Mostras sobre al-Mu’tamid e Adalberto Alves na Biblioteca Nacional de Portugal

Decorrem na Biblioteca Nacional de Portugal a partir de dia 3 de fevereiro, até 9 de maio de 2020, as mostras «Al-Mu’tamid: poeta do Gharb al-Andalus», dedicada ao poeta árabe al-Mu’tamid, e «Adalberto Alves: 40 anos de vida literária», que homenageia o poeta e arabista português. Ambas são comissariadas pelo professor Fabrizio Boscaglia, a poeta Maria João Cantinho e o tradutor Hugo Maia.

As mostras pretendem contribuir à interpretação e à divulgação do legado do al-Andalus e do património islâmico em Portugal, no contexto da Linha de Investigação Herança e Espiritualidade Islâmica, coordenada por Fabrizio Boscaglia na Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

A inauguração decorre a 3 de fevereiro às 18h, havendo um conjunto de atividades associadas, nomeadamente:

  • 29 fev. – Passeio guiado «Lisboa Árabe» por Natália Nunes (passeio a pé por Alfama e Mouraria – mais info)
  • 11 mar. – Projeção filme «Al-Mu’tamid: o destino de um príncipe» (RTP-Ensina) às 17h30
  • 19 mar. | 30 abr. – Visitas guiadas às 17h30 (sujeitas a marcação)
  • 8 abr. – Sessão de leitura de poemas de Al-Mu’tamid e Adalberto Alves
  • 7 maio – Colóquio «Cultura luso-árabe e luso-islâmica»

Parcerias:

Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, Comunidade Islâmica de Lisboa, Fundação Islâmica de Palmela, Fundación Blas Infante Pérez, Fundación El Legado Andalusí, Transiberia.

Mais informações (clicar nos títulos):

Opinião “Não façam do racismo um mantra” por José Brissos-Lino

Não façam do racismo um mantra

Tal como o feminismo ou os direitos de qualquer minoria, o combate ao racismo pode ficar a perder quando se torna uma espécie de prática religiosa sectária, sem discernimento nem bom senso

O caso dos jovens recentemente assassinados é paradigmático. Um era branco e foi assassinado por negros na sequência dum assalto em Lisboa, e o outro era negro e terá sido assassinado por brancos na cidade de Bragança. Há quem se apresse a classificar de racista a morte do jovem cabo-verdiano mas cale o eventual racismo no assassínio do jovem lisboeta.

Sejamos sérios. Nada leva a crer que a morte de Pedro, estudante em Lisboa, tenha sido por motivação racista, mas apenas na sequência dum assalto que correu mal. No caso de Giovani terá sido fruto dum desentendimento num estabelecimento de diversão nocturna e, segundo a Polícia Judiciária, o motivo terá sido fútil e não ódio racial. Clamar por crime de ódio um incidente destes é uma tolice perigosa. Mas alguns fizeram-no na linha do mantra cultural que hoje vemos. O certo é que esses mesmos calaram a morte de Pedro sabendo-se que os seus três assassinos são negros.

Pedro e Giovani eram jovens e estudantes. A cor da pele é que era diferente. Nada nos permite valorizar mais a vida de um do que do outro. Nada nos permite (para já) invocar o racismo como motivação do assassinato de um ou de outro. Um foi esfaqueado por três assaltantes, o outro terá sido espancado brutalmente por um grupo de idiotas. Por um trágico acaso a morte dos dois jovens estudantes diferiu poucos dias, mas o sangue de ambos era vermelho e a dor da família de um e do outro deve ser muito semelhante.

Joacine Moreira – a inenarrável deputada do Livre (até ver) – tem prestado um mau serviço tanto à igualdade de género como à causa anti-racista, pelos exageros e falta de bom senso que tem evidenciado de forma recorrente em inúmeros episódios. A luta pela justiça social e a defesa das minorias não pode ser transformada numa espécie de religião dogmática. As palavras e atitudes de alguns dos seus protagonistas fazem mais por crispar os que não se empenham nelas do que o contrário. No fundo, Joacines e Mamadous Ba só atrapalham a luta conta o racismo. Até a empresária angolana Isabel dos Santos, filha do ex-presidente José Eduardo dos Santos, vem agora acusar o Expresso e a SIC de racismo, ao sentir-se cercada e expostos os alegados crimes económicos cometidos contra o seu país.

Reza Aslan diz que “As coisas que odiamos na nossa religião são apenas um reflexo das coisas que odiamos em nós mesmos”. Se assim for, para os que fazem do anti-racismo a sua religião, então compreendem-se um pouco melhor certas mensagens e comportamentos. Até porque, infelizmente, o racismo tem muitas cores.

António Gedeão discorreu de forma simples mas magistral sobre o racismo no célebre poema “Lágrima de preta” (1961). O sujeito poético vai descrevendo as diversas fases da análise química duma simples lágrima e conclui:

Nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.

António Gedeão era pseudónimo poético de Rómulo de Carvalho (1906-1997), professor de Física e Química. Daí a sua tendência para mostrar que os seres humanos são todos iguais, independentemente da cor da sua pele, visto não existirem diferenças da composição química entre indivíduos de cores diferentes. Mais. O poema aponta essencialmente para o facto de que o sofrimento nada tem que ver com diferenças étnicas (“Encontrei uma preta /que estava a chorar, / pedi-lhe uma lágrima / para a analisar”). Tanto sofre um caucasiano como um negro, um índio ou um asiático. A forma de expressar as emoções é que será diferente, mercê das influências culturais e da personalidade própria de cada um.

