Opinião: Bolsonaro cristão, Bolsonaro pagão, por José Brissos-Lino

Bolsonaro cristão, Bolsonaro pagão

MAURO PIMENTEL/ Getty Images

Há quem defenda que o governo de Bolsonaro, apesar de se afirmar cristão, em boa parte, inscreve-se todos os dias em campo oposto à respectiva ética. As comparações com a personagem Donald Trump são inevitáveis

A plataforma política que levou Bolsonaro ao Palácio do Planalto incluiu um vasto suporte entre evangélicos em geral e neopentecostais em particular, com promessas de proteger e apoiar a causa religiosa.

Joel Pinheiro da Fonseca diz na revista Exame: “Em toda oportunidade que tem, diz que embora o Estado seja laico, ele próprio é cristão. Seu lema de campanha incluía Deus. Ele já fez menção de que a religião evangélica será um critério para sua indicação de ministro no Supremo Tribunal Federal. Fez questão de participar da Marcha para Jesus no mês passado. Contudo, quando olhamos para suas propostas e valores, a impressão é bem diferente.

Sabemos que a sua vitória eleitoral ocorreu na sequência de um fenómeno de rejeição por parte do eleitorado dos actores políticos em geral e do Partido dos Trabalhadores (PT) em particular, devido à extrema corrupção, aos altos níveis de violência e à imposição duma agenda de temas fracturantes. Foi isso que levou ao poder um velho deputado como Bolsonaro, sem qualquer currículo parlamentar ou cívico, a não ser protagonizar as ideias da direita a roçar o extremo político.

De facto, bastam alguns indicadores para entender rapidamente que o seu discurso religioso não confere com a acção política. Se a fé cristã prega o perdão dos pecados e a redenção dos homens, Bolsonaro propõe e exalta a execução dos criminosos. Se o evangelho proclama a dignidade da pessoa humana, Bolsonaro defende publicamente a tortura e a execução sumária. Se o cristianismo prega uma mensagem universal e a missionação, Bolsonaro coloca-se como inimigo dos indígenas e procura submetê-los aos interesses da expansão agrária. Se Jesus frisou o cuidado pelos pobres, o governo de Bolsonaro não parece interessado nas políticas sociais. Se o cristianismo fala de paz, Bolsonaro propõe a difusão das armas.

Mas da parte das lideranças cristãs o panorama não é melhor. Recentemente uma vintena de deputados da Frente Parlamentar Evangélica votou favoravelmente a reforma da Previdência, que obriga os trabalhadores brasileiros a trabalhar mais para se aposentar, mas não foram capazes de prescindir das suas próprias mordomias nessa matéria. Ou seja, aprovaram uma lei punitiva para a população em geral mas puseram-se de fora, conservando os privilégios de que tinham em mãos. Já não bastava que parte dos deputados evangélicos tenham sido considerados dos mais corruptos nos tempos do famigerado Mensalão…

Outro exemplo. O pastor Marco Feliciano, chegou-se rapidamente à frente para afirmar publicamente que gostaria de concorrer à vice-presidência do Brasil ao lado de Bolsonaro, em 2022, manifestando assim a sua indisfarçável e desmedida ambição política. Agora se compreende melhor a campanha suja que vem fazendo contra o actual vice, o general Mourão. Aliás, os líderes neopentecostais têm vindo a manifestar ao longo das últimas décadas uma preocupante sede de poder. Apoiaram abertamente candidatos e presidentes de quadrantes políticos tão diferentes como Lula, Dilma, Temer e agora Bolsonaro. No fundo eles não apoiam pessoas, políticas, programas ou ideologias. São apenas atraídos pelo poder como as traças pela luz.

Mas a cereja em cima do bolo será talvez a decisão já anunciada publicamente por Jair Bolsonaro de designar o seu filho Eduardo para o cargo de embaixador do país nos EUA. E a justificação para este acto de puro nepotismo é hilariante: “(Eduardo) é amigo dos filhos do Donald Trump, fala inglês e espanhol, tem uma vivência muito grande do mundo”, pelo que “poderia ser uma pessoa adequada e daria conta do recado perfeitamente”.

A personagem tem procurado capitalizar o apoio dos evangélicos mas não revela qualquer identificação séria com a ética cristã, nem sequer na aparência. Calcula-se que produza em média uma afirmação falsa ou distorcida por dia. Alguém lembrou, a propósito, as palavras de Jesus de Nazaré: “Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mateus 7:21). Já S. Paulo advertia o jovem Timóteo sobre aqueles que, tendo aparência de piedade, todavia negavam a eficácia dela. E concluía: “Destes afasta-te” (2 Timóteo 3:5).

Ao contrário de qualquer político experiente, Bolsonaro, uma vez eleito, não se posicionou como presidente de todos os brasileiros. Pelo contrário, continuou a cavar o fosso entre direita e esquerda. Assiste-se assim ao extremar de posições e ao desaparecimento do centro político. Se alguém critica Bolsonaro é taxado de comunista ou, no mínimo, de lulista e recomenda-se que vá para Cuba ou Venezuela. Se apoia o presidente é apelidado de fascista.

