humanidade, o que consta em seus textos sagrados. Essa importância também é dada nas religiões de matriz africana e indígena. Nelas, há diversos os rituais que necessitam da natureza e a têm como um dos elementos mais importantes nas oferendas e culto às divindades. Importa perceber que várias religiões têm despertado para a necessidade de se importar com a natureza, reconhecendo nela algo com valor em si mesmo e que, portanto, não deve ser explorado.

Nesse linha, aconteceu este ano, em Lisboa, o 3º Congresso Lusófono de Ciências da Religião, com o tema “Religião, ecologia e natureza”. Em uma mesma mesa, representantes de um amplo espectro religioso abordaram a temática ecológica, a visão que cada religião tem acerca da natureza e como seria possível fazer algo efetivo para a transformação da sociedade no que tange a esse assunto.

O foco foi procurar não somente uma reflexão teórica, mas também incluir ações de ordem prática. Isso se percebia em diversos relatos, como a construção de templos ecologicamente corretos por comunidades hindus e muçulmanas em Portugal, ou ainda a mudança nas oferendas dos rituais nos cultos a Iemanjá, feitos na Bahia, de maneira que não poluam os mares.

Esses pequenos exemplos revelaram algo muito importante: as religiões têm um papel fundamental na educação de seus fieis no cuidado da natureza e, por isso mesmo, precisam assumir tal responsabilidade. Em outras palavras, não devem se abster de falar sobre a crise ecológica e propor, por meio de ações concretas, uma nova forma de viver em sociedade, que respeite os ciclos naturais, de maneira que a Terra continue sendo nossa casa comum.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia e Licenciado em Matemática (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com

https://domtotal.com/noticia/1424266/2020/02/religioes-ecologia-e-natureza/?fbclid=IwAR035c5ZHhcFViMIDLaEsg-XeVtAop7TxrMsAgdccJ3ikHXPTtQYn42okWM

Opinião: Afinal, a mãe do rock’n’roll era mulher, negra e cristã por José Brissos-Lino

Afinal, a mãe do rock’n’roll era mulher, negra e cristã

Antes de Elvis, Little Richard, Johnny Cash, Carl Perkins, Chuck Berry ou Jerry Lee Lewis ela já era. A verdadeira mãe do rock’n’roll chamava-se Rosetta Tharpe e era negra, mulher e cristã

Rosetta Tharpe (1915-1973) surpreendeu o mundo artístico no ano de 1937, com o seu primeiro disco, “Rock Me”, onde evidenciava uma voz poderosa, a que juntou uma grande presença em palco e um estilo único na guitarra, reunindo o gospel e o popular. Mulher, negra e cristã comprometida, a cantora e instrumentista americana tornou-se um ícone nos EUA, influenciando fortemente músicos como Elvis Presley, mas só foi homenageada décadas depois ao integrar o Hall da Fama do Rock ‘n’ Roll.

Rosetta Tharpe nasceu em Cotton Plant, Arkansas, sul dos Estados Unidos, entre plantações de algodão, onde os pais trabalhavam e a igreja protestante onde a mãe congregava. Parece ter herdado do pai o gosto pelo canto e da mãe a espiritualidade. Com seis anos a família mudou-se para Chicago, onde se destacou na música religiosa a cantar e tocar piano e guitarra. Convidada pela indústria fonográfica gravou o primeiro disco fundindo o gospel e a música popular americana, apresentando-se sempre como “irmã” (sister), uma espécie de marca pessoal. Não tardou que esta “ousadia” provocasse controvérsia no campo religioso.

A artista alcançou grande popularidade nas décadas de 30 e 40, graças à sua autenticidade e à originalidade de associar as letras espirituais do gospel à guitarra elétrica e ao andamento rítmico do rock, que ainda era incipiente naquela altura, tornando-se assim precursora do rock’n’roll. Rosetta foi a primeira grande estrela da música gospel e entre os primeiros músicos cristãos a apelar ao rhythm and blues e rock’n’roll, sendo mais tarde considerada “a madrinha do rock’n’roll”.

Em 2011 Mick Csáky realizou o documentário “The Godmother of Rock & Roll: Sister Rosetta Tharpe”, mas já em 2007 Gayle Wald publicara a biografia da artista “Shout, Sister, Shout!” O tema “Strange Things Happening Every Day”, gravada em 1944, foi a primeira música gospel no top 10 da Billboard. Robert Plant, vocalista do Led Zeppelin, gravaria mais tarde e em sua homenagem o tema: “Sister Rosetta Goes Before Us”. A cantora enfrentou a política segregacionista na década de 1950, quando fez uma tourné com os The Jordanaires, grupo de brancos que viriam a formar a banda de Elvis Presley anos depois.

O Rock‘n’Roll Hall of Fame, Cleveland, considera que Rosetta foi “a primeira heroína da guitarra do rock’n’roll”. Terá sido essa mesma guitarra que chamou a atenção do jovem Elvis Presley, ícone do rock que tinha apenas dois anos quando Rosetta lançava o primeiro disco. O instituto tem por hábito homenagear músicos importantes da história deste género musical, depois de consulta ao público, que escolhe cinco nomes, a que o instituto acrescenta mais um, a distinguir com a atribuição de prémio especial de reconhecimento pelo pioneirismo e influência. Sister Rosetta Tharpe foi a homenageada em 2018, devido ao seu papel histórico e vanguardista, um prémio excepcional que já distinguiu nomes como Louis Armstrong, Nat King Cole e Billie Holiday, entre outros.