Gedeão escreveu na fase das guerras de libertação dos povos africanos, que aspiravam ao legítimo direito de autodeterminação, e poucos anos depois do horror nazi que considerava alguns povos, etnias e minorias como seres humanos inferiores, e que se dedicava a experiências desumanas com homens, mulheres, crianças e grávidas dando-se ao direito de assassinar milhões deles nas câmaras de gás.

O que será preciso mais para o mundo entender que estamos todos no mesmo barco chamado Humanidade? A fé cristã podia ser essa base já que a mensagem de Cristo é universalista, dirigida a todos os povos e nações: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mateus 28:19). O problema é que os cristãos acabaram muitas vezes por passar ao lado do genuíno espírito de Jesus, ao transformar a proposta do Evangelho (“quem crer”) numa imposição pela força da espada ou da lei e estragaram tudo. Mas sejamos justos. Não terão sido os únicos a cair no erro de confundir a essência da sua fé.

 

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-01-22-nao-facam-do-racismo-um-mantra/

Formação em Gnose e Esoterismo Ocidental 2020

Gnose e Esoterismo Ocidental 2020  

Estão abertas as inscrições para o curso Gnose e Esoterismo Ocidental 2020. Uma abordagem rigorosa, mas acessível, sobre as Fontes filosóficas, religiosas e literárias, e respetivo contexto histórico. Este ano o curso abre 3 turmas presenciais. Em simultâneo: Lisboa, no Porto e em Lagos. 

Inscrições para rui.lomelino.freitas@gmail.com

Esta Formação presencial Avançada em Gnose e Esoterismo Ocidental inclui além das aulas presenciais calendarizadas, a gravação do curso integral em vídeo, livros em pdf, materiais didáticos, podcasts temáticos, acompanhamento de dúvidas por mail durante a semana e visitas guiadas a espaços de património histórico de interesse.

Toda a Informação em: https://www.esoterismoocidental.eu/

O curso – que não requer formação prévia – pretende proporcionar uma formação de nível avançado, sobre as fontes, conteúdos e contexto dos impulsos espirituais, religiosos, culturais e científicos que ao longo do tempo foram sendo definidos como ‘gnósticos’ e ‘herméticos’.

LISBOA: EBA – Emotional Business Academy, Praceta das Torres do Restelo, quinzenalmente às segundas-feiras, das 19hh00 às 21h00.

PORTO: BOA, Bombarda Oficinas de Artes, Rua Adolfo Casais Monteiro, 59, Porto. quinzenalmente às terças-feiras, das 19hh00 às 21h00.

LAGOS: Escola de Medicinas Tradicionais – Rua Marechal Furtado nº.34-a | Lagos , quinzenalmente aos sábados, das 15h00 às 18h00.

Professor: Rui Lomelino de Freitas é Coordenador da Linha de Investigação em Gnose e Esoterismo Ocidental, da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona. Formado em Filosofia e Ciência das Religiões, leccionou as disciplinas de Esoterismo Ocidental, Cristianismo Gnóstico, Filosofia Hermética, Alquimia e Fontes para o Estudo da Rosacruz e da Maçonaria. Autor de artigos e publicações sobre hermetismo e alquimia e a tradição rosacruz. Organizador do 1º Congresso Internacional Lusófono sobre Esoterismo Ocidental. É atualmente Membro da ESSWE (European Society for the Study of Western Esoteriscism), que agrupa universidades, centros de investigação e investigadores com trabalho relevante na área.

Programa, conteúdos e calendarização: https://www.esoterismoocidental.eu/

Opinião: Essa coisa do pecado, por José Brissos-Lino

Essa coisa do pecado

 
O conceito de pecado no Cristianismo, à luz do senso comum, é quase sempre individual, e por isso extremamente redutor. Não há espaço para os pecados sociais ou contra a natureza

Em Novembro passado o papa Francisco surpreendeu muita gente ao explicar publicamente que a Igreja Católica planeava introduzir a noção de “pecado ecológico” no catecismo, porque os comportamentos contra o meio ambiente também são contra a “casa comum”. Falava então no XX Congresso Internacional da Associação de Direito Penal, realizada em Roma: “Estamos a pensar em introduzir o pecado ecológico no catecismo da Igreja católica, o pecado contra o lar comum”, anunciou. As questões ambientais estão na ordem do dia, e com razão, mas creio que a surpresa das pessoas está mais relacionada com o conceito corrente de pecado, popularizado pela religião e distorcido na sua essência.

Mas o que é isso de pecado? Para o senso comum é matar, roubar e mais umas quantas atitudes socialmente censuráveis e sujeitas à alçada da lei. Atentar contra a vida humana ou o património, portanto. Depois há mais uns pecadilhos de ênfase moral, como mentir, adulterar ou levantar falso testemunho, por exemplo.

Porém, à luz da fé cristã, o pecado é essencialmente outra coisa, que podemos compreender melhor se atentarmos na etimologia do termo. A palavra latina (peccatum) fala-nos de dar um passo em falso, tropeçar, cometer um erro, proceder mal, praticar um delito, mas no grego (hamartia) significa errar o alvo. Isto é, sempre que passamos ao lado do que devíamos, pecamos. Portanto, pecar não é só o erro, ou a falha naquilo que se faz, diz ou pensa, até porque ainda há o chamado pecado por omissão: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tiago 4:17).

