Opinião: Esquecer Simulambuco, por José Brissos-Lino

Esquecer Simulambuco

Como português que sou senti-me um pouco comprometido em Simulambuco, quando visitei Cabinda no mês passado. Portugal falhou aos cabindas talvez porque o que tem de ser tem muita força. É o caso do petróleo

Em finais do século XIX um representante da coroa lusitana assinou com os líderes nativos um documento através do qual Portugal acolhia no seu seio aqueles territórios africanos independentes, obrigando-se a manter a integridade territorial colocada sob sua protecção e comprometendo-se, em contrapartida, a preservar os hábitos e culturas dos seus habitantes, assim como a respeitá-los e fazê-los respeitar. O tratado foi celebrado antes da realização da Conferência de Berlim que dividiu África pelas potências europeias, pelo que a colonização de Cabinda foi pacífica. A referida conferência, realizada ainda no mesmo ano, veio a confirmar internacionalmente o tratado, adoptando-se a designação de Congo Português para a região.

O documento que estabelece a criação do protectorado foi assinado pelo representante do governo da coroa, Guilherme Augusto de Brito Capello, então capitão-tenente da Armada e comandante da corveta Rainha de Portugal, e pelos príncipes, chefes e oficiais do reino de Negoio, a 1 de Fevereiro de 1885.

O Tratado de Simulambuco é muito simples e consta de apenas 11 artigos, mas revela alguns aspectos dignos de nota, como a proibição do comércio de escravos, o reconhecimento da estrutura administrativa existente (lideranças nativas) e a escrupulosa preservação da propriedade privada, assim como o direito aos rendimentos daí provenientes, não havendo lugar a qualquer tipo de expropriação.

Desde logo as partes obrigaram-se a “não permitir o tráfico de escravatura nos limites dos seus domínios”. Aos chefes nativos do país e seus habitantes Portugal comprometia-se a fazer conservar “o senhorio directo das terras que lhes pertencem, podendo-as vender ou alugar de qualquer forma para estabelecimento de feitorias de negócio ou outras indústrias particulares, mediante pagamento dos costumes”. Mais. Os príncipes e governadores nativos cederiam a Portugal “a propriedade inteira e completa de porções de terreno, mediante o pagamento dos seus respectivos valores, a fim de neles o governo português mandar edificar os seus estabelecimentos militares, administrativos ou particulares.”

Assim, o documento começa por registar que os príncipes e demais chefes nativos e seus sucessores “declaram, voluntariamente, reconhecer a soberania de Portugal, colocando sob o protectorado desta nação todos os territórios por eles governados.” Não se tratou duma conquista ou colonização forçada. Pelo contrário, o protectorado ali estabelecido resultou duma negociação livre e da vontade expressa das duas partes. Em contrapartida Portugal não só reconhecia as lideranças nativas como lhes prometia auxílio e protecção assim como manter a integridade dos territórios. Mas o tratado protege igualmente as culturas locais no respeito pelas idiossincrasias próprias quando define: “Portugal respeitará e fará respeitar os usos e costumes do país.” Portanto, tudo na base do respeito mútuo.

O governo português não só assegurava aos cabindas a possibilidade de desenvolverem relações comerciais com países terceiros, em completa liberdade, como se obrigava a proteger os estabelecimentos dos “negociantes de todas as nações” que se viessem a estabelecer naqueles territórios. Os chefes indígenas obrigavam-se a proteger o comércio quer dos portugueses, quer dos estrangeiros e indígenas, não permitindo interrupção nas comunicações com o interior, e a fazer uso da sua autoridade para desembaraçar os caminhos, facilitando e protegendo as relações entre vendedores e compradores.

Mas as especificidades mais interessantes do tratado talvez sejam mesmo o compromisso dos chefes indígenas em virem a conceder todo o apoio às missões religiosas e científicas que se viessem a fixar de forma temporária ou permanente nos seus territórios. Hoje a província de Cabinda conta com forte presença católica e protestante.

O desenvolvimento da agricultura também foi previsto no documento. Talvez por isso se tenha plantado uma árvore no local e no momento do acto de assinatura do tratado, a qual permanece imponente, a que se juntou um marco histórico e uma placa alusiva com a respectiva inscrição informativa para a posteridade, local que tive oportunidade de visitar há poucas semanas.

Parece que passadas nove décadas e três regimes políticos depois em Portugal, terá sido a riqueza do petróleo enquanto recurso natural que acabou por determinar em grande parte o destino de Cabinda e a sua integração na nação angolana em 1975, fazendo esquecer de vez Simulambuco.

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Opinião: Trump e os evangélicos

Trump e os evangélicos

 
A prestigiada revista americana fundada por Billy Graham em 1956 defendeu a 19 de Dezembro passado a destituição de Donald Trump, uma atitude inédita que está a provocar algum desconforto nos meios evangélicos

De facto foi com alguma surpresa que se leu um vigoroso editorial de Mark Galli, editor-chefe da Christianity Today (CT) – considerada pelo Washington Post como “a principal revista do evangelicalismo” –, onde se exigia a destituição de Trump. Aquela publicação religiosa começa por se referir aos documentos fundadores nos quais o famoso evangelista colocava como seu objectivo contribuir para que os cristãos evangélicos pudessem interpretar as notícias de modo a reflectir a sua fé.

O histórico da CT é não se envolver directamente em política, permitindo que cristãos de todo o espectro político defendam os seus argumentos em praça pública, mas incentivando-os sempre a procurar a justiça segundo as suas convicções e em amor, já que a política não é um fim em si mesmo. A ideia é orar a Deus pelo presidente da América a cada momento, seja ele quem for, mas também pela classe política em geral, da esquerda à direita. Mas a revista reconhece que os factos são inequívocos. O presidente dos Estados Unidos usou o seu poder para coagir um líder estrangeiro a assediar e desacreditar um oponente político. E isso não constitui apenas uma violação da Constituição mas sobretudo uma profunda imoralidade.

