O nosso investigador Lourival Filho é o novo presidente da Associação Brasileira de Alfabetização

O nosso investigador Lourival Filho é o novo presidente da Associação Brasileira de Alfabetização

lourival

O Professor Lourival José Martins Filho, que é Investigador Correspondente do Instituto de Cristianismo Contemporâneo (que integra a Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona – ULHT), e que é também docente do Departamento de Pedagogia do Centro de Ciências Humanas e da Educação (Faed), e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE), da Universidade do Estado de Santa Catarina, foi eleito presidente da Associação Brasileira de Alfabetização (ABAlf) para a Gestão 2020-2022.

Esta associação tem por fim congregar profissionais da Educação Superior e da Educação Básica através de acções de ensino, pesquisa e extensão relacionadas com a alfabetização, o que inclui a organização do V Congresso Brasileiro de Alfabetização a realizar em 2021 na cidade de Florianópolis.

Felicitamos o Prof. Lourival Filho desejando-lhe os maiores sucessos na sua nova missão.

Por Dentro do Sínodo da Amazónia | 25 NOV | 18H | Auditório José Araújo

Por Dentro do Sínodo da Amazónia | 25 NOV | 18H | Auditório José Araújo

Segunda-feira, dia 25 de Novembro, às 18h
Auditório José Araújo
Por dentro do
Sínodo da Amazónia.
Da génese às conclusões,
um ensaio prático
à conversa com
o Padre Sinodal Corrado Dalmonego
e o Missionário Carlos Zacquini
que trabalham com os povos indígenas Yanomami
Moderação de Luís Larcher

Opinião: O Carter que dá cartas, por José Brissos-Lino.

O Carter que dá cartas

The Washington Post

Jimmy Carter foi presidente dos Estados Unidos entre 1977 e 1981 mas é um caso à parte na política americana. Cristão convicto e comprometido, nunca utilizou a fé para fazer política, ao contrário do que é corrente nos Estados Unidos, onde a Modernidade chegou pela mão da religião, ao contrário da Europa que escolheu a via do secularismo

O homem tem quase cem anos mas ainda surpreende positivamente pela lucidez, coragem e coerência. Depois de mais de seis décadas de ligação à Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, tendo desempenhado cargos como diácono e professor de escola dominical, rompeu com a denominação religiosa devido à política discriminatória e misógina dos líderes religiosos.

Carter diz que foi uma decisão dolorosa e difícil mas inevitável “quando os líderes da Convenção, citando alguns versículos bíblicos cuidadosamente selecionados e reivindicando que Eva foi criada só depois de Adão e foi responsável pelo pecado original, determinaram que mulheres precisam ser ‘submissas’ a seus maridos e proibidas de servir como diaconisas, pastoras ou capelãs no serviço militar.” Carter recusa-se a aceitar a visão de que as mulheres são de algum modo inferiores aos homens e considera-a uma desculpa para negar às mulheres direitos iguais em todo o mundo, durante séculos a fio, seja qual for a cultura, crença ou religião.

Em carta aberta “Perdendo a minha religião em troca da igualdade”, Carter afirma que “a crença de que mulheres precisam de estar subjugadas aos desejos dos homens legitima escravatura, violência, prostituição forçada, mutilação genital e leis nacionais que não reconhecem a violação como crime.” Além disso também custa a milhões de meninas e mulheres o controlo sobre o seu corpo e a sua vida, e continua a negar-lhes acesso justo à educação, à saúde, ao emprego e à influência dentro das comunidades onde vivem. Essas crenças religiosas “ajudam a explicar por que em muitos países os rapazes têm precedência na educação sobre as meninas, ou porque as jovens não podem escolher com quem casar, e porque muitas enfrentam elevado risco na gravidez e no parto, o que é inaceitável, uma vez que as suas necessidades básicas de saúde não são atendidas.

A questão é que os textos bíblicos cuidadosamente selecionados para procurar justificar a superioridade masculina são datados, intrinsecamente ligados a culturas de matriz patriarcal, e revelam mais a determinação dos homens marcarem a sua influência e superioridade do que manifestam verdades eternas. Aliás, podemos encontrar igualmente textos bíblicos que suportam a escravatura e a aceitação tímida de governantes déspotas. Apesar de tudo as mesmas Escrituras reverenciam mulheres como líderes eminentes. Na Igreja antiga elas serviam como diaconisas, apóstolas, mestres e profetas. Só no séc. IV os líderes dominantes cristãos, todos homens, resolveram distorcer as Escrituras para perpetuar posições ascendentes na hierarquia religiosa e fechar o caminho às mulheres.

Mas Carter utiliza um argumento surpreendente para apoiar a sua posição nesta matéria. Ele diz que o machismo prejudica toda a sociedade, inclusivamente os homens. “Uma mulher instruída tem filhos mais saudáveis e é mais propensa a enviá-los à escola. Tem rendimentos mais elevados e investe o que ganha na sua família”, pelo que “é profundamente prejudicial a qualquer comunidade discriminar metade de sua população.”

Em seu entender a discriminação, perseguição e abuso de mulheres no mundo não constitui apenas uma clara violação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas também dos ensinamentos de Jesus Cristo, do Apóstolo Paulo, de Moisés e dos profetas, de Maomé, e dos fundadores de outras grandes religiões, as quais têm pugnado por um tratamento apropriado e equitativo a todos os filhos e filhas de Deus.