Em 1968 Rosetta entrou em depressão logo depois do falecimento da mãe, tendo mais tarde contraído diabetes, ocasião em que a sua saúde começou a piorar seriamente, pois sofreu um derrame e teve de amputar uma perna. Em 1973 sofreu novo derrame o que a levou à morte, em Filadélfia.

Duas coisas ressaltam essencialmente do exemplo de vida desta mulher dos anos trinta. A primeira é que ela não desistiu da sua criatividade e pulsão empreendedora pelo facto de ser mulher, numa sociedade machista, de ser negra, num país que segregava os negros, e de ser pobre numa estrutura económica capitalista. A sua capacidade de inovação e de correr riscos estéticos não se deteve sequer pelo facto de naquele tempo não ser normal uma mulher tocar guitarra, o que fazia de forma exímia. Não dispunha de telefone, nem de internet, computadores ou redes sociais, e a tecnologia de gravação era incipiente, mas nada disso a inibiu de se lançar na criação dum novo género musical, nem de influenciar e inspirar uma geração inteira.

A segunda é que não deixou que o seu enquadramento religioso a impedisse de se afirmar no mundo artístico e de ter contribuído de modo decisivo para as artes, compreendendo que a fé cristã está intimamente associada à música e à alegria, muito embora nem todos pensem assim.

Sister Rosetta Tharpe era uma força da natureza, um rio bravo que não foi possível conter nas próprias margens e veio a inundar de criatividade e arte largos campos por cultivar.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-02-26-afinal-a-mae-do-rocknroll-era-mulher-negra-e-crista/

Opinião:E não é que os comunistas lutaram pela liberdade religiosa? por José Brissos-Lino

E não é que os comunistas lutaram pela liberdade religiosa?

Preservar a memória histórica é um acto de sabedoria dos povos. Alguns sectores religiosos brasileiros que hoje odeiam os comunistas podem-lhes agradecer a sua decisiva contribuição para a Constituição de 1946, que garantiu a liberdade religiosa no país

As eleições para a Assembleia Constituinte que se seguiu ao Estado Novo do populista Getúlio Vargas, destinavam-se a prover uma constituição democrática para o país. O Partido Comunista do Brasil (PCB) fez eleger então o maior grupo parlamentar da sua história, composto por 15 deputados federais e 1 senador da República (Luís Carlos Prestes). Um dos eleitos pelo Estado de São Paulo era o baiano Jorge Amado, que se havia de vir a revelar um dos maiores ficcionistas da literatura em língua portuguesa de todos os tempos, e o brasileiro mais traduzido e adaptado ao cinema, teatro e televisão.

Embora o Estado tivesse sido definido como laico logo no início da república, a verdade é que qualquer manifestação religiosa fora do âmbito do catolicismo-romano era frequentemente reprimido e alvo de violência policial. O jovem Jorge Leal Amado de Faria terá assistido a esta afronta enquanto frequentador de cultos afro-brasileiros. Uma vez eleito deputado propôs a emenda nº 3218 de Liberdade de Culto Religioso, não sem antes ter conseguido apoio de colegas de outros partidos como Luiz Viana Filho, também baiano e escritor como ele, e o pernambucano Gilberto Freire. Essa emenda foi vertida para o artigo 141, parágrafo 7º da nova lei fundamental, garantindo assim protecção do Estado às minorias religiosas.

Nas suas memórias (“Navegação de Cabotagem”), Jorge Amado recorda as palavras emocionadas que proferiu após a aprovação da emenda: “Essa a minha contribuição para a Constituição Democrática de 1946. Transformada em artigo de lei a emenda funcionou, a perseguição aos protestantes, a violação de seus templos, das tendas espíritas, a violência contra o candomblé e a umbanda tornaram-se coisas do passado. Para algo serviu minha eleição, a pena de cadeia que cumpri no Palácio Tiradentes”.

Há algumas décadas que diversos líderes religiosos dos sectores evangélicos foram sendo paulatinamente atraídos pela vida política, primeiro num namoro com o poder e depois tornando-se eles mesmos candidatos a cargos electivos, sujeitando-se assim a campanhas eleitorais para vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal e governador de estado. Hoje largas faixas desse sector religioso anseiam mesmo vir a eleger um presidente da república evangélico, num futuro próximo. O pastor Marco Feliciano ofereceu-se mesmo para ocupar a vice-presidência de Bolsonaro, num exercício claro para tentar ganhar posição e vir a suceder-lhe. Para isso desenvolveu uma campanha contra o actual vice. A pretexto da defesa da sua fé – tarefa cuja necessidade é incompreensível em regime democrático – o que parece é que estes líderes procuram alcançar benesses a favor das suas igrejas.