Assim é difícil construir qualquer coisa.

“Para os judeus sefarditas, a terra prometida nunca foi Israel. É Portugal e Espanha” por Catarina Maldonado Vasconcelos

“Para os judeus sefarditas, a terra prometida nunca foi Israel. É Portugal e Espanha”

Da passagem medieval por Castelo de Vide à sinagoga do Porto criada no século XX. Do imaginário literário à materialidade da saudade. A TSF seguiu a rota da memória sefardita por Portugal e nela encontrou a terra prometida.

Michael Rothwell leva o livro sagrado até à linha dos olhos e abre-o com reverência, diante de uma sinagoga calada, a 25 Sivan do ano hebraico de 5779. O calendário civil marca 28 de junho de 2019, uma sexta-feira, e faltam poucas horas para o pôr-do-sol que inicia o sabat, e que apenas se extingue, de acordo com o Génesis, ao aparecimento das primeiras três estrelas da noite de sábado.

O templo está esvaziado da união de 10 homens de mais de 13 anos necessária ao serviço religioso, mas guarda a luz, sempre acesa, dirigida para Jerusalém. Para os judeus, a sinagoga tem de se orientar, como a própria ação o indica, para Oriente, onde o templo verdadeiro existiu em tempos.

“Escuta, Israel, o eterno é nosso Deus, o eterno é um. Bendito seja o nome daquele cujo glorioso reino é eterno. Amarás ao eterno, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas posses.” As palavras são lidas da Tora, onde o hebraico e o português convivem como secularmente se falaram, sem empecilhos. A sinagoga portuense, Kadoorie – Mekor Haim (“Fonte de Vida”), a maior da Península Ibérica, reverbera as palavras de culto contra as paredes de azulejos com inspirações marroquinas, a favor da estrela de David.

Opinião: Estarão os árabes a virar as costas à religião?por José Brissos-Lino

 

Estarão os árabes a virar as costas à religião?

Andrea Ricordi/ Getty Images

O senso comum no Ocidente é que a religião é inamovível no mundo árabe por ser entranhadamente cultural. Mas há notórios sinais de refluxo

Segundo um estudo realizado no Médio Oriente e Norte de África pela Araba Barometer (rede de investigação baseada na Universidade de Princeton) e citado pela BBC, os árabes estão a afirmar-se cada vez mais como não-religiosos. Estarão mesmo os árabes a virar as costas à religião? A investigação – que não incluiu os estados árabes do Golfo, por recusarem o acesso aos investigadores – avaliou onze países, concluindo que o abandono da identificação religiosa é mais acentuado no Norte de África, em especial na Tunísia, Líbia e Marrocos. Devido à guerra não foi possível desenvolver a recolha de dados na Síria.

No curto período de cinco anos, e por contraste com os dados recolhidos em 2013, o abandono da identificação religiosa mais do que duplicou na Tunísia, Líbia e Argélia (Tunísia: de 15% para mais de 30%; Líbia: de pouco mais de 10% para cerca de 25%; Argélia: de 7% para 15%). Embora com variações mais baixas, Marrocos e Egipto também seguiram a tendência de duplicação da percentagem de descrença. A excepção é o Iémen, que contrariou a tendência ao ver aumentar a filiação religiosa no mesmo período. Já no Líbano, Iraque e territórios palestinianos a variação é insignificante.

O objectivo desta investigação era consultar as populações árabes relativamente a uma ampla gama de questões como filiação religiosa, condição feminina, migrações, segurança e sexualidade. A população consultada foi na ordem dos 25.000 indivíduos em 10 países e territórios palestinianos entre finais de 2018 e a Primavera deste ano. Os dados recolhidos mostraram que desde 2013, o número de pessoas em toda a região que se identificam como “não religiosas” subiu de 8% para 13%, sendo predominante nos menores de 30 anos.

Quanto ao direito das mulheres na vida pública, a maioria dos inquiridos declarou apoiar a eventualidade de uma mulher se tornar primeira-ministra ou presidente, à excepção da Argélia, onde menos de metade aceitou a ideia. Já quanto à relação familiar a maioria – incluindo as mulheres – atribui aos maridos a palavra final nas decisões, excepto em Marrocos.

A metodologia utilizada incluiu entrevistas de 45 minutos, em grande parte baseadas em tablets, conduzidas por investigadores a indivíduos em espaços privados.

A inevitável ocidentalização das sociedades árabes pela mão dos fluxos migratórios, da globalização e da universalização dos meios de comunicação social, sem esquecer a internet e as redes sociais, terão dado certamente o seu contributo para a presente tendência caracterizada por um pendor mais secular e laico. Por outro lado, a demografia nestes países resulta em quadros populacionais de idades mais baixas, dados os níveis de natalidade, e os jovens manifestam sempre abertura ao novo, apelo pela aventura e atracção pelo desconhecido, sendo menos fiéis à transmissão dos costumes e tradições pelas gerações anteriores.