Mas a CT vai mais longe. Justifica que se isso não chocou o povo americano tanto como seria suposto, é porque Trump apresenta um histórico de imoralidade constante na sua presidência, tanto ao contratar e demitir várias vezes indivíduos agora condenados por crimes, como ao admitir atitudes imorais nos negócios e no seu relacionamento com mulheres, actos de que se orgulha, e ao publicar constantemente no Twitter manipulações, mentiras e calúnias, tornando-se assim um exemplo quase perfeito de um ser humano moralmente perdido e confuso.

As audiências do processo de impeachment deixaram absolutamente claro, mais do que a investigação de Mueller, que Trump abusou da sua autoridade para obter ganhos pessoais e traiu o seu juramento constitucional, revelando ao mundo profundas deficiências morais, o que prejudica a presidência e a reputação do país, assim como o espírito e futuro dos americanos, pelo que nenhum ponto positivo do seu governo pode equilibrar o perigo moral e político que o país enfrenta com um líder de carácter tão imoral e anti-ético.

De acordo com um estudo do Pew Research Center os protestantes evangélicos brancos apoiam Trump 25 pontos acima da média nacional. Provavelmente para agradar aos conservadores a revista compara esta posição com a que tomou contra Clinton há vinte anos, traçando um paralelo moral entre ambos. Só que Clinton nunca fez sequer um por cento de tudo o que é censurável em Trump. Mentiu a propósito do caso Lewinsky, mas Trump mente todos os dias, desde a campanha eleitoral até agora, além de atitudes muito mais graves do que essas.

A CT confronta os apoiantes cristãos do presidente com as bases da sua fé e o seu testemunho perante o mundo, avançando que “Se não revertermos o curso agora, alguém levará a sério qualquer coisa que venhamos a dizer sobre justiça e rectidão nas próximas décadas?” O editorial concluiu confessando que a revista reservou um pronunciamento sobre Trump durante anos, sendo por isso criticada em alguns sectores. Mas tratou-se – justifica – de prudência, de tentar entender o ponto de vista dos seus apoiantes evangélicos, e porque a caridade deve estar presente antes de se condenar o comportamento de alguém. Mas agora não dá mais para calar, pois isso colide com a reputação evangélica e a compreensão do evangelho no mundo.

As reacções ao editorial no meio evangélico foram repartidas. Muitos apoiaram e outros criticaram. Três dias depois, a revista confirmou a sua posição adiantando que “a aliança do evangelicalismo americano com esta presidência tem provocado enormes danos ao testemunho cristão. Alienou muitos de nossos filhos e netos. Prejudicou irmãos afro-americanos, latino-americanos e asiáticos-americanos, e minou os esforços de incontáveis missionários que trabalham em campos distantes”, pelo que “a percepção do apoio evangélico ao governo Trump tornou tóxica a reputação da Noiva de Cristo.” Esta perspectiva está em linha com outros pronunciamentos como o do jornal “The Atlantic” que já este Verão afirmava que “o apoio a Trump tem um alto custo para o testemunho cristão”, falando em crise aprofundada no cristianismo evangélico.

Franklin Graham, filho de Billy Graham e arauto da direita religiosa americana, veio criticar a CT dizendo que o pai teria ficado desapontado com a posição da revista. Mas Franklin não tem moral para levantar a voz depois de usar dois pesos e duas medidas, ao dizer que o comportamento extramarital de Clinton tinha que ver com todo o mundo, enquanto sobre Trump afirmou que ninguém tinha nada a ver com os casos de traição conjugal a não ser a mulher… No entanto Jerushah Duford, neta de Billy e sobrinha de Franklin veio a público contestar quem quer que fale pelo avô. E deixa a pergunta que realmente importa: “As palavras e acções da vida de Billy Graham estão alinhadas com as do atual presidente?”

P.S. – Já depois de escrita esta crónica Trump ordenou o assassinato do general iraniano Soleimani, empurrando assim o mundo para uma nova guerra.

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Opinião: O labirinto do tempo por José Brissos-Lino

O labirinto do tempo

 
Há uma tendência geral para considerar a viragem para um novo ano como uma espécie de dobradiça da história. Por isso se formulam tantas intenções no início de cada unidade de tempo a que chamamos ano, mas que, regra geral, não resistem mais do que duas ou três semanas, no regresso às rotinas do costume.

Esta ideia é tipicamente ocidental e resulta de uma concepção linear do tempo e da história. Depois da revolução industrial os povos europeus pensavam que o progresso seria geométrico, dado o avanço da ciência e da técnica, mas bastaram meia dúzia de anos vividos no século vinte para que esse optimismo moderno batesse com a cara no chão, face à devastação provocada pela Grande Guerra, que dizimou milhões de vidas humanas. Começou logo aí a desilusão com a religião na Europa, dando lugar a regimes políticos extremistas, desilusão essa que foi agravada poucos anos mais tarde pela II Guerra Mundial, que deixou o continente destruído.

Já no Oriente o factor tempo é concebido de outra maneira, mais no sentido circular, talvez influenciado pelas ideias da reencarnação e do karma, formas civilizacionais diferentes para lidar com a questão do sofrimento e do sentido da vida.

A fé cristã compreende que para Deus o factor tempo é conceptualmente diferente do que é para os humanos. O nosso tempo é o chronos, medido por relógios e calendários, mas o tempo de Deus é o kayros: “Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (2 Pedro 3:8). Este conceito divino só se entende na perspectiva de que Deus é maior do que o tempo que Ele próprio criou.

A percepção do tempo altera-se em função de diversas variáveis. Por exemplo, a idade da pessoa. Para uma criança o tempo é vagaroso, custa a passar, porque ela quer crescer rapidamente, a menos que esteja numa festa, em actividades lúdicas como jogos de vídeo ou a fazer alguma outra coisa que lhe dê particular prazer. Já para uma pessoa de idade avançada o tempo parece que corre. Apesar de tudo Vergílio Ferreira diz que “O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou.”

Outra variável é a geografia. Nas regiões urbanas tem-se a sensação que o tempo foge, dada a correria do dia-a-dia, enquanto no meio rural parece passar mais devagar. Mas também a cultura pode fazer a diferença. Uma pessoa que tenha interesses culturais e a vida cheia tem a sensação de falta de tempo, enquanto os desocupados vivenciam a passagem dos dias como mais lenta e monótona.

