Opinão: Voltámos ao tempo da outra senhora? por José Brissos-Lino

Voltámos ao tempo da outra senhora?

Angela Rohde / EyeEm/ Getty Images

Lê-se e não se acredita. Uma educadora de infância numa escola pública da Madeira viu a directora prejudicar-lhe a avaliação anual por se ter recusado a ir receber um bispo à igreja. Será que o tempo voltou para trás?

Parece que o padre da paróquia sugeriu à escola Escola EB1/PE de Ponta Delgada e Boaventura que os alunos fossem receber o bispo à igreja. A directora, Ana Cristina Abreu, aceitou de imediato e terá pressionado os professores a participar nessa iniciativa sem pensar por um momento que se tratava duma acção inconstitucional, porque o estado é laico, a dita escola é pública e dado o teor da lei em vigor (n.º 16/2001) chamada Lei da Liberdade Religiosa.

A professora Isabel Teixeira, que desconheço quem seja e que está na profissão há 30 anos, terá sido a única pessoa que não se moveu à margem do quadro legal e constitucional, mas acabou penalizada na sua carreira, de forma abusiva e ilegal. Alegou que entende não se dever misturar escola com religião, e que o referido evento não constava do plano anual de actividades, por isso se recusou a levar as crianças à missa em Dezembro de 2018. A directora terá começado por propor a realização de uma missa na escola, o que foi rejeitado pelos professores, mas insistiu em levar as crianças à missa na igreja…

Eduardo Vera Jardim, presidente da Comissão de Liberdade Religiosa, já veio dizer: “Esse parâmetro não deve contar para a avaliação – é inconstitucional que conte. A Constituição é clara, ninguém pode ser prejudicado ou beneficiado por causa da religião, por uma opção religiosa ou por se opor a uma coisa dessas”, mas acrescenta que “há hábitos que levam tempo a perder, mas, para que as coisas mudem, este tipo de situação tem de ter consequências”.

Em 1960 tinha eu seis anos de idade e estava na então chamada 1ª. classe numa escola em Lisboa. Quando as crianças regressaram às salas de aula, vindos da pausa do recreio, depararam-se com um bispo à entrada da porta, obeso e de dedos grossos, no cimo das escadas. As professoras orientavam então os alunos para beijarem o anel ao bispo antes de entrar. Eu não estava habituado a essas coisas e fiz por me esgueirar pelo lado oposto ao que ele estava para não o fazer. E não o fiz.

Já com a idade de 10 anos, no (antigo) ciclo preparatório, aconteceu uma situação ainda pior. A lei impunha a todos os alunos a obrigatoriedade da frequência das aulas de Religião e Moral (católica). Porém, os encarregados de educação poderiam apresentar um requerimento a pedir a dispensa dessa disciplina para os seus filhos. Porque a minha família era cristã mas não católica, o meu pai assim fez, mas a burocracia tem os seus tempos e o deferimento não veio antes do início das aulas.

Um certo dia, estava eu a meio duma aula dessa disciplina quando entra na sala um funcionário com um papel que entregou ao professor. Ele leu e de repente levantou os olhos do documento para a sala e perguntou, com cara de poucos amigos e um tom de voz ríspido: “Quem é o José M. Brissos Lino?” Timidamente levantei a mão, nervoso, a pensar o que teria feito de mal, com a turma toda a olhar para mim, em suspenso. A resposta veio em tom de censura: “Mas tu não podes estar aqui!…” Acto contínuo saí da sala como se tivesse sido expulso por mau comportamento. Senti-me humilhado, discriminado e escorraçado.

Como é óbvio, esse tipo de situações configuram uma coação intolerável, mas eram fruto da época. Para o regime do Estado Novo quem não fosse católico não era bom português.

Porque vivemos em democracia, hoje os alunos podem escolher que disciplina de formação religiosa querem e este tipo de disciplinas são de frequência opcional. Também não creio que o actual modelo seja o melhor mas é o que temos para já, e pelo menos respeita pais e alunos, estando em consonância com as leis e a constituição da república.

Ao contrário de alguns não defendo que as expressões religiosas tenham que desaparecer do espaço público, uma vez que o estado é laico mas a sociedade não é nem tem que o ser. O estado é laico justamente para assegurar liberdade religiosa a todos os cidadãos, uma vez que não toma partido. Por isso estes tiques sectários por parte dos pequenos poderes são intoleráveis e deviam ser alvo de penalização. Aquela professora está certa e a directora errada.

De resto, já existe jurisprudência a partir dum acórdão do Tribunal Constitucional, justamente a propósito dum outro caso ocorrido na Madeira, segundo o qual: “Num país com liberdade religiosa como Portugal, ninguém deve ser obrigado a ter uma religião nem a ter um ensino religioso, assim como também ninguém deve ser obrigado a partilhar a forma como encara a religião ou que religião professa”. O que está em causa é a Lei de Liberdade Religiosa (artigo 4º), que prescreve não poder o ensino público ser confessional, nem o Estado programar a educação segundo quaisquer

directrizes religiosas. A escola pública é de todos e não pode ser um instrumento de proselitismo religioso, desde logo à luz da constituição, e os pais não podem ser constrangidos em matéria religiosa, como acontece quando são questionados pela escola sobre a permissão para os filhos irem receber um líder religioso à porta dum templo.