O nível de vida na Europa e Estados Unidos é muito mais apelativo, a oferta cultural diversificada, assim como os altos níveis de conforto quando comparados com tais sociedades, bem como as possibilidades do lazer. O facto é que aumentou o número de pessoas que partem para os Estados Unidos e, embora a Europa seja menos popular do que era, continua a ser a melhor escolha para as pessoas que pensam deixar a região. Em todos os países e territórios do estudo se concluiu que pelo menos uma em cada cinco pessoas pensava emigrar, essencialmente por razões económicas, mas no Sudão esse desejo representa metade da população. A propaganda oficial contra Israel, a América e o Ocidente em geral, em boa parte desses países e territórios, não consegue anular a atracção que tais destinos exercem na juventude.

Apesar de tudo ainda se conservam laivos de mentalidade medieval em parte da população, em particular em sete destes países onde o conceito de homicídio de honra, isto é, matar alguém por supostamente ter desonrado a família, é considerado mais aceitável do que a homossexualidade.

Embora se tenha acabado por revelar quase um fiasco político, a verdade é que a chamada “primavera árabe” funcionou como uma janela de esperança para as camadas mais jovens, que assumiram serem possíveis outros amanhãs nunca antes por eles experimentados. Sobretudo terão integrado que existe uma outra forma de organização social que dispensa os rígidos ditames religiosos impostos às populações, remetendo assim a religião para o domínio das escolhas e opções individuais.

Veja mais em:

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-07-17-Estarao-os-arabes-a-virar-as-costas-a-religiao-

O “caminho de Abraão” como contributo para a paz entre judeus, cristãos e muçulmanos

O “caminho de Abraão” como contributo para a paz entre judeus, cristãos e muçulmanos

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O aluno Francisco de Moura prestou hoje provas públicas na Universidade Lusófona (ULHT), com vista à obtenção do título de Mestre em Ciência das Religiões, com a defesa da relatório “O caminho de Abraão’ como contributo para a paz entre judeus, cristãos e muçulmanos”.

O trabalho constava de uma proposta de percurso, em matéria de turismo religioso, intimamentye associado a toda uma vida profissional na área turística, com incidência no Médio Oriente, e tinha por objectivo promover a aproximação entre os crentes das religiões abraâmicas.

O júri foi constituído pelos Profs. Doutores João de Almeida Santos (presidente), José Fialho Feliciano e Mafalda Patuleia (arguentes) e José Brissos-Lino (orientador), sendo a classificação final de Muito Bom.

Presidente da República recebe obra sobre Pessoa e o Islão por Fabrizio Boscaglia

O Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, recebeu a 11 de julho de 2019 a obra «A presença árabe-islâmica em Fernando Pessoa», pelas mãos do seu autor Fabrizio Boscaglia, coordenador da Linha de Investigação Herança e Espiritualidade Islâmica na Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

Aconteceu no contexto da visita do Presidente à International School of Palmela, Fundação Islâmica de Palmela, um dos mais importantes parceiros da Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

A Área de Ciência das Religiões saúda estes acontecimentos como eventos importantes para o conhecimento, o diálogo e a cidadania, e renova o seu empenho no sentido de ser cada vez mais um agente estratégico nestas vertentes da cultura e da sociedade.

Mística e Filosofia Islâmica – Curso livre (18-19 jul.)

MÍSTICA E FILOSOFIA ISLÂMICA

Curso Livre

18 e 19 de julho de 2019

Horário pós-laboral (18h30 – 20h30)

Livraria-Galeria Municipal Verney – Oeiras (R. Cândido dos Reis 90, 2780-228 Oeiras)

Docentes:

Fabrizio Boscaglia (Universidade Lusófona)

Pilar Garrido (Universidade de Múrcia)

Programa:

1) Introdução à Mística e à Filosofia Islâmicas (docente: Fabrizio Boscaglia)

2) Sufismo e Literatura Mística no al-Andalus (docente: Pilar Garrido)

Sinopse:

Este curso introduz alguns dos principais temas e autores da mística e da filosofia islâmica, nomeadamente focando no chamado Sufismo – ou misticismo e esoterismo islâmico -, assim como nas vertentes ibérico-andaluz da espiritualidade islâmica medieval. Serão abordadas importantes questões e figuras nesta área, como: a gnose, a iniciação e o caminho do amor no contexto do Sufismo; os grandes místicos sufis como Rumi, Ibn Arabi e as escolas místicas do al-Andalus; a teologia de al-Gazali e as polémicas entre teólogos e filósofos da Pérsia e do al-Andalus. Cada aula será dada por um especialista académico e trará ao debate temas de grande interesse cultural e de indiscutível atualidade.

Valor da inscrição:

25 euros

Inscrições e info:

Livraria-Galeria Municipal Verney . tel. 214 408 329
maria.rijo@cm-oeiras.pt

Organização:

Linha de Investigação Herança e Espiritualidade Islâmica (Área de Ciência das Religiões, ULHT)

CM Oeiras

Opinião: Ainda há alemães com memória, graças a Deus, por José Brissos-Lino

Ainda há alemães com memória, graças a Deus

 

Getty Images

Este ano a Alemanha protestante vetou a participação de populistas de direita no Dia da Igreja Protestante Alemã. Convém não perder a memória

A celebração costuma durar uma semana e reúne habitualmente líderes espirituais destacados, nacionais e estrangeiros, como políticos, intelectuais, filantropos e estrelas pop, de modo a que os eventos sejam socialmente relevantes. Em anos anteriores estes encontros ficaram marcados por pedidos expressos de algumas mudanças políticas e sociais. No ano 2000 a convenção pressionou o governo a eliminar a dívida de países pobres, e em 2017 o ex-presidente Barack Obama participou nos trabalhos.