Uma outra variável possível é o tipo de emprego que se tem. Um trabalho mecânico, repetitivo e sempre igual tende a fazer o trabalhador sentir que as horas custam mais a passar. Já no caso de tarefas que exijam criatividade, diversificação e imaginação tem-se a sensação de que o tempo passa mais depressa. Por tudo isto e muito mais a percepção do tempo varia muito de pessoa para pessoa e de situação para situação. Dante estava convencido que “O tempo passa e o homem não percebe.”

A viragem do ano é apenas uma marca de calendário e terá a importância que as pessoas lhe quiserem dar. É certo que organizamos a nossa vida pessoal e colectiva segundo determinadas unidades de tempo. Só assim podemos interagir com os outros em sociedade, caso contrário seria o caos. Quando marcamos uma reunião, sabemos que a hora definida é igual para todos.

Mas a vida humana concreta não se “arruma” em dias e horas. As unidades de tempo são uma convenção tornada norma social com vista a um funcionamento colectivo articulado. Há mais vida para além do relógio e do calendário. Em psicoterapia sabemos que os ritmos internos de cada pessoa diferem tanto das outras pessoas como do momento que cada um está a viver. Alguns resolvem as suas dissonâncias internas numa terapia breve, mas noutros o movimento terapêutico é mais longo e acidentado, acabando por demorar muito mais a concluir, porque cada indivíduo é único e irrepetível. Assim, o tempo parece ser uma espécie de labirinto onde cada um entra e faz um percurso distinto dos outros, até descobrir a saída.

A viragem do ano não é uma dobradiça da história, é apenas mais uma página que se passa no livro da nossa existência.

Talvez Mia Couto tenha razão quando diz: “Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga”. Ora então vamos lá a sonhar, até porque, segundo António Gedeão, “o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer”, e acima de tudo é o sonho que “comanda a vida”.

Assim, sonhemos desde já o novo ano de 2020.

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Opinião: Há qualquer coisa no Natal, por José Brissos-Lino

Há qualquer coisa no Natal

 
Mesmo abstraindo-nos das trocas de presentes, das reuniões de família na Consoada, e de mais algum folclore natalício, a verdade é que a quadra desperta um conjunto de sentimentos positivos nas pessoas em geral e sobretudo nas crianças

E Jesus, chamando um menino, o pôs no meio deles.
Evangelho de Mateus 18:2

Um dia Jesus chamou um menino e colocou-o no meio dos discípulos quando estes o questionavam sobre qual deles era o mais importante. Não se limitou a dizer: “se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mateus 18:3). Era necessário fazê-los parar e observar aquela criança. Eles sabiam o que eram crianças, mas a sociedade israelita não as valorizava devidamente.

No Antigo Israel primeiro contava o filho varão mais velho, o primogénito, depois os rapazes, em especial a partir dos treze anos, isto é, do rito de passagem judaico, que implicava uma espécie de exame com os doutores da lei. Jesus quis sinalizar que uma criança não era importante pelo seu sexo, nem por ser o primogénito, nem pelo lugar que a tradição lhe atribuía, nem sequer pelos seus conhecimentos da lei de Moisés e da fé judaica, mas que era importante em si mesma apenas porque era um ser humano, embora ainda criança.

O acto simbólico de colocar aquele menino no meio deles, na posição do mais importante, respondia com eloquência aos sinais de vaidade e ambição daqueles homens imaturos: “E Jesus, chamando um menino, o pôs no meio deles” (Mateus 18:2). A partir daqui o olhar dos israelitas sobre a infância teria que ser diferente. Afinal Jesus de Nazaré veio a este mundo como criança recém-nascida. Podia ter descido à terra já homem feito, numa espécie de disco voador ou de forma sobrenatural no alto de um monte, saído de uma nuvem. Recordemo-nos que, de acordo com os relatos dos evangelistas, se transfigurou numa ocasião diante de Pedro, Tiago e João e escapou-se à multidão em diversas ocasiões, iludindo os olhos dos que o queriam matar, porque ainda não havia chegado a sua hora.

Mas não, Deus quis mesmo honrar e chamar a atenção para as crianças e igualmente para a maternidade, fazendo-se nascer do ventre duma mulher comum, escolhida para o efeito pelos altos desígnios da misericórdia divina. O Deus Criador do universo reduziu-se assim voluntariamente à condição humana para chegar aos homens e viver na pele as suas alegrias e angústias, como nos diz S. Paulo: “Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (Filipenses 2:6-8). Segundo o escritor da Carta aos Hebreus só desse modo Jesus se poderia apresentar no papel de sumo-sacerdote da raça humana que compreende as nossas fraquezas (4:15).

No fundo, ao chamar as atenções para aquele menino, talvez Jesus de Nazaré quisesse sublinhar o que Salomão tinha escrito nos seus livros de sabedoria muitos séculos antes: “Melhor é a criança pobre e sábia do que o rei velho e insensato, que não se deixa mais admoestar” (Eclesiastes 4:13).

De facto, o Natal interpela-nos por causa de uma criança, o Menino. Talvez o mais fundamental do encanto desta quadra parta daí. É que uma criança recém-nascida e em situação precária remete para o mistério da vida, para a fragilidade da existência humana e constitui um testemunho de beleza inexplicável. Permite puxar pelo melhor das pessoas na resposta às necessidades de cuidar daquele ser indefeso e descentrarmo-nos de nós mesmos, pensando primeiro no cuidado pelo outro que está vulnerável perante o mundo e a vida.

Talvez até este Menino seja afinal uma revisitação dum certo menino hebreu chamado Moisés, no reino dum faraó sanguinário que provocou o genocídio selectivo dos meninos descendentes de Jacob nas terras de Gosen, de acordo com o relato da Torah. Ter-se-á salvo da morte anunciada escondido entre os juncos das margens do Nilo, por um golpe de sorte, para uns, e pela providência divina para outros. Também este viria a tornar-se uma figura incontornável da história bíblica.

Afinal, sempre que nasce uma criança há natal. É uma esperança que chega, um desafio que surge, uma responsabilidade que emerge.