Carter, que já sobreviveu a um cancro no cérebro e a outro no fígado, ouviu os médicos informarem-no há quatro anos que as células tumorais se tinham espalhado para o cérebro. Percebeu então que se sentia “absoluta e completamente à vontade com a morte. Como é natural, assumi que morreria muito rapidamente e obviamente orei. Não pedi a Deus que me deixasse viver mas pedi-lhe que me desse uma atitude adequada em relação à morte”.

Aos 95 anos de idade e hospitalizado há dias, este homem tornou-se há muito um exemplo inspirador. Foi um cristão praticante toda a vida, diácono e professor de Bíblia durante muitos anos, recebeu o Nobel da Paz em 2002, pelos seus “esforços infatigáveis” a favor da resolução pacífica de conflitos no mundo, e dedicou anos da sua vida à construção de casas para pobres, no Canadá e Estados Unidos, como voluntário na iniciativa Habitat for Humanity.

Carter reafirma ainda hoje que a fé continua a ser para ele uma fonte de vigor e conforto, como o são as crenças religiosas para centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Mas o que é notável no mais idoso ex-Presidente dos EUA é o seu inconformismo, apesar da idade. Quando muitos se acomodam ao establishment, ele resolve levantar a voz em nome das suas convicções, pois diz que já não precisa de se preocupar em ganhar votos ou evitar controvérsias e está profundamente comprometido em desafiar a injustiça onde quer que a veja.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-11-20-O-Carter-que-da-cartas

1º Círculo da(s) Palavra(s) Cultura e Espiritualidade: Quando um Encontro revela um Invisível… 30 de novembro, 21h30, Salão da Igreja Matriz da Amadora

1º Círculo da(s) Palavra(s)

Cultura e Espiritualidade: Quando um Encontro revela um Invisível…

30 de novembro, 21h30, Salão da Igreja Matriz da Amadora

Fabrizio Boscaglia / Eugénia Magalhães / Carlos Arinto / Sofia Claro / Joaquim Franco

Participação musical dos UDJAT

 

Pela arte, pela ética e pela estética que se comunica, o que acontece quando há um encontro de pessoas que pensam a transcendência e o destino de maneira diferente?

No desafio de uma pergunta em jeito de retórica, realiza-se no dia 30 de Novembro, às 21h30, no salão da Igreja Matriz da Amadora, a primeira tertúlia Círculo da(s) Palavra(s), juntando quatro convidados com distintas sensibilidades religiosas ou espirituais – Fabrizio Boscaglia, Eugénia Magalhães, Carlos Arinto e Sofia Claro –, dando assim espaço e tempo às possibilidades de um Encontro entre diferenças.

A iniciativa está inserida no programa cultural da Exposição Ó do Mundo, Senhora da Terra – Grávida de Vida, patente nesta igreja até Janeiro, co-organizada pela Paróquia da Amadora e pelo Círculo Artístico e Cultural Artur Bual (CACAB).

Fabrizio Boscaglia, praticante do sufismo (misticismo islâmico), é doutorado em Filosofia e investigador em Ciência das Religiões. Eugénia Magalhães, católica, é doutorada em História e Cultura das Religiões e presidente do Instituto de Estudos Avançados em Catolicismo e Globalização. Carlos Arinto, agnóstico, é poeta e membro da direção do CACAB. Sofia Claro diz-se espiritual universalista, é cantora e investigadora em Ciência das Religiões. Joaquim Franco, jornalista, investigador e comissário da Exposição, modera a conversa.

A entrada é livre.

Mais informações: 968580221

 

COMUNICADO DO OBSERVATÓRIO PARA A LIBERDADE RELIGIOSA (OLR) 

COMUNICADO DO OBSERVATÓRIO PARA A LIBERDADE RELIGIOSA (OLR)

 

É com preocupação que o Observatório para a Liberdade Religiosa (OLR) reflete sobre recentes episódios verificados na sociedade portuguesa, que implicam uma atenção redobradamente pró-ativa.

Criado em 2014 por iniciativa cívica e académica, o OLR tem como principal missão a observação do Fenómeno Religioso, no respeito pelo princípio das liberdades associativa, individual e de consciência. Sediado na área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, atua na observando as vivências religiosas, promovendo o debate e analisando as vivências religiosas no contexto da Lei de Liberdade Religiosa e da Constituição da Republica Portuguesa.

 

  1. Neste pressuposto, o OLR entende que impedir uma atleta muçulmana de ter prática desportiva por causa da utilização do véu islâmico – hijab–, sem que este signifique um qualquer constrangimento técnico-desportivo, atenta contra os princípios da Liberdade Religiosa. Não competindo ao OLR analisar o enquadramento legal de tal impedimento e/ou a regulamentação desportiva da modalidade em causa, não pode deixar de se sublinhar que tal decisão teve como imediata consequência a discriminação e segregação de uma jovem atleta com plenos direitos constitucionais (Art.13.º sobre Princípio da Igualdade: “Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”).

Se, em determinadas circunstâncias, o uso do véu islâmico reflete, de facto, situações de intolerável subjugação da mulher, violando os direitos humanos, este, e parece-nos o caso, sinaliza também uma pertença cultural, com matriz religiosa, respeitando as liberdades e dignidade da mulher.