Mas esta sedução pelo poder dá origem a piores consequências, como o actual clima de perseguição aos cultos de origem africana que se verifica no país, promovido por extremistas que se identificam como evangélicos, fazendo lembrar o Brasil dos anos trinta, quando predominavam as ideias integralistas, de cariz neofascista, representadas pela Ação Integralista Brasileira, do jornalista Plínio Salgado.

Como se sabe Getúlio Vargas era admirador de Hitler, que apelidava de “grande e bom amigo”. Apenas no ano de 1942 o Brasil se viria a juntar aos Aliados e declararia guerra à Alemanha nazi. A verdade é que os integralistas brasileiros parecem ser os reais inspiradores da programática do partido bolsonarista – Aliança pelo Brasil (B38) – que sectores evangélicos estão a ajudar a criar.

É claro que, no presente clima de guerrilha ideológica e de profundo sectarismo, a massa de apoio ao actual governo preferia nem sequer saber a verdade, e muito menos ouvir falar deste facto histórico. Mas o passado não se pode mudar e por mais que lhes possa custar, protestantes, evangélicos, espíritas, umbandistas e muitos outros bem podem agradecer não só a Deus ou à transcendência a sua liberdade religiosa e de culto, mas muito concretamente também aos parlamentares constituintes de 1946, os quais, impulsionados pelos comunistas, lhes abriram as portas para o exercício pleno da sua fé.

Os cristãos acreditam que Deus usa quem quer. Pois então agradeçam ao Jorge Amado e saibam que Deus usou o Partido Comunista do Brasil para garantir a sua liberdade de crença sob a protecção do Estado, contribuindo assim para que a grande nação sul-americana fosse construída de forma mais plural, laica e democrática, graças aos que lutaram e negociaram o texto daquela lei.

Mas imagino que muitos preferiam nem sequer saber disso…

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-02-19-e-nao-e-que-os-comunistas-lutaram-pela-liberdade-religiosa/

II Congresso Internacional de Cristianismo Contemporâneo Lisboa, Maio de 2021

II Congresso Internacional de Cristianismo Contemporâneo
Lisboa, Maio de 2021

Numa época em que o regresso da fé está a mudar o mundo, e simultaneamente, se registam fenómenos religiosos de ruptura com a paz entre os povos, a convivência entre as religiões, a tolerância e os direitos humanos, a Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (ULHT) decidiu criar em tempo o Instituto de Cristianismo Contemporâneo (ICC), integrado na área de Ciência das Religiões/FCSEA.
O ICC tem vindo a desenvolver trabalho académico através de diversos instrumentos de acção, como Jornadas, ciclos de conferências, seminários e debates centrados em temáticas relacionadas com o cristianismo contemporâneo, mas também formações e cursos conferentes de grau ou não, que impliquem o desenvolvimento duma cultura da diferença, da criatividade e do desenvolvimento global, e a publicação de artigos científicos na “Revista Lusófona de Ciência das Religiões”.
Nesta sequência, de 19 a 22 de Maio de 2021 iremos realizar em Lisboa o II Congresso Internacional de Cristianismo Contemporâneo, dedicado à temática “Antigas questões, novos desafios”, que se destina a incentivar a investigação científica e sua partilha de resultados na área da religião e espiritualidade cristã, na especificidade dos vários ramos da fé e vivências, assim como no âmbito da sua relação com outras experiências e expressões religiosas.
Este congresso é de natureza estritamente académica e não confessional.

Eixos Temáticos:
Nº. 1 – Desafios teológicos contemporâneos
Nº. 2 – Fé e cultura
Nº. 3 – Diálogos interconfessionais e inter-religiosos
Nº. 4 – Cristianismo, democracia e sociedade civil
Nº. 5 – Tradição e dogmática face aos textos bíblicos
Nº. 6 – Da ecologia à ecoteologia

SEMINÁRIO PERMANENTE DE ESTUDOS ISLÂMICOS | 13 FEV | Lusófona

SEMINÁRIO PERMANENTE DE ESTUDOS ISLÂMICOS

«O LIVRO DA ESCADA DE MUHAMMAD: CONFLUÊNCIAS E NARRATIVAS RELIGIOSAS»

Palestra com Fernanda Mendes (IF-FLUP)

SINOPSE
Os manuscritos do «Livro da Escada de Muhammad» de Afonso X (1264) foram encontrados em 1949, à raiz da polêmica sobre as fontes islâmicas da Divina Commedia de Dante Alighieri, iniciada 30 anos antes. Trata-se da versão mais longa do popular relato da «Viagem Noturna e Ascensão» (isrāʾ wa miʿrāj) de Muhammad (Maomé), profeta do Islão, que surge como desenvolvimento da sura XVII do Alcorão. Conta com diversas versões em árabe, latim e idiomas românicos, datadas do século VIII ao XVI, sendo uma das narrativas islâmicas mais difundidas da Idade Média europeia. O objetivo desta comunicação é apresentar o «Livro da Escada» (kitāb al-miʿrāj), o seu contexto, as suas características, assim como a recepção, nele, do Alcorão e das religiões abraâmicas. Pretende-se, igualmente, contar a história desta narrativa, que se cruza com diferentes tradições textuais ibéricas – tratados religiosos, crónicas históricas, literatura e poesia – culminando com alguns exemplos de intertextualidade na Divina Commedia.