De facto não devemos desvalorizar os sentimentos positivos que esta quadra especial desperta nas crianças, porque não se devem desprezar os sentimentos das crianças em coisa nenhuma. Elas é que sabem. Pela minha parte, desejo um grande Natal a todos, incluindo as crianças.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2019-12-24-ha-qualquer-coisa-no-natal/

Opinião: Beckett e o Advento por José Brissos-Lino

Beckett e o Advento

O que é que o dramaturgo Samuel Beckett tem que ver com o Advento? Talvez nada. Ou talvez tudo. Depende de quem ou do que estamos à espera.

Na sua famosa peça de teatro “À espera de Godot”, escrita no pós-guerra, o irlandês Samuel Beckett (1906-1989), que integrava a corrente conhecida como teatro do Absurdo, apresenta uma humanidade sem rumo e sem condições para compreender a sua própria existência, despojado de um sentido. O dramaturgo, de família burguesa e protestante, revisita a condição humana numa perspectiva filosófica e num ambiente onde o tempo não se faz presente face à decrepitude física dos corpos e à degeneração físico-fisiológica. Ninguém como ele caracterizou a desilusão e o fracasso da humanidade naqueles dias de uma Europa completamente destruída.

Lembrei-me desta peça a propósito do Advento. Estranho? Não, porque Advento significa vinda ou chegada. O termo é latino (adventum) e também pode significar fundação ou criação de alguma coisa. Na fé cristã aplica-se às quatro semanas que antecedem o Natal, um período litúrgico evocativo da vinda de Jesus Cristo ao mundo há dois mil anos, em Belém da Judeia. É, portanto, um tempo de alegria para os cristãos, caracterizado pela preparação para as comemorações do nascimento de Cristo.

O evangelho de Lucas relata que um anjo apareceu a Maria numa visão, anunciando-lhe que em breve daria à luz um menino, o filho de Deus, que traria uma mensagem ao mundo e que seria a luz dos homens: “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (João 1:4) e luz para as nações: “Luz para iluminar as nações” (Lucas 2:32), na linha do profeta Isaías: “O povo que andava em trevas, viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz” (Isaías 9:2). Esse tempo de espera é caracterizado hoje como advento.

Nunca se chega a saber quem é o tal Godot de Beckett nem sequer se existe, pois nunca chega, o que leva as duas personagens que supostamente o aguardam, os velhos vagabundos Vladimir e Estragon, a compensar a sua expectativa através de conversa vazia e sem sentido, discussões intermináveis e perguntas recorrentes que resultam em frustração crescente, por não permitirem respostas objectivas, de modo a tentar combater o tédio e preencher o vazio da existência, em dias sempre vazios e iguais. O autor faz-nos entender que esta liturgia dos dois que esperam até à exaustão e que os faz preencher o tempo é, afinal, o único sentido das suas vidas.

Ao contrário do que é habitual em teatro, “À espera de Godot”, não conta uma estória, não tem enredo, limitando-se apenas a focar uma situação estática num lugar desértico, desprovido de cor, onde apenas subsiste uma árvore e tendo como pano de fundo a luz que antecede o crepúsculo. Toda a atmosfera é de vacuidade e monotonia. Segundo alguma crítica a intenção do dramaturgo não será mostrar o absurdo da existência do ponto de vista da interacção social, mas mais concretamente a perplexidade do encontro do ser humano consigo mesmo.

É aqui que o contraste é mais flagrante. O Advento representa o encontro do Homem com Deus através de Jesus Cristo: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1 Timóteo 2:5). É a partir desse encontro que o ser humano descobre um sentido existencial e se encontra consigo mesmo e com os outros.

A alegria desse encontro contrasta com a atmosfera de frustração da dupla dos “esperadores” patéticos de Beckett, que não sabem quem esperam, nem se o esperado Godot sempre chega ou não. Por isso o ambiente dos homens e mulheres de fé que celebram o Advento é tão contrastante com o das personagens desta peça.

Como escreveu J.T.Parreira: “A ausência de Godot, bem como numerosos outros aspectos da peça, deram origem a várias interpretações desde o dia da estreia teatral, ocorrida em Paris, em 1953.” Daí que, interrogado sobre o significado da peça, Beckett tenha afirmado: “Não posso explicar as minhas obras. Cada um deve averiguar por si próprio o que entende nelas.”

Alguns deduziram que Godot simbolizaria um Deus ausente em tempo de devastação e desesperança, mas, como diz Parreira: “Não temos forçosamente que ler Godot como sendo Deus, mas que esta peça não é ateísta, não é. Até porque um dia Beckett, entrevistado, disse, cito de cor: ‘Se quisesse falar de Deus na peça, ter-lhe-ia chamado “Waiting for God”, ou “En attenddan God”.

Diz o ditado que quem espera desespera. Mas quem espera em fé nunca desespera. E aproveita esse tempo para preparar a alma a fim de receber Aquele que está para vir. Por isso o tempo litúrgico do Advento é tempo de purificação e não de resmungar.

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Reportagem na RTP2 com Prof. Fabrizio Boscaglia

Reportagem da RTP2 integrado no programa A Fé dos Homens -ao nosso Prof. Fabrizio Boscaglia, sobre a nossa Base de Dados de Património Islâmico e mais em geral sobre a nossa Linha de Investigação Herança e Espiritualidade Islâmica.

Gravada na BNP, a reportagem inclui uma entrevista comigo e a mostra de manuscritos árabes, da Base de Dados e outros produtos da nossa investigação.

 

VEJA VÍDEO: https://www.rtp.pt/play/p50/e444535/a-fe-dos-homens

 

Opinião: Teocracia? Não, obrigado! por José Brissos-Lino

Teocracia? Não, obrigado!

O que idiotas e ignorantes fazem com a Bíblia D.R. Getty Images
Ainda estamos a tempo de aprender que nenhuma teocracia é melhor do que a outra. Não importa se é islâmica, judaica, cristã ou outra qualquer. Definitivamente, não.