Os encontros têm uma componente política, que inclui centenas de fóruns nos quais são debatidas questões relevantes, mas também concertos de música gospel e prática de desportos. Este 37.º Encontro da Igreja Protestante Alemã (Deutsche Evangelische Kirchentag), juntou mais de cem mil visitantes em Dortmund e na região do Ruhr sob o lema “Confiança” e a classe política foi convidada a participar nas discussões, incluindo membros do governo federal, mas sempre a título pessoal. A própria chanceler Angela Merkel é filha de um pastor luterano da antiga Alemanha de Leste. Porém, os populistas do Alternativa para a Alemanha (AfD) não foram convidados, apesar de constituírem hoje a terceira maior força do Bundestag, porque a reunião deste ano tinha como objectivo debater a solidariedade nacional e internacional, as mudanças climáticas, o nacionalismo, o racismo e a xenofobia. Contentar-se-ão em apresentar um pequeno stand do partido no centro da cidade.

Um dos promotores adiantou: “Teremos que deixar claro de novo e de novo que esse é um caminho errado. Precisamos de confiança para podermos viver juntos na Europa – na verdade, em todo este planeta – em vez de nos isolarmos, caso contrário a humanidade não sobreviverá”. Como afirmou Hans Leyendecker, presidente do evento: “Há muitas coisas que são como o ácido, que devoram lentamente a nossa confiança e minam a coesão social”.

Este grande evento bianual iniciado em 1949 foi criado por Reinold von Thadden-Trieglaff, membro da Igreja Confessante (Bekennende Kirche) que resistiu ao regime nazi e presidiu ao mesmo até 1964. Talvez o maior nome da Igreja Confessante seja o teólogo e pastor luterano Dietrich Bonhoeffer, um dos seus fundadores, que pagou com a vida a temeridade de regressar a Berlim em pleno ocaso do regime nazi apenas por querer servir o seu país, então dirigido por um louco. Foi preso, internado num campo de concentração e enforcado poucos dias antes da libertação.

Recorde-se que em 1933 o regime nazi forçou as Igrejas a entrarem para a Igreja Protestante do Reich e apoiar a ideologia nazi. Em Setembro desse mesmo ano foi criada na clandestinidade a Igreja Confessante, pelos que não suportavam a loucura hitleriana nem o subjacente racismo ideológico. Em 1934 estruturou-se, a partir duma Declaração Teológica escrita essencialmente por Karl Barth e ratificada no Sínodo de Barmen. Martin Niemoller assumiu a liderança do movimento, tendo sido preso, julgado e enviado para um campo de concentração, tal como muitos outros pastores protestantes, além do confisco dos bens do movimento.

Boa parte dos luteranos alemães apoiou o nazismo. O forte Movimento Cristão Alemão (Deutsche Christen) estabeleceu por alvo articular a fé cristã com o nacional-socialismo, criando assim um nacional-socialismo protestante, ao considerar Hitler um complemento da Reforma, excomungar os judeus baptizados e excluir o Antigo Testamento das Escrituras.

Na recente sessão de abertura do novo Parlamento Europeu em Estrasburgo os ingleses do Partido do Brexit assumiram exactamente a mesma atitude dos acólitos de Hitler, os deputados do partido nacional-socialista no Reichtag em Berlim, neste caso virando as costas durante a execução instrumental do hino da União Europeia. Uma atitude que diz tudo sobre os companheiros de Nigel Farage e o populismo de direita que se transformou em moda política nos últimos tempos. Dir-me-ão que se trata duma comparação forçada. Bem sei que se trata de situações diferentes, mas o que se regista é a mesmíssima atitude de desprezo pela função parlamentar, a qual, em regime de eleições livres, é sempre uma garantia de convivência e prática democrática e um travão às ditaduras de pensamento único.

Ainda no ano passado o dirigente da extrema-direita alemã (AfD) Alexander Gaulanda, comparou o nazismo a um “excremento de pássaro” num milénio alemão glorioso, desvalorizando assim com leviandade os horrores provocados por aquele estado totalitário fascista na história europeia, que chegou a matar 15 mil judeus por dia. Tal embuste foi prontamente condenado pelo presidente da Alemanha. Convém, portanto, que a Igreja da Alemanha não esqueça o seu passado religioso e político. Afinal, ainda nem passaram noventa anos sobre o grande desvario.

 

Veja mais: http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-07-10-Ainda-ha-alemaes-com-memoria-gracas-a-Deus

A Área de Ciência das Religiões esteve presente no maior encontro de investigadores do país

A Área de Ciência das Religiões esteve presente no maior encontro de investigadores do país

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Hoje foi apresentado no “Ciência’19”, o maior encontro de investigadores de ciência e tecnologia do país, a decorrer no Centro de Congressos de Lisboa,  um projecto de investigação da Ciência das Religiões, através do nosso centro de investigação CICPRIS (Centro de Investigação em Ciência Política, Relações Internacionais e Segurança).