Jesus Cristo nunca impôs a fé a ninguém e sabia separar claramente a política e a sociedade da religião, que é como quem diz, César de Deus. Mas a tendência de muitos cristãos, ao longo da história tem sido exactamente o contrário. É pena.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-10-30-Voltamos-ao-tempo-da-outra-senhora-

Opinião: A estranha teoria da educação de Edir Macedo por José Brissos-Lino

A estranha teoria da educação de Edir Macedo

Edir Macedo à esquerda do presidente Bolsonaro

EVARISTO SA

É estranho como um país que gerou educadores notáveis como Paulo Freire (1921-1997) esteja hoje refém de indivíduos com mentalidade obscurantista como Edir Macedo

O “evangelho segundo Macedo” é contra a educação da pessoa humana, em flagrante contradição com a essência do verdadeiro evangelho de Jesus Cristo, que é o princípio da libertação do ser em todas suas dimensões, incluindo a libertação das trevas da ignorância, tal como Lucas escreve no livro de Actos dos Apóstolos: “Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam” (17:30). E S. Paulo alertava igualmente a comunidade cristã de Éfeso contra os perigos da ignorância: “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” (Efésios 4:18).

A teoria da educação de Macedo é paternalista, controladora e opõe-se à autonomia da pessoa. Segundo Herbert Spencer: “A educação deve formar seres aptos para se governarem a si mesmos e não para serem governados pelos outros” (A Educação Intelectual, Moral e Física, 1861). Parece mentira, mas isto foi dito pelo líder religioso neopentecostal: “Minhas filhas vão estudar só até o ensino médio, nada de faculdade, porque se elas forem mais inteligentes que o homem, o casamento está fadado ao fracasso.

Esta postura começa por evidenciar abuso de poder (“Minhas filhas vão estudar só até o ensino médio.”) O pai é que determina até onde as filhas estudam ou não, em vez de lhes dar liberdade para, querendo, prosseguirem os estudos e aperfeiçoarem a sua formação. De acordo com o “evangelho segundo Macedo” as mulheres não podem continuar os seus estudos a partir do secundário, de modo a prepararem-se para a vida profissional. Porquê? Por que o pai não quer! E porque ele não quer pressiona os pais do seu rebanho para que façam o mesmo na sua casa.

Depois revela um preconceito inqualificável contra o ensino superior (“Nada de faculdade.”) Ao vedar o ensino superior às suas filhas Macedo revela insegurança (por receio de que elas tenham melhor preparação intelectual do que ele), mas também preconceito, por receio de que, ao aprenderem a exercer pensamento crítico possam questionar os métodos do pai ou a trapalhada teológica do seu círculo religioso.

Também é notória a confusão conceptual que vai na cabeça de Macedo, entre conhecimento e inteligência (“Porque se elas forem mais inteligentes que o homem.”), como se conhecimento fosse a mesma coisa do que inteligência, como se acumular conhecimentos tornasse a pessoa mais inteligente, o que, desde logo, revela pouca inteligência. Revela igualmente uma atitude machista (“Quero que casem com macho”), ou seja, o receio de que as mulheres sejam mais inteligentes do que os maridos, e que passem a mandar na relação. Será que a IURD vai passar a pedir um teste de QI aos noivos antes de celebrar casamentos, para comprovar que os delas são mais baixos do que os deles?

Macedo parece ligar o sucesso do casamento a uma sujeição ao sistema patriarcal. No seu entender, o sucesso da relação conjugal passa obrigatoriamente pela condição de os maridos serem sempre mais inteligentes do que as suas mulheres… Quando condena ao fracasso toda a relação na qual a mulher é eventualmente mais inteligente do que o marido, está não apenas a menorizar as mulheres, mas a impor-lhes uma sujeição arcaica em flagrante atropelo aos direitos da pessoa humana…

Finalmente, mas não menos grave, Macedo defende que quem obtiver uma licenciatura irá “servir a si mesmo” em vez de servir a Deus… Portanto, para a personagem, só os ignorantes, os iletrados e os menos preparados para a vida poderão servir a Deus. Que teologia é esta, feita à martelada, que contraria não só o bom senso mas toda a base bíblica e a tradição cristã, sendo em si mesma um atentado à inteligência?

Que se saiba, Saulo de Tarso – a grande figura do Novo Testamento a seguir ao próprio Jesus Cristo – era dos homens mais cultos do seu tempo, mas também altamente preparado no judaísmo da época, tendo aprendido aos pés de Gamaliel, o rabi mais famoso em Israel, falava várias línguas, conhecia profundamente a cultura helénica e ainda era cidadão romano. Nada disto o impediu de servir a Deus com todo o fervor.