A história da velha Europa devia servir pelo menos para perceber que quando a religião manda no Estado a coisa vai sempre correr mal, mais tarde ou mais cedo. As guerras religiosas que os povos europeus sofreram há séculos são o exemplo acabado disso mesmo. A revolução americana mostrou que a via do estado laico é melhor garantia da liberdade de crença e prática religiosa a todos os cidadãos. Todavia as religiões sempre pugnaram por deter nas suas mãos o poder político ou pelo menos viverem em concubinato com ele, influenciando-o no sentido da satisfação dos seus próprios interesses.

Por seu lado a revolução francesa seguiu um caminho contra a religião e deu lugar à desgraça jacobina que se viu. No seu afã de se mostrarem diferentes dos ingleses os franceses experimentaram um caminho perigoso que levou a altos e baixos, mas com imenso sofrimento de muita gente. De facto a melhor resposta não é a imposição social do laicismo a uma sociedade que em grande parte nunca deixou de ser religiosa.

Toda a gente se incomoda com o regime teocrático xiita que sufoca gerações no Irão desde 1979. O país está a viver a crise mais profunda dos últimos 40 anos. Pede-se nas ruas o fim do governo islâmico e, em consequência, a repressão provocou quase 450 mortos em apenas quatro dias, segundo o “The New York Times”. Há muito quem sonhe com uma teocracia cristã no seu país, embalados por uma escatologia controversa e de legitimidade hermenêutica muito discutível. A ideia de que mundo está no “maligno” (I João 5:19), associada a algumas tradições exegéticas de tipo triunfalista, acabam por potenciar a luta para assumir o poder político em nome da fé. Mas a experiência diz que quando uma religião assume o poder acabará por perseguir todas as outras, por se achar a única iluminada por Deus, e por tentar a proeminência quando não mesmo o monopólio do mercado religioso.

Veja-se o caso dos Estados Unidos. Os líderes evangélicos desde há muito que se têm vindo a movimentar, através da Moral Majority, e depois do Tea Party e dos neoconservadores de direita para imporem a sua agenda política. Chegou-se ao ponto de defender cegamente Trump em nome dos ganhos dessa agenda, como o apoio incondicional a todas as movimentações políticas e militares do moderno estado de Israel (como se esta fosse a mesma nação aliançada com Iavé nos tempos do Antigo Testamento), e os tópicos da moral sexual. As recentes declarações de Franklim Graham (filho do famoso evangelista Billy Graham) diabolizaram todos que se opõem à política errática do presidente americano. O próprio Trump chamou para a Casa Branca Paula White, uma tele-evangelista milionária e espalhafatosa que prega a teologia da prosperidade, tão ao jeito da religião yankee.

Um dia ouvi uma das expoentes do carismatismo americano afirmar publicamente em Lisboa, que as igrejas nos EUA estavam a pedir a Deus para que a oração antes de cada aula nas escolas públicas americanas voltasse a ser lei, o que é anticonstitucional e sobretudo uma atroz falta de bom senso. Então crentes e não crentes ou crianças de famílias de outras religiões teriam que se sujeitar a uma acção religiosa? Gostariam eles que, se vivessem num país muçulmano os filhos tivesses que rezar a Alá todos os dias na escola?

Mas veja-se o caso ainda mais problemático do Brasil de Bolsonaro. Um capitão extremista de direita, expulso do exército e que durante as décadas em que foi deputado federal nunca contribuiu para o país com qualquer projecto de lei que se visse, ganhou as eleições graças ao dualismo político actual em terras de Vera Cruz. Havia que combater o lulismo e os eleitores castigaram o PT devido à extrema corrupção e insegurança no país irmão. Os evangélicos foram especialmente motivados contra a agenda fracturante do governo Dilma, mas há muitos anos que sonham com um presidente evangélico que estabeleça uma espécie de teocracia cristã no Brasil.

Mas quando é que esta gente entenderá que Jesus Cristo nunca frequentou os corredores do poder, e nunca disputou eleições porque, como disse: “O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (João 18:36)? Quando irão compreender que foi ele o primeiro a definir uma separação clara entre estado e religião: “Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21).

Os líderes religiosos que lutam por alcançar poder político apenas revelam que não têm estatura moral e espiritual para o desempenho das suas funções pastorais. Além disso, como diz o académico Roberto Romano: “Se a democracia ostenta defeitos, suas mazelas confessadamente têm origem em seres humanos que erram e podem corrigir seus equívocos. Com a teocracia nenhum limite obriga o governante, pois seus decretos são divinos. No fundo de todo teocrata dormita um totalitário. É tempo de aprender tal lição da história religiosa e política.”

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Cristianismo e Islão (16 dez.) – Com Pe. Cerqueira Gonçalves, nos 800 anos do encontro entre S. Francisco e o Sultão

Cristianismo e Islão:

as possibilidades do diálogo

Conversa com Pe. Joaquim Cerqueira Gonçalves

Nos 800 anos do encontro entre São Francisco de Assis e o Sultão Al-Kamil
(1219-2019)
Moderação: Fabrizio Boscaglia
Segunda-feira 16 dez. às 18h
Biblioteca Vítor de Sá, Universidade Lusófona,
Campo Grande 380 B
(Edifício da Biblioteca Vítor de Sá – Sala Bib.2.7)
Entrada livre (lotação limitada)
Seminário Permanente de Estudos Islâmicos
Área de Ciência das Religiões (ULHT)

Opinião: Aprender a dizer amor, por José Brissos-Lino

Aprender a dizer amor

O amor também congela!
Jorge Jesus, treinador do Flamengo, o mais falado clube nos últimos dias, afirmou: “no Brasil aprendi a dizer amor… Em Portugal é uma complicação para dizer amor. Quero desfrutar desse amor”. Sim, mas porque será tão difícil aos portugueses dizê-lo?

Na cultura anglo-saxónica, por exemplo, é corrente dizer “amo-te!” no final dum telefonema vulgar para um namorado, marido ou filho. Entre nós isso é considerado estranho ou uma lamechice. Mas o poeta não tem tais pruridos: “Diz o meu nome/pronuncia-o/como se as sílabas te queimassem/os lábios” (Mia Couto).