A ORADORA
Fernanda Mendes é doutoranda e investigadora vinculada ao Seminário Medieval de Literatura, Pensamento e Sociedade do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto. É jornalista e autora da tradução comparada para o português dos manuscritos – em latim e francês antigo – do Livro da Escada de Muhammad de Afonso X “o Sábio”, que será brevemente publicado no Brasil e em Portugal, e ministrou cursos e conferências sobre o tema na Universidade de São Paulo e Universidade Federal Fluminense.

ORGANIZAÇÃO
Linha de Investigação Herança e Espiritualidade Islâmica
(coord. Fabrizio Boscaglia)
Área de Ciência das Religiões da ULHT

INFORMAÇÕES PRÁTICAS
13 fev. ’20 às 18h
ULHT sala A.2.4
Campo Grande 376 Lisboa
Entrada livre

V Jornadas abordarão o afro-estalinismo

V Jornadas abordarão o afro-estalinismo

O conceito de afro-estalinismo tem sido desenvolvido nos últimos anos por diversos investigadores em Ciências Sociais.

As V Jornadas de Cristianismo Contemporâneo incluirão uma conferência proferida pelo Prof. Doutor Fernando Caldeira da Silva, Delegado do ICC em África, que conhece bem a realidade do continente. É membro da Church History Society of Southern Africa (CHSSA), e membro-fundador da Religious Liberty Commission – South Africa (RLC). Activista dos direitos humanos em liberdade religiosa com o dossier dos países e regiões de língua portuguesa no mundo.

cartaz afro-estalinismo

Opinião: Os humanos e a Natureza: Uma relação dialógica, por José Brissos-Lino

Os humanos e a Natureza: Uma relação dialógica

O ponto central da teologia cristã em matéria ambiental não é se o planeta tem recursos próprios infinitos ou sequer se possui uma capacidade auto-regeneradora insuspeitável ou não. A ecoteologia é muito mais profundo do que isso

Se para quem tem fé, os continentes, os oceanos e a atmosfera da Terra são obra de Deus, prejudicá-los e destruí-los será um atentado contra o próprio Criador, além de também o ser contra a Humanidade. Aliás o Livro de Apocalipse alerta para um tempo em que Deus destruirá “os que destroem a terra” (11:18). Por outro lado não temos o direito de privar as gerações presentes e futuras de usufruir de um meio ambiente harmonioso e saudável, muitas vezes em nome do egoísmo dos interesses económicos de uns poucos.

Mas se a Natureza é obra divina, é importante e deve ser preservada, muito mais a própria Humanidade. E é aqui que tropeçam muitos fanáticos do ambientalismo, até porque, de acordo com o que disse Jesus no Evangelho, um ser humano não vale menos do que uma árvore ou qualquer animal: “Considerai os corvos, que nem semeiam, nem segam, nem têm despensa nem celeiro, e Deus os alimenta; quanto mais valeis vós do que as aves?” (Lucas 12:24).

Por outro lado, o conceito de “casa comum” tem chocado de frente com muitos dos pecados sociais em termos de ecologia humana: os nacionalismos, a xenofobia, o racismo, o colonialismo, a escravatura e o tráfico de pessoas. Mas também com a discriminação de género ou a discriminação etária, por exemplo, quando não se reconhece dignidade intrínseca a uma criança, um portador de deficiência ou um idoso, ou nos casos de violência doméstica sobre esses elementos mais frágeis da sociedade. Mas também com o presente sistema de capitalismo selvagem, que promove o deslaçamento social, a falta de coesão, a pobreza, a fome e a subnutrição, e outras injustiças.

Já se descobriram cerca de 2.400 frases que se referem ao meio ambiente e que constituem quase oito por cento do total dos textos bíblicos. Por exemplo, existe uma determinação no Antigo Testamento que permitia a um israelita que estivesse em certas situações, como no meio do campo, com fome e sem provisões, ir aos ninhos e alimentar-se de aves, mas salvaguardando que nunca poderia matar ao mesmo tempo progenitores e crias, certamente para que não se alterasse o equilíbrio dos ecossistemas. Um outro caso curioso é que, também no Antigo Israel, em situação de guerra poder-se-ia abater árvores para construção e utilização de artefactos militares (como, por exemplo, aríetes para forçar as portas de cidades muralhadas), mas nunca à custa da destruição de árvores de fruto.

A doutrina da Revelação Natural referenciada em Romanos 1:19-21, é utilizada como evidência bíblica por alguns como forma de condenar os não-crentes que rejeitam a Deus, mesmo que nunca tenham ouvido diretamente a mensagem do evangelho. Parte-se do pressuposto de que a existência de Deus é óbvia à luz da beleza da criação. Todavia nos lugares do mundo onde a água é salobra, o ar poluído e o ambiente deteriorado a ponto de colocar em risco a saúde pública, como pode Deus ser glorificado? Como é que isso aponta as pessoas para Deus? O salmista dizia que “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” (19:1). Mas, e quando as pessoas não conseguem sequer ver o céu devido à poluição?