O projecto denomina-se “Barómetro da percepção religiosa entre jovens universitários de países da CPLP”. Trata-se dum projecto internacional de carácter luso-afro-brasileiro a desenvolver em países da CPLP, numa parceria com instituições académicas dos respectivos países.

A apresentação esteve a cargo do Prof. José Brissos-Lino numa das sessões.

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Fonte: https://iccontemporaneo.wordpress.com/2019/07/09/a-area-de-ciencia-das-religioes-esteve-presente-no-maior-encontro-de-investigadores-do-pais/

ICC celebrou protocolo de cooperação com a organização “Militares Evangélicos de Portugal”

ICC celebrou protocolo de cooperação com a organização “Militares Evangélicos de Portugal”

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Mesa de abertura dos trabalhos, com o Prof. José Brissos-Lino (ICC), Dr. António Calaim (AEP), Drª. Carla Rotes (JFB), Prof. Paulo Mendes Pinto (ULHT) e Coronel Fernando Freire (MEP).

Realizou-se no passado dia 3 de Julho, no Palácio Baldaya, em Lisboa, o II Seminário Polícia-Igreja-Comunidade sob o tema “Unidos para uma Sociedade mais equilibrada”, com o apoio da Aliança Evangélica Portuguesa, da Junta de Freguesia de Benfica e da Universidade Lusófona.

O evento contou com a presença de elementos das forças militares e de segurança, nacionais e estrangeiras, lideranças religiosas, académicos, escolas e entidades de intervenção social, mas também membros da comunidade em geral, tendo sido organizado pelos Militares Evangélicos de Portugal (MEP), uma associação com personalidade jurídica e religiosa, membro da Aliança Evangélica Portuguesa e da Association of Military Christian Fellowship (AMCF) e pelo Instituto de Cristianismo Contemporâneo, que integra a Área de Ciência das Religiões da ULHT.

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Momento da assinatura do protocolo.

No final da sessão de abertura procedeu-se à assinatura de protocolo de cooperação entre o ICC e o MEP, o qual prevê não só a continuação da organização de eventos de diversa natureza, como ainda futuras acções de formação e editoriais.

Reflectiu-se sobre os sinais de desumanidade presentes na sociedade e o impacto provocado sobre a vida concreta dos cidadãos, assumindo-se que a Igreja e a Comunidade podem contribuir com intervenções positivas, tanto no sentido de prevenir e combater a violência, como de ajudar os sujeitos privados de liberdade a mudar de rumo na vida, com vista a um processo eficaz de reintegração social.

O I Seminário foi realizado em Setembro de 2018, na Universidade Lusófona, tendo suscitado muito interesse e registado uma participação assinalável.

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Reportagem sobre a Lisboa islâmica na RTP2, em conversa a partir das peças da exposição «Convivência(s). Lisboa Plural. 1147-1910»

Reportagem sobre a Lisboa islâmica na RTP2, em conversa a partir das peças da exposição «Convivência(s). Lisboa Plural. 1147-1910», patente no Museu de Lisboa. O nosso professor Fabrizio Boscaglia dialoga, aqui, com Ana Paula Antunes, uma das curadoras da exposição (o outro curador sendo Paulo Almeida Fernandes).

Veja o Programa aqui

«O Estudo da Ioga Clássica Através das Ciências da Religião» por Paulo Hayes

Este texto é uma reflexão sobre o estudo da ioga na sua relação com as ciências do religioso e do espiritual.

Começo por problematizar terminações linguísticas aplicadas ao conjunto das práticas – ioga, ióga, yoga, yôga – e se essas práticas constituem ou não alteridade no contexto das sociedades contemporâneas. Inclui-se, de seguida, um curto questionamento sobre o contributo das ciências da religião no estudo moderno do darśana ioga, uma vez que o sistema Patañjaliano é uma cosmovisão teísta que se afirmou em território indiano, provavelmente a partir do século IV da era comum. Termino com alguns tópicos sobre o ensino da ioga em contexto universitário, nas suas dimensões técnica e académica.

A minha posição enquadra-se em três diferentes papéis ou funções: o de observador das realidades da ioga, o de praticante da ioga há trinta anos, e o de aprendiz ao longo de uma vida.

Para alguns indivíduos da comunidade ióguica portuguesa existe a convicção de que a transliteração da palavra योग em devanagárico para a sua correspondente romanizada iog, ioga, ióga, yoga, yôga, por via da aplicação das regras internacionais de transliteração IAST, implicaria uma modificação das práticas uma vez que a terminologia adotada pareceria diferente da fonética original. Sucede, no entanto, que o último (des)acordo ortográfico da língua portuguesa, concordemos ou não, modifica o estrangeirismo yoga para a ioga, no feminino. Acresce que quando nos referimos à ioga moderna significa apenas que vivemos num tempo moderno, ou talvez pós-moderno, e que existem práticas da ioga que são ensinadas nas sociedades contemporâneas. De qualquer forma, é comum encontrarmos em textos contemporâneos a utilização das mais variadas terminologias e interpretações.