Porque é mais fácil dizer na cara de alguém que não se gosta dela do que dizer que gostamos da pessoa? Talvez porque no primeiro caso, logo que o dizemos ficamos preparados para uma reacção negativa, a fim de não nos deixarmos magoar. Se a pessoa disser “Pois eu também não gosto de ti!”, já estamos resguardados. Mas se eu disser à pessoa que a amo estou a expor-me. E se ela responder que o sentimento não é recíproco, que não quer saber de mim para nada, então vou ficar magoado pois estou com as defesas em baixo.

Muita gente confunde os afectos com a expressão dos mesmos. Muitos têm afectos para com familiares e amigos, mas não os sabem expressar. O facto é que os filhos tendem a reproduzir os modelos de comportamento dos pais. Se uma criança nunca viu o pai acariciar a mãe ou dizer-lhe palavras afectuosas, quando crescer dificilmente o fará à sua companheira ou companheiro, mesmo que lhe tenha muito amor. Muitos até confundem expressão de afectos aos filhos pequenos com o acto de lhes dar presentes, quando não com o suprimento das suas necessidades básicas, esquecendo que dar de comer, vestir e calçar não passa do dever intrínseco dos pais para com as crianças que trazem a este mundo.

O facto é que ainda se ouve falar de famílias que no Portugal de há muitas décadas cresceram em lares com défice de afecto e até de comunicação. No tempo dos nossos avós era vulgar que os filhos se sentassem em silêncio para jantar, só falavam quando lhes perguntavam alguma coisa e nem pensar em levantar da mesa sem pedir licença ao patriarca.

Mas creio que a situação se deve sobretudo a uma cultura marialva, em qualquer caso muito machista, que ainda não fomos capazes de ultrapassar e que considera a expressão dos afectos como coisa feminina ou pouco viril. Assim, torna-se mais fácil agredir física ou verbalmente do que acariciar.

Jorge Jesus disse que tinha “aprendido” a dizer amor. Exprimir verbalmente o amor que se tem é uma competência inata, aprende-se. Nas crianças é algo que funciona por modelagem, elas reproduzem o modelo parental. É por isso que as crianças que crescem em ambientes de violência doméstica acabam por tornar-se agressores quando adultos, desenvolvendo um interminável ciclo de maldição.

O discurso de Jesus Cristo e os escritos apostólicos neotestamentários estão repletos de uma mensagem de amor. Esse mote vai desde o Sermão do Monte às cartas de João Evangelista. Agora que se aproxima a época natalícia, talvez seja bom recordar o que escreveu o profeta Isaías setecentos anos antes de Cristo: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Isaías 9:6).

Estas caracterizações do Messias esperado pelo Antigo Israel não compaginavam com o varão de guerra Iavé a que os hebreus estavam habituados, na linha dum Deus étnico, à semelhança das divindades dos povos seus contemporâneos, embora com a característica singular do monoteísmo. Não. Qualquer dos cinco títulos referenciados remete para um Deus de proximidade e de paz. E porquê “Deus forte”? Só pode ser pela mesma razão que o apóstolo João nos adianta a essência divina: “Deus é amor” (1 João 4:16b). Ou seja, Deus é amor porque o amor é a força mais poderosa do universo. Já o rei Salomão o sabia: “o amor é forte como a morte” (Cântico dos Cânticos 8:6c).

Mas talvez possamos aprender a dizer amo-te com Joaquim Pessoa: “Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conheço e porque me conheço. E porque te adivinho. Estas são todas as razões. Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu” (Ano Comum).

Afinal, talvez seja tão difícil dizer amor apenas porque não o conseguimos compreender.

https://visao.sapo.pt/opiniao/2019-12-04-aprender-a-dizer-amor/

Opinião: Da irracionalidade bela do Natal, por Paulo Mendes Pinto

Da irracionalidade bela do Natal

Mesmo com crises, com a laicização da sociedade, com o afastamento das populações da prática religiosa católica, nada parece fazer perigar o Natal enquanto tradição profundamente enraizada na Cultura Ocidental.

 

Hoje, numa Era onde a informação nos chega à velocidade de um simples ‘clique’, onde com toda a facilidade acedemos a fontes que nos fornecem todos os elementos necessários para que tomemos consciência, parece cada vez mais claro que a relação entre informação e tomada de consciência foi rio que já secou há muito.

Por exemplo, todos nós podemos aceder a excelentes textos, a grandes investigações sobre as verdadeiras origens do Natal. E o resultado disso é que muitos de nós sabemos que a data exata do nascimento de Jesus é totalmente desconhecida (só em 350 o Papa Júlio I escolheu a data de 25 de Dezembro como o dia do nascimento de Jesus).

Também todos os anos somos objeto de um sem número de reflexões que nos alertam para os níveis de consumismo da quadra. Mais que bem-intencionadas retóricas em tempos de crises várias, económica ou ecológica, são mesmo bem fundados alertas para o desvirtuamento que um Natal-comércio cria num Natal-do-espírito.

E, contudo, não é o fácil acesso a essas fontes de informação que nos fazem abandonar a celebração do Natal. A festividade continua a marcar os nossos ritmos, mão só de calendário, mas de dádiva, de capacidade para festejar e estar com os outros.

Mesmo com crises, com a laicização da sociedade, com o afastamento das populações da prática religiosa católica, nada parece fazer perigar o Natal enquanto tradição profundamente enraizada na Cultura Ocidental.

Muito se poderia procurar como justificação para esta inusitada manutenção de tradição quando todos os quadros racionais nos levariam a ver um declínio efetivo. Da muito antiga tradição e das práticas, aos arquétipos dos ciclos da vida e da natureza onde o renascimento aparece ligado a uma alteração radical no ciclo solar a qua chamamos equinócio, muito se poderia colocar em cima de uma mesa de debate que seria, obviamente, inconclusiva.

Carpe Diem, diz-se, imitando o poeta latino Horácio. E isso mesmo se pode dizer numa quadra que parece contagiar. Deixamo-nos ir e… gozemos o dia! Gozemos a quadra!

Afinal, não é humana a mensagem de um Deus que se faz homem e nasce como qualquer um de nós? Acreditemos, ou não, que nesse nascimento se concretizaram profecias antigas, ou vejamos a história como mais um conto, um lindo conto, a humanidade aí contida é profunda e clama por nós, pelo nosso lado Humano.