Por outro lado, para os cristãos a Criação proclama o carácter do seu Criador, do ponto de vista da Beleza, da Harmonia e da Perfeição. Portanto, Deus importa-se com a sua obra da Criação e ensina-nos através dela. Veja-se que tem sido através da observação atenta do mundo natural que a esmagadora maioria dos avanços científicos foram alcançados, e que as Artes têm encontrado fonte de inesgotável inspiração, incluindo a arquitectura, como nos mostra Gaudí na Igreja da Sagrada Família, em Barcelona. Entretanto essa mesma Natureza proporciona qualidade de vida, como no caso das caminhadas e desportos ao ar livre em terra, no mar e no ar, assim como a preservação da saúde aos seres humanos, como acontece com os fármacos produzidos a partir de elementos do mundo vegetal.

A verdade é que Deus entregou aos seres humanos a responsabilidade de guardar e cuidar do meio ambiente, mas nunca de o destruir. Mas por vezes confunde-se a expressão genésica “dominar” com “fazer o que quisermos”. A Bíblia diz em Génesis 2:15 “Tomou, pois, o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e guardar.” Deus quer que sejamos dignos de confiança na mordomia dos nossos recursos.

Cuidemos então do planeta e do ambiente, numa relação perfeitamente dialógica, mas sem esquecer o primado da pessoa humana. É que, segundo Carlos Neto, investigador em Motricidade Humana: “É inacreditável quehoje se passeiam mais os cães do que as crianças…”, talvez porque ”Há pais que já não têm prazer em brincar com os filhos”.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-02-12-os-humanos-e-a-natureza-uma-relacao-dialogica/

Mostras sobre al-Mu’tamid e Adalberto Alves na Biblioteca Nacional de Portugal

Decorrem na Biblioteca Nacional de Portugal a partir de dia 3 de fevereiro, até 9 de maio de 2020, as mostras «Al-Mu’tamid: poeta do Gharb al-Andalus», dedicada ao poeta árabe al-Mu’tamid, e «Adalberto Alves: 40 anos de vida literária», que homenageia o poeta e arabista português. Ambas são comissariadas pelo professor Fabrizio Boscaglia, a poeta Maria João Cantinho e o tradutor Hugo Maia.

As mostras pretendem contribuir à interpretação e à divulgação do legado do al-Andalus e do património islâmico em Portugal, no contexto da Linha de Investigação Herança e Espiritualidade Islâmica, coordenada por Fabrizio Boscaglia na Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

A inauguração decorre a 3 de fevereiro às 18h, havendo um conjunto de atividades associadas, nomeadamente:

  • 29 fev. – Passeio guiado «Lisboa Árabe» por Natália Nunes (passeio a pé por Alfama e Mouraria – mais info)
  • 11 mar. – Projeção filme «Al-Mu’tamid: o destino de um príncipe» (RTP-Ensina) às 17h30
  • 19 mar. | 30 abr. – Visitas guiadas às 17h30 (sujeitas a marcação)
  • 8 abr. – Sessão de leitura de poemas de Al-Mu’tamid e Adalberto Alves
  • 7 maio – Colóquio «Cultura luso-árabe e luso-islâmica»

Parcerias:

Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, Comunidade Islâmica de Lisboa, Fundação Islâmica de Palmela, Fundación Blas Infante Pérez, Fundación El Legado Andalusí, Transiberia.

Mais informações (clicar nos títulos):

Opinião “Não façam do racismo um mantra” por José Brissos-Lino

Não façam do racismo um mantra

Tal como o feminismo ou os direitos de qualquer minoria, o combate ao racismo pode ficar a perder quando se torna uma espécie de prática religiosa sectária, sem discernimento nem bom senso

O caso dos jovens recentemente assassinados é paradigmático. Um era branco e foi assassinado por negros na sequência dum assalto em Lisboa, e o outro era negro e terá sido assassinado por brancos na cidade de Bragança. Há quem se apresse a classificar de racista a morte do jovem cabo-verdiano mas cale o eventual racismo no assassínio do jovem lisboeta.

Sejamos sérios. Nada leva a crer que a morte de Pedro, estudante em Lisboa, tenha sido por motivação racista, mas apenas na sequência dum assalto que correu mal. No caso de Giovani terá sido fruto dum desentendimento num estabelecimento de diversão nocturna e, segundo a Polícia Judiciária, o motivo terá sido fútil e não ódio racial. Clamar por crime de ódio um incidente destes é uma tolice perigosa. Mas alguns fizeram-no na linha do mantra cultural que hoje vemos. O certo é que esses mesmos calaram a morte de Pedro sabendo-se que os seus três assassinos são negros.

Pedro e Giovani eram jovens e estudantes. A cor da pele é que era diferente. Nada nos permite valorizar mais a vida de um do que do outro. Nada nos permite (para já) invocar o racismo como motivação do assassinato de um ou de outro. Um foi esfaqueado por três assaltantes, o outro terá sido espancado brutalmente por um grupo de idiotas. Por um trágico acaso a morte dos dois jovens estudantes diferiu poucos dias, mas o sangue de ambos era vermelho e a dor da família de um e do outro deve ser muito semelhante.