Entende o OLR que este episódio – recusar acesso de uma atleta muçulmana com o respetivo véu a uma competição oficial, sem que, repete-se, haja um constrangimento técnico-desportivo para tal – implica uma reflexão sobre a regulamentação das competições desportivas, adequando-a aos princípios da Liberdade Religiosa, ampliando assim o alcance da ética desportiva.

Recordamos, a título de exemplo, a prática olímpica e de federações internacionais, como a FIFA, que permite às jogadoras muçulmanas a utilização de véu e aos jogadores sikh o uso do turbante.

 

  1. Também de acordo com a imprensa portuguesa, com ecos nas redes sociais, e com a reação de estranheza do Ministério da Educação e da Diocese do Porto, e de algumas organizações cívicas onde se insere o Observatório para a Liberdade Religiosa uma escola situada em Felgueiras emitiu, na pessoa responsável do coordenador do Centro Escolar da mesma, o Centro Escolar dos Torrados, uma circular onde alegadamente pode ler-se:

[se)“no ato de matrícula foi feita a escolha para a frequência da disciplina [de Educação Moral Religiosa e Católica (EMRC)], a comunicação das faltas (à décima o aluno reprova) será feita mensalmente à base de dados da Igreja Católica Portuguesa”.

Acrescentava o mesmo comunicado que os alunos corriam “o risco de lhes ser barrado o acesso aos vários serviços da Igreja, como por exemplo a frequência da catequese, batizados, primeira comunhão e outras celebrações, bem como não poder entrar em qualquer igreja católica portuguesa”.

Em reação, a diocese do Porto sublinha que “o que é dito não espelha nenhuma orientação da Igreja. A informação é errada e a própria legislação não o permite”.

A Direção do Agrupamento de Escolas Dr. Machado de Matos – Felgueiras confirmou a existência do comunicado” e garantiu que o assunto seria esclarecido numa “reunião com os encarregados de educação”, tendo alegadamente sido afastado do cargo o coordenador autor do comunicado. Estamos diante da produção de um efeito limite de coação psicológica, que impõe escolhas e atitudes, contrários à formação livre do indivíduo.

O OLR sugere que o Ministério da Educação esclareça cabalmente este caso.

 

  1. Uma professora de outro estabelecimento público de ensino – Escola EB1 PE de Ponta Delgada e Boaventura, em S. Vicente, Madeira –, terá sido prejudicada na sua avaliação de desempenho por se ter recusado, em Junho, a participar num acontecimento fora da escola – encontro com o bispo do Funchal –, que considerou ser religioso e para o qual os alunos do pré-escolar foram mobilizados pelo conselho diretivo.

O OLR sublinha a veemente tomada de posição da Comissão da Liberdade Religiosa sobre este caso e, sem negar, pelo contrário, a importância da autonomia das escolas para um trabalho de enquadramento cultural com os encarregados da educação e demais estruturas locais, podendo este até ter também matriz religiosa, exorta os responsáveis diretivos e pedagógicos da escola pública a terem sempre em conta um dos princípios básicos da Liberdade Religiosa: a liberdade de não ter uma crença.

 

Se a convivência religiosa é um desafio para todos os que sustentam e se guiam pelos ideais da Liberdade baseados nos Direitos Humanos, é também, e sobretudo, um desafio individual e coletivo para quem se diz crente. Portugal é dos países com menos restrições à liberdade religiosa no mundo, lembrava o presidente da Assembleia da República na instituição de 22 de Junho como dia nacional da liberdade religiosa e do diálogo inter-religioso.

Comparando com outras realidades que nos são próximas, Portugal ainda não foi posto à prova e o silêncio face à inquietação de alguns fenómenos pode ser uma insensatez. Como todas as liberdades, a religiosa também se trabalha. Nenhuma liberdade é absolutamente adquirida.

É urgente a compreensão do fenómeno religioso, a formação para uma cidadania assente no respeito pelas diferenças, nomeadamente a diferença religiosa, que passa pelo conhecimento, para construir uma sociedade integradora, que, porque se questiona, valoriza ativamente os direitos humanos.

Crónica de Alexandre Honrado: Do abandonar ao acolher: Faz sentido ser humanos nos dias de hoje?

Crónica de Alexandre Honrado: Do abandonar ao acolher:
Faz sentido ser humano nos dias de hoje?

Vivemos o tempo de ambiguidade, a começar pela forma como nos
comunicamos e como erguemos muros à comunicação, escondendo-nos em
grutas do incomunicável: a possibilidade de não sermos escutados, de sermos,
produzirmos e partilharmos registos sem efeito, é imanente a cada momento
que, de forma degrada, vivemos como ato de proximidade.
Isolados somos, mas não somos no outro. Isso tira-nos a confiança, a
forma de sobreviver, o conceito completo do que é o humano: um exemplo de
partilhas, de aceitações, de diferenças.
Vivemos, provavelmente, uma nova etapa construída a partir da cultura
líquida: uma nova cultura sólida, difícil de moldar como um último veio de
minério de ferro na rocha dura, que nos corre por dentro como um desejo de
sangue.
A cultura da morte – do abandono em desespero do filho recém-nascido
ao jogo milionário que se oferece à criança no natal para que na sua consola
eletrónica desvalorize o que tem de mais elevado, a vida – é a essência de uma
desconstrução do humano.