O discurso obscurantista deste líder religioso revela bem a influência perniciosa que as lideranças neopentecostais estão a exercer sobre as populações, mas revela ainda mais sobre a falta de espírito crítico destas, que não sabem fazer como os bereanos, que “de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (Actos 17:11b).

A linguagem nunca é neutra” dizia o professor, pedagogo e filósofo Paulo Freire, que perante tal discurso deve estar a dar voltas na tumba…

Opinião: Um poeta na Capela Sistina, por José Brissos-Lino

Um poeta na Capela Sistina

Marcos Borga (MB)

O papa Francisco acaba de colocar o colégio cardinalício em risco, ao incluir nele um poeta. Devia saber que os poetas são gente perigosa em qualquer parte, mesmo entre cardeais… O tempo o dirá

José Tolentino de Mendonça, o filho do pescador do Machico, chegou longe na estrutura romana. Ele é um homem europeu mas periférico, ilhéu do Atlântico com passagem pelas Áfricas mas poeta do mundo, filho de gente pobre mas intelectualmente rico, pensador e filósofo, sem deixar de ser um homem do povo, amigo dos livros – sendo arquivista e bibliotecário da Santa Sé – é ele mesmo um livro onde Deus escreve palavras arrebatadoras, humilde como poucos mas espiritualmente notável.

Tolentino faz a ponte entre a Fé e a Cultura, entre a vida quotidiana e a espiritualidade, entre a razão e a emoção, sempre em busca do homem completo iluminado por Deus. E fá-lo com uma humildade tocante que não deixa ninguém indiferente. Mostrou em Lisboa que se pode ser um grande pastor tendo apenas uma pequena paróquia a cargo.

Ao respeitar o ser humano que não tem fé religiosa, fazendo uso da sua capacidade de escuta, e com ele dialogando, Tolentino demonstra que um cristão pode ser ainda hoje alguém parecido com o Nazareno, e que a verdadeira fé não coloca à distância os que não pensam nem sentem como ele. Comprova assim que mais vale construir pontes do que muros, e que a luta espiritual não é “contra a carne e o sangue” (Efésios 6:12), no dizer de S. Paulo, pelo que a genuína fé cristã não precisa de cavar trincheiras contra os “inimigos”, nem de promover cruzadas contra os novos “infiéis”.

De resto, a Grande Comissão não passa pela defesa da Fé ou por atacar quem não a tem ou a preserva de forma diferente: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém” (Mateus 28:19,20). Como se vê o mandato limita-se a discipular, baptizar e ensinar, mas nunca à força.

O novo purpurado compreende que o Evangelho não é uma imposição mas uma proposição, segundo a missão entregue por Jesus Cristo aos discípulos: “E se em qualquer cidade vos não receberem, saindo vós dali, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles” (Lucas 9:5). Confia firmemente no livre arbítrio e no princípio do binómio liberdade/responsabilidade inscrito na natureza humana.

Tenhamos presente, enquanto realidade histórica, que são os poetas que mudam o mundo, pois como Gedeão escreveu e Manuel Freire cantou: “o sonho comanda a vida” e “sempre que o homem sonha o mundo pula e avança”.

Homero deu corpo a uma narrativa fundacional dos antigos Gregos enquanto povo, Vergílio fez o mesmo com os latinos, Shakespeare marcou o seu tempo e as artes para sempre, Salomão ficou na história hebraica e universal com o seu poema de amor à Sulamita, Goethe esculpiu magistralmente o grande drama da existência humana no seu Fausto (1808). Rimbaud ainda hoje impressiona na simbolização da sua busca espiritual, antes de morrer muito jovem, Camões ousou organizar a alma portuguesa desde os tempos do Império, e Federico García Lorca, cuja obra e memória sobreviveu ao seu assassinato pelos franquistas, inspirou gerações na resistência à ditadura espanhola.

Segundo Maurice Blanchot, o acto poético faz com que a linguagem deixe de ser instrumento e revele a sua essência, que é a de “fundar um mundo” Isto é, a mesma essência do pensamento, que funda as coisas e a realidade humana.

Em qualquer caso, Tolentino fará a diferença no colégio cardinalício. “És a Poesia!”, ter-lhe-á dito o papa momentos antes da imposição do barrete cardinalício. Qual menino entre os doutores será um poeta entre cardeais mais velhos, sem deixar de ser também um doutor das palavras e da Palavra, pois foi nestas que encontrou o sentido da sua vida.

A acreditar no que disse Ludwig Wittgenstein: “Os limites da minha linguagem significam os limites do meu próprio mundo” (Tratado Lógico-Filosófico, 1921), então Tolentino é uma figura universal. E se “a primeira invenção da palavra não veio das necessidades, mas sim das paixões”, como defendeu Jean-Jacques Rousseau (Sobre a Origem das Línguas, 1781), pode dizer-se que o novo cardeal português é um homem de grandes paixões.