“É frequente escrever-se yoga, yôga, ioga ou ióga , e a palavra tanto representa um conjunto de práticas como o resultado final das mesmas”

Diferente é a questão de sabermos se as práticas da ioga das sociedades contemporâneas são as mesmas que existiam nas sociedades antigas. Isto é semelhante a indagarmos sobre se o Cristianismo ou o Budismo ou o Hinduísmo, por exemplo, são monólitos inalteráveis ao longo dos milénios ou se também se transformaram e aquilo que hoje temos é ou não igual ao praticado pelos seus fundadores. Acresce que termos como ‘neo-hinduísmo’ e ‘neo-vedanta’ são frequentemente utilizados por académicos europeus, mas não é comum utilizarem-se os termos ‘neo-cristianismo’ ou ‘neo-judaísmo’, o que pode sustentar a tese de alguns de que o processo de descolonização da academia ainda não está concluído.

Por outro lado, essa comparação entre práticas da ioga moderna e da ioga ancestral seria possível se conhecêssemos bem, através da filologia, da arqueologia, da antropologia, da história e de outras ciências, o pensamento e a cultura subjacente dos modos antigos e modernos de vida que pretendemos comparar. Existe a possibilidade de muitos de nós utilizarmos um juízo apriorístico eurocentrado ou etnocêntrico, lançado nas culturas orientais, uma vez que há indícios de que não se reúnem nem ferramentas linguísticas nem bagagem cultural necessária para essa comparação e, consequentemente, ignorámos a realidade dos povos antigos e as suas práticas espirituais. A comparação entre realidades distintas pode não ser exequível para alguém que utilize as ferramentas da reflexividade e da ética para interrogar o Outro, sem lhe projetar ideologias culturais eurocentradas.

“O processo de descolonização pode não estar concluído e muitos indivíduos ainda funcionam com grelhas mentais culturalmente eurocentradas”

A maneira como praticamos posturas, a forma como estas são hoje ensinadas nos estúdios da ioga pelo mundo inteiro, jamais foi proveniente na Índia antiga (DE MICHELIS, 2004; SINGLETON, 2010), pelo que se torna irrelevante e estéril discutirmos se passamos a designar o conjunto das práticas por ioga, ióga, yoga ou yôga, quando as aulas incidem maioritariamente no ensino postural e as disciplinas da ioga interna – dhāraṇā, dhyāna e samādhi – foram excluídas do ensino. Os artefactos linguísticos são insuficientes para designarem as variadíssimas tipologias da ioga e, na maioria das vezes, ao invés de servirem o objetivo da ioga, a União, acabam por insuflar os egos dos praticantes através de discussões intermináveis.

Se estudarmos as metamorfoses e sincretismos ocorridos na ioga moderna, após a sua entrada no Ocidente durante a vida de Swami Vivekananda, constatamos que a ioga na maior parte dos casos se edificou nas práticas essencialmente físicas com propósitos terapêuticos e foram descartados os valores éticos e espirituais, bem como foi descontextualizada a cultura original. Sobrou um produto híbrido, talvez tão poluído como o mundo que o sustenta.

A palavra religião é proveniente do latim e pode significar “religare” – juntar ou unir – ou “re-legere” – recolher ou ler de novo. O seu significado foi metamorfoseado ao longo dos séculos, entre os Romanos e os Cristãos, e o interesse em estudar a religião surge apenas com o mundo moderno ocidental (JENSEN, 2014: 13-14) e nunca no Oriente.

As ciências da religião são um conjunto de disciplinas que evidenciam diferentes saberes e olhares dirigidos às culturas religiosas e às culturas espirituais. Se é verdade que no sânscrito não existe uma palavra que signifique religião, não é inverdade o facto de pensadores ocidentais terem concebido o termo religião, com a pretensão de aplicabilidade universal que de facto não é exequível por causa da polissemia e dificuldade concetual daquilo que entendemos como religião. Se o século XIX foi o período dos ‘ismos’, a secularização e a New Age, o desencantamento do mundo e o posterior reencantamento, entre outras metamorfoses socioculturais, permitiram que a presente conotação atribuída à palavra espiritualidade, entre os praticantes da ioga moderna, se afastasse dos significados religiosos, o que a bem dizer constitui apenas meia verdade e nos remeteria para outros estudos mais específicos além desta curta reflexão.

Das ciências da religião fazem parte a história das religiões, a antropologia das religiões, a psicologia das religiões, a filosofia das religiões, a sociologia das religiões, o direito das religiões, entre outras ciências, que se ocupam do estudo das religiões e das espiritualidades.