Perdemos a memória e substituímo-la por um sinistro esquecimento.
Não conhecemos o passado e ao perdê-lo perdemos os nossos
antepassados. Ignoramos os momentos em que o mundo foi genocídio, o que
é o mesmo que dizer, um parricídio que nos tornou a todos órfãos e carentes
de um afeto capaz de alguma equidade. A riqueza – demanda pelo ouro, pelo
petróleo, pela água, pelo desnível da balança social – impõe regras. Mas a
pobreza – aceitação do que nos falta e da nossa ignorância mais tolhedora –
não tem força para se opor, coibindo-se à existência. Lancemos o debate: do
abandonar ao acolher, faz sentido ser humano nos dias de hoje? Mas que o
debate se sobreponha.
Fartos de atos, queremos palavras. Palavras encantatórias e operatórias,
que definam e estabeleçam a mudança urgente e necessária.

 

Crónica de Alexandre Honrado – Do abandonar ao acolher: Faz sentido ser humano nos dias de hoje?

Opinião: A morte não se pensa , por José Brissos-Lino

A morte não se pensa

Bruno Guerreiro

Em recente investigação desenvolvida por cientistas israelitas descobriu-se que o cérebro humano evita pensar na morte devido a um mecanismo de defesa que se desconhecia

Todos os seres humanos adultos e plenamente conscientes sabem que a morte é inevitável – é apenas uma questão de tempo e oportunidade – e têm memória dos antepassados que já partiram, assim como a notícia dos seus conhecidos que todos os dias morrem de velhice ou doença, e dos que se finam em acidentes de viação ou na guerra. Mas poucos são aqueles que não desenvolvem estratégias emocionais para evitar pensar nela. Talvez porque, como dizia Publilius Syrus no séc. I a.C., “o medo da morte é mais cruel do que a própria morte” (“Sentenças”). Pascal dizia mesmo que “é mais fácil suportar a morte sem pensar nela, do que suportar o pensamento da morte sem morrer” (“Pensamentos, 1670), razão pela qual a pena de morte é uma dupla pena, desumana, indigna e injusta.

O estudo, citado pelo The Guardian, e que foi realizado por investigadores da Universidade de Bar Ilan, em Israel, concluiu que o cérebro humano tem um mecanismo de defesa com a função de nos proteger do medo existencial da morte. Parece que esse mecanismo procura aliviar-nos deste tipo de pensamento, levando à sensação de que a morte é uma circunstância funesta mais associada a outras pessoas, como explicou o responsável pelo estudo, Yair Dor-Ziderman: “O nosso cérebro não aceita que pensemos na morte associada a nós. Temos esse mecanismo primordial que significa que, quando o cérebro obtém informações associadas à morte, algo nos diz que não devemos acreditar”.

A investigação foi realizada com um grupo de voluntários que autorizaram a monitorização da sua actividade cerebral face à audição de palavras relacionadas com a morte, como funeral ou enterro. Entende-se assim que a função do cérebro que nos protege de pensar sobre a nossa própria morte pretende permitir-nos viver livremente o presente.

Embora saibamos racionalmente que vamos morrer um dia, tendemos a projectar essa probabilidade nos outros, de modo indistinto, talvez porque a sociedade seja hoje mais fóbica em relação à morte e, como consequência, talvez as pessoas também saibam menos sobre o fim da vida e receiem mais esse episódio.

Quando começamos a pensar muito no futuro corremos o risco de perceber que a morte toca a todos, incluindo também a nós, e que, independentemente da nossa idade, podemos morrer a qualquer momento, mesmo de forma inesperada, sem capacidade de fazer qualquer coisa para o impedir. No entanto é da natureza do nosso organismo biológico lutar sempre pela sobrevivência.

Em comentário às conclusões deste estudo, pedido pelo jornal britânico, o psicólogo Arnaud Wisman, da Universidade de Kent, afirmou que os indivíduos levantam inúmeras defesas para evitar ou afastar os pensamentos ligados à probabilidade da sua morte. Trata-se duma cultura comportamental das sociedades modernas, uma espécie de fuga, que os leva a ocupações e distracções com compras e redes sociais, entre muitas outras, de modo a não pensarem nem se preocuparem com a morte.

Talvez a dificuldade em pensar na morte esteja associada à mesma razão porque se diz que a natureza tem horror ao vazio. Escrevendo sobre a iminência da sua morte, Thomas Hobbes dizia que estava para realizar a sua última viagem, “um grande salto no escuro” (“Cartas”, 1679). Um século depois Kant explicava que ninguém pode experimentar a morte em si mesmo, “pois experimentar é da alçada da Vida”, pelo que só é possível perceber a morte nos outros (“Antropologia de um ponto de vista pragmático”, 1798).

A esse supremo desconhecimento pode associar-se um outro grande incómodo humano que é a solidão, como descreveu Miguel de Unamuno: “Os homens vivem juntos, porém, cada um morre sozinho e a morte é a suprema solidão” (“Do sentimento trágico da vida”, 1913).