Talvez de paixões aparentemente contidas, mas paixões.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-10-16-Um-poeta-na-Capela-Sistina

Opinião: A desvairada parvoíce do politicamente correcto, por José Brissos-Lino

A desvairada parvoíce do politicamente correcto

Tom Flathers

Já não há pachorra para isto. A ideologia do politicamente correcto tornou-se uma autêntica ditadura que não permite espaço para o humor, nem contextualização histórica, nem sequer uma pitadinha de bom senso. Estamos perante uma espécie de fascismo social e relacional

Fiquei completamente estupefacto com o recente episódio protagonizado por Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá. Alguém desenterrou uma imagem de há dezoito anos, quando participou numa festa temática sobre “As Mil e Uma Noites”, em que os estudantes se caracterizaram e ele foi de Aladino, com o rosto escurecido. Ai, Jesus!, que o homem é um perigoso racista… Mas o mais desconcertante é que Justin, em vez de repudiar tal parvoíce, ainda veio pedir desculpa, justificando-se com as suas origens privilegiadas que não o terão feito entender quão prejudiciais poderiam ser atitudes deste tipo. Ao que obriga a desvairada parvoíce do “politicamente correcto”…

Mas aconteceu caso semelhante em solo europeu, na velha Albion. O futebolista profissional Bernardo Silva, que joga no Manchester City, publicou um tweet bem-disposto, na brincadeira com o seu grande amigo e colega de equipa desde os tempos em que ambos jogavam no Mónaco, o negro Benjamin Mendy, onde o comparava ao boneco dos chocolates “Conguito”. Foi imediatamente acusado de racismo pelos Torquemada de serviço, isto é, a Associação de Combate ao Racismo “Kick Out”, que veio exigir medidas à federação inglesa, a qual escreveu ao clube a pedir informações. O treinador Pep Guardiola defendeu o jogador referindo que era apenas uma piada entre grandes amigos e que não tinha qualquer conotação racista, adiantando que o Bernardo “é uma das melhores pessoas que conheci na vida”.

Bernardo Silva apagou a publicação de imediato, lamentando já não ser possível “brincar com um amigo” e escreveu à federação enviando um depoimento de Mendy, a testemunhar não ter ficado ofendido, mas, segundo a BBC “é acusado de ter cometido uma violação agravada das regras da FA porque incluía referência à raça e / ou cor e / ou origem étnica”.

Esta moda do politicamente correcto está a inventar problemas onde eles não existem e a revelar um extremismo perturbador que ninguém sabe onde vai parar. A ideia que dá é que estas pessoas que acusam alguém de racista por tudo e por nada, especialmente por nada, como nestes casos, escondem uma tentativa de assumir um poder que não conseguiriam de outro modo. Bem sabemos que as acusações contra famosos rendem na opinião pública e garantem publicidade global, já que as redes sociais e mesmo os jornalistas agarram em todos estes casos e “casinhos”. Mas a esperança que nos resta é que os Torquemadas modernos acabem por descobrir que o ridículo mata.

Ao que parece, acusar de racismo sem provas nem indícios um primeiro-ministro de um país desenvolvido e um futebolista internacional que joga num dos maiores clubes do mundo e no mais importante campeonato a nível global, merece bem o risco do ridículo e chama a atenção para as organizações que inventam estes casos. Na sociedade mediática em que hoje vivemos tudo é permitido em nome de uma causa e o crime compensa.

Só que enquanto estes Torquemadas da treta se vão entretendo com os casos fabricados, esquecem-se de lutar contra o verdadeiro racismo que continua entranhado no tecido social. E esquecem-se que o racismo tem mais do que um sentido. Também há racismo contra o homem branco e racismo entre negros, a que alguns chamam tribalismo, assim como racismo de negros contra mulatos e vice-versa ou contra asiáticos.

O cristianismo primitivo, inspirado por Jesus, levantou uma bandeira contra toda a espécie de racismos ao apresentar-se desde o início como uma proposta de fé universalista: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28:19); “E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15). Já durante o ministério público de Jesus se haviam gerado tensões recorrentes entre o judaísmo da época e a perspectiva universal da mensagem e praxis do Nazareno, que nunca discriminou pessoas tendo em conta a sua origem, sexo, religião ou condição social.

Quer a elite do Tempo de Jerusalém (classe sacerdotal, saduceus, sinédrio), quer o povo (incluindo os fariseus), nunca compreenderam bem a lógica de abertura a todos em que se movia, propondo assim um novo paradigma, caracterizado pela substituição da velha aliança (com o povo de Israel) por uma nova (com toda a humanidade). Quando escreveu às comunidades cristãs da Galácia, S. Paulo retomou a ideia de que a fé cristã é indiferente às barreiras religiosas, sociais e de género: “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).