Os judeus do primeiro século tinham muita dificuldade em compreender o conceito de pecado, pois no seu entender ele reduzia-se apenas aos interditos na lei de Moisés. Daí a necessidade duma tradição oral que detalhasse o sentido prático das disposições da Torah e mais tarde de a passar a escrito ainda com mais minúcia no Talmude, face às discrepâncias das diversas tradições rabínicas e de diferentes escolas de interpretação do judaísmo.

O apóstolo Paulo, embora vocacionado mais para o mundo gentio, todavia teve que se confrontar constantemente com os religiosos judeus, mesmo fora de Israel, e por isso teve necessidade de reflectir sobre esta questão, o que podemos atestar largamente nos seus escritos. Assim, passa a contrapor à lei da Antiga Aliança, uma nova lei a que chama lei da liberdade: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecediço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tiago 1:25), lei do espírito de vida: “Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte” (Romanos 8:2) ou lei do amor: “O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Romanos 13:10), que vem substituir a antiga legislação judaica, afinal já cumprida integralmente por Jesus Cristo. E a fé nele, nosso sumo-sacerdote, isenta-nos de a cumprir, até porque – como nos diz Tiago – ela terá sido dada ao povo do Antigo Israel mais como um instrumento para concluírem da sua incapacidade de a cumprir e necessitarem de um Messias salvador: “Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” (Tiago 2:10). Mas a lei do amor, proposta por Paulo, é muito mais exigente e responsabilizante. Se eu amo o meu semelhante não o vou matar, roubar ou trair. Sendo assim não preciso duma lista de interditos mas apenas de um princípio inscrito no meu coração.

Se eu posso pecar contra Deus ou um indivíduo meu semelhante também posso pecar contra o colectivo (pecados sociais) ou contra a Criação, como diz Francisco: “a poluição maciça do ar, da terra e dos recursos hídricos, a destruição em grande escala da flora e da fauna e qualquer acção capaz de produzir um desastre ecológico ou destruir um ecossistema”. Daí que não pareça descabido considerar como pecado ecológico as acções contra o meio ambiente – o tal “lar comum” –, que também constituem, afinal, pecado contra o Deus Criador e a comunidade humana.

Ao colocar a ênfase no erro, na falha humana, a religiosidade ocidental passou ao lado do sentido de pecado, isto é, reduzindo-o a algo que não se devia fazer, levando a prática religiosa a um caminho das pedras, pela negativa, e não pela positiva. E depois vem toda a carga de culpa em consequência das intermitências da condição humana e da imperfeição de cada um. Mas o Evangelho não define propriamente os cristãos pela negativa, por aquilo que deixam de fazer mas sim pelo que são. Não se trata duma questão de cumprir preceitos religiosos, de fazer ou deixar de fazer, mas de ser. É ontológico. E aqui a coisa fia muito mais fino.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-01-29-essa-coisa-do-pecado/

Opinião: A História não é para mulheres, por José Brissos-Lino

A História não é para mulheres

 
Há cem anos uma jovem mulher sueca desembarcou em Belém do Pará, onde ajudou a construir a maior igreja pentecostal do país. Depois foi perseguida, internada num hospício e apagada da História

A esmagadora maioria dos fiéis desta igreja pentecostal histórica, que conta hoje com milhões de pessoas no Brasil, não fazem a mais pequena ideia da história de vida de Frida Maria Strandberg Vingren, que morreu doente aos 49 anos, no dia 30 de setembro de 1940, na Suécia, nos braços da filha, quando pesava apenas 23 quilos. O desfecho trágico de Frida é produto de lideranças religiosas misóginas que não apenas lhe cortaram as asas, como boicotaram repetidamente a sua acção missionária evangélica e a destruíram como pessoa.

A jovem missionária de 26 anos que viajou de Estocolmo para o norte do Brasil em 1917, e que casaria com Gunnar Vingren em cerimónia realizada pelo pastor sueco Samuel Nyström, não sonhava que este viria a ser um dos seus principais opositores, tal como Daniel Berg, que fundara a igreja Assembleia de Deus no país juntamente com o seu marido.

Frida notabilizou-se rapidamente pelo trabalho social desenvolvido pela igreja de que o marido fora um dos fundadores sete anos antes, entre órfãos, idosos, doentes e sobretudo nas frequentes visitas aos leprosários.

Na Suécia luterana do início do século XX os pentecostais constituíam um grupo religioso recente e foram perseguidos, pelo que migraram especialmente para os Estados Unidos, mas alguns foram para o Brasil, tendo escolhido Belém do Pará, que era ao tempo uma das cidades mais ricas do país graças à riqueza gerada pela extracção da borracha.

Como o marido adoecia frequentemente durante as repetidas viagens ao serviço da igreja, por diversas vezes com malária, Frida assumia cada vez mais as suas funções como pregadora, além de traduzir hinos do sueco para o português, de cantar e tocar. Visitava todas as semanas a prisão de Belém, onde eram mantidos 200 rapazes entre os cinco e os vinte anos de idade, sendo que alguns estavam ali simplesmente por não terem pai. Mas Samuel Nyström entrou em choque com Frida por não aceitar que uma mulher pudesse pregar a Palavra, queixando-se recorrentemente da situação à igreja em Estocolmo. Dada a tensão instalada, o casal Vingren muda-se então para o Rio de Janeiro em 1924, já com quatro filhos, onde desenvolve trabalho pioneiro e funda um jornal onde defende com frequência, através de argumentos bíblicos, que as mulheres poderiam pregar, ensinar ou doutrinar, provocando a animosidade de diversos pastores brasileiros de mentalidade machista.