Mas talvez a maior dificuldade para racionalizar a morte seja a perspectiva da aniquilação do ser. Assim como não conseguimos racionalizar o período antes da concepção, antes da nossa chamada à existência, também não conseguimos fazê-lo com a fase pós-morte, até pela agravante de agora termos consciência e capacidade de raciocínio para pensar o futuro. A partilha de testemunhos das chamadas experiências de quase-morte (o famoso túnel de luz ou a pessoa a pairar sobre o próprio corpo) ajudam a densar o mistério do que está para lá do último suspiro.

As religiões procuram responder a esta angústia com propostas como o paraíso, a reencarnação, a ressurreição e a vida eterna. Mas ninguém foi tão longe como Jesus quando declarou a Marta em Betânia: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá” (João 11:25,26). Mas desconfio que o Mark Twain estava coberto de razão quando disse que “o homem não morre quando deixa de viver, mas sim quando deixa de amar.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-11-13-A-morte-nao-se-pensa?fbclid=IwAR3DTMWqXUMasEKOngD_sDup9I2WiOGUgjxThxDndkESabhnz372jhOIIic

Conferência “Sínodo da Amazónia”: Vídeo completo da Conferência e Foto Reportagem

No passado dia 29 de Outubro a área de Ciência das Religiões acolheu a Conferência “Perspectivas Sinodais do diálogo  com os povos amazónicos” com a moderação do Professor Luís Larcher  e o orador Padre Júlio Caldeira.

Veja aqui a Conferência: https://youtu.be/al_lxS4f4ug

 

Foto Reportagem:

Fotografia e Vídeo de Alexandre Honrado.

OPINIÃO: “Cristianocídio” por José Brissos-Lino

“Cristianocídio”

krisanapong detraphiphat

Quando falamos de liberdade religiosa no mundo temos que falar, antes de mais, em perseguição, e sobretudo sublinhar que os cristãos são os mais perseguidos de todos. Sem qualquer dúvida

Está em curso um cristianocídio. Do milhão e meio de cristãos existentes no Iraque antes de 2003 restam cerca de 150 mil ou menos. A população cristã da Síria foi drasticamente reduzida para dois terços, desde o início da guerra em 2011. A fé cristã no Médio Oriente está posta em causa, não só devido ao genocídio em si mas por causa dos fluxos migratórios contínuos, as crises de segurança e a pobreza extrema. Os cristãos coptas são regularmente assassinados no Egipto, apesar de constituírem cerca de dez por cento da população. Receia-se que algumas comunidades cristãs na região já não consigam recuperar a tempo.

Mas a perseguição religiosa não se confina ao cristianismo. Segundo as conclusões do Relatório “Liberdade Religiosa no Mundo 2018”, publicado pela Fundação “Ajuda à Igreja que Sofre”, a situação de fragilidade de grupos religiosos minoritários piorou em 18 dos 38 países onde há notícia de violações significativas da liberdade religiosa, com especial destaque para Coreia do Norte, Arábia Saudita, Iémen e Eritreia.

Pela primeira vez dois outros países foram incluídos na categoria “Discriminação”: Rússia e Quirguistão. Comparando a situação com 2016 registaram-se mais quatro países com sinais de degradação das condições para as minorias religiosas, pelo que se verifica um aumento geral de violações destes direitos humanos, por parte de regimes autoritários e actores estatais. Apesar de tudo a Tanzânia e o Quénia saíram da classificação como países onde havia perseguição, devido ao declínio da violência militante da Al Shabaad, mas agravou-se noutras latitudes também devido a nacionalismo agressivo.

A ideia de que o mundo está a progredir no bom sentido, em direcção ao respeito pela diversidade religiosa, é falsa. O sucesso militar no desmantelamento do Daesh e outros grupos extremistas ilude a opinião pública ocidental quanto à presente propagação de movimentos islamitas militantes em diversas regiões de África, Médio Oriente e Ásia.

Mas os conflitos entre xiitas e sunitas continuam, assim como os abusos sexuais contra mulheres, a integração de crianças-soldado em grupos guerrilheiros, e os ataques terroristas na Europa e no mundo, contra fiéis de diversas religiões, daí resultando um sentimento de islamofobia, devido à crise migratória mas sobretudo por acção do populismo de extrema-direita. Por exemplo, em Abril de 2017 um agricultor muçulmano na Índia foi assassinado por radicais hindus. Mais de meio milhão de homens, mulheres e crianças rohingya tiveram que fugir do norte de Mianmar para o Bangladesh, devido à violência, violação de mulheres de discriminação em massa.

Estima-se que mais de 300 milhões de cristãos sejam alvo de perseguição em todo o mundo, em especial na chamada “Janela 10/40”, localizada entre 10 e 40 graus a norte do equador. Trata-se de uma área do mundo, com grande pobreza, baixa qualidade de vida e falta de acesso a recursos cristãos. A janela 10/40 compreende uma região que abrange o Saara e Norte de África, bem como muitos países da Ásia Ocidental, Ásia Central, Sul da Ásia, Leste da Ásia e grande parte do sudeste asiático, onde vivem cerca de dois terços da população mundial, predominantemente muçulmana, hindu, budista, animista, judia ou ateia. Grande parte destes governos são contrários a qualquer presença cristã.

A “Voz da Europa” relata que as hipóteses de um cristão num país de maioria islâmica ser assassinado por um muçulmano — simplesmente por ser cristão – são aproximadamente uma em 70.000. O que significa que um cristão que viva num país de maioria islâmica tem 143 vezes mais possibilidades de ser morto por um muçulmano, simplesmente devido à sua fé, do que um muçulmano ser morto por um não-muçulmano em qualquer país ocidental.