Talvez por isso mesmo seja tão difícil ser racional nesta quadra e agir mecanicamente como a razão nos deveria indicar. É que, e parafraseando Nietzsche – que escreveu O Anticisto (1878) – o Natal desperta em nós um Humano, demasiado humano. Natal é isso mesmo: é uma tremenda carga de humano numa roupagem de divino. Um divino tão frágil quanto o humano. Por isso mesmo, acessível.

https://sol.sapo.pt/artigo/678551/da-irracionalidade-bela-do-natal

Opinião: Jornalixo por José Brissos-Lino

Jornalixo

D.R.

Chamemos-lhe jornalismo “criativo”, em vez de fake news ou jornalismo de fabricação, tablóide ou mesmo de sofreguidão. Independentemente da nomeação, é coisa que não nos interessa. De todo

Recentemente sucederam dois episódios dignos de antologia. O primeiro tem a ver com o trabalho que uma estação de televisão fez com o caso das crianças supostamente roubadas à mãe dum infantário da IURD, há uns bons anos.

Esse canal generalista cavalgou a temática até à exaustão com programas longos em hora nobre e em dias seguidos, qual telenovela. Incluiu debates com comentadores, juristas, magistrados, técnicas de serviço social e jornalistas entre pessoas de outras profissões e ocupações. Para criar maior dramaticidade apresentou, por detrás dum biombo translúcido, uma mulher a quem os filhos terão supostamente sido roubados, a fim de não poder ser identificada.

A ideia que se passou ao público foi de que teria havido um conluio entre diversos responsáveis públicos, ou pelo menos negligência grosseira, de modo a lesar aquela pobre mulher e a beneficiar a família do líder neopentecostal daquele grupo religioso de origem brasileira.

Levada à justiça, a mãe das duas crianças que foram adoptadas por elementos da IURD, admitiu agora perante a juíza de instrução criminal que mentiu quando falou em “roubo” dos filhos e na sua assinatura putativamente falsificada num documento, assumindo ser “falso que alguma vez a IURD ou qualquer pessoa com ela relacionada tenha roubado os seus filhos”. Pelo contrário, declarou em documento escrito estar grata pelos bons cuidados e carinho com que a instituição e os pais adoptivos trataram os seus filhos.

A mulher juntou ao documento entregue ao tribunal um pedido de desculpas, garantindo que nunca pretendeu ofender o bom nome e prestígio da instituição, acrescentando que foi manipulada pela responsável pelo programa “O Segredo dos deuses” para confirmar ao público uma história falsa e sensacionalista criada por aquela jornalista “em nome das audiências”.

O segundo episódio é mais recente e relaciona-se com o episódio do bebé encontrado no lixo em Lisboa. Se o primeiro caso terá sido fabricado de forma inescrupulosa pela comunicação social, aqui trata-se de um exemplo de “precipitação”, como lhe chama o “Público”.

O bebé deixado pela mãe no ecoponto em Santa Apolónia não foi resgatado apenas pelo sem-abrigo que ficou com esses louros em exclusivo, mas também por outros dois homens que vivem na rua como ele. Até Marcelo Rebelo de Sousa agiu sem dispor de informação exacta sobre o que tinha acontecido e correu a encontrar-se com o “herói”, com as televisões atrás, tendo daí surgido até a promessa de uma casa para ele. Ou seja, o presidente deu um passo em falso, no afã de ser mais rápido do que o vento a intervir em público. Confrontado com o facto, chutou para canto como era de esperar.

O imediatismo da informação comporta riscos elevados, mas a comunicação social assume-os cada vez mais em nome duma luta corpo a corpo com as redes sociais. O jornalismo cede assim o seu valor mais precioso – a confirmação dos factos e o espaço para o contraditório – de modo a não chegar tarde ao público. Abandona igualmente a sua vocação única, de fazer a mediação entre os acontecimentos e os consumidores da informação, tornando-se uma caixa-de-ressonância semelhante aos que debitam num teclado de computador tudo quanto sabem ou julgam saber, o que ouvem ou julgam ouvir e o que vêem ou julgam ver, sem preocupações de rigor.

Felisbela Lopes diz que o “jornalismo assenta cada vez mais no imediatismo e das fontes de informação que de uma forma apressada fazem julgamentos lineares sobre factos complexos”. Basta ler as caixas de comentários dos jornais online para perceber que há gente capaz de dizer tudo, quase sempre escondendo-se atrás do anonimato.

Ambos os casos são preocupantes enquanto sintomas. Se no primeiro parece ter havido toda uma fabricação (falsificação) dos factos com vista a produzir um determinado efeito nos telespectadores, o que é gravíssimo, no segundo trata-se essencialmente de precipitação e uma falta de verdadeira prática jornalística, que terá levado ao engano o país e até a presidência da república.

Numa das suas viagens missionárias o apóstolo Paulo e o companheiro Silas deslocaram-se a Bereia e anunciaram o evangelho na sinagoga dos judeus: “Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalónica, de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim. De sorte que creram muitos deles, e também mulheres gregas da classe nobre, e não poucos homens” (Actos 17:11-12).

Acontece que os tessalonicenses rejeitaram prontamente a “boa nova”, mas os bereanos confirmaram-na ao conferi-la com a lei e os profetas (textos do Antigo Testamento). Hoje é ao contrário, acredita-se logo em tudo e não se verifica nada. Por isso estamos como estamos.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-11-27-Jornalixo

O nosso investigador Lourival Filho é o novo presidente da Associação Brasileira de Alfabetização

O nosso investigador Lourival Filho é o novo presidente da Associação Brasileira de Alfabetização

lourival

O Professor Lourival José Martins Filho, que é Investigador Correspondente do Instituto de Cristianismo Contemporâneo (que integra a Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona – ULHT), e que é também docente do Departamento de Pedagogia do Centro de Ciências Humanas e da Educação (Faed), e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE), da Universidade do Estado de Santa Catarina, foi eleito presidente da Associação Brasileira de Alfabetização (ABAlf) para a Gestão 2020-2022.