O caso Frida esteve na origem da convocação da primeira convenção da igreja, em 1930 em Natal (RN), que, sem o proibir, veio a desencorajar a pregação feminina. Mas nos tempos que se seguiram Frida – que sempre contou com o apoio do marido – insistiu na pressão para que as mulheres não recuassem e a tensão agravou-se, apesar de as suas qualidades de liderança serem geralmente reconhecidas. Com a situação a agravar-se e depois de uma acusação de adultério, embora sem provas, a família regressa à Suécia em 1932, mas Gunnar morre um ano depois de chegar à Europa.

Mais tarde Frida tenta retomar a obra missionária, mas nem os líderes da igreja no Brasil ou na Suécia aprovam, pelo que tenta vir para Portugal, a partir de onde se crê que embarcaria num navio de volta a terras brasileiras. É então detida na estação ferroviária de Estocolmo e levada em camisa-de- forças para um hospital psiquiátrico. A igreja retira-lhe a guarda dos filhos e desfaz-se dos seus pertences. Não há registo médico de Frida sofrer de qualquer transtorno psiquiátrico, mas encontrava-se esgotada e provavelmente sofria de hipertiroidismo, a causa provável da sua morte.

Hoje, quando a igreja sueca é confrontada com tal arbitrariedade, defende-se: “Aquilo era uma novidade completa para nós. Foi horrível o que fizeram com ela. Muita gente ficou chocada com a forma como foi tratada pelas antigas lideranças” afirmou Gunnar Swahn, antigo secretário de missões de Estocolmo à BBC Brasil.

Nestes pouco mais de cem anos de existência da Assembleia de Deus no Brasil o ministério feminino tem vindo a ganhar espaço progressivamente, embora com mais incidência numas regiões do que noutras, dada a extensão continental do país, os profundos contrastes sociológicos e o sistema congregacional de governo eclesiástico vigente na denominação. Mas Frida – que era enfermeira, jornalista, compositora e teóloga – pagou um preço elevadíssimo por se tratar duma mulher excepcional e muito à frente do seu tempo.

A sua estória elucida de forma clara como o homem religioso pode ser cruel na defesa dos seus preconceitos e ideias próprias, deixando de lado tanto a caridade cristã como aquilo que S. Paulo escreveu já há dois mil anos: “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-02-05-a-historia-nao-e-para-mulheres/

II Congresso Internacional de Cristianismo Contemporâneo

CONGRESSO EM MAIO DE 2021

O Instituto de Cristianismo Contemporâneo (Área de Ciência das Religiões) está a organizar o II Congresso Internacional de Cristianismo Contemporâneo, a realizar em data a definir em breve, mas durante o mês de Maio de 2021, na Universidade Lusófona em Lisboa.

O tema geral será: “Antigas questões, novos desafios”, e os
Eixos Temáticos para já serão:
Nº. 1 – Desafios teológicos contemporâneos
Nº. 2 – Fé e cultura
Nº. 3 – Diálogos interconfessionais e inter-religiosos
Nº. 4 – Cristianismo, democracia e sociedade civil
Nº. 5 – Tradição e dogmática face aos textos bíblicos
Nº. 6 – Da ecologia à ecoteologia.

Fique atento às notícias.

 

Prof. Doutor José Brissos-Lino

Director do Mestrado em Ciência das Religiões (ULHT)

Coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo (ICC)
https://iccontemporaneo.wordpress.com/
Investigador doutorado do CIPES e do CLEPUL (Fac. Letras/UL)
Email: jose.lino@ulusofona.pt
https://ual-pt.academia.edu/Jos%C3%A9BrissosLino

https://www.researchgate.net/profile/Jose_Brissos-Lino

Plataforma De Góis

LATTES: https://wwws.cnpq.br/cvlattesweb/PKG_MENU.menu?f_cod=0D2370A6CE032D4988C74A8C4246C20A#

Opinião – revista VISÃO:  http://visao.sapo.pt/autores/2018-08-23-Jose-Brissos-Lino

Instagram: drbrissoslino

Opinião: Esquecer Simulambuco, por José Brissos-Lino

Esquecer Simulambuco

Como português que sou senti-me um pouco comprometido em Simulambuco, quando visitei Cabinda no mês passado. Portugal falhou aos cabindas talvez porque o que tem de ser tem muita força. É o caso do petróleo

Em finais do século XIX um representante da coroa lusitana assinou com os líderes nativos um documento através do qual Portugal acolhia no seu seio aqueles territórios africanos independentes, obrigando-se a manter a integridade territorial colocada sob sua protecção e comprometendo-se, em contrapartida, a preservar os hábitos e culturas dos seus habitantes, assim como a respeitá-los e fazê-los respeitar. O tratado foi celebrado antes da realização da Conferência de Berlim que dividiu África pelas potências europeias, pelo que a colonização de Cabinda foi pacífica. A referida conferência, realizada ainda no mesmo ano, veio a confirmar internacionalmente o tratado, adoptando-se a designação de Congo Português para a região.

O documento que estabelece a criação do protectorado foi assinado pelo representante do governo da coroa, Guilherme Augusto de Brito Capello, então capitão-tenente da Armada e comandante da corveta Rainha de Portugal, e pelos príncipes, chefes e oficiais do reino de Negoio, a 1 de Fevereiro de 1885.

O Tratado de Simulambuco é muito simples e consta de apenas 11 artigos, mas revela alguns aspectos dignos de nota, como a proibição do comércio de escravos, o reconhecimento da estrutura administrativa existente (lideranças nativas) e a escrupulosa preservação da propriedade privada, assim como o direito aos rendimentos daí provenientes, não havendo lugar a qualquer tipo de expropriação.