Joacine Moreira – a inenarrável deputada do Livre (até ver) – tem prestado um mau serviço tanto à igualdade de género como à causa anti-racista, pelos exageros e falta de bom senso que tem evidenciado de forma recorrente em inúmeros episódios. A luta pela justiça social e a defesa das minorias não pode ser transformada numa espécie de religião dogmática. As palavras e atitudes de alguns dos seus protagonistas fazem mais por crispar os que não se empenham nelas do que o contrário. No fundo, Joacines e Mamadous Ba só atrapalham a luta conta o racismo. Até a empresária angolana Isabel dos Santos, filha do ex-presidente José Eduardo dos Santos, vem agora acusar o Expresso e a SIC de racismo, ao sentir-se cercada e expostos os alegados crimes económicos cometidos contra o seu país.

Reza Aslan diz que “As coisas que odiamos na nossa religião são apenas um reflexo das coisas que odiamos em nós mesmos”. Se assim for, para os que fazem do anti-racismo a sua religião, então compreendem-se um pouco melhor certas mensagens e comportamentos. Até porque, infelizmente, o racismo tem muitas cores.

António Gedeão discorreu de forma simples mas magistral sobre o racismo no célebre poema “Lágrima de preta” (1961). O sujeito poético vai descrevendo as diversas fases da análise química duma simples lágrima e conclui:

Nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.

António Gedeão era pseudónimo poético de Rómulo de Carvalho (1906-1997), professor de Física e Química. Daí a sua tendência para mostrar que os seres humanos são todos iguais, independentemente da cor da sua pele, visto não existirem diferenças da composição química entre indivíduos de cores diferentes. Mais. O poema aponta essencialmente para o facto de que o sofrimento nada tem que ver com diferenças étnicas (“Encontrei uma preta /que estava a chorar, / pedi-lhe uma lágrima / para a analisar”). Tanto sofre um caucasiano como um negro, um índio ou um asiático. A forma de expressar as emoções é que será diferente, mercê das influências culturais e da personalidade própria de cada um.

Gedeão escreveu na fase das guerras de libertação dos povos africanos, que aspiravam ao legítimo direito de autodeterminação, e poucos anos depois do horror nazi que considerava alguns povos, etnias e minorias como seres humanos inferiores, e que se dedicava a experiências desumanas com homens, mulheres, crianças e grávidas dando-se ao direito de assassinar milhões deles nas câmaras de gás.

O que será preciso mais para o mundo entender que estamos todos no mesmo barco chamado Humanidade? A fé cristã podia ser essa base já que a mensagem de Cristo é universalista, dirigida a todos os povos e nações: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28:19). O problema é que os cristãos acabaram muitas vezes por passar ao lado do genuíno espírito de Jesus, ao transformar a proposta do Evangelho (“quem crer”) numa imposição pela força da espada ou da lei e estragaram tudo. Mas sejamos justos. Não terão sido os únicos a cair no erro de confundir a essência da sua fé.

 

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-01-22-nao-facam-do-racismo-um-mantra/

Formação em Gnose e Esoterismo Ocidental 2020

Gnose e Esoterismo Ocidental 2020  

Estão abertas as inscrições para o curso Gnose e Esoterismo Ocidental 2020. Uma abordagem rigorosa, mas acessível, sobre as Fontes filosóficas, religiosas e literárias, e respetivo contexto histórico. Este ano o curso abre 3 turmas presenciais. Em simultâneo: Lisboa, no Porto e em Lagos. 

Inscrições para rui.lomelino.freitas@gmail.com

Esta Formação presencial Avançada em Gnose e Esoterismo Ocidental inclui além das aulas presenciais calendarizadas, a gravação do curso integral em vídeo, livros em pdf, materiais didáticos, podcasts temáticos, acompanhamento de dúvidas por mail durante a semana e visitas guiadas a espaços de património histórico de interesse.

Toda a Informação em: https://www.esoterismoocidental.eu/

O curso – que não requer formação prévia – pretende proporcionar uma formação de nível avançado, sobre as fontes, conteúdos e contexto dos impulsos espirituais, religiosos, culturais e científicos que ao longo do tempo foram sendo definidos como ‘gnósticos’ e ‘herméticos’.

LISBOA: EBA – Emotional Business Academy, Praceta das Torres do Restelo, quinzenalmente às segundas-feiras, das 19hh00 às 21h00.

PORTO: BOA, Bombarda Oficinas de Artes, Rua Adolfo Casais Monteiro, 59, Porto. quinzenalmente às terças-feiras, das 19hh00 às 21h00.

LAGOS: Escola de Medicinas Tradicionais – Rua Marechal Furtado nº.34-a | Lagos , quinzenalmente aos sábados, das 15h00 às 18h00.