Esta associação tem por fim congregar profissionais da Educação Superior e da Educação Básica através de acções de ensino, pesquisa e extensão relacionadas com a alfabetização, o que inclui a organização do V Congresso Brasileiro de Alfabetização a realizar em 2021 na cidade de Florianópolis.

Felicitamos o Prof. Lourival Filho desejando-lhe os maiores sucessos na sua nova missão.

Por Dentro do Sínodo da Amazónia | 25 NOV | 18H | Auditório José Araújo

Por Dentro do Sínodo da Amazónia | 25 NOV | 18H | Auditório José Araújo

Segunda-feira, dia 25 de Novembro, às 18h
Auditório José Araújo
Por dentro do
Sínodo da Amazónia.
Da génese às conclusões,
um ensaio prático
à conversa com
o Padre Sinodal Corrado Dalmonego
e o Missionário Carlos Zacquini
que trabalham com os povos indígenas Yanomami
Moderação de Luís Larcher

Opinião: O Carter que dá cartas, por José Brissos-Lino.

O Carter que dá cartas

The Washington Post

Jimmy Carter foi presidente dos Estados Unidos entre 1977 e 1981 mas é um caso à parte na política americana. Cristão convicto e comprometido, nunca utilizou a fé para fazer política, ao contrário do que é corrente nos Estados Unidos, onde a Modernidade chegou pela mão da religião, ao contrário da Europa que escolheu a via do secularismo

O homem tem quase cem anos mas ainda surpreende positivamente pela lucidez, coragem e coerência. Depois de mais de seis décadas de ligação à Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, tendo desempenhado cargos como diácono e professor de escola dominical, rompeu com a denominação religiosa devido à política discriminatória e misógina dos líderes religiosos.

Carter diz que foi uma decisão dolorosa e difícil mas inevitável “quando os líderes da Convenção, citando alguns versículos bíblicos cuidadosamente selecionados e reivindicando que Eva foi criada só depois de Adão e foi responsável pelo pecado original, determinaram que mulheres precisam ser ‘submissas’ a seus maridos e proibidas de servir como diaconisas, pastoras ou capelãs no serviço militar.” Carter recusa-se a aceitar a visão de que as mulheres são de algum modo inferiores aos homens e considera-a uma desculpa para negar às mulheres direitos iguais em todo o mundo, durante séculos a fio, seja qual for a cultura, crença ou religião.

Em carta aberta “Perdendo a minha religião em troca da igualdade”, Carter afirma que “a crença de que mulheres precisam de estar subjugadas aos desejos dos homens legitima escravatura, violência, prostituição forçada, mutilação genital e leis nacionais que não reconhecem a violação como crime.” Além disso também custa a milhões de meninas e mulheres o controlo sobre o seu corpo e a sua vida, e continua a negar-lhes acesso justo à educação, à saúde, ao emprego e à influência dentro das comunidades onde vivem. Essas crenças religiosas “ajudam a explicar por que em muitos países os rapazes têm precedência na educação sobre as meninas, ou porque as jovens não podem escolher com quem casar, e porque muitas enfrentam elevado risco na gravidez e no parto, o que é inaceitável, uma vez que as suas necessidades básicas de saúde não são atendidas.

A questão é que os textos bíblicos cuidadosamente selecionados para procurar justificar a superioridade masculina são datados, intrinsecamente ligados a culturas de matriz patriarcal, e revelam mais a determinação dos homens marcarem a sua influência e superioridade do que manifestam verdades eternas. Aliás, podemos encontrar igualmente textos bíblicos que suportam a escravatura e a aceitação tímida de governantes déspotas. Apesar de tudo as mesmas Escrituras reverenciam mulheres como líderes eminentes. Na Igreja antiga elas serviam como diaconisas, apóstolas, mestres e profetas. Só no séc. IV os líderes dominantes cristãos, todos homens, resolveram distorcer as Escrituras para perpetuar posições ascendentes na hierarquia religiosa e fechar o caminho às mulheres.

Mas Carter utiliza um argumento surpreendente para apoiar a sua posição nesta matéria. Ele diz que o machismo prejudica toda a sociedade, inclusivamente os homens. “Uma mulher instruída tem filhos mais saudáveis e é mais propensa a enviá-los à escola. Tem rendimentos mais elevados e investe o que ganha na sua família”, pelo que “é profundamente prejudicial a qualquer comunidade discriminar metade de sua população.”

Em seu entender a discriminação, perseguição e abuso de mulheres no mundo não constitui apenas uma clara violação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas também dos ensinamentos de Jesus Cristo, do Apóstolo Paulo, de Moisés e dos profetas, de Maomé, e dos fundadores de outras grandes religiões, as quais têm pugnado por um tratamento apropriado e equitativo a todos os filhos e filhas de Deus.

Carter, que já sobreviveu a um cancro no cérebro e a outro no fígado, ouviu os médicos informarem-no há quatro anos que as células tumorais se tinham espalhado para o cérebro. Percebeu então que se sentia “absoluta e completamente à vontade com a morte. Como é natural, assumi que morreria muito rapidamente e obviamente orei. Não pedi a Deus que me deixasse viver mas pedi-lhe que me desse uma atitude adequada em relação à morte”.

Aos 95 anos de idade e hospitalizado há dias, este homem tornou-se há muito um exemplo inspirador. Foi um cristão praticante toda a vida, diácono e professor de Bíblia durante muitos anos, recebeu o Nobel da Paz em 2002, pelos seus “esforços infatigáveis” a favor da resolução pacífica de conflitos no mundo, e dedicou anos da sua vida à construção de casas para pobres, no Canadá e Estados Unidos, como voluntário na iniciativa Habitat for Humanity.

Carter reafirma ainda hoje que a fé continua a ser para ele uma fonte de vigor e conforto, como o são as crenças religiosas para centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Mas o que é notável no mais idoso ex-Presidente dos EUA é o seu inconformismo, apesar da idade. Quando muitos se acomodam ao establishment, ele resolve levantar a voz em nome das suas convicções, pois diz que já não precisa de se preocupar em ganhar votos ou evitar controvérsias e está profundamente comprometido em desafiar a injustiça onde quer que a veja.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-11-20-O-Carter-que-da-cartas

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