Por tudo isto parece-me urgente descobrir o antídoto para o veneno social do politicamente correcto, essa nova forma de intolerância, para que um dia não sejamos obrigados vir a gritar: “Abaixo a ditadura!”.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-10-09-A-desvairada-parvoice-do-politicamente-correcto

Meditação em Transformação | 10 OUT | Universidade Lusófona pelas 18:00, na Sala S.0.11

Meditação em Transformação
(última chamada)
1- Neurofisiologia da Meditação.
2- Meditação e Religião.

A linha de investigação em Cosmovisões da Ásia, do Departamento de Ciência das Religiões, tem o prazer de convidar V.Exa. para a palestra de hoje, pelas 18:00, na Sala S.0.11 da Universidade Lusófona de Lisboa,  com o investigador Prof. Dr. Roberto Simões Serafim.

Esta é uma excelente oportunidade para aprender sobre meditação, nos seus aspetos científico e religioso. Na parte final do evento haverá oportunidade para colocar perguntas ao preletor.

Existem poucos lugares disponíveis. O evento é gratuito, mas a pré-inscrição obrigatória.

Poderá consultar os detalhes deste evento e reservar lugar em

https://www.yogaemportugal.org/event/meditacao/

Comunidades Islâmicas visitam exposição de Arte Islâmica no Museu Gulbenkian

O professor Fabrizio Boscaglia, responsável pela linha de investigação Herança e Espiritualidade Islâmica na Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, colaborou no Museu Calouste Gulbenkian para a concepção, organização e realização de visitas guiadas à exposição «O Gosto pela Arte Islâmica», cuja curadora é a doutora Jessica Hallet.

Entre julho e outubro, o seu trabalho contribuiu inclusivamente para que viessem a ser realizadas visitas guiadas à exposição com representantes, docentes e alunos das principais Comunidades Islâmicas e Mesquitas da zona de Lisboa, nomeadamente com a Comunidade Islâmica de Lisboa, com a Fundação Islâmica de Palmela e com o Centro Cultural Colinas do Cruzeiro de Odivelas.

Foram momentos marcantes, de cultura e diálogo cultural, para Lisboa, para as Comunidades Islâmicas e para a cidadania.

Visita guiada à exposição «O Gosto pela Arte Islâmica» (Museu Gulbenkian) com Fundação Islâmica de Palmela

Visita guiada à exposição «O Gosto pela Arte Islâmica» (Museu Gulbenkian) com Comunidade Islâmica de Lisboa

Visita guiada à exposição «O Gosto pela Arte Islâmica» (Museu Gulbenkian) com Centro Cultural Colinas do Cruzeiro

Opinião: Crentes sem religião, à procura de Deus, por José Brissos-Lino

Crentes sem religião, à procura de Deus

krisanapong detraphiphat

Na abordagem ao fenómeno religioso há que respeitar toda a gente, os crentes de qualquer religião ou sistema filosófico, os agnósticos e os ateus. Mas a complexificação da vida contemporânea está a levantar novas categorias até hoje desconhecidas. É o caso dos crentes sem religião

Mário Soares dizia que não era crente porque não tinha sido tocado pelo dom da fé. De facto a fé é uma dádiva (dom) de Deus. Segundo o apóstolo Paulo: “Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:9). Ou seja, a fé, sendo algo sobrenatural, não é mérito humano. O factor humano só intervém no processo de gestão desse dom. Se eu tenho fé, se a aprecio e quero continuar a tê-la, procuro estimulá-la em mim (S. Judas Tadeu chama-lhe “santíssima fé” – Judas 1:20), mas se não a considero, então não faço nada nesse sentido e acabo por perdê-la. É simples. Paulo exorta Timóteo a conservá-la: “Conservando a fé, e a boa consciência, a qual alguns, rejeitando, fizeram naufrágio na fé” (1 Timóteo 1:19); “Guardando o mistério da fé numa consciência pura” (3:9).

O que o antigo presidente da república e primeiro presidente da Comissão de Liberdade Religiosa parecia não entender é que, a fé em Deus é uma escolha, pois é dada liberalmente a qualquer pessoa que a procura e não o resultado duma selecção divina, de forma aleatória ou discriminatória: “Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas” (Romanos 2:11). O cristianismo é uma religião de revelação, sendo a maior fonte de revelação as Escrituras sagradas: “De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir a palavra de Deus” (Romanos 10:17).

Tomás Halík diz que a religião mais difundida dos nossos dias é o “algoísmo”, com esta base de crença: “eu posso não acreditar em Deus, mas tem de haver alguma coisa acima de nós”. Portanto grande parte das pessoas estão disponíveis para crer no sobrenatural mas não num Deus pessoal. Será uma divindade presente na energia, no cosmos ou na natureza, mas não um ser divino com personalidade, com uma dimensão moral, com vontade própria e que se dá à relação connosco.