Professor: Rui Lomelino de Freitas é Coordenador da Linha de Investigação em Gnose e Esoterismo Ocidental, da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona. Formado em Filosofia e Ciência das Religiões, leccionou as disciplinas de Esoterismo Ocidental, Cristianismo Gnóstico, Filosofia Hermética, Alquimia e Fontes para o Estudo da Rosacruz e da Maçonaria. Autor de artigos e publicações sobre hermetismo e alquimia e a tradição rosacruz. Organizador do 1º Congresso Internacional Lusófono sobre Esoterismo Ocidental. É atualmente Membro da ESSWE (European Society for the Study of Western Esoteriscism), que agrupa universidades, centros de investigação e investigadores com trabalho relevante na área.

Programa, conteúdos e calendarização: https://www.esoterismoocidental.eu/

Opinião: Essa coisa do pecado, por José Brissos-Lino

Essa coisa do pecado

 
O conceito de pecado no Cristianismo, à luz do senso comum, é quase sempre individual, e por isso extremamente redutor. Não há espaço para os pecados sociais ou contra a natureza

Em Novembro passado o papa Francisco surpreendeu muita gente ao explicar publicamente que a Igreja Católica planeava introduzir a noção de “pecado ecológico” no catecismo, porque os comportamentos contra o meio ambiente também são contra a “casa comum”. Falava então no XX Congresso Internacional da Associação de Direito Penal, realizada em Roma: “Estamos a pensar em introduzir o pecado ecológico no catecismo da Igreja católica, o pecado contra o lar comum”, anunciou. As questões ambientais estão na ordem do dia, e com razão, mas creio que a surpresa das pessoas está mais relacionada com o conceito corrente de pecado, popularizado pela religião e distorcido na sua essência.

Mas o que é isso de pecado? Para o senso comum é matar, roubar e mais umas quantas atitudes socialmente censuráveis e sujeitas à alçada da lei. Atentar contra a vida humana ou o património, portanto. Depois há mais uns pecadilhos de ênfase moral, como mentir, adulterar ou levantar falso testemunho, por exemplo.

Porém, à luz da fé cristã, o pecado é essencialmente outra coisa, que podemos compreender melhor se atentarmos na etimologia do termo. A palavra latina (peccatum) fala-nos de dar um passo em falso, tropeçar, cometer um erro, proceder mal, praticar um delito, mas no grego (hamartia) significa errar o alvo. Isto é, sempre que passamos ao lado do que devíamos, pecamos. Portanto, pecar não é só o erro, ou a falha naquilo que se faz, diz ou pensa, até porque ainda há o chamado pecado por omissão: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tiago 4:17).

Os judeus do primeiro século tinham muita dificuldade em compreender o conceito de pecado, pois no seu entender ele reduzia-se apenas aos interditos na lei de Moisés. Daí a necessidade duma tradição oral que detalhasse o sentido prático das disposições da Torah e mais tarde de a passar a escrito ainda com mais minúcia no Talmude, face às discrepâncias das diversas tradições rabínicas e de diferentes escolas de interpretação do judaísmo.

O apóstolo Paulo, embora vocacionado mais para o mundo gentio, todavia teve que se confrontar constantemente com os religiosos judeus, mesmo fora de Israel, e por isso teve necessidade de reflectir sobre esta questão, o que podemos atestar largamente nos seus escritos. Assim, passa a contrapor à lei da Antiga Aliança, uma nova lei a que chama lei da liberdade: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecediço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tiago 1:25), lei do espírito de vida: “Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte” (Romanos 8:2) ou lei do amor: “O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Romanos 13:10), que vem substituir a antiga legislação judaica, afinal já cumprida integralmente por Jesus Cristo. E a fé nele, nosso sumo-sacerdote, isenta-nos de a cumprir, até porque – como nos diz Tiago – ela terá sido dada ao povo do Antigo Israel mais como um instrumento para concluírem da sua incapacidade de a cumprir e necessitarem de um Messias salvador: “Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” (Tiago 2:10). Mas a lei do amor, proposta por Paulo, é muito mais exigente e responsabilizante. Se eu amo o meu semelhante não o vou matar, roubar ou trair. Sendo assim não preciso duma lista de interditos mas apenas de um princípio inscrito no meu coração.

Se eu posso pecar contra Deus ou um indivíduo meu semelhante também posso pecar contra o colectivo (pecados sociais) ou contra a Criação, como diz Francisco: “a poluição maciça do ar, da terra e dos recursos hídricos, a destruição em grande escala da flora e da fauna e qualquer acção capaz de produzir um desastre ecológico ou destruir um ecossistema”. Daí que não pareça descabido considerar como pecado ecológico as acções contra o meio ambiente – o tal “lar comum” –, que também constituem, afinal, pecado contra o Deus Criador e a comunidade humana.