Desde logo as partes obrigaram-se a “não permitir o tráfico de escravatura nos limites dos seus domínios”. Aos chefes nativos do país e seus habitantes Portugal comprometia-se a fazer conservar “o senhorio directo das terras que lhes pertencem, podendo-as vender ou alugar de qualquer forma para estabelecimento de feitorias de negócio ou outras indústrias particulares, mediante pagamento dos costumes”. Mais. Os príncipes e governadores nativos cederiam a Portugal “a propriedade inteira e completa de porções de terreno, mediante o pagamento dos seus respectivos valores, a fim de neles o governo português mandar edificar os seus estabelecimentos militares, administrativos ou particulares.”

Assim, o documento começa por registar que os príncipes e demais chefes nativos e seus sucessores “declaram, voluntariamente, reconhecer a soberania de Portugal, colocando sob o protectorado desta nação todos os territórios por eles governados.” Não se tratou duma conquista ou colonização forçada. Pelo contrário, o protectorado ali estabelecido resultou duma negociação livre e da vontade expressa das duas partes. Em contrapartida Portugal não só reconhecia as lideranças nativas como lhes prometia auxílio e protecção assim como manter a integridade dos territórios. Mas o tratado protege igualmente as culturas locais no respeito pelas idiossincrasias próprias quando define: “Portugal respeitará e fará respeitar os usos e costumes do país.” Portanto, tudo na base do respeito mútuo.

O governo português não só assegurava aos cabindas a possibilidade de desenvolverem relações comerciais com países terceiros, em completa liberdade, como se obrigava a proteger os estabelecimentos dos “negociantes de todas as nações” que se viessem a estabelecer naqueles territórios. Os chefes indígenas obrigavam-se a proteger o comércio quer dos portugueses, quer dos estrangeiros e indígenas, não permitindo interrupção nas comunicações com o interior, e a fazer uso da sua autoridade para desembaraçar os caminhos, facilitando e protegendo as relações entre vendedores e compradores.

Mas as especificidades mais interessantes do tratado talvez sejam mesmo o compromisso dos chefes indígenas em virem a conceder todo o apoio às missões religiosas e científicas que se viessem a fixar de forma temporária ou permanente nos seus territórios. Hoje a província de Cabinda conta com forte presença católica e protestante.

O desenvolvimento da agricultura também foi previsto no documento. Talvez por isso se tenha plantado uma árvore no local e no momento do acto de assinatura do tratado, a qual permanece imponente, a que se juntou um marco histórico e uma placa alusiva com a respectiva inscrição informativa para a posteridade, local que tive oportunidade de visitar há poucas semanas.

Parece que passadas nove décadas e três regimes políticos depois em Portugal, terá sido a riqueza do petróleo enquanto recurso natural que acabou por determinar em grande parte o destino de Cabinda e a sua integração na nação angolana em 1975, fazendo esquecer de vez Simulambuco.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-01-15-esquecer-simulambuco/

Opinião: Trump e os evangélicos

Trump e os evangélicos

 
A prestigiada revista americana fundada por Billy Graham em 1956 defendeu a 19 de Dezembro passado a destituição de Donald Trump, uma atitude inédita que está a provocar algum desconforto nos meios evangélicos

De facto foi com alguma surpresa que se leu um vigoroso editorial de Mark Galli, editor-chefe da Christianity Today (CT) – considerada pelo Washington Post como “a principal revista do evangelicalismo” –, onde se exigia a destituição de Trump. Aquela publicação religiosa começa por se referir aos documentos fundadores nos quais o famoso evangelista colocava como seu objectivo contribuir para que os cristãos evangélicos pudessem interpretar as notícias de modo a reflectir a sua fé.

O histórico da CT é não se envolver directamente em política, permitindo que cristãos de todo o espectro político defendam os seus argumentos em praça pública, mas incentivando-os sempre a procurar a justiça segundo as suas convicções e em amor, já que a política não é um fim em si mesmo. A ideia é orar a Deus pelo presidente da América a cada momento, seja ele quem for, mas também pela classe política em geral, da esquerda à direita. Mas a revista reconhece que os factos são inequívocos. O presidente dos Estados Unidos usou o seu poder para coagir um líder estrangeiro a assediar e desacreditar um oponente político. E isso não constitui apenas uma violação da Constituição mas sobretudo uma profunda imoralidade.

Mas a CT vai mais longe. Justifica que se isso não chocou o povo americano tanto como seria suposto, é porque Trump apresenta um histórico de imoralidade constante na sua presidência, tanto ao contratar e demitir várias vezes indivíduos agora condenados por crimes, como ao admitir atitudes imorais nos negócios e no seu relacionamento com mulheres, actos de que se orgulha, e ao publicar constantemente no Twitter manipulações, mentiras e calúnias, tornando-se assim um exemplo quase perfeito de um ser humano moralmente perdido e confuso.

As audiências do processo de impeachment deixaram absolutamente claro, mais do que a investigação de Mueller, que Trump abusou da sua autoridade para obter ganhos pessoais e traiu o seu juramento constitucional, revelando ao mundo profundas deficiências morais, o que prejudica a presidência e a reputação do país, assim como o espírito e futuro dos americanos, pelo que nenhum ponto positivo do seu governo pode equilibrar o perigo moral e político que o país enfrenta com um líder de carácter tão imoral e anti-ético.