E em Portugal? Por cá não existem questões sérias de liberdade religiosa e todos os observadores consideram não existir perseguição religiosa, não só devido às características da nossa constituição, mas sobretudo devido ao facto de vivermos num estado de direito democrático, estarmos enquadrados por uma lei de liberdade religiosa e por termos uma Comissão de Liberdade Religiosa (CLR), órgão independente de consulta da Assembleia da República e do Governo, presidida por Vera Jardim, criada para acompanhar a aplicação da referida lei.

Em matéria de liberdade religiosa, e apesar de todas as imperfeições, Portugal ainda é um oásis neste nosso conturbado mundo.

 

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-11-06-Cristianocidio

A vibração dos hindus em Fátima, numa tese universitária de Joaquim Franco

A vibração dos hindus em Fátima, numa tese universitária de Joaquim Franco

| 29 Out 19 | Crenças e rituais, Diálogo ecuménico e inter-religioso, Espiritualidades, Igreja Católica, Outras Religiões – homepage, Últimas

Ramnical Dave, shastri (sacerdote) hindu do templo de Radha Krishna, em Telheiras (Lisboa), em 2004, na Capelinha das Aparições em Fátima. Imagem reproduzida da reportagem da SIC exibida na altura.

 

“Sempre que aqui venho, sinto uma vibração especial”, dizia em 2004 Ramnical Dave, o shastri (sacerdote) hindu do templo de Radha Krishna, em Telheiras (Lisboa), ao jornalista Joaquim Franco, referindo-se a Fátima. Esse foi um dos pontos de partida para o trabalho de mestrado sobre Devotos Improváveis – Hindus e muçulmanos numa visão de Fátima, defendido nesta segunda-feira, 28, na Universidade Lusófona, em Lisboa.

O percurso da investigação levou o jornalista da SIC, colaborador ocasional do 7MARGENS, a explorar a relação devocional de alguns hindus portugueses com a imagem de Nossa Senhora de Fátima, recorrendo a trabalho de campo com testemunhos e pesquisas nos arquivos do santuário.

Não há uma interpretação única sobre a forma como estes devotos hindus vêem Fátima, conclui a investigação, podendo esta ser a presença de um elemento sagrado diante do qual fazem orações auspiciosas, uma força protectora a quem pedem auxílio, a “santíssima mãe” acima de todas as outras divindades femininas, ou uma presença de shakti – energia e poder que os hindus relacionam com a dimensão feminina. Para estes hindus, a fé e a forma como a devoção se concretiza é sobretudo pessoal – assim também sucede no caso de Fátima, sem qualquer compromisso da comunidade enquanto tal.

Para esses hindus, há ainda pormenores reveladores dessa “vibração”: a 30 de Julho de 1982, Morari Bapu, um guru indiano hindu de visita a Portugal, esteve em Fátima com outros hindus de Lisboa, deixando no livro de honra do santuário uma referência ao carácter “especial” do lugar, também na perspectiva hindu. Na mesma página, ficou inscrita a saudação de alguém com o apelido Vasco da Gama e também a assinatura de Madre Teresa de Calcutá. Na página anterior, está a de João Paulo II…

“Os hindus sentem ali uma presença indiscutível do sagrado”, concluiu o jornalista na sua investigação académica. Entendem que, tal como Brahman – Deus –, a “santíssima mãe” está acima de todas as representações, é “o poder de Deus”, a “energia que faz a nossa alma funcionar”.

Como muitos hindus se preocupam mais com a experiência vivenciada e a linguagem do sensível do que com a dimensão teológica, notou o jornalista e investigador, acabam por inculturar também “valores religiosos do país de acolhimento, como este símbolo mariano, dando-lhes um novo sentido” que não passa necessariamente pela conversão, mas atua também como mecanismo de integração e legitimação religiosa.

Defesa da tese de mestrado de Joaquim Franco na Universidade Lusófona, em 28 de Outubro de 2019, sobre a relação dos hindus com Fátima. Foto © António Marujo

 

Joaquim Franco verificou assim, como hipóteses de interpretação desta devoção hindu, que “o simbólico sagrado feminino hindu pode convergir com sistemas simbólicos da devoção mariana em Fátima” e o modo como a “multiculturalidade em liberdade religiosa potencia também adopções simbólicas e implicações sincréticas na experiência religiosa concreta, emotiva e sensível”.

O investigador entende que há novas possibilidades de diálogo entre religiões a partir da “transversalidade da experiência religiosa” proporcionada em Fátima, como devoção agregada à dimensão maternal, salvaguardando a identidade católica do espaço, e recorda os novos estatutos do santuário, aprovados pela Santa Sé, nos quais se pede o “acolhimento conveniente” de não-cristãos, evitando “ambiguidades”.

O júri foi presidido por José Brissos-Lino, director do mestrado em Ciência das Religiões da Lusófona. Os arguentes foram Eugénia Magalhães, presidente do Instituto de Estudos Avançados em Catolicismo e Globalização, Adelino Ascenso, padre e presidente dos Institutos Missionários Ad Gentes, José Eduardo Franco, co-orientador da dissertação, e Marco Daniel Duarte, director do Centro de Estudos do Santuário de Fátima, que destacou a importância, para a investigação, da abertura dos arquivos do santuário aos investigadores.