Embora na opinião das praticantes portugueses a ioga não seja religião, foi considerada uma filosofia espiritual com dimensão terapêutica. Estes resultados foram aferidos na minha dissertação de mestrado, através de questionário online tipo bola-de-neve no ano de 2018. Sucede, no entanto, que as palavras “religioso, espiritual, e secular não se excluem mutuamente, mas pelo contrário estão relacionadas, misturadas, e conectadas, especialmente quando utilizadas para descrever yoga” (PINGATORE, 2015: iii). Acresce que descrições como “Filosofia de vida” e “Espiritualidade” são diferentes representações da mesma cosmovisão, no que respeita ao caminho espiritual adotado pelos indivíduos praticantes regulares de técnicas físicas e mentais da ioga (HENRICHSEN-SCHREMBS, 2008: 139). Por outro lado, existe uma interconexão subjacente entre terapia, espiritualidade da ioga clássica e religiosidade (FIELDS, 2001: 83-138).

A ioga clássica é uma cosmovisão teísta em que Īśvara é o primeiro dos espíritos ou consciências. Não é fácil generalizar sobre a ioga pois a palavra é polissémica, existem tipos e estilos muito diferentes da ioga milenar, mas as práticas atuais envolvem sempre técnicas físicas, mentais e espirituais. Porém, o objetivo original de todas as formas da ioga era erradicar o sofrimento humano, e não aquele que foi (re)construído pelas modernas sociedades ocidentais: ferramenta terapêutica ou mais um produto de autoajuda para a busca da felicidade mundana. A ioga nunca teve como objetivo final a felicidade humana porque esta é ainda um estado dual dependente dos humores e do sistema nervoso, mas, pelo contrário, os iogues clássicos procuravam o autoconhecimento, a consciência reflexiva que supera a ignorância existencial e a união com deus.

“A ioga moderna é considerada por muitos adeptos uma filosofia espiritual e terapêutica”

Se a cosmovisão teísta da ioga clássica preconiza uma soteriologia a jusante da vida material ordinária, esse processo pode designar-se por Espiritualidade (JANIS, 2007: 17). Para estudar a dimensão espiritual da ioga podemos utilizar as disciplinas, atrás referidas, das ciências das religiões. A ioga pode ser compreendida do ponto de vista da história, da cultura, da antropologia e de muitas outras ciências das religiões. No fundo, pretende-se obter um olhar panorâmico sobre a espiritualidade e todos esses pontos de vista contribuem para aumentar os conhecimentos sobre a meditação, a contemplação e estados mais refinados da consciência. Concomitantemente, as ciências da religião constituem uma possibilidade, entre muitas outras, de compreender as dinâmicas da ioga no passado e no presente, respeitando os textos das tradições antigas e as linhagens originadas na Índia e no Ocidente moderno

“As ciências da religião permitem um referencial empírico aplicado ao estudo da espiritualida da ioga”

O curso de pós-graduação em instrução de yoga, que irá iniciar em setembro de 2019 na Universidade Lusófona, beneficia de um conjunto de saberes e de profissionais competentes que têm por objetivo o ensino da ioga, no respeito pelo seu contexto cultural, língua e características específicas da espiritualidade indiana. Pretende-se a compreensão de uma realidade sociocultural, enraizada cada vez mais nos hábitos dos portugueses, e que permite aos praticantes o autoconhecimento profundo da mente e experienciar a tranquilidade do coração. No limite, a experiência ióguica pode ser equivalente à experiência religiosa, e as práticas podem proporcionar aos adeptos uma dimensão interna inefável e inenarrável, entre o numinoso e o cessativo (SARBACKER, 2005), na qual termina a dicotomia entre sagrado e profano e o praticante participa, passivamente ativo, num Cosmo profundamente organizado e hierarquizado.

Pós-graduação em Instrução de Yoga

Referências

  • DE MICHELIS, E. (2004).A History of Modern Yoga: Patañjali and Western Esotericism. London: Continuum.
  • IELDS, G. (2001). Religious Therapeutics: Body and Health in Yoga, Ayurveda, and Tantra. Albany: State University of New York Press.
  • HENRICHSEN-SCHREMBS, S. (2008). Pathways to Yoga – Yoga Pathways : Modern Life Courses and the Search for Meaning in Germany. PhD Thesis, Bremen University.
  • JANIS, S. (2007).Spirituality for Dummies. New Delhi: Wiley India Ltd.
  • JENSEN, J. S. (2014). What is Religion? New York; Abingdon: Routledge.
  • PINGATORE, K. (2015). Bodies Bending Boundaries: Religious, Spiritual, and Secular Identities of Modern Postural Yoga in the Ozarks.Missouri State University.
  • SARBACKER, S. (2005).Samādhi : the numinous and cessative in Indo-Tibetan yoga. Albany: State University of New York Press.
  • SINGLETON, M. (2010). Yoga Body: The Origins of Modern Posture Practice. New York: Oxford University Press.

Fonte:

Segundo Paulo Hayes, professor do Departamento de Ciências das Religiões da Universidade Lusófona e coordenador da Pós-Graduação em Instrução de Yoga, estima-se que em Portugal existam mais de cem mil praticantes de ioga

Segundo Paulo Hayes, professor do Departamento de Ciências das Religiões da Universidade Lusófona e coordenador da Pós-Graduação em Instrução de Yoga, estima-se que em Portugal existam mais de cem mil praticantes de ioga– a maioria são mulheres – e que a actividade tem um valor económico próximo dos cinco milhões de euros – entre escolas, associações, aulas, retiros e produtos. 