De acordo com um estudo do Pew Research Center os protestantes evangélicos brancos apoiam Trump 25 pontos acima da média nacional. Provavelmente para agradar aos conservadores a revista compara esta posição com a que tomou contra Clinton há vinte anos, traçando um paralelo moral entre ambos. Só que Clinton nunca fez sequer um por cento de tudo o que é censurável em Trump. Mentiu a propósito do caso Lewinsky, mas Trump mente todos os dias, desde a campanha eleitoral até agora, além de atitudes muito mais graves do que essas.

A CT confronta os apoiantes cristãos do presidente com as bases da sua fé e o seu testemunho perante o mundo, avançando que “Se não revertermos o curso agora, alguém levará a sério qualquer coisa que venhamos a dizer sobre justiça e rectidão nas próximas décadas?” O editorial concluiu confessando que a revista reservou um pronunciamento sobre Trump durante anos, sendo por isso criticada em alguns sectores. Mas tratou-se – justifica – de prudência, de tentar entender o ponto de vista dos seus apoiantes evangélicos, e porque a caridade deve estar presente antes de se condenar o comportamento de alguém. Mas agora não dá mais para calar, pois isso colide com a reputação evangélica e a compreensão do evangelho no mundo.

As reacções ao editorial no meio evangélico foram repartidas. Muitos apoiaram e outros criticaram. Três dias depois, a revista confirmou a sua posição adiantando que “a aliança do evangelicalismo americano com esta presidência tem provocado enormes danos ao testemunho cristão. Alienou muitos de nossos filhos e netos. Prejudicou irmãos afro-americanos, latino-americanos e asiáticos-americanos, e minou os esforços de incontáveis missionários que trabalham em campos distantes”, pelo que “a percepção do apoio evangélico ao governo Trump tornou tóxica a reputação da Noiva de Cristo.” Esta perspectiva está em linha com outros pronunciamentos como o do jornal “The Atlantic” que já este Verão afirmava que “o apoio a Trump tem um alto custo para o testemunho cristão”, falando em crise aprofundada no cristianismo evangélico.

Franklin Graham, filho de Billy Graham e arauto da direita religiosa americana, veio criticar a CT dizendo que o pai teria ficado desapontado com a posição da revista. Mas Franklin não tem moral para levantar a voz depois de usar dois pesos e duas medidas, ao dizer que o comportamento extramarital de Clinton tinha que ver com todo o mundo, enquanto sobre Trump afirmou que ninguém tinha nada a ver com os casos de traição conjugal a não ser a mulher… No entanto Jerushah Duford, neta de Billy e sobrinha de Franklin veio a público contestar quem quer que fale pelo avô. E deixa a pergunta que realmente importa: “As palavras e acções da vida de Billy Graham estão alinhadas com as do atual presidente?”

P.S. – Já depois de escrita esta crónica Trump ordenou o assassinato do general iraniano Soleimani, empurrando assim o mundo para uma nova guerra.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-01-09-trump-e-os-evangelicos/

Opinião: O labirinto do tempo por José Brissos-Lino

O labirinto do tempo

 
Há uma tendência geral para considerar a viragem para um novo ano como uma espécie de dobradiça da história. Por isso se formulam tantas intenções no início de cada unidade de tempo a que chamamos ano, mas que, regra geral, não resistem mais do que duas ou três semanas, no regresso às rotinas do costume.

Esta ideia é tipicamente ocidental e resulta de uma concepção linear do tempo e da história. Depois da revolução industrial os povos europeus pensavam que o progresso seria geométrico, dado o avanço da ciência e da técnica, mas bastaram meia dúzia de anos vividos no século vinte para que esse optimismo moderno batesse com a cara no chão, face à devastação provocada pela Grande Guerra, que dizimou milhões de vidas humanas. Começou logo aí a desilusão com a religião na Europa, dando lugar a regimes políticos extremistas, desilusão essa que foi agravada poucos anos mais tarde pela II Guerra Mundial, que deixou o continente destruído.

Já no Oriente o factor tempo é concebido de outra maneira, mais no sentido circular, talvez influenciado pelas ideias da reencarnação e do karma, formas civilizacionais diferentes para lidar com a questão do sofrimento e do sentido da vida.

A fé cristã compreende que para Deus o factor tempo é conceptualmente diferente do que é para os humanos. O nosso tempo é o chronos, medido por relógios e calendários, mas o tempo de Deus é o kayros: “Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (2 Pedro 3:8). Este conceito divino só se entende na perspectiva de que Deus é maior do que o tempo que Ele próprio criou.

A percepção do tempo altera-se em função de diversas variáveis. Por exemplo, a idade da pessoa. Para uma criança o tempo é vagaroso, custa a passar, porque ela quer crescer rapidamente, a menos que esteja numa festa, em actividades lúdicas como jogos de vídeo ou a fazer alguma outra coisa que lhe dê particular prazer. Já para uma pessoa de idade avançada o tempo parece que corre. Apesar de tudo Vergílio Ferreira diz que “O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou.”

Outra variável é a geografia. Nas regiões urbanas tem-se a sensação que o tempo foge, dada a correria do dia-a-dia, enquanto no meio rural parece passar mais devagar. Mas também a cultura pode fazer a diferença. Uma pessoa que tenha interesses culturais e a vida cheia tem a sensação de falta de tempo, enquanto os desocupados vivenciam a passagem dos dias como mais lenta e monótona.