Se é evidente que as religiões sequestraram Deus tantas vezes dentro duma caixa epistemológica, ritual e conceptual, passando a falar em seu nome e a criar leis e regulamentos abusivos para os fiéis, travestindo uma comunidade de fé numa estrutura organizacional com vista ao exercício do poder, também é verdade que muitos indivíduos não conseguem conceber a existência humana sem uma dimensão metafísica.

Nem o progresso, nem o avanço da educação e da ciência resolveram esta questão. Por isso temos hoje alguns dos maiores cientistas do mundo que se declaram crentes em Deus, enquanto outros colegas seus de calibre intelectual semelhante se nomeiam ateus ou agnósticos. Assim, a fé não é uma questão de dimensão intelectual, de cabedal científico, formação, educação ou falta delas, antes se movendo numa outra dimensão, já que ninguém pode provar cientificamente a existência de Deus nem a sua inexistência.

De facto a educação ajuda muito mas não é sinónimo de respeito e humanidade. Consta que no fim da II Guerra Mundial alguém encontrou uma carta num dos campos de concentração, dirigida aos professores: “Como sobrevivente de um campo de concentração vi o que ninguém devia ter visto. Câmaras de gás construídas por engenheiros, crianças envenenadas por médicos, recém-nascidos mortos por enfermeiras, e mulheres e bebés fuzilados e queimados por licenciados em universidades. Assim, tenho dúvidas sobre a eficácia da Educação. Por favor, ajude os seus alunos a tornarem-se humanos. Que do seu trabalho nunca resultem monstros treinados ou psicopatas hábeis. Ler, escrever e saber aritmética, só serão importantes se fizerem as nossas crianças mais humanas.”

Muita gente não consegue superar o facto de, em nome das religiões, se terem promovido guerras e destruição, muito embora também os não religiosos tenham provocado morte e devastação ainda maiores, como Mao, Estaline ou Pol Pot. Talvez por isso muitos tenham alergia às estruturas religiosas mas preservem a sua crença em Deus, a acreditar nos estudos sociológicos mais recentes. Em última análise, Deus não terá culpa das asneiras dos homens, mesmo quando realizadas (abusivamente) em seu nome.

Os crentes sem religião gostam de visitar locais que remetem supostamente para uma conexão com uma entidade difusa, algo que criou o universo e que deu o primeiro clique para que a vida nascesse do nada. Tais sítios podem ser o topo duma montanha, uma falésia junto ao mar ou um templo. Afinal, talvez seja necessário muito mais fé para crer em algo indefinível e inalcançável do que no Deus de amor, misericórdia e relação representado em Jesus Cristo, o qual “sendo o resplendor da sua glória” é ainda caracterizado como “expressa imagem da sua pessoa” (Hebreus 1:3).

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-10-02-Crentes-sem-religiao-a-procura-de-Deus

Call for papers Revista Lusófona de Ciência das Religiões | Até 31 de Outubro 2019

Call for papers Revista Lusófona de Ciência das Religiões | Até 31 de Outubro 2019

A revista científica da Área de Ciência das Religiões encontra-se aberta à submissão de estudos originais para publicação. É uma revista internacional que promove a divulgação de investigação sobre a religião e religiosidade de modo inter e transdisciplinar, com periodicidade semestral. Aceita-se propostas em português, inglês, espanhol ou francês. Os textos serão analisados pela comissão editorial com base num sistema de arbitragem por pares em regime de anonimato.

Religiões, Ecologia e Sustentabilidade Cultural, v.22 n. 01 (2019)

Até 31 de outubro de 2019 está aberto o prazo para o envio de:

  • 1- “Artigos”: textos inéditos resultados de investigações científicas relacionadas com o tema;
  • 2- “Recensões”: serão admitidos trabalhos sobre livros dentro das linhas de estudos da presente call for papers.

Todas as submissões devem ter lugar no Site da Revista: http://revistas.ulusofona.pt/index.php/cienciareligioes/issue/archive

Revista Lusófona de Ciência das Religiões é a publicação científica da área de Ciência das Religiões do Grupo Lusófona, espelho da dinâmica de investigação, das parcerias e das prioridades científicas dos estudos pós-graduados e especializados sediados na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

Correio eletrónico: lususrcr@gmail.com

Nunes da Silva, Sheila (org.)
Área de Ciência das Religiões
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

Meditação em Transformação na Universidade Lusófona, 10 OUT

Evento gratuito na Universidade Lusófona.

No âmbito da linha de investigação em Cosmovisões da Ásia,
Meditação em Transformação na Universidade Lusófona, com o professor doutor Roberto Simões.

10 de Outubro 2019, das 18h às 21:30,
Sala S.0.11

Temas:

  • Parte 1 – Neurofisiologia da Meditação.
  • Parte 2 – Meditação e Religião.