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Opinião: Vaticano: “A última corte absolutista da Europa” por José Brissos-Lino

Vaticano: “A última corte absolutista da Europa”

ANDREAS SOLARO/Getty Images

Francisco voltou a surpreender com a sua franqueza, desta vez ao referir-se ao sistema vaticanista de governo da Igreja Católica, apesar das conhecidas críticas às “doenças da Cúria”

Segundo o portal Sete Margens, em entrevista à Televisa, quando “Valentina Alazraki lhe pergunta sobre a eventual contradição entre ‘uma Igreja em crise e um Papa que goza de popularidade’, o Papa Bergoglio responde com uma dura crítica à forma de governo que domina ainda o Vaticano.” Chega mesmo a classificar a sede do poder católico-romano como “última corte europeia de uma monarquia absoluta.”

Embora o essencial da entrevista seja sobre temáticas como o drama dos refugiados – recorde-se que mais de 70 milhões de pessoas sobrevivem hoje deslocadas por esse mundo fora, longe das suas casas ou países, devido a guerras e perseguições, o dobro de há 20 anos – o muro de Trump, o Islão, os jovens, a violência, a pobreza, os jovens e a condição feminina.

Francisco acredita que “a Igreja está a mudar” e confia que os cardeais desejem de facto uma reforma da instituição, falando mesmo em “crise de crescimento”. Aponta para algumas realidades da Igreja que, essas sim, estão em crise e precisam de desaparecer: “Sejamos conscientes. O Estado da Cidade do Vaticano como forma de governo, a Cúria, o que seja, é a última corte europeia de uma monarquia absoluta. A última. As demais já são monarquias constitucionais, a corte dilui-se, mas aqui há estruturas de corte que são o que tem de acabar.”

O sistema eclesial dominante parece obsoleto e está na base do grande e recorrente escândalo dos abusos sexuais de crianças, por parte de sacerdotes espalhados pelo mundo, na medida em que não apenas se presta a abusos de poder, em especial sobre os inocentes e mais fracos, mas sobretudo pelo encobrimento persistente que o papa tenta agora travar a todo o custo.

Mas tal sistema também impede a valorização da mulher nas estruturas do catolicismo, relegando-a para um lugar secundário, numa dissonância chocante com a vida e a sociedade, onde a discriminação de género se vai esbatendo das artes à cultura, da universidade às forças armadas e da governação às empresas, passando por todas as profissões, mas também nos outros sectores do cristianismo em todo o mundo. A tentativa de conceder um ministério às mulheres surge através da reorganização eclesial que se prepara para a assembleia especial do Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia, que decorrerá em Outubro, e reunirá bispos do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Venezuela e Suriname, assim como “homens e mulheres pertencentes aos povos amazónicos”, que possam “transmitir os seus desejos e anseios mais profundos”, dentre os quais “identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido às mulheres, tomando em conta o papel central que hoje desempenham na Igreja amazónica”.

O documento que sair da assembleia sinodal incluirá propostas a entregar ao Papa que, a partir daí, redigirá uma exortação apostólica, com orientações a seguir. Provavelmente poder-se-á vir a abrir a ordenação de mulheres ao diaconato, num primeiro momento, de modo a mostrar alguma abertura mas, simultaneamente, sem assustar os sectores mais conservadores, que nunca aceitariam o elemento feminino no sacerdócio, pois tal inovação quebraria o modelo milenar de uma Igreja no masculino.

A ideia que fica é que se pretende ir do local para o global, numa perspectiva mais atenta às necessidades da Igreja e aos problemas das populações, ao contrário do que é a tradição da cúria romana, que tende sempre a falar de Roma para o mundo. Ao focar a América Latina em especial e a Amazónia em particular, talvez a região do mundo onde o catolicismo mais terreno tem perdido para as igrejas evangélicas e os grupos neopentecostais, Francisco (que conhece bem a região) procura estancar essa sangria, mas também, a partir daí, ganhar força para impor uma reforma eclesial num tipo de governo imperial que subsiste no Vaticano.

Desde o início do seu pontificado o papa deu inúmeros sinais de desconformidade com a filosofia de poder dominante, ao não pernoitar nos aposentos papais, ao gostar de caminhar pelas ruas (“gosto muito de andar na rua, aprendo muito na rua”), ao admitir que é uma “pessoa” (dessacralizando assim a função) e até na fórmula calorosa e informal com que se dirigiu ao povo católico, desde a varanda da Praça de S. Pedro no dia da sua eleição. Todavia, não é tanto por isto que está sob fogo dos sectores ultramontanos, mas sim porque não esconde de ninguém o seu desejo de reformar a estrutura eclesial, coisa que o conservadorismo dominante não permitirá sem uma luta feroz.

Há quem não aprenda com as lições da História. No século XVI foi o que se viu, e a igreja católica acabou mesmo por ter de beliscar o seu absolutismo e fazer uma reforma sob pressão. Mas o preço que pagou pelo atraso foi muito alto.

Fonte: http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-06-26-Vaticano-A-ultima-corte-absolutista-da-Europa

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