A vibração dos hindus em Fátima, numa tese universitária de Joaquim Franco

Opinão: Voltámos ao tempo da outra senhora? por José Brissos-Lino

Voltámos ao tempo da outra senhora?

Angela Rohde / EyeEm/ Getty Images

Lê-se e não se acredita. Uma educadora de infância numa escola pública da Madeira viu a directora prejudicar-lhe a avaliação anual por se ter recusado a ir receber um bispo à igreja. Será que o tempo voltou para trás?

Parece que o padre da paróquia sugeriu à escola Escola EB1/PE de Ponta Delgada e Boaventura que os alunos fossem receber o bispo à igreja. A directora, Ana Cristina Abreu, aceitou de imediato e terá pressionado os professores a participar nessa iniciativa sem pensar por um momento que se tratava duma acção inconstitucional, porque o estado é laico, a dita escola é pública e dado o teor da lei em vigor (n.º 16/2001) chamada Lei da Liberdade Religiosa.

A professora Isabel Teixeira, que desconheço quem seja e que está na profissão há 30 anos, terá sido a única pessoa que não se moveu à margem do quadro legal e constitucional, mas acabou penalizada na sua carreira, de forma abusiva e ilegal. Alegou que entende não se dever misturar escola com religião, e que o referido evento não constava do plano anual de actividades, por isso se recusou a levar as crianças à missa em Dezembro de 2018. A directora terá começado por propor a realização de uma missa na escola, o que foi rejeitado pelos professores, mas insistiu em levar as crianças à missa na igreja…

Eduardo Vera Jardim, presidente da Comissão de Liberdade Religiosa, já veio dizer: “Esse parâmetro não deve contar para a avaliação – é inconstitucional que conte. A Constituição é clara, ninguém pode ser prejudicado ou beneficiado por causa da religião, por uma opção religiosa ou por se opor a uma coisa dessas”, mas acrescenta que “há hábitos que levam tempo a perder, mas, para que as coisas mudem, este tipo de situação tem de ter consequências”.

Em 1960 tinha eu seis anos de idade e estava na então chamada 1ª. classe numa escola em Lisboa. Quando as crianças regressaram às salas de aula, vindos da pausa do recreio, depararam-se com um bispo à entrada da porta, obeso e de dedos grossos, no cimo das escadas. As professoras orientavam então os alunos para beijarem o anel ao bispo antes de entrar. Eu não estava habituado a essas coisas e fiz por me esgueirar pelo lado oposto ao que ele estava para não o fazer. E não o fiz.

Já com a idade de 10 anos, no (antigo) ciclo preparatório, aconteceu uma situação ainda pior. A lei impunha a todos os alunos a obrigatoriedade da frequência das aulas de Religião e Moral (católica). Porém, os encarregados de educação poderiam apresentar um requerimento a pedir a dispensa dessa disciplina para os seus filhos. Porque a minha família era cristã mas não católica, o meu pai assim fez, mas a burocracia tem os seus tempos e o deferimento não veio antes do início das aulas.

Um certo dia, estava eu a meio duma aula dessa disciplina quando entra na sala um funcionário com um papel que entregou ao professor. Ele leu e de repente levantou os olhos do documento para a sala e perguntou, com cara de poucos amigos e um tom de voz ríspido: “Quem é o José M. Brissos Lino?” Timidamente levantei a mão, nervoso, a pensar o que teria feito de mal, com a turma toda a olhar para mim, em suspenso. A resposta veio em tom de censura: “Mas tu não podes estar aqui!…” Acto contínuo saí da sala como se tivesse sido expulso por mau comportamento. Senti-me humilhado, discriminado e escorraçado.

Como é óbvio, esse tipo de situações configuram uma coação intolerável, mas eram fruto da época. Para o regime do Estado Novo quem não fosse católico não era bom português.

Porque vivemos em democracia, hoje os alunos podem escolher que disciplina de formação religiosa querem e este tipo de disciplinas são de frequência opcional. Também não creio que o actual modelo seja o melhor mas é o que temos para já, e pelo menos respeita pais e alunos, estando em consonância com as leis e a constituição da república.

Ao contrário de alguns não defendo que as expressões religiosas tenham que desaparecer do espaço público, uma vez que o estado é laico mas a sociedade não é nem tem que o ser. O estado é laico justamente para assegurar liberdade religiosa a todos os cidadãos, uma vez que não toma partido. Por isso estes tiques sectários por parte dos pequenos poderes são intoleráveis e deviam ser alvo de penalização. Aquela professora está certa e a directora errada.

De resto, já existe jurisprudência a partir dum acórdão do Tribunal Constitucional, justamente a propósito dum outro caso ocorrido na Madeira, segundo o qual: “Num país com liberdade religiosa como Portugal, ninguém deve ser obrigado a ter uma religião nem a ter um ensino religioso, assim como também ninguém deve ser obrigado a partilhar a forma como encara a religião ou que religião professa”. O que está em causa é a Lei de Liberdade Religiosa (artigo 4º), que prescreve não poder o ensino público ser confessional, nem o Estado programar a educação segundo quaisquer

directrizes religiosas. A escola pública é de todos e não pode ser um instrumento de proselitismo religioso, desde logo à luz da constituição, e os pais não podem ser constrangidos em matéria religiosa, como acontece quando são questionados pela escola sobre a permissão para os filhos irem receber um líder religioso à porta dum templo.