Detalhes e Inscrições

https://www.yogaemportugal.org/event/meditacao/

Opinião: O homem Jesus Cristo, por José Brissos-Lino

O homem Jesus Cristo

Simona Pilolla / EyeEm

Está na hora de sublinhar a humanidade de Jesus Cristo. A identidade do Cristo Filho de Deus esconde muitas vezes a sua condição humana, que é talvez aquela que mais deveria influenciar e inspirar homens e mulheres que assumem a fé cristã

André Silva, o líder do PAN, um partido animalista recauchutado de ambientalista, declarou em tempos: “Há características mais humanas num chimpanzé ou num cão do que numa pessoa em coma.” Os defensores dos animais vão mais longe e afirmam que há características mais humanas em animais do que nalgumas pessoas, ou que há pessoas que não estão em coma e que têm atitudes e pensamentos que os alinham com os comportamentos mais primários. Penso que tais declarações tocam em questões diferentes.

Compreendemos que há seres humanos que revelam comportamentos irracionais, e que há animais que estabelecem uma espécie de empatia na interacção com os humanos, como os caninos, por exemplo. Assim como há seres humanos a demonstrar por vezes os comportamentos mais primários. Mas nada disso é suficiente para nivelar a natureza humana com a animal.

O especismo é uma moda dos novos tempos. Não se limita a condenar a crueldade para com os animais mas pretende reconhece-lhes direitos semelhantes aos das pessoas. Esta variante filosófica só é assumida por partidos fora do sistema democrático a que estamos habituados. Jerónimo de Sousa, por exemplo, declarou recentemente que não conhece “ninguém que não goste de proteger e defender os animais, mas não se adulterem nem subvertam princípios fundamentais do relacionamento do Homem com o próprio animal”. Não será tanto assim. De facto sempre houve quem exercesse crueldade sobre animais. Provavelmente, mais cedo ou mais tarde tais indivíduos também irão tratar mal as pessoas. Mas a ideia de rebaixar o ser humano ao nível do animal irracional é repulsiva.

Os animalistas caracterizam-se por só defenderem certos tipos de animais, deixando de fora dos seus cuidados todos os outros. Porque defender apenas ou animais domésticos? Ou os touros? Ou os animais do circo? E porque não os répteis, os ratos, as baratas ou os piolhos? Não pertencem também ao reino animal? Os animalistas são perigosos, dada a tendência autoritária e proibicionista que revelam. No caso português o seu programa eleitoral não apresenta um projecto político consistente para a governação do país, sendo omisso, superficial e inconsequente.

Peter Singer, conhecido académico de filosofia em Princeton tem escrito obras sobre ética aplicada, onde defende que se considerem alguns animais não humanos como pessoas, atribuindo à sua vida valor idêntico à dos humanos. Vai mesmo mais longe ao defender que alguns membros da espécie humana não são pessoas, enquanto alguns das outras espécies são pessoas. Mas colocar os seres humanos ao nível dos animais é patético, insultuoso e completamente contra-natura, quanto mais inverter a lógica…

Este fulano foi o mesmo que defendeu a ideia adiantada pelo PAN de que uma pessoa sem consciência de si já não deve ser considerada humana e propôs que os hospitais deveriam desligar as máquinas, por razoabilidade económica. Mas quando a sua própria mãe entrou nessa situação gastou tudo o que tinha para a manter viva… Confrontado pelos seus alunos face a tal incoerência, justificou-se dizendo que, quando se trata da nossa mãe é diferente. Estamos conversados sobre a sua honestidade intelectual.

Para um cristão, os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus. Entenda-se imagem e semelhança moral e espiritual: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” (Génesis 1:26). A restante natureza como os mundos animal, vegetal e mineral, serão parte da Criação e por isso devem ser respeitados e protegidos, mas não receberam o espírito divino. A Torah explicita que o ser humano recebeu mandato de os proteger, assim como de preservar o ambiente, mas não de os exterminar ou degradar.

Não é subvertendo as regras do jogo que o faremos. Tratar animais como pessoas e seres humanos como animais irracionais é subverter o processo. Deixar morrer de fome uma criança pobre e criar animais de companhia como nababos é crime de lesa-humanidade. Alguns chegam a deixar fortunas em herança ao seu animal de estimação, que algum advogado irá depois gerir, sabe-se lá como… Tais aberrações só se explicam pela desumanização desenfreada a que assistimos, essa loucura que atacou há muito as pessoas e as suas relações umas com as outras.

Talvez valesse a pena – pelo menos aos que se assumem cristãos – conhecer o que os textos bíblicos que falam sobre os animais e a natureza, em especial o que disse Jesus Cristo sobre a matéria. Mais importante, ainda, será olhar para o Jesus Cristo homem, nascido de mulher, e entender como dignificou a condição humana como nunca ninguém antes dele tinha feito. Sempre se referiu ao mundo animal: “Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta” (Mateus 6:26) e vegetal: “Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam” (Mateus 6:28”) com atenção, respeito e carinho, mas nunca os considerou iguais ou superiores ao seu humano: “Não tendes vós muito mais valor?” (Mateus 6:26).