Ao colocar a ênfase no erro, na falha humana, a religiosidade ocidental passou ao lado do sentido de pecado, isto é, reduzindo-o a algo que não se devia fazer, levando a prática religiosa a um caminho das pedras, pela negativa, e não pela positiva. E depois vem toda a carga de culpa em consequência das intermitências da condição humana e da imperfeição de cada um. Mas o Evangelho não define propriamente os cristãos pela negativa, por aquilo que deixam de fazer mas sim pelo que são. Não se trata duma questão de cumprir preceitos religiosos, de fazer ou deixar de fazer, mas de ser. É ontológico. E aqui a coisa fia muito mais fino.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-01-29-essa-coisa-do-pecado/

Opinião: A História não é para mulheres, por José Brissos-Lino

A História não é para mulheres

 
Há cem anos uma jovem mulher sueca desembarcou em Belém do Pará, onde ajudou a construir a maior igreja pentecostal do país. Depois foi perseguida, internada num hospício e apagada da História

A esmagadora maioria dos fiéis desta igreja pentecostal histórica, que conta hoje com milhões de pessoas no Brasil, não fazem a mais pequena ideia da história de vida de Frida Maria Strandberg Vingren, que morreu doente aos 49 anos, no dia 30 de setembro de 1940, na Suécia, nos braços da filha, quando pesava apenas 23 quilos. O desfecho trágico de Frida é produto de lideranças religiosas misóginas que não apenas lhe cortaram as asas, como boicotaram repetidamente a sua acção missionária evangélica e a destruíram como pessoa.

A jovem missionária de 26 anos que viajou de Estocolmo para o norte do Brasil em 1917, e que casaria com Gunnar Vingren em cerimónia realizada pelo pastor sueco Samuel Nyström, não sonhava que este viria a ser um dos seus principais opositores, tal como Daniel Berg, que fundara a igreja Assembleia de Deus no país juntamente com o seu marido.

Frida notabilizou-se rapidamente pelo trabalho social desenvolvido pela igreja de que o marido fora um dos fundadores sete anos antes, entre órfãos, idosos, doentes e sobretudo nas frequentes visitas aos leprosários.

Na Suécia luterana do início do século XX os pentecostais constituíam um grupo religioso recente e foram perseguidos, pelo que migraram especialmente para os Estados Unidos, mas alguns foram para o Brasil, tendo escolhido Belém do Pará, que era ao tempo uma das cidades mais ricas do país graças à riqueza gerada pela extracção da borracha.

Como o marido adoecia frequentemente durante as repetidas viagens ao serviço da igreja, por diversas vezes com malária, Frida assumia cada vez mais as suas funções como pregadora, além de traduzir hinos do sueco para o português, de cantar e tocar. Visitava todas as semanas a prisão de Belém, onde eram mantidos 200 rapazes entre os cinco e os vinte anos de idade, sendo que alguns estavam ali simplesmente por não terem pai. Mas Samuel Nyström entrou em choque com Frida por não aceitar que uma mulher pudesse pregar a Palavra, queixando-se recorrentemente da situação à igreja em Estocolmo. Dada a tensão instalada, o casal Vingren muda-se então para o Rio de Janeiro em 1924, já com quatro filhos, onde desenvolve trabalho pioneiro e funda um jornal onde defende com frequência, através de argumentos bíblicos, que as mulheres poderiam pregar, ensinar ou doutrinar, provocando a animosidade de diversos pastores brasileiros de mentalidade machista.

O caso Frida esteve na origem da convocação da primeira convenção da igreja, em 1930 em Natal (RN), que, sem o proibir, veio a desencorajar a pregação feminina. Mas nos tempos que se seguiram Frida – que sempre contou com o apoio do marido – insistiu na pressão para que as mulheres não recuassem e a tensão agravou-se, apesar de as suas qualidades de liderança serem geralmente reconhecidas. Com a situação a agravar-se e depois de uma acusação de adultério, embora sem provas, a família regressa à Suécia em 1932, mas Gunnar morre um ano depois de chegar à Europa.

Mais tarde Frida tenta retomar a obra missionária, mas nem os líderes da igreja no Brasil ou na Suécia aprovam, pelo que tenta vir para Portugal, a partir de onde se crê que embarcaria num navio de volta a terras brasileiras. É então detida na estação ferroviária de Estocolmo e levada em camisa-de- forças para um hospital psiquiátrico. A igreja retira-lhe a guarda dos filhos e desfaz-se dos seus pertences. Não há registo médico de Frida sofrer de qualquer transtorno psiquiátrico, mas encontrava-se esgotada e provavelmente sofria de hipertiroidismo, a causa provável da sua morte.

Hoje, quando a igreja sueca é confrontada com tal arbitrariedade, defende-se: “Aquilo era uma novidade completa para nós. Foi horrível o que fizeram com ela. Muita gente ficou chocada com a forma como foi tratada pelas antigas lideranças” afirmou Gunnar Swahn, antigo secretário de missões de Estocolmo à BBC Brasil.

Nestes pouco mais de cem anos de existência da Assembleia de Deus no Brasil o ministério feminino tem vindo a ganhar espaço progressivamente, embora com mais incidência numas regiões do que noutras, dada a extensão continental do país, os profundos contrastes sociológicos e o sistema congregacional de governo eclesiástico vigente na denominação. Mas Frida – que era enfermeira, jornalista, compositora e teóloga – pagou um preço elevadíssimo por se tratar duma mulher excepcional e muito à frente do seu tempo.

A sua estória elucida de forma clara como o homem religioso pode ser cruel na defesa dos seus preconceitos e ideias próprias, deixando de lado tanto a caridade cristã como aquilo que S. Paulo escreveu já há dois mil anos: “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-02-05-a-historia-nao-e-para-mulheres/

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