Jesus Cristo nunca impôs a fé a ninguém e sabia separar claramente a política e a sociedade da religião, que é como quem diz, César de Deus. Mas a tendência de muitos cristãos, ao longo da história tem sido exactamente o contrário. É pena.

http://visao.sapo.pt/opiniao/2019-10-30-Voltamos-ao-tempo-da-outra-senhora-

Opinião: A estranha teoria da educação de Edir Macedo por José Brissos-Lino

A estranha teoria da educação de Edir Macedo

Edir Macedo à esquerda do presidente Bolsonaro

EVARISTO SA

É estranho como um país que gerou educadores notáveis como Paulo Freire (1921-1997) esteja hoje refém de indivíduos com mentalidade obscurantista como Edir Macedo

O “evangelho segundo Macedo” é contra a educação da pessoa humana, em flagrante contradição com a essência do verdadeiro evangelho de Jesus Cristo, que é o princípio da libertação do ser em todas suas dimensões, incluindo a libertação das trevas da ignorância, tal como Lucas escreve no livro de Actos dos Apóstolos: “Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam” (17:30). E S. Paulo alertava igualmente a comunidade cristã de Éfeso contra os perigos da ignorância: “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” (Efésios 4:18).

A teoria da educação de Macedo é paternalista, controladora e opõe-se à autonomia da pessoa. Segundo Herbert Spencer: “A educação deve formar seres aptos para se governarem a si mesmos e não para serem governados pelos outros” (A Educação Intelectual, Moral e Física, 1861). Parece mentira, mas isto foi dito pelo líder religioso neopentecostal: “Minhas filhas vão estudar só até o ensino médio, nada de faculdade, porque se elas forem mais inteligentes que o homem, o casamento está fadado ao fracasso.

Esta postura começa por evidenciar abuso de poder (“Minhas filhas vão estudar só até o ensino médio.”) O pai é que determina até onde as filhas estudam ou não, em vez de lhes dar liberdade para, querendo, prosseguirem os estudos e aperfeiçoarem a sua formação. De acordo com o “evangelho segundo Macedo” as mulheres não podem continuar os seus estudos a partir do secundário, de modo a prepararem-se para a vida profissional. Porquê? Por que o pai não quer! E porque ele não quer pressiona os pais do seu rebanho para que façam o mesmo na sua casa.

Depois revela um preconceito inqualificável contra o ensino superior (“Nada de faculdade.”) Ao vedar o ensino superior às suas filhas Macedo revela insegurança (por receio de que elas tenham melhor preparação intelectual do que ele), mas também preconceito, por receio de que, ao aprenderem a exercer pensamento crítico possam questionar os métodos do pai ou a trapalhada teológica do seu círculo religioso.

Também é notória a confusão conceptual que vai na cabeça de Macedo, entre conhecimento e inteligência (“Porque se elas forem mais inteligentes que o homem.”), como se conhecimento fosse a mesma coisa do que inteligência, como se acumular conhecimentos tornasse a pessoa mais inteligente, o que, desde logo, revela pouca inteligência. Revela igualmente uma atitude machista (“Quero que casem com macho”), ou seja, o receio de que as mulheres sejam mais inteligentes do que os maridos, e que passem a mandar na relação. Será que a IURD vai passar a pedir um teste de QI aos noivos antes de celebrar casamentos, para comprovar que os delas são mais baixos do que os deles?

Macedo parece ligar o sucesso do casamento a uma sujeição ao sistema patriarcal. No seu entender, o sucesso da relação conjugal passa obrigatoriamente pela condição de os maridos serem sempre mais inteligentes do que as suas mulheres… Quando condena ao fracasso toda a relação na qual a mulher é eventualmente mais inteligente do que o marido, está não apenas a menorizar as mulheres, mas a impor-lhes uma sujeição arcaica em flagrante atropelo aos direitos da pessoa humana…

Finalmente, mas não menos grave, Macedo defende que quem obtiver uma licenciatura irá “servir a si mesmo” em vez de servir a Deus… Portanto, para a personagem, só os ignorantes, os iletrados e os menos preparados para a vida poderão servir a Deus. Que teologia é esta, feita à martelada, que contraria não só o bom senso mas toda a base bíblica e a tradição cristã, sendo em si mesma um atentado à inteligência?

Que se saiba, Saulo de Tarso – a grande figura do Novo Testamento a seguir ao próprio Jesus Cristo – era dos homens mais cultos do seu tempo, mas também altamente preparado no judaísmo da época, tendo aprendido aos pés de Gamaliel, o rabi mais famoso em Israel, falava várias línguas, conhecia profundamente a cultura helénica e ainda era cidadão romano. Nada disto o impediu de servir a Deus com todo o fervor.

O discurso obscurantista deste líder religioso revela bem a influência perniciosa que as lideranças neopentecostais estão a exercer sobre as populações, mas revela ainda mais sobre a falta de espírito crítico destas, que não sabem fazer como os bereanos, que “de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (Actos 17:11b).

A linguagem nunca é neutra” dizia o professor, pedagogo e filósofo Paulo Freire, que perante tal discurso deve estar a dar voltas na tumba…

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