Mas agora é in chamar Alfredo a um cão e Bo a um menino.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-09-25-O-homem-Jesus-Cristo

Opinião: O Brexit dos pobres por José Brissos-Lino

O Brexit dos pobres

Dan Kitwood

Um Brexit puro e duro deixará um rasto de destruição nas vidas e famílias por todo o Reino Unido. Foi isso que a Igreja de Inglaterra disse, procurando ser fiel à sua responsabilidade profética

O processo político do Brexit tem-se revelado uma trapalhada do princípio ao fim. Desde logo, na campanha para o referendo valeu toda a sorte de informações falsas a fim de levar ao engano os eleitores. A União Europeia foi sempre apontada pelos brexiters como a fonte de todos os males, mensagem que colheu nos meios rurais e nas faixas populacionais mais idosas, onde o saudosismo do antigo Império Britânico é mais forte e onde a canção patriótica do século XVIII Rule, Britannia! ainda emociona. Já as gerações mais jovens estão muito mais adaptados à globalização e abertas ao mundo, despojadas de tiques de superioridade, por isso votaram maioritariamente no Remain.

O ex-primeiro-ministro David Cameron quis reforçar a sua legitimidade no partido e lançou o referendo em 2016, crente de que o ganharia. Perdeu, para surpresa geral e abriu-se uma caixa de Pandora. Ou seja, os ingleses disseram que queriam sair da UE mas não se entendem sobre como nem quando. O espectáculo dado ao mundo por Teresa May foi degradante e agora, com Boris Johnson ainda desceu mais de nível.

O populista Donald Trump foi dos poucos a aplaudir a triste figura de Boris porque lhe interessa uma Europa o menos forte possível, na ilusão de afirmar os Estados Unidos num mundo em mudança, onde cada vez exerce menos influência.

Em boa hora a igreja anglicana advertiu o país para o duro impacto que teria sobre as camadas mais pobres do Reino Unido uma saída da EU sem acordo, como Boris defende e no momento em que o primeiro-ministro solicitou à Rainha Isabel II a suspensão do Parlamento, numa manobra política antidemocrática sem precedentes. Mais de vinte bispos anglicanos alertaram em carta aberta para o “custo potencial” de um Brexit duro para “os menos resistentes às crises económicas”.

O populismo está à flor da pele, com um primeiro-ministro não-eleito a mandar encerrar um parlamento eleito, apenas para levar por diante uma saída da UE sem acordo, contra a opinião geral dos representantes democráticos do povo britânico e, eventualmente, contra a opinião actual dos próprios eleitores. E tudo isto sem se preocupar com a possível implosão do Reino Unido, tendo em vista a eventual independência da Escócia (que não se quer desligar da Europa) e a previsivelmente perigosa crise política na Irlanda, que não admite a reposição duma fronteira.

Segundo o documento episcopal: “A soberania do Parlamento não é apenas um termo vazio, baseia-se em instituições que devem ser honradas e respeitadas: a nossa democracia está em perigo devido ao respeito displicente em relação a elas”.

Segundo o Religión Digital o arcebisto de Cantuária, Justin Welby, mostrou-se disponível para presidir a um fórum de cidadãos que aborde o Brexit sem prejuízo de ninguém em particular, de forma a dar eco a todas as vozes no debate actual: “Os pobres, os cidadãos da UE no Reino Unido e os cidadãos britânicos na Europa devem ser respeitados. A fronteira irlandesa não é um simples totem político e a paz na Irlanda não é uma bola que os ingleses possam pontapear: o respeito às preocupações de ambos os lados da fronteira é essencial”.

Regressei agora de Inglaterra e verifiquei que o ambiente neste momento é de grande inquietação, especialmente entre os mais vulneráveis da sociedade. Já vão faltando produtos alimentares nalguns supermercados. Há grande movimentação política. Na segunda-feira os democratas-liberais realizaram uma conferência e defendem abertamente novo referendo. Boris Johnson foi a Bruxelas empatar, foi vaiado e nem se dignou falar aos jornalistas na conferência de imprensa conjunta, como é hábito. E no momento em que escrevo espera-se o veredito do Supremo Tribunal sobre a saída sem acordo, já condenada por um tribunal da Escócia.

Mas a verdade é que os portugueses que vivem no Reino Unido estão igualmente aflitos e em estado de alerta, altamente preocupados com o seu futuro. É sabido que as crises económicas e sociais castigam sempre os mais pobres e socialmente mais frágeis.

O teólogo checo Tomás Halík diz que “o grande desafio com que o Cristianismo se vê hoje confrontado não é o da sua sobrevivência, mas o da sua relevância.” Se a igreja de Cristo se alhear dos problemas das populações e calar a sua voz profética para pouco servirá. Por isso a Igreja Anglicana acabou de dar um bom exemplo ao país e ao mundo.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-09-18-O-Brexit-dos-pobres

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