Uma outra variável possível é o tipo de emprego que se tem. Um trabalho mecânico, repetitivo e sempre igual tende a fazer o trabalhador sentir que as horas custam mais a passar. Já no caso de tarefas que exijam criatividade, diversificação e imaginação tem-se a sensação de que o tempo passa mais depressa. Por tudo isto e muito mais a percepção do tempo varia muito de pessoa para pessoa e de situação para situação. Dante estava convencido que “O tempo passa e o homem não percebe.”

A viragem do ano é apenas uma marca de calendário e terá a importância que as pessoas lhe quiserem dar. É certo que organizamos a nossa vida pessoal e colectiva segundo determinadas unidades de tempo. Só assim podemos interagir com os outros em sociedade, caso contrário seria o caos. Quando marcamos uma reunião, sabemos que a hora definida é igual para todos.

Mas a vida humana concreta não se “arruma” em dias e horas. As unidades de tempo são uma convenção tornada norma social com vista a um funcionamento colectivo articulado. Há mais vida para além do relógio e do calendário. Em psicoterapia sabemos que os ritmos internos de cada pessoa diferem tanto das outras pessoas como do momento que cada um está a viver. Alguns resolvem as suas dissonâncias internas numa terapia breve, mas noutros o movimento terapêutico é mais longo e acidentado, acabando por demorar muito mais a concluir, porque cada indivíduo é único e irrepetível. Assim, o tempo parece ser uma espécie de labirinto onde cada um entra e faz um percurso distinto dos outros, até descobrir a saída.

A viragem do ano não é uma dobradiça da história, é apenas mais uma página que se passa no livro da nossa existência.

Talvez Mia Couto tenha razão quando diz: “Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga”. Ora então vamos lá a sonhar, até porque, segundo António Gedeão, “o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer”, e acima de tudo é o sonho que “comanda a vida”.

Assim, sonhemos desde já o novo ano de 2020.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2020-01-01-o-labirinto-do-tempo/

Opinião: Há qualquer coisa no Natal, por José Brissos-Lino

Há qualquer coisa no Natal

 
Mesmo abstraindo-nos das trocas de presentes, das reuniões de família na Consoada, e de mais algum folclore natalício, a verdade é que a quadra desperta um conjunto de sentimentos positivos nas pessoas em geral e sobretudo nas crianças

E Jesus, chamando um menino, o pôs no meio deles.
Evangelho de Mateus 18:2

Um dia Jesus chamou um menino e colocou-o no meio dos discípulos quando estes o questionavam sobre qual deles era o mais importante. Não se limitou a dizer: “se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mateus 18:3). Era necessário fazê-los parar e observar aquela criança. Eles sabiam o que eram crianças, mas a sociedade israelita não as valorizava devidamente.

No Antigo Israel primeiro contava o filho varão mais velho, o primogénito, depois os rapazes, em especial a partir dos treze anos, isto é, do rito de passagem judaico, que implicava uma espécie de exame com os doutores da lei. Jesus quis sinalizar que uma criança não era importante pelo seu sexo, nem por ser o primogénito, nem pelo lugar que a tradição lhe atribuía, nem sequer pelos seus conhecimentos da lei de Moisés e da fé judaica, mas que era importante em si mesma apenas porque era um ser humano, embora ainda criança.

O acto simbólico de colocar aquele menino no meio deles, na posição do mais importante, respondia com eloquência aos sinais de vaidade e ambição daqueles homens imaturos: “E Jesus, chamando um menino, o pôs no meio deles” (Mateus 18:2). A partir daqui o olhar dos israelitas sobre a infância teria que ser diferente. Afinal Jesus de Nazaré veio a este mundo como criança recém-nascida. Podia ter descido à terra já homem feito, numa espécie de disco voador ou de forma sobrenatural no alto de um monte, saído de uma nuvem. Recordemo-nos que, de acordo com os relatos dos evangelistas, se transfigurou numa ocasião diante de Pedro, Tiago e João e escapou-se à multidão em diversas ocasiões, iludindo os olhos dos que o queriam matar, porque ainda não havia chegado a sua hora.

Mas não, Deus quis mesmo honrar e chamar a atenção para as crianças e igualmente para a maternidade, fazendo-se nascer do ventre duma mulher comum, escolhida para o efeito pelos altos desígnios da misericórdia divina. O Deus Criador do universo reduziu-se assim voluntariamente à condição humana para chegar aos homens e viver na pele as suas alegrias e angústias, como nos diz S. Paulo: “Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (Filipenses 2:6-8). Segundo o escritor da Carta aos Hebreus só desse modo Jesus se poderia apresentar no papel de sumo-sacerdote da raça humana que compreende as nossas fraquezas (4:15).

No fundo, ao chamar as atenções para aquele menino, talvez Jesus de Nazaré quisesse sublinhar o que Salomão tinha escrito nos seus livros de sabedoria muitos séculos antes: “Melhor é a criança pobre e sábia do que o rei velho e insensato, que não se deixa mais admoestar” (Eclesiastes 4:13).

De facto, o Natal interpela-nos por causa de uma criança, o Menino. Talvez o mais fundamental do encanto desta quadra parta daí. É que uma criança recém-nascida e em situação precária remete para o mistério da vida, para a fragilidade da existência humana e constitui um testemunho de beleza inexplicável. Permite puxar pelo melhor das pessoas na resposta às necessidades de cuidar daquele ser indefeso e descentrarmo-nos de nós mesmos, pensando primeiro no cuidado pelo outro que está vulnerável perante o mundo e a vida.

Talvez até este Menino seja afinal uma revisitação dum certo menino hebreu chamado Moisés, no reino dum faraó sanguinário que provocou o genocídio selectivo dos meninos descendentes de Jacob nas terras de Gosen, de acordo com o relato da Torah. Ter-se-á salvo da morte anunciada escondido entre os juncos das margens do Nilo, por um golpe de sorte, para uns, e pela providência divina para outros. Também este viria a tornar-se uma figura incontornável da história bíblica.

Afinal, sempre que nasce uma criança há natal. É uma esperança que chega, um desafio que surge, uma responsabilidade que emerge.

De facto não devemos desvalorizar os sentimentos positivos que esta quadra especial desperta nas crianças, porque não se devem desprezar os sentimentos das crianças em coisa nenhuma. Elas é que sabem. Pela minha parte, desejo um grande Natal a todos, incluindo as crianças.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2019-12-24-ha-qualquer-coisa-no-natal/

Opinião: Beckett e o Advento por José Brissos-Lino

Beckett e o Advento

O que é que o dramaturgo Samuel Beckett tem que ver com o Advento? Talvez nada. Ou talvez tudo. Depende de quem ou do que estamos à espera.

Na sua famosa peça de teatro “À espera de Godot”, escrita no pós-guerra, o irlandês Samuel Beckett (1906-1989), que integrava a corrente conhecida como teatro do Absurdo, apresenta uma humanidade sem rumo e sem condições para compreender a sua própria existência, despojado de um sentido. O dramaturgo, de família burguesa e protestante, revisita a condição humana numa perspectiva filosófica e num ambiente onde o tempo não se faz presente face à decrepitude física dos corpos e à degeneração físico-fisiológica. Ninguém como ele caracterizou a desilusão e o fracasso da humanidade naqueles dias de uma Europa completamente destruída.

Lembrei-me desta peça a propósito do Advento. Estranho? Não, porque Advento significa vinda ou chegada. O termo é latino (adventum) e também pode significar fundação ou criação de alguma coisa. Na fé cristã aplica-se às quatro semanas que antecedem o Natal, um período litúrgico evocativo da vinda de Jesus Cristo ao mundo há dois mil anos, em Belém da Judeia. É, portanto, um tempo de alegria para os cristãos, caracterizado pela preparação para as comemorações do nascimento de Cristo.

O evangelho de Lucas relata que um anjo apareceu a Maria numa visão, anunciando-lhe que em breve daria à luz um menino, o filho de Deus, que traria uma mensagem ao mundo e que seria a luz dos homens: “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (João 1:4) e luz para as nações: “Luz para iluminar as nações” (Lucas 2:32), na linha do profeta Isaías: “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” (Isaías 9:2). Esse tempo de espera é caracterizado hoje como advento.

Nunca se chega a saber quem é o tal Godot de Beckett nem sequer se existe, pois nunca chega, o que leva as duas personagens que supostamente o aguardam, os velhos vagabundos Vladimir e Estragon, a compensar a sua expectativa através de conversa vazia e sem sentido, discussões intermináveis e perguntas recorrentes que resultam em frustração crescente, por não permitirem respostas objectivas, de modo a tentar combater o tédio e preencher o vazio da existência, em dias sempre vazios e iguais. O autor faz-nos entender que esta liturgia dos dois que esperam até à exaustão e que os faz preencher o tempo é, afinal, o único sentido das suas vidas.

Ao contrário do que é habitual em teatro, “À espera de Godot”, não conta uma estória, não tem enredo, limitando-se apenas a focar uma situação estática num lugar desértico, desprovido de cor, onde apenas subsiste uma árvore e tendo como pano de fundo a luz que antecede o crepúsculo. Toda a atmosfera é de vacuidade e monotonia. Segundo alguma crítica a intenção do dramaturgo não será mostrar o absurdo da existência do ponto de vista da interacção social, mas mais concretamente a perplexidade do encontro do ser humano consigo mesmo.

É aqui que o contraste é mais flagrante. O Advento representa o encontro do Homem com Deus através de Jesus Cristo: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1 Timóteo 2:5). É a partir desse encontro que o ser humano descobre um sentido existencial e se encontra consigo mesmo e com os outros.

A alegria desse encontro contrasta com a atmosfera de frustração da dupla dos “esperadores” patéticos de Beckett, que não sabem quem esperam, nem se o esperado Godot sempre chega ou não. Por isso o ambiente dos homens e mulheres de fé que celebram o Advento é tão contrastante com o das personagens desta peça.

Como escreveu J.T.Parreira: “A ausência de Godot, bem como numerosos outros aspectos da peça, deram origem a várias interpretações desde o dia da estreia teatral, ocorrida em Paris, em 1953.” Daí que, interrogado sobre o significado da peça, Beckett tenha afirmado: “Não posso explicar as minhas obras. Cada um deve averiguar por si próprio o que entende nelas.”

Alguns deduziram que Godot simbolizaria um Deus ausente em tempo de devastação e desesperança, mas, como diz Parreira: “Não temos forçosamente que ler Godot como sendo Deus, mas que esta peça não é ateísta, não é. Até porque um dia Beckett, entrevistado, disse, cito de cor: ‘Se quisesse falar de Deus na peça, ter-lhe-ia chamado “Waiting for God”, ou “En attenddan God”.

Diz o ditado que quem espera desespera. Mas quem espera em fé nunca desespera. E aproveita esse tempo para preparar a alma a fim de receber Aquele que está para vir. Por isso o tempo litúrgico do Advento é tempo de purificação e não de resmungar.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2019-12-18-beckett-e-o-advento/

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